Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 14 E 15/6

O Estado de S. Paulo

17/06/2008 na edição 490

1968
Gabriel Manzano Filho

Sobreviventes de 68 pregam busca de novas utopias

‘Por cinco noites, entre segunda-feira e ontem, antigos guerreiros, poetas e estrategistas de 1968, hoje senhores engravatados e saudosos, juntaram-se no Memorial da América Latina, para avaliar – de novo – o que foi, quanto valeu e o que deixou, de bom ou de mau, aquele ano histórico da vida de todos eles e do mundo ocidental. Foi o seminário 1968 – Ecos na América Latina, que incluiu palestras, debates com uma platéia quase toda de jovens, filmes e uma exposição sobre o período, organizada com fotos do Estado.

‘E uma conclusão de tudo’, diz o organizador Roberto Bianchi, ‘foi dada em uma das falas, quando os jovens perguntaram ao jornalista Zuenir Ventura porque hoje não há mais 68. Em resposta, ele advertiu que hoje há, sim, causas para a juventude. E citou pelo menos duas. Primeira, salvar o planeta, uma causa ecológica. Segunda, entrar firme na luta contra a brutal desigualdade entre ricos e pobres.’

Antes disso, porém, foram dar seu recado no Centro de Convenções figuras como os franceses Jean Bodinaud e Xavier Person, rebeldes universitários como Leonel Itaussu Melo (hoje professor da USP), José Ibrahim (antigo líder sindical em Osasco), o ex-frade Roberto Romano (hoje professor de Filosofia da Unicamp), Audálio Dantas, Ivan Seixas. Ontem, foram fechar o seminário o argentino Luiz Paz e o mexicano Felipe Ehrenberg.

Resumindo o que foi dito, Bianchi lembra que ‘naquele ano estavam em guerra a liberdade e a barbárie do Estado autoritário. Organizou-se naquela luta, no Brasil, o embrião de futuros movimentos, que se deslocaram para o ‘Tortura Nunca Mais’?, por exemplo.

Xavier Person, da Aliança Francesa, comparou as juventudes de hoje e de 40 anos atrás. ‘O que vivi na França de 68 não vejo mais em lugar nenhum. Só tem jovem buscando emprego e tentando salvar a pele.’ Uma resposta possível veio no depoimento de ontem do mexicano Felipe Ehrenberg. ‘Estes são os agitadores de hoje: ignorância, fome e miséria’, disse ele. Assim, há uma utopia relançada. Como compara Bianchi, ‘o sonho está colocado. O desafio é saber como organizar a busca desse sonho.’

GUERRAS DIFERENTES

O diretor do Centro de Estudos da América Latina do memorial, Adolpho José Melfi, lembra que ‘ficou claro, nos debates, que sob o manto de uma cruzada geral, contra regras e autoritarismos, 68 foi vivido em cada parte de um modo’. Na Europa se lutava contra regras burguesas. No bloco oriental, contra o domínio soviético. Nos EUA, contra o governo Nixon e a guerra do Vietnã. E, na América Latina, tudo convergiu para os esforços para derrubar ditaduras militares.

Cada um relatou a própria experiência. O ex-sindicalista Ibrahim José, que comandou a grande greve de Osasco no auge do poder militar, lembra que ‘a repressão foi fortíssima. A cidade foi sitiada, casas foram invadidas.’ E Leonel Itaussu deixou uma ponderação: ‘O passado tem de ser colocado em perspectiva. É claro que 68 foi um momento privilegiado desse processo, mas ele tem de ser visto em conjunto’.’

Daniel Fresnot

‘Balanço não é nada positivo’

‘Quarenta anos depois das revoltas de 1968 o balanço não é nada positivo. Lembro-me de que cometi em 68 o primeiro seqüestro político, de uma agente da polícia cuja alcunha era ‘Maçã Dourada’. Ficou quatro dias detida no Grêmio da Filosofia da USP e foi trocada pelo único estudante preso em São Paulo naquele momento. Peço aqui perdão a Heloisa Helena pela violência que cometi e pelo mau exemplo que demos. Hoje, o seqüestro tornou-se ‘carne de vaca’.

