Quinta-feira, 23 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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ENTRE ASPAS >

O Estado de S. Paulo

26/05/2009 na edição 539

REINO UNIDO
John F. Burns

Escândalo abala partidos britânicos

‘Tudo começou em 2005, quando uma escritora independente americana e professora de jornalismo vivendo em Londres, Heather Brooke, fez um requerimento nos termos da recém-promulgada lei de liberdade de informação da Grã-Bretanha pedindo detalhes das despesas declaradas por membros do Parlamento britânico. A iniciativa de Brooke para expor a cobiça de políticos, agora encampada por um dos principais jornais do país, The Daily Telegraph, acarretou o maior escândalo que atingiu a Câmara dos Comuns em décadas.

Na terça-feira, o caso provocou sua maior vítima até agora quando o presidente da Câmara, Michael Martin, tornou-se a primeira pessoa destituída do cargo em mais de 300 anos.

Em um nível, o escândalo é um história deliciosa de políticos se aproveitando de um sistema frouxo de controle de despesas para solicitar uma série de benefícios chocantes. Os pedidos concentraram-se nas verbas de auxílio-moradia, que permitiram que alguns membros do Parlamento usassem quase US$ 40 mil por ano de dinheiro do contribuinte para reformar e até vender propriedades com lucro, enquanto outros pediram pagamentos mensais para hipotecas que já haviam sido pagas. Outros ainda pediram verbas para ‘necessidades’ como a limpeza do fosso de uma casa de campo e uma cadeira de massagens.

Em outro nível, é uma matéria de um jornal que rompeu com uma reputação de publicação conservadora para se apropriar do que veio a ser um dos maiores furos da Grã-Bretanha. Ao fazê-lo, ele passou a perna em seus rivais num mercado superlotado em que a queda dos lucros intensificou uma rivalidade já brutal.

Editores do Daily Telegraph não confirmaram as notícias de que teriam pago cerca de US$ 140 mil por discos de computador contendo mais de 1 milhão de pedidos de despesas individuais por membros do Parlamento nos últimos quatro anos.

Um informante não identificado teria abordado pelo menos uma das publicações rivais , The Times, com um pedido inicial de US$ 380 mil.

Com o país atolado na recessão mais profunda desde os anos 30, é difícil imaginar um momento menos auspicioso para os parlamentares terem suas despesas expostas ao escrutínio público. Em resposta, eles fizeram pedidos de desculpas humilhantes, agitaram cheques de reembolso diante das câmeras de TV e prometeram restaurar o ‘respeito pelo Parlamento’.

Os principais protagonistas políticos do caso, o primeiro-ministro Gordon Brown, líder do Partido Trabalhista, e David Cameron, líder do Partido Conservador (na oposição), engrossaram suas respostas ao escândalo. Ambos prometeram que nenhum membro do Parlamento envolvido poderá concorrer na eleição geral que deverá ser realizada antes de junho de 2010 – e, até agora, já são pelo menos 80 membros do Parlamento nomeados pelo Telegraph em suas crônicas sobre abusos.

Alguns já decidiram saltar fora antes de serem ejetados. Assim que Martin anunciou sua renúncia, na terça-feira, o homem que parece o candidato a se tornar o ícone infeliz do escândalo, Douglas Hogg, anunciou que deixará a política no fim de seu mandato.

Hogg, de 64 anos, ex-ministro no gabinete conservador e aristocrata, incluiu um pedido de US$ 3,4 mil para a limpeza do fosso de sua casa de campo numa lista de suas despesas.

Quando o Telegraph tornou público o pedido sobre o fosso, Hogg propiciou um dos momentos mais hilários do escândalo, liderando uma equipe do canal de televisão BBC em marcha forçada de sua casa em Londres até a Câmara dos Comuns. Usando um boné e tentando explicar com a respiração ofegante as complexidades burocráticas do sistema de despesas, ele evitou responder diretamente às perguntas insistentes de um repórter da BBC sobre o fosso. Dias depois, sob pressão de Cameron, ele anunciou que reembolsaria o dinheiro gasto.

Brooke, que encaminhou o requerimento inicial de detalhes das despesas, tem sido uma figura desconsiderada no desenrolar do escândalo. Ela trabalhou como repórter investigativa nos Estados de Washington e Carolina do Sul antes de se mudar há dez anos para a Grã-Bretanha, terra natal de seus pais. Sua requisição provocou uma prolongada batalha da maioria trabalhista do Parlamento para obter uma exceção estatutária da lei de liberdade de informação para seus pedidos de despesas, tentativa abandonada apenas em janeiro.

