Sexta-feira, 20 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 5 E 6/7

O Estado de S. Paulo

08/07/2008 na edição 493

PROPAGANDA
O Estado de S. Paulo

Candidatos podem fazer campanha de rua a partir de hoje

‘A campanha eleitoral tem início oficial a partir de hoje. Em todo o País, candidatos a prefeito, vice-prefeito e vereador podem promover atividades de rua para pedir votos, além de organizar comícios e reuniões públicas, na tentativa de conquistar o maior número possível de votos até a disputa nas urnas, em 5 de outubro.

Em São Paulo, a maior cidade do País, disputarão os votos dos 8.197.596 eleitores a ex-ministra Marta Suplicy (PT), o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o atual prefeito Gilberto Kassab (DEM), além do deputado Paulo Maluf (PP), da vereadora Soninha Francine (PPS) e do também deputado Ivan Valente (PSOL).

Nas eleições de 2006, somente em São Paulo, cerca de 7 milhões de pessoas compareceram às urnas para escolher deputados estaduais e federais, governadores e presidente.

A partir de hoje, os candidatos podem fixar faixas, placas e cartazes em imóveis particulares, desde que sejam autorizados pelo proprietário e tenham tamanho de até 4 metros quadrados. Além disso, é permitida a distribuição de santinhos e panfletos. Entre as 8 e as 24 horas, a lei permite também atos e comícios com aparelhagem de som fixa. Já o uso de alto-falantes em veículos fica permitido das 8 às 22 horas.

A Lei Eleitoral veda, porém, a propaganda em outdoors e a distribuição de brindes, como camisetas e chaveiros, que possam proporcionar vantagem ao eleitor. Também são proibidos os showmícios e a apresentação remunerada ou não de artistas para angariar votos.

Apesar de liberada nas ruas, a propaganda eleitoral não poderá ser transmitida no rádio e na televisão. Nesse caso, os programas só começam a ser veiculados em 19 de agosto, no horário eleitoral gratuito, que termina apenas em 2 de outubro.

Partidos políticos tinham até ontem para apresentar à Justiça Eleitoral a documentação necessária para obter o registro de seus candidatos. O próprio candidato pode fazer pessoalmente o pedido até amanhã, desde que tenha sido escolhido em convenção.’

 

 

ECONOMIA
Alberto Tamer

Um alerta ao leitor e ao governo

‘Meu caro leitor, a coluna tem um aviso para dar, quase alerta. Daqui por diante, você não deverá ter notícias boas sobre a economia brasileira e mundial, mas não serão tão ruins assim. Se tudo correr bem, isso poderá durar mais este trimestre. Ou vai até o fim do ano. Sim, até lá, paciência. Mas, por favor, não se assuste. É sério, mas não é grave.

Que notícias, você deve estar perguntando, já preocupado com tudo o que está por aí? Serão mais ou menos do tipo: a economia brasileira e mundial crescem menos; as bolsas tropeçam, com grandes perdas e ganhos; os preços dos alimentos disparam aqui e no exterior; a inflação aumenta; os bancos centrais elevam os juros; o desemprego no exterior se acentua.

Será mais ou menos isso.

Mas a coluna recomenda intensamente: por favor, fique atento, mas não se desanime, não fique pensando que tudo vai piorar por um tempo sem fim e você, mais cedo ou mais tarde, acabará sendo atingido de forma insuportável.

Nada disso, leitor. Por favor, encare tudo como de fato as coisas são, o processo natural de desaquecimento de uma economia mundial que vinha crescendo muito e com muita velocidade, num curto espaço de tempo, no máximo seis anos. Na verdade, o próprio mercado vai corrigindo isso, ao lado dos bancos centrais, do Brasil, dos Estados Unidos, da Europa.

No fundo, estamos vivendo apenas uma nova fase, não uma nova era. Passa, como todos os ciclos anteriores que a economia viveu. Seria longo demais enumerá-los aqui. E agora, como vimos na última coluna, estamos bem mais preparados do que nas crises anteriores.

Resumindo, as economias brasileira e mundial vão viver, por mais alguns meses, um período de crescimento menor e inflação maior, do qual o mundo sairá com ferimentos sérios, mas não graves.

ALERTA AO GOVERNO TAMBÉM

Neste momento delicado, é essencial o papel dos governos. Deles dependerá muito a duração desse ciclo. E aqui a coluna toma a liberdade de transferir para o presidente da República o alerta que deu aos leitores. Realismo diante da verdade e sinceridade perante o público.

O governo está errando muito em seu relacionamento com a sociedade no que diz respeito à inflação. A população está meio perplexa. Presidente, uma hora o senhor acerta ao afirmar que a inflação, essa ‘desgraçada’, não pode voltar. Em outra, diz que não devemos perder nem meia hora com ela.

Talvez seus assessores o tenham alertado para diminuir o tom para não assustar muito. Não foram felizes no conselho, presidente.

O senhor deveria ter mantido a mesma linha de intransigência radical com o processo inflacionário.

A sociedade, o povo, sente na pele a inflação, sabe que todos os preços estão aumentando, sabe que esse já não é mais um problema novo, já dura meses. Quer um governo que reconheça isso abertamente e mostre qual é sua firmeza em desmontar o processo que se auto-alimenta por meio da indexação.

Esta é a maior ameaça no momento, para a qual, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, corajosamente, acaba de alertar. O governo tem de reconhecer essa ameaça, não negá-la, nem atenuá-la, como está fazendo ao argumentar que a nossa inflação é a menor entre os países emergentes.

Ora, se China, Rússia, Índia e seja lá quem for quiser uma inflação de 10% ou mais, que tenha, é problema deles, não é nosso. Cada um tem a inflação que quer, aceita e acha que pode suportar. A nossa, presidente, é 4,5% ao ano. Nem um ponto porcentual a mais. E nós a conseguimos com muito sacrifício, ao custo de juros elevados.

Quanto ao desando inflacionário dos outros, nossa estratégia é defender-nos do aumento dos preços dos seus produtos, usando as armas de que dispomos.

Presidente, um erro dos países emergentes, da China, da Rússia, da Índia, de forma alguma pode ser usado para justificar um erro nosso.