Da mesma forma as diversas contestações dos anos 60 e 70 banalizaram as drogas. Creio que hoje não há uma escola onde não se ofereçam drogas aos jovens – até os anos 60 isso era um fenômeno limitado. Minha geração abriu a caixa de Pandora. Um dos lemas da época, ‘sexo, drogas e rock?n roll’, causou e vai continuar causando um mal danado. Trabalho com acolhimento de crianças de rua e sei de meninos de 10 anos dependentes. Isso era inconcebivel há 40 anos. Também a revolta contra a moral tradicional teve aspectos muito negativos. A família explodiu e a pornografia invade até a internet.

A luta armada e a agitação política em 68 foram erros trágicos que acabaram favorecendo a linha dura militar e aqueles que queriam fechar de vez o regime. Em 68 o movimento estudantil não lutou pela volta à democracia que considerávamos ‘burguesa’. Ele lutou principalmente pelos ‘ismos’ – socialismo, maoísmo, trotskismo, guevarismo. Nosso exemplo era Cuba. Embora também houvesse democratas sinceros, era de fato a extrema-esquerda que comandava o movimento. Subestimamos gravemente a importância da democracia e o País todo pagou um preço muito alto. Inclusive pelos jovens de muito valor, nossos companheiros torturados e assassinados, que teriam amadurecido e hoje fazem falta ao país.

A minha geração teve a sorte de viver mais de 60 anos de paz e prosperidade e, no entanto, muitos problemas se agravaram. Violência criminal, desemprego, terrorismo, poluição, drogas, imoralidade, favelas, crianças de rua e corrupção estão piores hoje do que nos anos 60. Por todos estes motivos não me gabo de minha participação em 68, hoje penso que éramos jovens inconscientes acreditando em ideais errados. Creio que não devemos dizer aos jovens e a nossos filhos: ‘Veja que bacana, eu lutei em 1968’, mas sim reconhecer os graves erros que cometemos para que não se repitam. O balanço não é positivo.

* Daniel Fresnot, 59 anos, é industrial e escritor. Fundou a Casa Taiguara, que acolhe crianças de rua em São Paulo’

 

TIM RUSSERT
O Estado de S. Paulo

Apresentador da NBC morre de enfarte

‘Tim Russert, apresentador do programa da NBC Meet the Press, morreu ontem aos 58 anos. Russert estava no escritório da NBC em Washington gravando parte do programa de domingo quando sofreu um ataque cardíaco. O jornalista, conhecido por ser um mordaz, mas cortês, entrevistador, foi moderador de vários debates políticos. O presidente George W. Bush elogiou Russert como sendo ‘uma instituição tanto nas notícias como na política por mais de duas décadas’.’

 

TELES
Gerusa Marques

Planalto vai decidir sobre PGO

‘O Palácio do Planalto dará a palavra final sobre as novas regras da telefonia constantes do Plano Geral de Outorgas (PGO), que permitirá a conclusão da compra da Brasil Telecom pela Oi. Como o PGO é estabelecido por decreto, caberá ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva bater o martelo sobre o tema. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) está cumprindo seu papel legal de elaborar e propor o novo plano, mas qualquer detalhe da proposta da agência que desagradar ao governo poderá ser mudado posteriormente. Por isso, as pressões feitas sobre a Anatel nos últimos dias, vindas principalmente da Casa Civil, tinham mais o objetivo de acelerar a discussão do que de interferir no conteúdo.

A votação na Anatel estava parada há um mês por causa de um impasse dos conselheiros em torno de uma questão técnica: se os serviços de banda larga deveriam ser administrados junto ou separado dos serviços de telefonia fixa. O placar estava em dois a dois e não havia um quinto conselheiro para desempatar. Impaciente com a indefinição, o Planalto ameaçou nomear um conselheiro-tampão para viabilizar a votação. Fontes do setor avaliaram que, se adotada, a medida representaria a desmoralização e o enfraquecimento da Anatel. A idéia do conselheiro-tampão chegou a ser comparada com a interferência do governo na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), no caso da Varig.

A ameaça não foi concretizada, mas surtiu efeito. Contrariando todos os sinais de que a votação seria adiada pela quarta vez, o conselho diretor da agência aprovou, na quinta-feira, a proposta de reformulação do PGO. O impasse foi superado porque Ronaldo Sardenberg recuou de posição, ainda que temporariamente. Ele começava a ter seu comando questionado tanto no governo quanto no mercado e tentou, com isso, mostrar coesão dos conselheiros sob sua presidência. Prevaleceu a tese do conselheiro-relator, Pedro Jaime Ziller, de exigir empresas separadas para banda larga e telefonia fixa.