Os ruidosos esforços de Martin, o presidente de 63 anos da Câmara, para bloquear a publicação das despesas, e seu anúncio de que pedira para a Scotland Yard abrir uma investigação criminal sobre o vazamento para o Telegraph parecem ter contribuído para a decisão de Brown de pressioná-lo a renunciar. A Scotland Yard escolheu o momento da renúncia de Martin para anunciar que não investigaria o vazamento.

As despesas teriam de ser divulgadas publicamente pela Câmara dos Comuns em julho, mas só depois de uma redação detalhada por funcionários que teriam disfarçado algumas das práticas mais controvertidas dos parlamentares. Uma delas é a manipulação do auxílio-moradia, que permitiu que alguns deputados comprassem e reformassem propriedades à custa do contribuinte e depois as revendessem com lucros consideráveis.

Para leitores do Telegraph, as exposições dia após dia também suscitaram questões sobre a integridade de muitos parlamentares conservadores, além dos trabalhistas e dos liberal-democratas, compondo o que alguns comentaristas chamaram de escândalo das ‘oportunidades iguais’.’

 

TECNOLOGIA
Renato Cruz

TVs superfinas chegam ao mercado

‘As transmissões de alta definição começaram em dezembro de 2007 no Brasil, com a estreia da TV digital. De lá para cá, o mercado de aparelhos de tela plana, com tecnologia de LCD (cristal líquido) ou plasma, cresceu muito, correspondendo atualmente à metade das vendas da indústria no País.

Mas, para quem acha que isso é o que há de mais avançado, começam a ser lançados por aqui televisores de telas superfinas, com tecnologia de LED (sigla que significa, em português, diodo emissor de luz), melhor definição de cores e consumo reduzido de energia.

E isso é só o começo. Outras tecnologias como o Oled (diodo orgânico emissor de luz) e o laser, a superalta definição e a televisão tridimensional prometem chegar ao mercado nos próximos anos, numa evolução da velha TV, cujo único limite parece ser o bolso do consumidor.

‘Nós costumávamos falar que, no futuro, a TV seria tão fina que iria parecer um quadro na parede’, afirmou o jornalista Ethevaldo Siqueira, na sexta-feira, durante o evento O Futuro Agora, da Telequest. ‘O futuro já chegou’, disse.

Empresas como a Samsung e a Sony já oferecem televisores de LED no Brasil. Esses aparelhos possuem mais de uma centena de LEDs em suas bordas, que enviam luz à tela, dispensando a iluminação traseira das TVs convencionais de LCD e trazendo uma qualidade melhor das cores.

Segundo a Samsung, o consumo de energia da TV de LED é 40% menor, em média. Um modelo top de linha da empresa, com 55 polegadas e três centímetros de espessura, custa R$ 16 mil.

O aparelho é produzido na Zona Franca de Manaus e vem com receptor de TV digital aberta, dispensando o conversor. Tem acesso à internet e aos arquivos de som, imagem e vídeo armazenados no computador, via rede sem fio. A Sony tem um modelo de 40 polegadas com menos de um centímetro de espessura, que sai por R$ 23,4 mil.

A tecnologia Oled ainda está restrita a telas pequenas. Também com essa tecnologia, a Sony dispõe de um modelo de 11 polegadas, que vende nos Estados Unidos por US$ 2,5 mil, com uma tela de somente três milímetros de espessura. Nas lojas Sony Style do Brasil, o equipamento está disponível somente para demonstração.

O televisor de Oled também dispensa a iluminação traseira, pois capta a luz do ambiente. Com uma qualidade melhor de cor e contraste, o Oled criou uma nova categoria de televisores, com tela ultrafina. A tecnologia já é usada também em telas de celulares e outros dispositivos móveis.

A TV de alta definição de hoje tem uma resolução de dois megapixels, o que quer dizer que a imagem é formada por dois milhões de pontos.

Com o aumento das telas, os televisores do futuro terão resoluções ainda maiores, como 8, 16 ou 32 megapixels, no que está sendo chamado de superalta definição, ou Super HDTV. Essa tecnologia não deve ser usada, pelo menos num primeiro momento, na sala de estar das residências, mas em eventos públicos, onde grandes telas curvas darão aos espectadores uma sensação forte de realismo.

IMAGENS TRIDIMENSIONAIS

Outra tendência importante da TV do futuro são as imagens tridimensionais. Os estúdios de Hollywood têm apostado forte na produção de filmes em 3D, até como uma forma de combater a pirataria e incentivar o pública a comparecer às salas de exibição.