SINCERIDADE, SENHORES!

Tudo mostra que o Brasil, como o mundo, tem desafios sérios pela frente. Para enfrentá-los, é preciso sinceridade. O povo, a sociedade quer realismo, quer a verdade. E neste momento, dizê-los cabe ao senhor, presidente, ao governo. Mesmo que a verdade seja amarga, desagradável. Sem preocupações políticas que tanto prejudicam o processo econômico.

O presidente deveria declarar, em entrevista aos jornais, ao rádio e, principalmente, às televisões, que o momento é menos difícil para o Brasil do que para outros países, mas é sério.

Dizer que a economia brasileira, como a mundial, vai crescer menos, mesmo porque havia crescido muito em pouco tempo. Afirmar que a inflação é o desafio ‘número 1’ e que, para combatê-la, todos terão de pagar um preço, o sacrifício da perda de uma parte do poder aquisitivo de suas rendas, mas que isso será passageiro. Afirmar que a inflação está e continuará sendo combatida a ferro e fogo, com o governo na frente, cortando ou adiando gastos.

É preciso dizer claramente a todos que este é um momento difícil, após a euforia do ano passado, e reconhecer que a economia brasileira não estava preparada para crescer tanto em tão curto espaço de tempo. Financiamos antes mais o consumo do que a produção, gerando inflação. Isso agora está sendo corrigido.

É preciso dizer que o sacrifício é curto e os benefícios serão longos, com a retomada do crescimento de forma sustentável e sem inflação no próximo ano.

Dizendo isso, o governo estará sendo sincero, não estará mentindo e a sociedade, o povo, terá uma visão exata da realidade em que vivemos. Acreditará e vai colaborar.

O MUNDO TROPEÇOU EM SI MESMO…

Era isso que a coluna queria dizer aos leitores que, em inúmeros e sucessivos e-mails, perguntam. Afinal, o que aconteceu e por que tão de repente?

Nada grave demais, leitor. Foi apenas que a economia mundial tropeçou nela mesma, entusiasmada, como nós, com o crescimento exuberante de alguns anos. Eles, sem fôlego, levaram um tombo e estão tentando se levantar. Nós claudicamos, perdemos o passo, mas, se o governo agir certo, logo mais nos recuperamos e voltaremos a caminhar.

Enquanto isso, sem nervosismo, sem pânico, e muita calma, à espera da tempestade passar.’

 

 

TELECOMUNICAÇÕES
Gerusa Marques

Privatização faz 10 anos e o futuro é a banda larga

‘O futuro das telecomunicações está na banda larga. A frase dos especialistas em tecnologia é a síntese do que aconteceu no País após dez anos da privatização do Sistema Telebrás, que serão completados no próximo 29 de julho. Uma privatização que praticamente sepultou o telefone fixo, gerou a explosão do celular e pôs o Brasil diante de uma tecnologia que nem fazia parte das previsões de 1998 e hoje pode ser equiparada em importância e necessidade aos serviços de energia, água e saneamento.

A banda larga é uma tecnologia que amplia a capacidade das redes, aumenta a velocidade de conexão e permite grande variedade de serviços. Seja conectado a um cabo ou pelas tecnologias sem fio, o brasileiro já começa, pela banda larga, a ter acesso a pacotes de serviços – como telefonia, internet e televisão – vendidos por uma mesma operadora e recebidos muitas vezes em um único aparelho, como o computador ou o telefone celular. Virou serviço essencial e é cada vez mais usada por órgãos públicos para atender à população. Serve para conectar os bancos de dados da polícia, departamentos de trânsito, secretarias de Segurança e rede pública de saúde, sem falar nas milhares de empresas privadas e do usuário comum.

O grau de importância da banda larga pode ser medido pelo caos no qual mergulhou São Paulo, quinta-feira passada, com a pane das redes de internet da Telefônica. ‘A banda larga virou ferramenta indispensável’, avalia o ministro das Comunicações, Hélio Costa. No plano estratégico traçado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para os próximos dez anos, o objetivo principal é massificar a banda larga.

A agência estima que os acessos só nessa modalidade de internet passarão dos atuais 8 milhões para 165 milhões em 2018, pela rede fixa ou pela infra-estrutura móvel, como a terceira geração da telefonia celular (3G). ‘A mesma telefonia celular, que cumpriu a obrigação de universalização que era da telefonia fixa, vai universalizar a banda larga, principalmente com a chegada da terceira geração’, afirma Costa.

O ministro faz um balanço positivo da privatização. ‘Nós todos nos lembramos que há dez anos a gente comprava uma linha telefônica pelo equivalente a US$ 2 mil. Hoje, basta solicitar que a empresa instala.’

Esse telefone fixo, vedete do setor de telecomunicações em décadas passadas, ficou obsoleto. Nos últimos dez anos perdeu espaço para o celular, que saiu de 7,4 milhões em 1998 e alcançou no mês passado 130 milhões de aparelhos em uso – ante 40 milhões da telefonia fixa.

Portátil, livre da assinatura básica e com a possibilidade de controle de gastos no sistema pré-pago, o celular progressivamente invadiu as classes C, D e E da população. O aparelho já é ofertado de graça, mas o preço dos serviços continua alto.

INSEGURANÇA

Para o consultor Renato Guerreiro, que estava na presidência da Anatel durante a privatização, a reestruturação em 1998 é um caso de sucesso, com resultados sólidos. ‘Acho que tem mais vitórias do que a gente poderia imaginar que haveria’, disse Guerreiro, afirmando que a ‘grande beneficiária’ foi a sociedade, que passou a ter mais acesso aos serviços.

Ele lembra que, naquela época, foi feito um planejamento para orientar as ações de governo na área de telecomunicações. ‘Hoje, o setor está muito inseguro, exatamente porque falta um desenho do cenário futuro, que é de responsabilidade do Poder Executivo.’

Guerreiro avalia que o Brasil está atrasado no uso dessa infra-estrutura para o cidadão. Para ele, o Estado deve criar serviços para facilitar a vida do brasileiro, como na marcação de consultas e na matrícula em escolas, por exemplo.