As pressões para acelerar o processo vieram também das empresas. O presidente da Oi, Luiz Eduardo Falco, esteve em Brasília na quarta-feira conversando com conselheiros da Anatel. Nas últimas semanas, em diversas ocasiões, Falco não escondia sua insatisfação com a demora, já que a Oi terá que pagar uma multa de R$ 490 milhões à BrT se um novo PGO não for aprovado em 240 dias, a contar de 25 de abril.

A proposta aprovada na quinta ainda não é definitiva. Depois da consulta pública, será novamente avaliada pelo conselho e seguirá como sugestão para o Ministério das Comunicações, que também teria poderes para alterar o texto, já que cabe ao ministro da pasta, hoje ocupada por Hélio Costa, fazer a exposição de motivos do decreto. Depois, o texto também passará pelo crivo do Planalto, mais especificamente da Casa Civil.

Outro fator a ser considerado é o termino do mandato de Sardenberg na presidência da Agência, previsto para o dia 30 deste mês, mesmo tendo mandato de conselheiro até 2011. Apesar de sua recondução ser dada como certa por fontes do governo, qualquer passo em falso neste momento, como uma prolongada indecisão sobre o PGO, poderia pesar contra ele, na avaliação das mesmas fontes.’

 

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‘É solução para fato consumado’, diz ex-ministro

‘O ex-ministro das Comunicações Juarez Quadros avaliou ontem que o novo Plano Geral de Outorgas (PGO), proposto pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), ‘foi apenas uma solução para um fato consumado’, pois a Oi já havia anunciado a compra da Brasil Telecom (BrT) antes mesmo da mudança da regra. Segundo ele, a Anatel e o governo deveriam ter se antecipado ao mercado e proposto uma alteração nas regras com base na evolução do setor de telecomunicações brasileiro, depois de 10 anos da edição do PGO. ‘Se tivesse havido essa antecipação, seria difícil alguém entender que isso aí foi uma solução de um problema empresarial e não uma solução de política pública’, acrescentou. Quadros acredita que durante o tempo em que a proposta ficar em consulta pública poderá haver questionamentos quanto a sua segurança jurídica.’

 

Renato Cruz

Telefônica reclama de mudança nas regras

‘A Telefônica se manifestou pouco durante todo o processo de discussão sobre a compra da Brasil Telecom pela Oi (antiga Telemar). Ontem, porém, resolveu protestar. Na visão da empresa, as mudanças do Plano Geral de Outorgas (PGO), anunciadas na quinta-feira, podem prejudicar o consumidor, a empresa e o próprio mercado.

‘Nós ficamos bastante preocupados’, disse Fernando Freitas, diretor de Relações Institucionais da Telefônica. ‘Dependendo de como vierem, as mudanças podem contrariar o que está na Lei Geral de Telecomunicações.’

Dizendo que falava em hipótese, pois o texto do PGO ainda não foi publicado, ele se queixou da obrigatoriedade de se separar as atividades de comunicação de dados em uma empresa à parte. Segundo o executivo, a legislação garante à concessionária o direito de continuar prestando os serviços que prestava antes da privatização, o que inclui dados.

Freitas classificou como uma ‘barreira artificial’ a possibilidade de o mesmo grupo controlar duas concessões de telefonia fixa, mas não três. Essa barreira faria com que, depois de formada a BrOi (união da Oi com a Brasil Telecom), a nova empresa não pudesse ser vendida nem para a Telefônica nem para a Embratel. A Telefônica e a Embratel, da mexicana Telmex, poderiam se juntar, o que seria extremamente difícil, já que os dois grupos são os principais rivais na briga pelo mercado latino-americano de telecomunicações.

A preocupação da Telefônica ontem contrastou com a aparente calma que vinha sendo mostrada pela empresa até então. A operadora participa da Associação Brasileira de Concessionárias do Serviço Telefônico Fixo Comutado (Abrafix), e foi uma carta da Abrafix que detonou o processo para a revisão do PGO.

O presidente da Telefônica, Antonio Carlos Valente, vinha dizendo, até então, somente que deveria ser garantida isonomia de regras e que quem não fosse beneficiado pela mudança também não fosse penalizado. Na prática, a separação dos dados em uma empresa diferente pode ser visto como uma penalidade e o impedimento de comprar a BrOi como uma assimetria nas regras.