Em breve, essa tecnologia estará disponível também para as residências. É só uma questão de tempo, para que os preços dos televisores caiam e cresça a biblioteca de audiovisual em três dimensões. A maioria das soluções ainda exige óculos.

O iPhone criou, com sua tela multitoque, um novo conceito de interface para os eletrônicos. Os comandos baseados em movimento também estão chegando à televisão. Como as pessoas não parecem estar muito dispostas a se levantar do sofá para tocar na tela da TV, a indústria trabalha em soluções com leitura de movimento, que funcionam à distância.

A Toshiba demonstrou este ano, durante o evento Consumer Electronics Show (CES), em Las Vegas (EUA), uma tecnologia chamada Spatial Motion Interface, que usa raios infravermelhos e sensores para ler os movimentos das mãos do espectador. No lugar do controle remoto, os comandos aparecem na própria tela do computador, e podem ser selecionados à distância.

Resta saber qual é o apetite do consumidor por tanta novidade. ‘Às vezes, a indústria força mais o mercado do que o consumidor realmente quer’, reconhece Helio Bork, representante no Brasil da Bang & Olufsen, empresa holandesa de equipamentos de luxo de áudio.

Apesar da crise da indústria fonográfica e da vitória do MP3, o produto mais vendido da empresa ainda é o equipamento que toca seis CDs ao mesmo tempo.’

 

PIRATARIA
Ethevaldo Siqueira

Pirataria pode ser vingança do consumidor

‘No Brasil e no mundo, forças poderosas induzem as pessoas à pirataria. Ela é, acima de tudo, a manifestação da indignação do consumidor contra os preços elevados de softwares, CDs, DVDs e outros produtos. Ou, talvez, a resposta do cidadão ao comportamento antiético e cínico dos governos. Para agravar ainda mais esse quadro, a digitalização torna praticamente impossível coibir as cópias ilegais.

Tudo isso, no entanto, não justifica nem legitima o assalto à propriedade intelectual. Com boa vontade, podemos até entender as razões da maioria das pessoas que discordam dessa questão fundamental. É o que fazemos no caso do leitor Israel Beigler, cujos argumentos resumem os aspectos levantados com mais frequência na discussão do tema.

‘Há, sim, justificativa para o crime da pirataria’ – diz Beigler. ‘O Estado brasileiro rouba diariamente seus cidadãos, impondo-lhes uma carga tributária de 40% do PIB sem devolver, em contrapartida, os serviços essenciais, como saúde, educação e segurança. Se eu não tivesse que pagar R$ 1.500 por mês de plano de saúde, R$ 1.500 de escola e sei lá quanto em sistemas de segurança no meu prédio, aí, então, eu teria renda disponível para comprar tudo original. Enquanto isso não acontece, vamos de pirataria.’

Tudo que Beigler diz é verdadeiro. Mas, como ensinam os filósofos, premissas verdadeiras nem sempre levam a conclusões corretas. O raciocínio desse leitor é um sofisma perfeito, montado sobre premissas verdadeiras, mas que conduz a uma conclusão falsa e antiética.

‘Outro dia – argumenta – procurava comprar um Office decente para instalar em meu novo laptop (não pirata). Seu preço: R$ 990, ou seja, um terço do que paguei pelo computador (R$3.000). Não tive dúvida: liguei para o meu fornecedor paraguaio. Não culpo as multinacionais, mas o Estado brasileiro, sim!’

Em síntese, ao optar pela pirataria, Beigler manifesta sua repulsa tanto contra os preços absurdos do software legalizado, oficial, como contra a corrupção e a ineficiência dos governos e da maioria dos políticos brasileiros.

MAZELAS

Seria bom que, na hora de votar, o povo refletisse sobre algumas mazelas brasileiras. Que país realmente civilizado toleraria como o Brasil a protelação indefinida e o calote de milhares de precatórios? Que dizer da atitude de nossa Previdência com milhões de aposentados que contribuíram durante 35 anos ou mais sobre o teto de 10 salários mínimos e, agora, na velhice, recebem pouco mais do que a metade disso? Que dizer dos serviços públicos indecentes na área da saúde e da educação providos pelo Estado, em troca dos impostos escorchantes que pagamos? Que dizer ainda dos juros que ultrapassam a barreira dos 100% ao ano, cobrados legalmente do consumidor, quando a inflação não passa de 4% ou 5%?

A verdade nua e crua é que os preços excessivos dos produtos mais desejados – como softwares, computadores pessoais, videogames, CDs e DVDs – acabam sendo um convite irresistível à pirataria.