Já o ex-ministro das Comunicações Juarez Quadros enxerga na privatização a alavanca de infra-estrutura que ajudou no desenvolvimento e crescimento da economia. Para aplicações mais corriqueiras, como acessar e-mails, baixar vídeos e navegar na internet, a banda larga do celular atende bem. Mas no caso de transmissões mais pesadas, acima de 3 Mbps (megabits por segundo), a rede mais apropriada é a fixa. ‘O telefone fixo está estagnado, mas a rede não.’ Ele defende uma modernização das redes das concessionárias, lembrando que em 2025 as concessões serão devolvidas à União, juntamente com as redes, para que seja feita nova licitação.

Quadros entende que a banda larga traz a necessidade de se mexer nas leis. ‘A regulação brasileira é divergente e a tecnologia é convergente. É preciso fazer uma revisão do marco regulatório, para que a convergência possa realmente acontecer. Isso é o grande desafio do legislador e do regulador.’

O deputado Jorge Bittar (PT-RJ) ressalta que a privatização modernizou a infra-estrutura e trouxe mais acesso aos serviços e mais qualidade, mas cometeu ‘uma falha gravíssima’ de abandonar a política tecnológica industrial. Segundo ele, o País hoje importa ‘tudo’ no setor de telecomunicações, o que tem um peso ‘gigantesco’ na balança comercial brasileira.’

 

 

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Impostos pesados afastam usuários

‘Os preços dos serviços de telecomunicações, principalmente os de telefonia fixa e celular, vêm sendo apontados como o entrave a vencer para ampliar e massificar o número de usuários. De olho no futuro, e com o crescimento do uso da banda larga, há ainda uma preocupação adicional: os valores de serviços prestados em pacotes, como os de internet e de telefonia fixa, e para novos produtos que surgirão com o avanço tecnológico.

O deputado Júlio Semeghini (PSDB-SP) prepara um projeto de lei para que esses produtos adicionais, prestados na mesma rede de telecomunicações, tenham tributação reduzida. ‘É importante assegurar que esses produtos não sejam tributados como telecomunicações e, sim, como serviços’, disse Semeghini. Pela proposta, sobre esses produtos, deixaria de ser aplicado o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para ser cobrado o Imposto sobre Serviços (ISS). ‘A diferença é que cai de 25% para 5%’, explica.

Essa medida, se adotada, segundo Semeghini, vai baixar preços e ampliar o uso das telecomunicações. ‘O setor vai crescer a partir da banda larga, sobre a qual vai surgir uma série de serviços novos, que vai aquecer bastante o mercado de telecomunicações’, avalia. Ele acha que o assunto deveria ter sido tratado na reforma tributária em discussão no Congresso. A medida também envolve uma disputa entre governos estaduais, que cobram o ICMS, e governos municipais, que recolhem o ISS.

‘O ICMS é muito pesado em cima da telefonia. Acho que dá para fazer uma composição de redução de custos em benefício da expansão da rede’, concorda o ministro das Comunicações, Hélio Costa.

Semeghini defende também uma revisão nos fundos de telecomunicações, para os quais as empresas têm que contribuir. O que tem maior peso é o Fundo de Fiscalização das Telecomunicações (Fistel), já que para cada celular em funcionamento, as empresas pagam anualmente R$ 13,42. Na habilitação de um novo aparelho, o valor sobe para R$ 26,83. A previsão é de que neste ano sejam arrecadados R$ 2,1 bilhões só no setor de telefonia celular, enquanto o orçamento da Anatel é de cerca de R$ 400 milhões.

O ex-ministro das Comunicações, Juarez Quadros, ressalta que a carga tributária representa, na média nacional, 43% da conta de telefone e em alguns Estados chega a 50%. ‘Tenho uma regra muito simples para baixar os preços: bastava diminuir tributo. Infelizmente, quase a metade da conta é a tributação’, afirmou.

Hélio Costa defende ainda a criação de assinatura básica mais barata para a telefonia fixa, com um telefone popular, por exemplo. No caso da telefonia celular, o ministro defende redução na taxa de interconexão cobrada entre as empresas para remunerar seus custos.’

 

 

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Jovens ‘navegam’ na praça

‘Em tempo de relacionamentos virtuais, a Praça do Riachuelo, em Manacapuru, na beira do Solimões, distante 88 quilômetros por rio de Manaus, sofreu mudanças para não perder a tradição interiorana de ponto de encontro, local onde começam e terminam casos e histórias de amizade.

Foi instalada no espaço público uma torre de 30 metros que garante internet gratuita aos freqüentadores.

Todo final de tarde, estudantes começam a chegar com seus computadores portáteis à praça. Ali, sentados em bancos e no chão, eles trocam e-mails, conversam on-line com amigos de outras cidades ou mesmo com pessoas que estão próximas, na mesma praça. O elevado preço da conta de telefone residencial ou de pacotes de internet, a companhia de amigos e a relativa distância do controle dos pais são motivos que levam os jovens a optar por ‘navegar’ na Riachuelo.

O número de internautas na praça só aumenta, segundo a prefeitura.

A praça conta com o sistema wireless, que não exige cabos para conectar um computador à rede mundial.

Mesmo com a proximidade da Zona Franca de Manaus, a maioria dos 60 mil moradores de Manacapuru não tem condições de comprar laptops. Muitos estão adquirindo aparelhos antigos, pagando em prestações.

Outros ficam ao lado dos colegas que têm computador, dando dicas nas conversas virtuais, tentando entrar de alguma forma nesse mundo, que repete práticas antigas.

No início deste ano, o prefeito Washington Régis, que firmou parceria com o governo do Estado e uma empresa de internet para instalar a torre, lembra do tempo de estudante, quando a novidade era a chegada da energia elétrica e assim, assistir televisão numa praça de Manaus. As pessoas acotovelavam-se na frente do aparelho para assistir filmes e novelas. ‘Hoje, em Manacapuru, a turma navega à vontade.’

Um dos dilemas para a instalação do sistema de internet na praça, segundo o prefeito, foi o preço dos computadores.