‘A separação das operações de dados em uma empresa diferente pode levar a um aumento de custos, o que levaria a um aumento das tarifas’, disse Freitas. Na semana passada, Luiz Eduardo Falco, presidente da Oi, também havia reclamado da possibilidade de separar voz e dados, chegando a dizer que isso poderia inviabilizar a compra da Brasil Telecom. Como o documento irá passar por uma consulta pública, as definições anunciadas na quinta-feira pela Anatel não são definitivas.

Para o jurista Floriano de Azevedo Marques, professor da Universidade de São Paulo, a separação de voz e dados é ‘um tiraço no pé’ dado pela Anatel. Segundo ele, a agência seria impedida de tomar medidas para que as concessionárias universalizassem o serviço de banda larga, porque ele estaria numa empresa separada, fora da concessão.’

 

 

INTERNET
O Estado de S. Paulo

Capacidade de organização em rede desafia empresas

‘No Reino Unido, o HSBC resolveu oferecer contas sem juros no cheque especial para universitários e recém-formados. Em agosto de 2007, o banco mudou de idéia e avisou que, em duas semanas, mudaria a sua política. Essa mudança criou um movimento no Facebook, serviço de rede social, em que milhares de estudantes se organizaram pela internet, protestaram e trocaram informações sobre como mudar de banco. O grupo do Facebook chegou a marcar para setembro um protesto em frente aos escritórios do HSBC em Londres. Não precisou ser feito, pois o banco voltou atrás.

‘Como qualquer empresa de serviços, não somos grandes demais para deixar de ouvir as necessidades de nossos consumidores’, disse um executivo do banco. Clay Shirky, professor da Universidade de Nova York e autor do livro Here comes everybody: The power of organizing without organization (The Penguin Press), aponta que não foi o descontentamento de seus clientes que fez o HSBC mudar de idéia, mas o descontentamento organizado dos clientes.

A internet reduziu as barreiras que existiam para as pessoas se organizarem e formarem grupos de acordo com seus interesses, o que coloca um desafio para empresas, governos e outras organizações. ‘Isso não quer dizer que as instituições vão desaparecer’, explicou Shirky, em entrevista no mês passado, durante o evento Computer, Freedom, and Privacy 2008, em New Haven (EUA). ‘As empresas precisam descobrir quando e como seus clientes vão querer interagir entre si, e extrair valor disso.’

AMADORES

Essa capacidade de organização sem a necessidade de ter uma empresa por trás já deu resultados importantes, como o sistema operacional Linux (desenvolvido por programadores voluntários) e a Wikipédia (enciclopédia escrita por amadores não-remunerados). A rede mundial trouxe para a publicação de informações o fenômeno de ‘amadorização de massa’.

Ou seja, uma grande massa de amadores passa a ser capaz de fazer coisas que antes eram restritas a profissionais. ‘Ser um profissional é, necessariamente, ser uma minoria’, afirmou Shirky. ‘Meus alunos estranham quando digo que, em 1995, se uma pessoa comum quisesse dizer alguma coisa num cenário global, não poderia. Mesmo se quisesse falar num cenário local ou regional, precisava convencer um jornal a publicar sua carta, ou uma rádio a deixá-lo falar.’ Hoje, quem tem alguma coisa a falar pode publicar na internet.

A ‘amadorização de massa’ destrói profissões. Shirky cita o caso dos escribas. A invenção dos tipos móveis por Gutenberg trouxe uma onda de alfabetização que tornou os escribas obsoletos. Se a internet tornou a publicação acessível a todos, os jornalistas são os escribas modernos? ‘A situação hoje é que a distância entre jornalistas profissionais e amadores desapareceu’, disse o professor. ‘Isso não quer dizer que no fim da escala já não dá para identificar quem é amador e quem é profissional. Quer dizer que não existe mais uma linha clara que divide os dois grupos.’

Ele citou o caso de experiências como a Off the Bus, nas eleições americanas, em que um grupo de jornalistas-cidadãos (não-profissionais) conseguiu entrevistar todos os superdelegados democratas, quando um profissional conseguiria ouvir no máximo dez. ‘Esses grupos de pessoas não estão substituindo os jornalistas, mas estão coletando informações.’

E qual é a situação dos jornais nesse novo cenário? ‘É interessante’, afirmou Shirky. ‘Alguns jornais estão tão próximos dos meios de produção que pensam em si mesmos como fabricantes e distribuidores de coisas. Se os jornais conseguirem se reformar economicamente, fora do modelo de distribuir papel e tinta em caminhões, podem ir bem.’’