Embora concorde que, para se evitar o caos, o comportamento ético e civilizado deva vir antes do progresso e do bem estar social, o leitor não tem paciência de esperar que esse dia chegue. Sua pergunta é dramática: ‘Enquanto durar essa transformação, o que fará a atual geração? Deixará de consumir? Terá que esperar o 13º salário e comprar um cedezinho por ano, ou emplacar 48 módicas prestações mensais nas casas Bahia para curtir seu tocador de MP3 original? Você tem ideia do que é viver com um salário de R$ 700 ou de R$ 2.000 por mês?’

Outro leitor, Jonas Paulo Negreiros, relata sua experiência: ‘Em 1990, comprei meu primeiro notebook, tecnologia 486. Usado e caro: quase US$ 600, na época. Comprei o programa Windows 3.1 oficial. Instalei a versão mais enxuta, que funcionou perfeitamente. Saí, então, à procura da planilha Excel, versão 4.0, adequada à potência da minha máquina, nos revendedores autorizados Microsoft. Ninguém mais tinha o programa. Com o lançamento da versão 5.0, a anterior foi recolhida. Posso comprar carros usados, livros usados e discos usados, sem problemas. É estranho que uma obra literária (assim são classificados os softwares) antiga não esteja disponível ao menos nos sebos, a preços módicos. Essa relação leonina entre os produtores e consumidores (vistos apenas como licenciados) irrita. Instiga, mas, é claro, não legitima a procura por produtos piratas’.

PROBLEMA EDUCACIONAL

O professor Valdemar Setzer, do Departamento de Ciências da Computação da Universidade de São Paulo, tem uma sugestão original: ‘Hoje, é praticamente impossível coibir a cópia digital ilegal. Pior, a pirataria está induzindo jovens a se tornarem criminosos. Quantos pais não perguntam ao filho se já copiou aquele software, aquela música ou aquele filme? Talvez esse problema educacional seja muito pior do que os prejuízos das empresas’.

Para Setzer, a solução é simples: ‘É só permitir que pessoas físicas copiem tudo à vontade – software ou seja lá o que for digital -, mas cobrar seus direitos de pessoas jurídicas’.

Será que as corporações aceitarão esse modelo?’

 

VIOLÊNCIA
O Estado de S. Paulo

A violência paulistana narrada por quem a leva para a televisão

‘Quem entende do assunto é chamado para enriquecer o debate – com esse intuito, o Estado convidou a equipe de produção da série 9mm: São Paulo, da Fox, que retrata o cotidiano policial na capital paulista, para falar sobre a pesquisa que antecedeu o lançamento da série, na qual foram entrevistados policiais e vítimas de violência urbana. A proposta era que discutissem também experiências pessoais. Após uma hora de debate, o que se verificou, simplesmente, é que não era preciso ser especialista: em São Paulo, sobre o sentimento de se tornar vítima, qualquer um pode falar.

Na equipe de produção do programa, entre produtores, atores, pesquisadores, funcionários da cozinha, todos já haviam sido vítimas. A pessoa mais ‘vitimizada’ – furtada, roubada, agredida – foi o ator Norival Rizzo (que interpreta, na série, o estressado investigador Horácio), por seis vezes. No total, foram três carros roubados, um celular, dinheiro e documentos. ‘Em cidades menores, quando algum crime acontece, é o assunto da semana, do mês. Aqui não é novidade para ninguém. Estranho é nunca ter passado por isso.’

Nas situações de stress – tal como nos episódios do seriado -, eles contam, a visão treme, as imagens escurecem. ‘Só abaixei no carro e fiquei esperando que nenhuma bala me atingisse nem a meu pai’, conta o assistente de pesquisa da série Henrique Melhado, de 24 anos, que passou por experiência traumática em 2001 – o carro em que estava com o pai, na Mooca, foi atingido por 15 tiros, na porta da garagem de casa. ‘É possível acreditar? 15 tiros de manhã cedo e nunca descobriram o autor.’

Mesmo quem teve poucas experiências como vítima, caso do diretor da série, Michael Ruman – uma só vez assaltado, dentro de uma farmácia, R$ 10 levados -, acaba mudando hábitos por conta da proximidade da violência. ‘Nunca repito o caminho de volta para casa, diminuo (a velocidade) para não parar no semáforo… Não sou paranoico, mas tranquilo não dá para ficar.’

Nas pesquisas que fez para roteirizar a série, Newton Cannito aproximou o olhar, não somente das vítimas, mas do bandido. ‘Ele odeia que a vítima diga para ?ficar calmo?. Infelizmente, num momento como esse, a saída é acabar se adaptando e torcer para acabar logo’, diz. Cannito foi uma única vez assaltado, na Praça da República, em dez anos de São Paulo.