Estudantes chegaram a questioná-lo quando o poder público iria adotar alguma medida para facilitar a compra de laptops. ‘Antes, também perguntávamos: quando alguém poderá comprar um celular? Agora, todos têm celular em Manacapuru, qualquer pessoa simples tem um telefone de cartão.’’

 

 

TECNOLOGIA
Ethevaldo Siqueira

Máquinas superinteligentes e homens imortais

‘Ray Kurzweil é um dos raros futuristas que não fazem ficção científica, mas antecipam o que vai acontecer. Seus livros são lidos e debatidos por Bill Gates e cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e da Universidade Carnegie Mellon.

Tomei contato com a obra de Kurzweil no ano 2000 por intermédio do professor João Zuffo, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), que me sugeriu a leitura de The Age of Spiritual Machines – When Computers Exceed Human Intelligence (A Era das Máquinas Espirituais – Quando os Computadores Ultrapassam a Inteligência Humana). Não tive paciência de esperar a tradução brasileira e decidi comprar logo a edição original pela internet, devorando ainda dois outros livros desse autor incrível.

Kurzweil pensa o futuro como poucos cientistas. Ele aposta que, por volta de 2023, assistiremos à fusão do cérebro humano com os computadores. Entre 2030 e 2038, nanorrobôs circularão por nossas artérias, reparando órgãos, combatendo doenças e revertendo o processo de envelhecimento. Antes de 2040, os médicos poderão fazer cópias em computador de toda informação ou conhecimento armazenado em nosso cérebro. A vitória sobre as doenças nos tornará imortais.

TUDO MUDA EM 15 ANOS

Em seu livro mais recente, The singularity is near (A singularidade está próxima), Kurzweil prevê que o mundo daqui a 15 anos será muito diferente do atual. Nesse período, o homem poderá ter versões sucessivas de seu corpo. O primeiro poderá ser chamado ‘corpo humano versão 1.0’. Suas partes e peças serão totalmente intercambiáveis graças à nanotecnologia. A medicina terá descoberto a cura para o câncer e para as doenças do coração ou, no mínimo, poderá controlá-las em nível crônico, mas sem qualquer ameaça à vida. A ciência será capaz de deter o processo de envelhecimento e de evitar a própria morte.

Ambientes de realidade virtual serão rotineiros em nossa vida, como forma de comunicação cotidiana. Em lugar de simplesmente falar ao telefone celular, poderemos participar de um encontro virtual com nossos interlocutores e até passear com essas pessoas por praias, jardins, praças e ruas virtuais. Encontros de negócios e teleconferências entre várias pessoas serão realizados em lugares calmos, tranqüilos e inspiradores. Quando cruzarmos com um amigo ou conhecido numa rua, toda informação sobre essa pessoa será projetada em nossos óculos, como pop-ups, ou na periferia de nossa visão.

Não teremos de passar horas, sentados diante de um desktop, pois os computadores estarão distribuídos e difusos no ambiente. Seus monitores serão substituídos por projeções sobre nossas retinas ou numa tela virtual que flutua no ar.

Pessoas com mais de 50 ou 60 anos poderão fazer uma reforma geral e rejuvenescer. Os cientistas serão capazes de multiplicar nossas células e com elas formar tecidos ou mesmo órgãos inteiros, introduzindo-os em nosso corpo, sem qualquer cirurgia invasiva.

Problemas no coração? Kurzweil tem a solução: ‘A nova medicina será capaz de criar novas células do coração a partir de células da pele para depois introduzi-las em nosso sistema circulatório. Com o tempo, o próprio coração poderá ser totalmente substituído. E o resultado será um coração novo, rejuvenescido com seu próprio DNA.’

A evolução das máquinas inteligentes será extraordinária. Assim, por volta de 2020, um computador de US$ 1.000 terá um poder de processamento mil vezes superior ao do cérebro humano. Em 2035, diversas formas de inteligência não biológica alcançarão os níveis sutis da inteligência humana. Por outras palavras, o computador se tornará cada dia mais inteligente. O cérebro humano, por sua vez, poderá trocar informações com computadores, bancos de dados e demais sistemas de tecnologia da informação. Em 2045, o poder dos computadores será um bilhão de vezes superior ao do cérebro humano.

COMO ELE PREVÊ?

Ray Kurzweil diz que seu método de antecipar o futuro nada tem de ficção científica. ‘O que faço é simplesmente olhar para trás e medir o progresso computacional obtido pela humanidade ao longo do último século e, a partir daí, projetar a mesma linha de progresso para o futuro próximo. Assim, concluo que atingiremos um ponto em que a inteligência humana simplesmente não poderá sequer acompanhar o progresso dos computadores.’

Kurzweil prevê que a inteligência não biológica terá acesso ao seu próprio projeto original e será capaz de evoluir, como numa atualização automática de software. ‘Por trás de tudo isso estará a supercomputação. Um pré-requisito para o desenvolvimento da inteligência não biológica será a engenharia reversa aplicada à inteligência biológica e ao próprio cérebro humano. Esse procedimento fornecerá ao cientista uma espécie de caixa de ferramentas e de técnicas que poderão ser aplicadas nos computadores inteligentes.’

O avanço tecnológico no século 21 não será de apenas 100 anos, mas algo equivalente a 20 mil anos. Ou mil vezes o que conseguimos progredir no século 20.’

 

 

ARQUITETURA
Roberta Pennafort

O centenário de Alexandre Altberg, o Niemeyer alemão

‘Há sete meses, o Brasil comemorou o centenário de seu maior arquiteto, Oscar Niemeyer. Uma semana atrás, outro nome importante do modernismo brasileiro também completou cem anos: Alexandre Altberg, alemão que chegou ao País em 1931 e assina algumas das primeiras construções do estilo no Rio. Bem de saúde, ele acha graça do súbito interesse por sua trajetória: virou tema de documentário e estudos acadêmicos.

Quando Altberg deu vida a seus trabalhos mais importantes, de 1932 a 1936, Niemeyer – de quem lembra como ‘o rapazinho que trabalhava no escritório de Lúcio Costa’ – ainda se iniciava na profissão. Com diploma de engenheiro-arquiteto, o alemão, que havia passado pelas salas de aula da lendária Bauhaus e trabalhara com Arthur Korn, um dos nomes de maior destaque da vanguarda de Berlim, nunca teve muito contato com ele.