 

O Estado de S. Paulo

Microsoft aberta a acordo com Yahoo

‘A Microsoft ainda está aberta a discutir um acordo com o Yahoo. Mas, segundo informou um fonte próxima à Microsoft à agência de notícias Reuters, a Microsoft perdeu o interesse numa compra de todo o Yahoo por causa do receio de que o acordo não conseguisse aprovação dos órgãos reguladores antes do fim do governo Bush. A Microsoft ofereceu US$ 1 bilhão em dinheiro ao Yahoo para comprar seu negócio de buscas na internet.’

 

FUGA
Tutty Vasques

Meninas fora de série

‘Houve um tempo em que notícia de adolescente que fugia de casa ficava restrita ao poder de comunicação de vizinhas fofoqueiras. ‘Menina, você não sabe da maior!’ – o boca-a-boca soava como vinheta de edição extraordinária. É claro que os pais se preocupavam com a aventura dos filhos: ‘Será que estão com frio ou fome? Será que aquele amigo doidinho da escola também foi? Será que vão pegar carrapato?’ Mas sempre aparecia um amigo da família para lembrar como são os jovens: ‘Cansados de tudo, pegam a estrada em busca de nada.’

Exatamente como fizeram essas encantadoras meninas que saíram do cinema sem destino na rota sul dos caminhoneiros. ‘Só queria respirar um pouco e voltar’, disse uma delas, ao ser descoberta pelo Brasil inteiro que acompanhava o noticiário do que nos dias de hoje costuma acabar em tragédia. Houve até quem se decepcionasse com o final feliz das gurias: ‘Eu gostei do que fiz, me diverti.’

Ana Lívia e Giovanna não são um mau exemplo qualquer. Podiam estar consumindo de tudo em shoppings ou raves, mas foram atrás da felicidade como nos bons e velhos tempos de seus pais. Tomara que eles levem isso em conta antes de castigá-las.’

 

LITERATURA
Ubiratan Brasil

Woody Allen alemão vem para a Flip

‘A ambição literária de Ingo Schulze não é pequena – em seus contos e romances, o escritor alemão busca atingir uma tal despretensão que o leitor demora a perceber que caiu em uma atraente armadilha: de repente, ele se descobre ambientado com a trama, sem nem ter notado o início do jogo literário. Bela e assustadora, a prosa de Schulze coloca asas em que a lê, como comprovam os contos de Celular – 13 Histórias à Maneira Antiga (352 páginas, R$ 45), que a Cosac Naify lança na próxima semana.

Convidado para a Festa Literária Internacional de Paraty, Schulze arranca lirismo do cotidiano e extrai seu humor melancólico daquilo que é aparentemente mais banal, observa Marcelo Backes, responsável pela tradução e também por um elucidativo posfácio, lembrando que o alemão é um daqueles raros autores cujo olhar diferenciado é capaz de transformar o mais banal dos temas em um assunto especial. Por conta disso, a revista New Yorker o relacionou entre os ‘seis melhores jovens narradores da Europa’, e o Observer o chamou de um dos ‘21 autores que devem ser observados no século 21’.

Definitivamente, não é muito barulho por nada – nascido em 1962, em Dresden, então Alemanha Oriental, Schulze acompanhou atentamente a derrocada do comunismo e a fase de transição, em que seu país voltou a ser unificado. Esse momento histórico , portanto, distingue sua escrita, mais contemporânea, da dos romancistas consagrados como Günther Grass, cuja obra é assombrada pelo pesadelo nazista.

Como o passado é o tempo mais presente em seus contos (muitos, aliás, trazem reminiscências pessoais), Schulze empresta suas neuroses aos personagens, o que o torna uma espécie de Woody Allen do cotidiano alemão, criando fatos inusitados, como um urso andando de bicicleta em meio a um grupo de caçadores atrapalhados. Ou histórias aparentemente banais, como a do homem observando a casca da laranja como sendo algo miraculoso, detalhe que lhe permite alcançar a tranqüilidade.’