O relacionamento com a violência, tão perto ela está, acaba assumindo diferentes facetas. O produtor executivo da série, Roberto D?Ávila, após ser assaltado duas vezes e ter três carros roubados, resolveu, em vez de fechar os vidros nos semáforos, abri-los. ‘É para olhar na cara da pessoa, ver qual a expressão do bandido. É uma maneira de encarar, literalmente, a violência.’’

 

COMUNICAÇÃO
Vitor Hugo Brandalise

Frases revelam 107 visões de mundo

‘Ele percorreu meio mundo. Por 20 anos, o professor da USP Américo Pellegrini Filho passou por 107 países, pesquisando ‘grafitos’ – todo tipo de mensagem, de simples bilhetes de quermesse a manifestações em lápides, banheiros, cartões de boas-festas, avisos contra fiado. O resultado está no recém-lançado livro Comunicação Popular Escrita, no qual reúne 14.014 mensagens e ajuda a desvendar os motivos de tanta vontade de escrever. Como resposta, Pellegrini recorre aos gregos: ‘É tudo catarse – irresistível vontade, em todos os povos, de mostrar o que está pensando.’

Iniciado em 1988 com pequenos registros do interior paulista, o livro acabou reunindo mensagens escritas em 42 línguas e 4 dialetos (catalão, gaélico, galego e napolitano), todas traduzidas para o português – após intermináveis buscas por profissionais capazes de decifrar o que estava escrito, por exemplo, numa placa na parede de um boteco em Sri Lanka ou num convite de casamento no Kuwait. ‘É um esforço para resgatar as coisas do povo, expressar o cotidiano das pessoas. O trabalho tem extensão inédita, o que percebi ao procurar obras de referência. Simplesmente não existem’, conta o professor, da Escola de Comunicação e Artes. O garimpo de Pellegrini acabou por apontar semelhanças entre países de cultura e nível de desenvolvimento diferentes. ‘Bons exemplos são as placas de fiado, presentes na Inglaterra e no remoto interior do Brasil.’ Ele encontrou avisos contra a prática em 16 países, a maioria bem-humorados – descontada, é claro, a sobriedade inglesa, exemplificada numa mercearia cujo anúncio informa polidamente que ‘a recusa frequentemente ofende’.

Entre os temas pesquisados, há descobertas inusitadas, como a de que nas placas de caminhões de países como Egito e Turquia praticamente não se encontram frases jocosas, mas com temática religiosa. ‘Também vimos que, na Palestina, o mais comum é encontrar mensagens de amor e amizade, desejo de um local em guerra.’

O professor ainda analisou enunciados em túmulos de 40 países. ‘No Japão e na China, os costumes sóbrios aparecem também nas lápides, onde constam só nomes dos falecidos e data da morte’, conta. ‘Mensagens sentimentais, para se tranquilizar diante da morte, são comuns em outros países.’

A pesquisa também expõe influências de regimes políticos – em incursões nos metrôs de Moscou e São Petersburgo (Rússia) e Pequim e Xangai (China) não encontrou sinais gráficos em paredes, banheiro, vagões. Também não achou, em diferentes jornais de China, Cuba, Mali, Tailândia, nenhum tipo de mensagem sentimental, mesmo em periódicos populares. ‘Em locais com regimes políticos opressores, as manifestações são muito mais contidas.’

Nas buscas, porém, também achou costumes relacionados, unicamente, à escrita – caso do Kakizome, no Japão, um tipo de mensagem escrita por crianças nos primeiros dias de janeiro, ‘com o que primeiro lhe vier à mente no ano’. Quando soube do significado do costume, nova catarse: ‘Não é bonito? O que primeiro lhe veio à mente no ano deve ser, sim, escrito, colocado no papel. Isso justifica todo o meu trabalho.’

Comunicação Popular Escrita. Edusp, 696 páginas, R$ 70′

 

O FUTURO
Daniel Piza

Vida de jornalista

‘O jornalismo escrito não vai morrer, nem mesmo o bom. Ele é tão antigo que já sobreviveu a inúmeras mudanças de suportes e concorrências de meios. E ele é tão duradouro que hoje se expandiu para os mais diversos momentos do nosso cotidiano, como quando você, leitor, clica na internet para ler este texto. Desafio qualquer pessoa a dizer em qual outra era da humanidade houve tantas páginas preenchidas com palavras e frases sobre os fatos e as questões da hora – incluindo inúmeras sobre a morte dos jornais.