No Rio, onde montou o 1º Salão de Arquitetura Tropical, tinha como amigos o poeta Manuel Bandeira, os pintores Lasar Segall e Guignard e o arquiteto Affonso Eduardo Reidy (construtor do Museu de Arte Moderna da cidade). A vinda ao Brasil com a família se deu pelo fato de serem judeus numa Alemanha em plena ascensão nazista. Os pais vieram antes e se instalaram em Ipanema, então pouco povoada.

Foi no bairro e em seus arredores (Leblon, Gávea) que Altberg construiu seus prédios e casas. Alguns foram demolidos no processo de verticalização da antiga capital federal. Os oito que permanecem de pé estão descaracterizados, como o da esquina das Ruas Humberto de Campos e Joana Angélica e os três prédios geminados da Paul Redfern, em Ipanema.

DOCUMENTÁRIO

As histórias de sua vida estão sendo registradas pela jovem cineasta alemã Inken Sarah Mischke, que se encantou com ele há dois anos e, nas três vezes em que foi a Marília (SP), onde Altberg passou a morar após se casar com a atual mulher, encontrou um senhor lúcido e bem humorado. Filmou também na Alemanha.’Essa é uma história que precisa ser conhecida por alemães e brasileiros. Quero mostrar não só um retrato dele, mas o momento da chegada da modernidade ao Brasil.’ Antes dela, o arquiteto Pedro Moreira já se interessara por Altberg. Para a pesquisa de seu doutorado em História da Arquitetura, levantou a biografia dele e de outro arquiteto estrangeiro que viveu os primeiros momentos do modernismo brasileiro, o russo Gregori Warchavchic – foi dele a primeira casa no estilo da cidade, em Copacabana, em 1930.

Um ensaio seu sobre o até então desconhecido Altberg foi publicado num portal de arquitetura e o ‘revelou’ a estudiosos. Moreira e o alemão começaram a se corresponder em 2003. Detalhe: o alemão usa sempre computador. Surpreendeu-se com sua memória prodigiosa. ‘É uma pessoa em paz com a vida’, descreve o arquiteto, que está em Berlim por conta do doutorado e planeja dar início a um pedido de tombamento dos prédios. Além de seu trabalho, mais dois que contemplam Altberg estão sendo desenvolvidos: um, de um doutorando alemão que estuda em Viena; outro, de um estudante da Universidade Federal de Minas Gerais.

PRANCHETA

Ao contrário de Niemeyer, que se dedica ao ofício até hoje, o alemão largou a prancheta nos anos 40. E sofre com a deformação de seus projetos. ‘Isso me dói. É como se a gente tivesse perdido um parente.’ Por outro lado, parece não dar importância ao fato de seu nome ter permanecido à margem da historiografia oficial – embora tenha tido presença marcante nos primeiros anos do modernismo brasileiro, como editor da Base – Revista de Arte, Técnica e Pensamento, considerada revolucionária para as artes gráficas no País e cujo artigo de abertura foi assinado por Mário de Andrade.

Para Moreira, isso se deu por sua condição num país que, em 1937, entraria na ditadura do Estado Novo. ‘Altberg chegou ao Rio num período crítico da história. O Brasil começava a ter de se posicionar contra a Alemanha, e os alemães eram perseguidos. Além disso, o anti-semitismo era algo muito enraizado’, explica.’

 

 

LITERATURA
Antonio Gonçalves Filho

A Argentina em Borges

‘Os críticos, de forma geral, quase sempre ignoraram que a questão da literatura argentina é central na obra de Jorge Luis Borges, mas não a ensaísta Beatriz Sarlo, uma das vozes mais lúcidas de seu país. Segundo a professora de Literatura, que lança no Brasil seu livro Jorge Luis Borges: Um Escritor na Periferia (Editora Iluminuras, tradução de Samuel Titan Jr., 160 págs., R$ 35), não existe escritor mais argentino que Borges. Cosmopolita e universal, sua obra, segundo Beatriz Sarlo, é perturbada pela tensão entre a mistura e a nostalgia por uma literatura européia que ele não poderia viver integralmente. Como ler Borges sem remetê-lo a Martín Fierro, a Sarmiento ou a Lugones?, pergunta Beatriz Sarlo, que concedeu ao Estado a entrevista abaixo e faz amanhã, às 19h30, uma palestra no encontro Fronteiras do Pensamento Copesul Braskem, em Porto Alegre.

Mais forte que a literatura argentina, Borges quase perdeu a nacionalidade. Não ocorreria a nenhum crítico dissociar Balzac e Baudelaire da literatura francesa. Borges, ao contrário, navegou, segundo Beatriz Sarlo, na corrente universalista da ‘literatura ocidental’. Qualquer citação biográfica de Borges passa necessariamente pelo fascínio por Chesterton ou Kipling ou pela influência da literatura de Kafka, mas quase nunca por nomes como os de José Hernández, Evaristo Carriego, Macedonio Fernández ou Sarmiento, como se Borges tivesse ignorado sua dívida com a tradição literária argentina. O livro da professora argentina lembra que Borges não apenas escreveu ensaios sobre o Martín Fierro, obra maior da literatura argentina, como foi obcecado pelo poema de José Hernández. E, sobretudo, foi um autor que construiu sua originalidade por via da citação, da cópia.

Borges considerava infundada a opinião de que os escritores argentinos estavam desconectados do passado, ou seja, que houvesse uma ruptura entre eles e a Europa, porque, justamente por ser um país novo, haveria um grande sentido de tempo na Argentina. Por que a crítica insiste em tratar Borges como um escritor que nada deve à tradição literária argentina?