 

***

‘O Ocidente perdeu a face humana’

‘Em tempos marcados pela velocidade da informação, fragmentadora de fatos, Ingo Schulze busca o modo tradicional para contar histórias – em ritmo aparentemente linear, ele mostra como o celular (objeto presente em quase todos os seus contos e símbolo máximo do alto grau de comunicação) pode tanto representar um elemento de integração (‘Ninguém mais precisa ficar sozinho’, diz um personagem no conto que dá título ao livro) como também traduz a pequenez em que se transformou a condição humana. É o que Schulze comenta na seguinte entrevista ao Estado, realizada por e-mail.

Seriam seus livros uma espécie de documentação da vida privada da antiga Alemanha Oriental?

Espero que nos meus livros se possa saber algo sobre a Alemanha de hoje, mas também sobre o país de 20 ou 30 nos atrás. Mas é claro que se trata, sobretudo, de contar histórias, e isso só funciona quando se inventa algo. Quando isso dá certo – e eu digo isso enquanto leitor -, tenho o sentimento de que é por causa do discurso em si, tanto faz em qual lugar desse mundo e com as línguas. Eu preciso aprender outra língua para conhecer as possibilidades e limites do meu próprio idioma. É preciso acrescentar que não apenas o antigo Bloco do Leste passou por essa transformação, mas também a China, a Índia e muitos outros países. Nós viemos de fora do Ocidente, somos estranhos, crescemos de forma totalmente diversa. De um lado, é a visão de fora, do outro, é a de dentro. Meu problema não é o desaparecimento do Leste, mas sim o desaparecimento do Ocidente, um Ocidente com uma face humana. Me perturba a questão de como o Ocidente se modificou a partir da queda do Bloco do Leste.

Que tipo de desafios na escrita você gosta de enfrentar? E quais você tenta evitar?

Toda literatura é um estímulo para mim. E, como para um compositor ou para um pintor, acredito que a questão seja: como é possível, ainda hoje, contar uma história, compor uma canção, pintar um quadro? Acho que se trata de encontrar um estilo apropriado para cada momento, ou seja, sempre desenvolver um estilo a partir da matéria. Por essa razão, para mim é sempre importante prender os leitores, mas, por outro lado, também empurrá-los de novo para fora da história, enviar um sinal que mostre: atenção, agora estou contando isso deste e desse jeito, mas isso também pode ser contado de modo bem diferente. Um meio de alcançar isso é deixar que diversos estilos se entrelacem.

No mundo atual, quem você pensa que está ganhando: as pessoas que usam a palavra para destruir ou os agitadores da palavra?

Eu acredito que a literatura, que coloca perguntas muito fundamentais e assim representa o mundo da maneira mais diferenciada, também é a que melhor funciona. Proust ou Kafka ou Guimarães Rosa mudaram o mundo.

Muito se falou sobre a mudança mundial depois do 11 de Setembro. Foi realmente marcante?

Depois do 11 de Setembro, houve a chance tanto para os EUA quanto para todo o Ocidente de, no bom sentido, mudar o mundo de fato. Quase todos os países se mostraram solidários aos EUA. Isso poderia ter sido aproveitado para se chegar a um acordo sobre muitas coisas: sobre o desarmamento, sobre ajudas recíprocas, os conflitos entre Israel e Palestina, etc., etc. Em vez disso, essa coisa se tornou um motivo para cobrir o mundo de guerras e deturpar o Ocidente até que ele se torne irreconhecível. Quem podia imaginar há sete anos que a proibição da tortura poderia ser colocada em questão oficialmente por um governo?

O que o estimula quando escreve?

Eu escrevo como alguém que está fazendo um passeio, que acha o entorno muito bonito, mas nunca sabe se da próxima moita não surgirá um assassino. Eu nunca sei se vai dar certo, se vou encontrar um final, para quais conhecimentos ou mudanças a busca me conduzirá. E não posso imaginar um trabalho melhor para mim.

Quando você começa a escrever, quanto da história já está em sua mente e quanto surge a partir do processo de experimentação?

Nos contos é comum que os personagens surjam a partir de uma situação. Vários dos que estão próximos a mim no começo podem se distanciar, e vice-versa. Em um romance, preciso saber mais ou menos como ela ou ele enxergam o mundo, quando embarco o personagem na viagem. Comigo quase tudo surge enquanto estou escrevendo. Para começar, sem dúvida a gente precisa de uma idéia, e ela pode aparecer quando estou escovando os dentes ou quando fico na expectativa de um jogo de futebol.

Essa vai ser sua primeira visita ao Brasil? Qual a expectativa? Você conhece algum escritor brasileiro?