Grandes diários em papel passam por dificuldade em muitos países, certamente. Mas, como diz o colunista de um deles, Frank Rich, do New York Times, é irrelevante que os frutos do trabalho jornalístico apareçam no papel, no computador, no celular ou no Kindle – o livro digital da Amazon, cuja nova versão foi lançada agora com tela maior justamente para exibir… jornais como o New York Times. ‘Se não tivermos grandes operações de coleta de notícias’, continua Rich, ‘não haverá notícias no Google News.’

Há uma transição em curso, como relatou a Economist da semana retrasada; um antigo negócio perde terreno para um novo que ainda não se sustenta. Jornais diários em papel – assim como as grandes emissoras de TV – precisam se acostumar à pulverização das fontes de informação, o que não significa que os mesmos grupos de mídia não se aproveitem delas – como já fazem, tanto que os sites de notícia mais visitados dos EUA são Wall Street Journal e New York Times. E revistas semanais de análise e opinião, como a própria Economist ou a New Yorker (1 milhão de exemplares), hoje vendem mais que nunca. Em papel.

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Não por outra há em países como o Brasil uma pequena redescoberta do jornalismo de textos mais longos ou elaborados, que muitas vezes é chamado de ‘jornalismo literário’ (ou seja, com mais tempo e espaço para apurar e escrever). Lendo Vida de Escritor, de Gay Talese, autobiografia recém-publicada aqui (Companhia das Letras), vemos como um dos maiores repórteres da história – que virá ao Brasil em julho – fez os livros que fez graças à possibilidade de conviver mais com seus personagens, sem a lâmina do ‘deadline’ (prazo de fechamento) gelando sua nuca. Mas que defende as redações como agrupamentos que devem viver de buscar a verdade.

Talese pertence a uma tradição que mal existe no Brasil, a das grandes revistas e suplementos de reportagem, em que o autor é livre para usar a primeira pessoa, sem tornar seu texto um exercício memorialístico, e sim um retrato mais agudo de uma realidade objetiva, a exemplo do que fazia George Orwell. ‘Desde meus tempos de repórter juvenil, me diziam que nós, jornalistas, não fazíamos parte da reportagem. Onde estávamos, quem éramos e o que pensávamos não era relevante para o que escrevíamos. Na crônica de Orwell, era ele o personagem principal, (…) que dava coerência a tudo.’ Vozes autorais, em primeira ou terceira pessoa, sempre farão diferença.

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Nenhuma voz era mais inconfundível no jornalismo americano do que a de H.L. Mencken. Seu Livro dos Insultos, que, apesar de suas posições antidemocratas à la Nietzsche, me marcou quando publicado em 1988 por seu estilo ao mesmo tempo rigoroso e charmoso, de uma clareza total, foi reeditado agora na coleção Jornalismo Literário. E não é que na hora de anunciar os ‘melhores momentos’ do mestre, na capa, tascaram um ‘(e os piores)’? Os piores momentos de Mencken são mais bem escritos do que quase toda a obra do jornalismo brasileiro.

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Outra coleção que mostra o crescente reinteresse pelos grandes escritores da imprensa, na tendência moderna de ler mais não-ficção do que ficção, é Jornalismo de Guerra (Objetiva). E por ela saiu há pouco A Face da Guerra, de Martha Gellhorn, que, com toda razão, odiava ser descrita como uma das mulheres de Ernest Hemingway. Ela viveu de 1908 a 1998 e seu casamento com o célebre escritor durou apenas seis anos. Foi uma das maiores correspondentes de guerra do século. Além da Espanha, onde conheceu Hemingway e ficou contra o fascismo desde a primeira matéria, cobriu conflitos na China, Segunda Guerra, Vietnã ou Nicarágua (também escreveu sobre a morte de meninos de rua no Brasil nos anos 80). Suas narrativas, mesmo que escritas na pressa diária, ficam naquele ponto em que a reportagem – pela descrição detalhada, pelos comentários pontuais e pelo ritmo envolvente – se confunde com a literatura, sem tirar prioridade da informação isenta. Eis o ponto.

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Uma ausência nas edições e traduções locais é o jornalismo esportivo. É outra tradição que admiro no jornalismo de língua inglesa: o enorme respeito pelo ‘sportswriting’. Talese, por sinal, começa seu livro pelo relato de uma reportagem que, sem gostar nem entender muito de futebol, escreveu sobre a jogadora da seleção chinesa que perdeu pênalti contra a americana no Mundial de 1999. E ele está em destaque, com seu famoso perfil de Joe Di Maggio, na antologia The Greatest Sportswriting of the Century, editada por David Halberstam. De Halberstam, por sinal, acabo de ler Everything They Had, reunião póstuma de seus melhores artigos sobre basquete e beisebol. Não entendo patavinas de basquete, mas leio Halberstam – ou Roger Angell – absorto, pelo modo como vê sua sociedade por meio dos ídolos esportivos.