Não é essa a posição da crítica nas últimas décadas. Ricardo Piglia, anteriormente, sublinhou a conexão borgiana com a tradição nacional, num ensaio publicado na revista Punto de Vista. Por essa época também escrevi um artigo cujo título era Borges no Sul, um Episódio do Formalismo Criollo, acentuando a localização argentina de alguns temas de teoria literária suscitados por textos de Borges e publicados nos primeiros anos da revista que dirigia com Victoria Ocampo. Mas, mesmo antes, a professora María Teresa Gramuglio tratou da questão na leitura do livro de Borges sobre Evaristo Carriego, poeta menor que o primeiro usa quase como pretexto para expor uma teoria do bairro de Palermo. De modo que o Borges ocupado com labirintos e espelhos, ou seja, o Borges da primeira leitura crítica e das leituras européias, desde o fim dos anos 1970, adquire um novo rosto, como leitor e reescritor de alguns textos fundamentais da tradição argentina.

A senhora define Borges como escritor da periferia, um cosmopolita à margem, mas, nos capítulos finais de seu livro, apresenta o lado político-filosófico do escritor em termos universais. Há algum projeto de desenvolver esse aspecto particular num próximo livro sobre ele?

Creio, com efeito, que meu propósito de reinscrever criticamente Borges na literatura argentina, como matriz formal e ideológica dessa mesma literatura, como o escritor que inventa ou descobre a centralidade do marginal, só quase no final do livro que está sendo lançado no Brasil considera as figurações borgianas com respeito à ordem, em especial no capítulo sobre O Informe de Brodie. Nesse momento, já acertadas as contas com o Borges fundador das margens ‘criollas’ de Buenos Aires, parece-me que poderia voltar a contos como O Imortal para ver de que modo outras imagens da cidade, mais abstratas e universais, podem ser representadas na literatura. Precisamente é esse o conto que estou relendo neste momento, ao lado de Abenjacán, el Bojari Muerto en Su Laberinto.

Um dos temas mais interessantes de seu livro é a construção da originalidade de Borges, paradoxalmente por meio da cópia, da reescrita de textos alheios. Essa seria uma insinuação de que a veracidade literária representaria uma ficção para Borges, considerando seu pouco apreço pela literatura realista?

A idéia de veracidade é, em si mesma, uma idéia a que estamos acostumados a encontrar nas poéticas realistas, vale dizer, nos textos que se propõem uma representação cujas origens seriam exteriores à literatura: ou seja, uma representação heterônoma. Borges, ao contrário, está profundamente convencido da autonomia do literário, de sua independência a respeito dos referentes sociais diretos. O literário, em Borges, entra em relação com o social por meio da própria literatura, numa cadeia que vai de texto a texto. A dimensão social da literatura não provém de sua relação direta com uma exterioridade social, mas de uma trama social de discursos, geralmente literários, mas não apenas literários. Ou seja, para ele, a relação é sempre entre discursos, ficções. A verdade dessas ficções não responde nem a uma lógica da verossimilhança realista nem à lógica da acumulação de referências ‘verdadeiras’, mas a uma lógica mais abstrata, por um lado de grandes categorias e, por outro lado, de argumentos cuja estrutura seja perfeita e fechada. Nesse sentido, a literatura fantástica de Borges é sempre racionalista, diferentemente, por exemplo, da literatura de Cortázar.

A representação de Buenos Aires por Borges, a partir de sua invenção da periferia, é um aspecto pouco analisado pela crítica internacional. Por que a descrição de Borges tende a retratar Buenos Aires com ares do passado, uma cidade impermeável à modernidade, ao contrário da Buenos Aires de Arlt?Borges pretendia fazer uma nova leitura da tradição ou simplesmente tinha nostalgia do século 19?

Borges lembra da cidade de sua infância e, quando volta a Buenos Aires no começo dos anos 1920, frente a uma cidade real em processo de modernização, coloca em seu lugar uma cidade lembrada e imaginária sem vestígios dessa modernidade. Sabe, contudo, que essa cidade está desaparecendo e que, portanto, há que buscá-la nas figuras do bairro e da periferia urbana. Como muitos modernos, Borges não tem vocação futurista, diferentemente de Roberto Arlt. A tecnologia, que para Arlt define a época, não desperta o menor interesse em Borges. Ele, ao contrário de Bioy Casares em A Invenção de Morel, jamais escreveu algo que pudesse evocar as tramas da ficção científica. São sensibilidades diferentes. É mais provável que um escritor da elite tivesse uma perspectiva nostálgica; e que um escritor filho de imigrantes como Arlt seguramente pudesse se ligar melhor ao radicalmente novo. É admissível essa hipótese sociológica, mas, de todas as maneiras, não explicaria o gosto de Borges por ficções cujo motor narrativo fossem as invenções técnicas.’

 

 

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Martín Fierro, regional e universal

‘Na continuação da entrevista, a ensaísta Beatriz Sarlo, autora de Jorge Luis Borges – Um Escritor na Periferia , fala da relação de Jorge Luis Borges com a modernidade européia dos anos 20 e com a cidade de Buenos Aires.

Borges transforma Martín Fierro e subverte o clássico da literatura argentina ao parafrasear e recontar sua história. Isso significa que Borges não concebia Martín Fierro como obra autônoma da tradição ‘criolla’, tendo de misturar essa tradição com a herança literária européia?

Borges disse certa vez que no Martín Fierro e na Odisséia estavam todas as histórias. A frase, um pouco hiperbólica, dá a Martín Fierro uma centralidade na tradição ocidental reconhecível apenas por Borges. Contudo, a frase não é hiperbólica na tradição argentina, cujos dois grandes textos do século 19 são Martín Fierro e Facundo, bastante próximos da época de Borges e separados apenas por quatro ou seis décadas. Sobretudo, estavam muito próximos das tradições culturais da família de Borges, que desaprovava Martín Fierro, em especial pelas idéias políticas de seu autor, José Hernández, e também pelo caráter briguento e valentão de seu personagem, indigno de representar o ideal ‘criollo’ para muitas pessoas do fim do século 19. Ao optar por Martín Fierro sem renunciar à simpatia por outros poemas gauchescos, Borges faz uma escolha determinada pela qualidade do texto, que obriga um escritor argentino das primeiras décadas do século 20 a adotar uma posição frente à alcançada por Hernández. Como diria Harold Bloom, para Borges, é o ‘poeta forte’ que se precisa corrigir ou completar para conjurar o perigo da influência.