Eu estive por três semanas no Brasil em 2002, quando saiu o meu livro Histórias Simples da Alemanha Oriental (Editora Lacerda). Agradeço a essa estadia, entre outras coisas, por causa das leituras de Guimarães Rosa: seu livro Grande Sertão: Veredas me ajudou muito enquanto estava escrevendo meu romance Neue Leben. Entre outras coisas, adotei com leves alterações a cena da encruzilhada, ou seja, do pacto com o Diabo. Fora o Marcelo Backes, meu tradutor, ainda não conheço nenhum escritor brasileiro pessoalmente. Mas em Paraty isso logo vai mudar.’

 

TELEVISÃO
Patrícia Villalba

Mutantes atacam coração da Globo

‘‘Se você atirar, eu te mordo’, avisa Taveira, personagem de Gabriel Braga Nunes, à Dra. Juli, que já foi papel de Ítala Nandi, mas agora aparece rejuvenescida na pele de Babi Xavier, depois de ingerir um tal elixir da juventude. A surpresa, a agilidade, os efeitos especiais caprichados e uma ausência total de medo do ridículo, que soa divertida demais na tela, fazem de Os Mutantes, a segunda fase de Caminhos do Coração, da Record, um fenômeno.

Enquanto a TV mundial perde audiência e se desdobra para fisgar o telespectador, a Record chacoalhou de vez o mercado na semana passada, quando resolveu partir para o ataque direto ao que o autor Tiago Santiago chama de ‘caixa-forte da Globo’: a novela das 9. Desde agosto, Caminhos do Coração era exibida às 22h30. No dia 2, entretanto, seu último capítulo, foi ao ar às 20h40, ao mesmo tempo em que a Globo estreava A Favorita. No tudo ou nada, fez 24 pontos, contra 35 da concorrente – o pior resultado da história da Globo numa estréia no horário.

Agora, toda prosa, Caminhos parte para uma saga de mais 200 capítulos, e se chama Os Mutantes. Novela com jeito de seriado, mistura alguns dos elementos mais marcantes da teledramaturgia tradicional brasileira aos que se vê de mais moderno na TV americana para contar uma história que não é exatamente original, mas parece inesgotável. Claro que a primeira coisa que vem à cabeça é a série americana Heroes, que também fala sobre seres modificados geneticamente que desenvolvem poderes especiais. Mas vá um pouco além, e se lembre dos X-Men das HQs de Stan Lee. É um sem-fim de referências, num caldeirão pop.

A Record investe R$ 200 mil por capítulo da novela, que ocupa dois grandes estúdios do Recnov, a central de produção da emissora em Vargem Grande, no Rio. Se é para comparar com os mutantes americanos, considere que lá eles estão na TV uma vez por semana, enquanto os nossos estão lutando e mordendo de segunda a sábado. ‘Estamos desenvolvendo um know-how. No mundo inteiro, não há um produto como o nosso, com esse volume de produção. Os seriados americanos que têm efeitos elaborados de computação gráfica vão ao ar semanalmente, e têm uma frente de produção muito grande’, diz o diretor Alexandre Avancini ao Estado. ‘Nosso pessoal de computação gráfica tem dois dias para resolver os efeitos, enquanto um frame de O Homem de Ferro levou 36 horas para ser realizado.’

A questão também é convencer o telespectador a acreditar num produto que pode soar estranho aos noveleiros tradicionais, acostumados a um padrão de pelo menos 30 anos. ‘Não bastam os efeitos, precisa de um trabalho especial do ator para dar certo’, observa André di Biase (Aristóteles), que há 20 anos fazia história no também inovador Armação Ilimitada, da Globo. ‘Os atores aprendem a atuar naquilo que os americanos fazem bem. É diferente da dramaturgia tradicional. Você tem de falar coisas absurdas de um jeito natural.’

André se refere a falas do tipo ‘os hospitais estão lotados por causa dos ataques desses mutantes e da epidemia de dengue’ – realismo fantástico na veia. Com 75 personagens no ar, Os Mutantes aproveita atores veteranos que vieram da concorrência, como Sebastião Vasconcelos (Mauro), José Dumont (Teófilo) e Patrícia Travassos (Irma), e dá chance para novas caras, como Marcos Pitombo, (Valente, o depositário do ‘grande mistério’ desta temporada), Julianne Trevisol (Gór), e até mesmo a ex-miss Natália Guimarães (Ariadne).