Halberstam era jornalista político também, mas metade de seus livros trata de esportes. ‘Gosto de usar os dois chapéus’, dizia; ‘e o do jornalismo esportivo uso com mais leveza, porque escrevo mais rápido e relaxado.’

Jornalismo político quem fez com grandeza ainda maior foi I.F. Stone, que, leio na mesma Economist, acaba de ser biografado por D.D. Guttenplan (American Radical). No Brasil já foi editado o livro de Stone sobre O Julgamento de Sócrates, mas nunca sua produção jornalística. Sozinho, escrevia um semanário que tinha assinantes como Russell e Sartre e chegou a vender 70 mil exemplares revelando mentiras sobre a Guerra do Vietnã apenas com a leitura de documentos oficiais. Um jornalista pode até sair pouco do gabinete, mas a cabeça tem de estar fora.

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Ivan Lessa, uma das poucas vozes equivalentes em nosso jornalismo, está nas livrarias com Eles Foram para Petrópolis, que reúne as cartas trocadas com Mario Sergio Conti na internet. Seu interlocutor tenta achar o mesmo tom de humor e coloquialidade, mas não consegue. O que se salva é Ivan Lessa falando mal das letras da bossa nova, elogiando cantores como Dick Haymes, relembrando o Rio dos anos 50. É irônico ver tanta cordialidade à brasileira num autor que critica tanto o ‘Bananão’, sim, mas quem vai dizer que ele não tem razão?

Outro grande jornalista brasileiro que merece ter seus melhores textos reunidos, José Onofre, morreu na terça passada, aos 66 anos. Escrevia como poucos sobre cinema americano, especialmente western. Agora, como no filme de seu diretor preferido, John Ford, imprima-se a lenda. Bons textos não morrem jamais.’

 

YOANI
Luiz Zanin Oricchio

A blogueira que rachou a ilha de Fidel

‘Em muito pouco tempo a cubana Yoani Sánchez saltou do anonimato à condição de uma das pessoas mais conhecidas na rede mundial de computadores. Conseguiu o feito graças à mais democrática das ferramentas da web, um blog pessoal. Mas não pense que Yoani é apenas mais uma celebridade instantânea, que conseguiu fama com a prática comum da autoexposição. Nada disso. Ela é uma moça casada, mãe de um filho, mora em Havana e usa seu blog como ferramenta de resistência. Quem conta essa história é o jornalista Sandro Vaia, ex-diretor de Redação de O Estado de S. Paulo em seu livro A Ilha Roubada – Yoani, a Blogueira Que Abalou Cuba (Barcarolla, 180 págs., R$ 32). O lançamento será na terça-feira, das 18h30 às 21h30, na Livraria Cultura Loja de Artes no Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2.073, tel. 3170-4033).

Para colher material para o livro, Sandro foi a Cuba, onde conversou não apenas com a blogueira, como conta em entrevista ao Estado: ‘Eu fiquei quase um mês só em Havana e falei com muitas pessoas comuns, do povo, convivi com várias delas, visitei casas de famílias, falei com o embaixador do Brasil, Bernardo Pericás, falei com empregados na área de serviços, funcionários do comércio,vendedores clandestinos de charutos, pintores e músicos de rua, donos de paladares, os restaurantes privados, mas não usei nenhum testemunho ou depoimento.’ A ideia é que a realidade cubana fornecesse apenas um pano de fundo. E que o foco fosse colocado na figura principal, a blogueira solitária.

Yoani, motivo desse esforço de reportagem, mora num apartamento modesto em Centro Havana, bairro pobre da capital cubana. É lá que pensa e escreve esse blog (http://desdecuba.com/generaciony) de posts simples, breves, que falam do seu cotidiano na ilha de Fidel e Raúl. Ou seja, relata as dificuldades de sobreviver, de marcar uma consulta médica, deslocar-se pela cidade e pelo país. Tal simplicidade, direta e sem rodeios, atingiu o alvo de maneira extraordinária. Como diz Sandro Vaia, talvez Yoani seja hoje a blogueira mais conhecida do planeta. O blog começou de forma modesta em abril de 2007 e hoje alguns dos seus posts recebem até 6 mil comentários, o que deve ser recorde de popularidade. A média de comentários gira em torno de 2 mil por post. É o sonho de consumo de qualquer blogueiro.