Borges escreveu que Buenos Aires precisava de fantasmas, o que explicaria sua preocupação com a pobreza mítica da cidade e a ameaça da perda de sua identidade por conta do avanço da modernidade. Essa busca por mitos ancestrais seria resposta a uma certa desilusão com a modernidade européia que acabara de testemunhar na Europa dos anos 1920?

Com efeito, como muitos modernos, Borges é um antimoderno: está contra as democracias de massas, qualquer que seja sua linha, e contra a vulgaridade de um capitalismo que já havia arrasado com todos os valores tradicionais. A reação contra a modernidade é um capítulo importante da própria modernidade e Borges, sem dúvida, ocupa um lugar nesse capítulo. O mundo desencantou-se – não há fantasmas nem mitos, acredita Borges, sem observar a emergência de novos mitos e fantasmas; a ordem foi aniquilada; a sociedade tornou-se plebéia e desordenada. Frente a esse diagnóstico, o liberalismo conservador é, finalmente, o continente ideológico dentro do qual Borges se inscreve, ainda que sempre pareça impossível inscrevê-lo em alguma parte.

Seu livro termina com uma análise de O Informe de Brodie, mas, a despeito da comparação entre Swift e Borges, o último teria sido irônico com a expedição do missionário escocês. Borges pretendia mostrar que a saída para a nossa civilização da desordem estava na razão?

Borges acreditava que havia uma saída na razão e que essa saída poderia tornar-se um pesadelo. Borges é sempre agnóstico e pessimista. Talvez por isso, pela ausência do otimismo histórico, seja sempre inteligente, como muitos pessimistas. Se há algo distante do ethos de Borges é a idéia da consolação e reconciliação.

O que é

Publicado no fim do século 19, Martín Fierro é um poema épico em que o autor José Hernández protesta contra as tendência europeizantes do presidente Domingo Faustino Sarmiento. Em duas partes, a obra evoca a colaboração dos gaúchos (argentinos da região dos Pampas) na luta pela independência do país.’

 

 

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Em defesa dos livros, autor pede pela ‘não-leitura’

‘Pierre Bayard é um psicanalista que trocou o divã pela cadeira de professor de Literatura na Universidade de Paris. Lá, ele ensina seus alunos a ler com liberdade e mesmo a falar de livros que ignoram. Parece absurdo? Não para quem escreveu o best-seller Como Falar dos Livros Que Não Lemos? (Objetiva, 210 págs., R$ 29,90, tradução de Rejane Janowitzer). Nele, Bayard, que participa hoje, às 10 horas, de uma conversa com o jornalista Marcelo Coelho, na 6ª Festa Literária Internacional de Paraty, conta como a ‘não-leitura não significa a ausência de leitura’, mas uma maneira de se organizar diante de uma biblioteca infinita cujos títulos a sociedade impõe como obrigação a estudantes e intelectuais. Livros foram escritos para serem reinventados, defende Bayard, lembrando que Montaigne fazia anotações na última página dos livros que lia para não esquecer do que se tratavam. Em tempo: ele concorda com Oscar Wilde. Bayard jamais leria um livro do qual tivesse de escrever a crítica. É facilmente influenciável.

Em seu livro, o sr. diz que vivemos ainda em uma sociedade na qual a leitura continua sendo objeto de sacralização. Devemos evitar, então, a imposição de ler?

Quando o livro saiu na França, um amigo lembrou que ele seria lido de outra maneira em países como os EUA, por exemplo, onde não há o mesmo sentimento de sacralização da leitura como na França. Queria demonstrar que uma forma de sacralização pode desencorajar pessoas a ler, porque, fora do mundo intelectual, o livro se apresenta como algo aterrador, um objeto que dá medo, algo que se deve ler da primeira à última linha. Nós, grandes leitores, sabemos que existem diversas maneiras de ler um livro. Em meu livro, defendo ser até desejável não ler um livro inteiro e, eventualmente, sequer abri-lo.

Logo no primeiro capítulo de seu livro o personagem do bibliotecário de O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil, é evocado como exemplo de um homem que passa a vida inteira rodeado de livros, sabe tudo sobre a biblioteca e nada em particular sobre cada um de seus volumes. O senhor admite ser um pouco como ele, diz que nunca conseguiu concluir a leitura de Joyce, preferindo ler Proust. Como decidir entre um autor e outro? Por que Proust, e não Joyce?

É verdade que nunca terminei a leitura do Ulisses de Joyce, mas concluí a obra completa de Proust, o que nos remete à questão anterior, sobre a sacralização da leitura. Eu deveria ler Joyce por obrigação, pois sou professor de literatura, mas não tenho vergonha em declarar minha não-leitura. É o sentimento de culpa que faz as pessoas lerem livros que não são importantes para ela, mas para os outros. Desse sentimento surge, então, uma espécie de traumatismo cultural. O meu não é um livro que pretenda desestimular a leitura, mas mostrar que existe mais de uma maneira de não ler, como o bibliotecário de Musil, porque a ‘não-leitura’ não é ausência de leitura. É uma atividade que pode ser ensinada, encorajada, de uma maneira um pouco mais livre do que ensinam as escolas, obrigando alunos a fazer fichas de livro. Não comecei a ler Proust por obrigação, mas por identificação.

Proust, em Contre Sainte-Beuve, defende uma teoria segundo a qual uma obra literária é o produto de um eu diferente da pessoa que conhecemos. Isso significaria que toda criação literária leva inevitavelmente ao engano, às vezes a uma separação radical entre autor e obra?

Estou totalmente de acordo com Proust não só sobre essa separação radical, mas sobre as modificações que vão sendo introduzidas a cada nova leitura, como se o leitor reinventasse o livro que lê, por força da sua imaginação.

Valéry, que não era grande leitor de Proust, falava com muita propriedade da sua obra. Nesse caso, não seria o excesso de imaginação que o levou a desconfiar do autor e a confiar na obra?

Valéry pode ter lido pouco Proust, mas isso não o impediu de ter opiniões precisas sobre ele, algo reservado apenas aos grandes leitores. Lembro de uma anedota que contam a respeito da morte de Proust, quando Valéry, encarregado de fazer seu elogio fúnebre na Nouvelle Revue Française, reconhece que mal conhece um único volume de Em Busca do Tempo Perdido, mas explica com habilidade como o valor de sua obra está diretamente relacionado com a capacidade de poder ser aberta em qualquer página. Ele explica o todo pelo fragmento. É o conjunto de todos os livros que conta, não um livro específico, como no caso do bibliotecário de Musil.