São todos lindos e beneficiados por uma fotografia que foge da luz dura, marca das produções globais. É um pessoal que está aprendendo ao mesmo tempo que faz (a Record planeja criar uma escola de atores). E que tem a estrutura da novela a seu favor. Certo mutante fala como se estivesse num jogral porque o ator é inexperiente? Ou será que ele fala assim porque é um mutante nada acostumado ao contato com humano? Pouco importa, no universo mutante brasileiro não há limites.’

 

***

‘Agora vou com minhas criaturas para a Amazônia’

‘Tiago Santiago diz estar seguindo a cartilha do realismo fantástico numa leitura à Osvald de Andrade ao escrever Os Mutantes. ‘Estamos absorvendo técnicas, para degluti-las e transformá-las em produto brasileiro de exportação. Estamos deglutindo, antropofagizando Hollywood’, resume. De autor secundário na Globo, a estrela do núcleo de dramaturgia da Record segue uma trajetória que parece história em quadrinhos. Nesta entrevista ao Estado, aliás, se diverte como um Curinga ou um Lex Luthor, no melhor momento de uma carreira iniciada há 31 anos, quando, adolescente, esteve entre os alunos de Maria Clara Machado.

Podemos dizer que Caminhos do Coração se assumiu como seriado na segunda fase, como Os Mutantes?

Não, continua sendo uma novela, de segunda a sábado, capítulos de uma hora. Tem estrutura de novela com cara de seriado, porque usamos tramas que se renovam, muitos efeitos especiais. Há algo universal na psique humana: mitos. Isso me deu a certeza de que se fizesse uma história de seres com poderes especiais, teria sucesso. E esse sucesso vai aumentar.

É prova de fogo, agora que ela é exibida no mesmo horário que a novela das 9 da Globo. Como foi a decisão de levar Os Mutantes à concorrência direta com A Favorita da Globo?

Fiquei muito seguro, tirei onda de profeta. Resolvemos colocar a nossa locomotiva para disputar com a deles. Eles chamaram a locomotiva deles de A Favorita, mas nós estamos no páreo. Apesar de a concorrência ter feito campanha para desqualificar nosso trabalho. Isso me incomodou? Claro, senão não estava te falando. Mas estou feliz por estar no páreo. Antes de Os Mutantes, eles já tinham perdido 20% da audiência. Agora, devem ter perdido mais.

O que achou de A Favorita?

Uma novelinha convencional, padrão, sem novidades, medíocre, tudo é previsível. Na história que a gente está fazendo, que é uma mudança de paradigma, podemos vir sempre com novidades. Uma cientista louca criou mutantes. Por quê? Será ela extraterrestre? Terá ela contato com extraterrestres? De onde veio a tecnologia que criou os mutantes? Nessa história, o fantástico vem pelo viés da ficção científica, por isso estamos inovando com efeitos especiais.

Tudo nos Estados Unidos?

Em que melhor lugar da Terra para isso do que no país que tem o bioma mais preservado do planeta? Logo, vou com meus mutantes para a Amazônia.

Não tem pesadelos com esse bando de mutantes?

Sonhei que era perseguido, acho que pelo Metamorpho e, de repente, dava de cara com um muro. Daí, acordei.’

 

Cristina Padiglione

Brás abrigará museu

‘Há mais de dez anos em debate, a criação de um museu para nossa TV ganha, pela primeira vez, caráter concreto. Cedida pela Prefeitura de São Paulo, a Casa das Retortas, tombada pelo Patrimônio Histórico, no Brás, receberá todas as boas intenções relativas ao tema. Propostas de longa data feitas por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, a Vida Alves (presidente da Pró-TV, associação que reúne veteranos do meio) e planos da TV Cultura, que abriga boa parte do acervo restante da TV Tupi, enfim, têm um espaço para se realizar.

O lançamento do projeto será no próximo dia 30. Já as obras para erguer o Museu da Televisão Brasileira são outros quinhentos – é cedo para fazer previsão sobre a conclusão da obra.

O principal feito do novo empreendimento é a chance de se preservar a memória do País que passou por essa TV, e não foi pouca coisa, de 1950 para cá. Documentos, fotos, vídeos, publicações, tudo vale nessa conta – e há muito material armazenado por aí em caráter provisório, por falta de espaço adequado.

O novo museu será gerido por um conselho a ser composto por nomes e instituições da mídia televisiva.’

 

 

 

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