Mas colocar esse blog no ar é, literalmente, uma operação de guerra. Como na ilha a internet é controlada, Yoani não tem acesso ao próprio blog. Para postar, ela escreve o texto em um computador sem conexão com a internet. Salva o texto num disquete, vai até um hotel ou lan house e o envia por e-mail a amigos. Estes o traduzem em vários idiomas e mandam o texto para o servidor, hospedado fora de Cuba. São esses amigos internacionais que administram os comentários e mandam uma versão condensada para que Yoani os leia.

Não adianta tentar acessar o blog Generación Y de qualquer posto público em Cuba. A resposta do computador é sempre a mesma: ‘Error.’ Mas, fora da ilha, pode-se lê-lo em nada menos que 17 idiomas fora o espanhol, incluídos o japonês, o chinês e o finlandês. Compreensivelmente, a maioria dos comentários vem dos Estados Unidos, onde é grande a comunidade cubana dissidente. Em seguida vem a Espanha.

Apesar de todo o controle, a repercussão em Cuba também parece grande. O público-alvo está expresso no próprio nome do blog. Yoani, que tem 34 anos, explica em sua home page: Generación Y destina-se aos nascidos em Cuba nos anos 70 e 80 ‘marcados pelas escolas no campo, bonequinhas russas, saídas ilegais e a frustração’. Com isso, tornou-se uma espécie de porta-voz dessa geração e fez do blog um ponto de encontro e resistência, embora não tenha perfil de dissidente clássica: ‘Yoani não teve formação ideológica, a resistência dela ao regime é dirigida à sua falta de funcionalidade, que se expressa nas carências da vida cotidiana, nas restrições à liberdade de expressão, na prevalência sufocante de um pensamento único. Se você perguntar se ela tem uma ideia clara do que colocar no lugar, eu diria que não’, diz Sandro.

Mas esse mal-estar parece generalizado, na impressão do repórter que é Sandro Vaia: ‘A impressão geral do contato com o povo cubano, que tem um espírito alegre e tolerante, é que ele está esperando que de repente alguma coisa boa vai acontecer e que a a vida deles vai melhorar. Eles têm um pensamento entre cético e mágico e são capazes de achar que o milagre pode vir até mesmo de Raúl Castro. Um motorista de táxi – sempre eles – me disse uma coisa que outras pessoas comuns me deram a entender com outras palavras: o regime está ?anquilosado? (atrofiado) e precisa de uma boa dose de ar fresco.’ Como discordar?’

 

EUCLIDES DA CUNHA
O Estado de S. Paulo

No front, um correspondente engajado

‘Após ter publicado dois artigos sob o título de A Nossa Vendeia, Euclides tornou-se candidato natural ao posto de enviado especial do Estado à Guerra de Canudos. Graças a um telegrama de Julio Mesquita ao presidente da República, Prudente de Morais, duplicaria suas credenciais como adido ao estado-maior do ministro da Guerra, marechal Machado Bittencourt, que viajava de navio para montar seu gabinete em Monte Santo. Embora tenente reformado do Exército, Euclides segue junto, como membro da 4ª Expedição; e um membro tardio, com as tropas já engajadas no assédio ao arraial.

Essa guerra foi a primeira em nosso país a ganhar uma tão vasta cobertura jornalística, novidade que fora inaugurada recentemente. Todos os maiores jornais do País trataram de dispor de enviados especiais ao palco dos acontecimentos. Quase todos os repórteres eram militares e alguns até combatentes. Como se verá, a imparcialidade já estava comprometida de saída.

Euclides não contém o entusiasmo ante a missão heroica em que está empenhado. Na tropa que lota o convés do navio, realça o sentimento de patriotismo. Em termos arrebatados, fala do dever coletivo que é defender a República a qualquer custo, estando, a exemplo de toda a opinião pública, convicto de que Canudos é o foco de um complô monarquista de intuito restaurador. Termina a correspondência com um voto de confiança na vitória. De modo similar, encerrará os telegramas com a exclamação ‘Viva a República!’.

Nesta correspondência, escrita no dia do desembarque, não aflora a intenção de escrever um livro sobre a guerra, que levaria o título provisório de A Nossa Vendeia. Mas contrasta com as declarações de Euclides aos jornais de Salvador, mostrando que abrigava esse projeto antes mesmo de chegar ao destino.

Demora-se na descrição parnasiana da paisagem marinha e urbana do Recôncavo, com a silhueta da cidade do Salvador ao fundo. E opera a leitura alegórica das nuvens escuras que se acumulam no rumo de Canudos, anunciando o embate entre as trevas do atraso e a luz do progresso.’

 

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