Mas Valéry não seria um caso singular, um leitor de uma intuição tamanha que não comportaria uma explicação racional?

Não. Há, sim, uma explicação: Valéry escapou das imposições, da culpa provocada pelas ‘fichas de leitura’ das escolas, argumentando que não só o autor é inútil como sua obra pode ser excessiva. Não é preciso saber em detalhes o que acontece com este ou aquele personagem ou suas motivações. Antes de tudo, Valéry tinha imaginação e, ao folhear os livros, transformava os personagens à sua maneira. Valéry foi, diria, um leitor ‘selvagem’, um leitor que não guarda traços de sua leitura, como foi Montaigne.

Um dos exemplos evocados para mostrar como a leitura de um livro pode ser perigosa e colocar em risco a criação literária universal é o livro de Aristóteles que provoca todos aqueles assassinatos em O Nome da Rosa. Qual seria, para o senhor, o livro que desestabilizaria a biblioteca universal?

Pensemos em livros como a Bíblia ou o Alcorão, cujo conteúdo integral até mesmo leitores cultivados ignoram. Os intelectuais referem-se a eles com certa liberdade mesmo assim, pois são livros importantes. O livro de Eco mostra que os livros de que falamos não têm muita coisa a ver com os livros reais. Há um espaço intermediário entre o ler e o não-ler. Mas, respondendo diretamente à sua pergunta, creio que a obra desestabilizadora dessa biblioteca é Em Busca do Tempo Perdido, de Proust.

Ao falar de Graham Greene e de seu livro O Terceiro Homem, o senhor assume que passou por situação semelhante ao pesadelo do personagem Rollo Martins, um escritor de livros populares de faroeste que se vê diante de uma platéia intelectualizada e disposta a massacrá-lo com perguntas dirigidas a um autor homônimo com o qual é confundido. Para o senhor, há dificuldade em falar de livros que não leu? Tem alguma identificação com o personagem de Greene?

Sim, eu também sou autor de livros policiais populares e é muito difícil escrever livros populares, especialmente quando se revela o assassino na primeira página. Como professor, já experimentei a mesma sensação de ter de comentar livros que não havia lido e é justamente por isso que meu ensaio dedica-se à dessacralização da leitura.’

 

 

REVISTA
Francisco Quinteiro Pires

Granta mostra as ricas ligações entre viagem e imaginação

‘A vida pode ser uma teia de problemas. Cedo ou tarde, cada indivíduo tem a sensação de ficar preso à trama da existência – como um insetozinho descuidado na rede de uma aranha. Daí resta se desesperar. Ou viajar. Que fique claro: a viagem pode ser tanto a concreta, na qual se visitam lugares reais, ou a imaginária, em que o espírito é que escolhe o itinerário e o destino.

Com o tema viagem, a revista Granta em português chega à segunda edição. Em 11 textos, os fatos se misturam à ficção, como se tornou regra na edição inglesa do periódico.

Diante da teia existencial em que o homem em algum momento se enreda, por vezes a razão e a emoção não se apresentam como alternativas muito úteis. E o que resta ao enredado? Imaginar. Segundo o dicionário, imaginação tem os seguintes significados: a capacidade de evocar imagens de objetos anteriormente percebidos ou a capacidade de formar imagens originais. As duas definições se casam à perfeição com os textos de Granta: eles transitam no eixo entre a ficção e o jornalismo literário. O exercício da memória, e não só o da imaginação, tece os fios das diversas narrativas.

Granta (Alfaguara, 277 págs., R$ 36,90), ao trazer o tema Longe Daqui ensina: viajar não é o turista reconhecer os pontos turísticos vistos anteriormente em fotos, quando os visita, coisa comum hoje. Viajar é criar, é narrar ora o vivido, ora o imaginado, tanto no deslocamento como no sedentarismo. Walter Benjamim falava que o marujo comerciante e o camponês sedentário estão na origem de todos os narradores. (Em tempo: narrar, na raiz, quer dizer conhecer.)

O último é o caso de Parasitas e Hospedeiros, capítulo de um romance inédito do quadrinista Lourenço Mutarelli. Ele passou um mês em Nova York, cenário do livro que vai publicar neste ano. O que ele sentia era cansaço e vontade de regressar à casa. Diante da viagem inevitável, aceitou o desafio de imaginar.

Autor de Meu Primeiro Europeu, texto que abre a revista, o americano Edmund White conta como transformou a saída dos EUA para morar na Europa em um rito de passagem para outra realidade. Desvencilhando-se do provincianismo dos EUA e depois de conhecer um amigo culto, ele se tornou mais apto a encarar um mundo mais matizado e rico do que aquele que ele imaginara antes de sair do seu país.

Clássico do jornalismo de guerra, A Queda de Saigon, de James Fenton, fecha a edição. Ele é o exemplo do envolvimento entre o narrador e os fatos, sem prejuízo do talento de narrar boas histórias. Fenton relata os últimos dias da cidade antes da chegada, em 1975, dos norte-vietnamitas, com quem o inglês simpatizava. Em Sintra, o cineasta Cacá Diegues rememora a viagem à cidade portuguesa para trazer o amigo Glauber Rocha de volta ao Brasil: era um complô, com João Ubaldo Ribeiro e Jorge Amado, para convencer o autor de Terra em Transe a se tratar num hospital do País. Diegues revive um sonho mais longo do que o período em que conviveu com um Glauber ainda consciente.

Enquanto Arnaldo Jabor fala da sua primeira ‘viagem’ com ácido, uma fuga das violências da ditadura militar, o escritor Ricardo Lísias inventa um personagem que corre para Buenos Aires a toda angústia que o ataca. Sua identidade vai se desdobrando, à medida que irrompem acessos de angústia ao se encarar no espelho pela manhã.

Granta – Longe Daqui insinua que, mais do que viajar de fato, a vida é mesmo imaginar.’

 

 

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Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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