Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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O Estado de S. Paulo

26/08/2008 na edição 500

MÍDIA & HISTÓRIA
Márcia Vieira

FGV prepara dicionário da Primeira República

‘O Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, lançado em 1983 com suas 6.211 páginas em 5 volumes que reúnem os personagens mais importantes no País de 1930 a 2001, é um sucesso de crítica e venda. Suas duas edições, num total de 5 mil exemplares, estão esgotadas. É uma das dez obras mais consultadas na Biblioteca Nacional, no Rio. Em um ano vai estar todo disponibilizado na internet.

Diante do sucesso, o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), responsável pelo trabalho, prepara uma nova empreitada. Alzira Alves de Abreu, que coordenou as duas edições, está organizando outro dicionário. Desta vez, todo dedicado à Primeira República (1889-1930), um período que ela considera injustamente desprezado pelos brasileiros.

Entusiasmada com as descobertas que tem feito sobre a época, Alzira se recusa a chamá-la de República Velha, designação consagrada nos livros escolares. ‘Chamando assim parece uma coisa sem valor. E não se trata disso’, defende. ‘A Primeira República é o momento da consolidação da nação brasileira. É a formação da identidade do Brasil. Este ano, com a comemoração dos 200 anos da chegada da Família Real ao Rio, só se falou de Império. Acho ótimo. Mas e a Primeira República?’, provoca.

O dicionário vai da proclamação da República à Revolução de 30. Passa por altos (a Semana de Arte Moderna, por exemplo) e baixos (o fracasso da política econômica de Rui Barbosa, o Encilhamento) do período. Foram anos em que brilharam Santos Dumont, Monteiro Lobato, Oswaldo Cruz, Rio Branco. Anos de acontecimentos importantes como a Guerra de Canudos, a Coluna Prestes, a Revolta da Chibata. E de episódios pitorescos, como o das ‘cartas falsas’, supostamente escritas por Artur Bernardes, então candidato à Presidência da República, e publicadas no jornal Correio da Manhã. ‘Nestas cartas, dizia-se as piores coisas dos militares’, lembra Alzira (veja quadro nesta página).

Foi na Primeira República que o Brasil definiu todas as suas fronteiras. ‘Os acordos garantindo o Brasil de hoje foram assinados neste período. Foi nesta época também que jornais importantes foram fundados. Um tempo em que a caricatura e a charge tinham uma força extraordinária na imprensa.’ Tudo isso vai estar no dicionário em cerca de 3 mil verbetes escritos por Alzira e outros pesquisadores do CPDOC.

Alguns serão entregues a especialistas. Alzira quer um economista para explicar o que foi o Encilhamento, política econômica de Rui Barbosa para incentivar a industrialização que acabou provocando alta da inflação. Para isso, sonha com Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central no governo Fernando Henrique Cardoso. Cristina Patriota, filha de Antônio Patriota, embaixador do Brasil em Washington, vai escrever sobre Rio Branco. ‘Ela fez uma tese de doutorado sobre ele. Não conheço ninguém melhor para escrever sobre Rio Branco.’

Mergulhar no passado mais distante é muito mais fácil do que escrever sobre a história recente, como no dicionário que cobre o período de 1930 a 2001. ‘Primeiro porque a bibliografia está mais consolidada. Já sabemos quem foram os bons historiadores que trabalharam com o período. E a gente não tem tanto envolvimento político e ideológico com o biografado. Isso sempre atrapalha.’

Alzira controla essas interferências com mãos de ferro. Foi assim no dicionário anterior. ‘Nós, pesquisadores, temos que ser isentos. Não somos juízes da história. O CPDOC não é um tribunal. Brinco que agora ninguém vai nem pensar em denegrir a imagem de Rui Barbosa ou de Hermes da Fonseca. Então vai ser mais tranqüilo.’

O dicionário da Primeira República vai consumir três anos de trabalho e R$ 400 mil, verba liberada pelo Fundo de Financiamento de Estudos e Projetos (Finep), do Ministério da Ciência e Tecnologia. O grande orgulho de Alzira e da equipe do CPDOC com os dicionários é democratizar o conhecimento. ‘As informações sobre a história do Brasil ficavam muito restritas aos especialistas. O que nós queremos é que qualquer leigo possa consultar e descobrir que história é essa a do nosso País.’’

 

 

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‘Cartas falsas’

‘‘Em 9 de outubro de 1921, o jornal Correio da Manhã publicou na segunda página, um artigo com o título ?Injurioso e Ultrajante? e ao final do artigo aparece a reprodução da primeira das duas ?cartas falsas?, supostamente escritas por Artur Bernardes, candidato à Presidência da República, dirigidas ao senador Raul Soares, nas quais era questionada a integridade moral das Forças Armadas. No dia seguinte o jornal publicou a segunda carta com ofensas a Nilo Peçanha. Os jornais a partir da publicação das cartas passaram a dar grande espaço ao assunto. Os debates que provocou na Câmara dos Deputados, no Senado, na Assembléia Fluminense, o pronunciamento de políticos, militares, juristas, foram divulgados com destaque pela imprensa. Os jornais, de acordo com o seu posicionamento político, deram voz aos que eram a favor ou contra a veracidade das cartas.

Para entendermos o significado dessas cartas, e o papel político que elas tiveram, é preciso explicar o momento político e as transformações que ocorriam na sociedade brasileira. Esse período é caracterizado por uma grande instabilidade política, quando apareceram de forma mais nítida as disputas e conflitos entre as oligarquias e o descontentamento dos militares e dos setores urbanos com a forma como se dava o encaminhamento das questões políticas. O funcionamento do sistema eleitoral provocava grande descontentamento entre determinados setores da sociedade. As eleições sofriam com a falsificação das atas eleitorais, com a alteração do número de votantes, com o controle do voto do eleitor, além da Comissão de Verificação de Poderes do Legislativo federal ou estadual, que podia eliminar um candidato eleito. As eleições eram geralmente fraudadas tanto para os poderes federais, estaduais e municipais. Nas eleições de 1922 teve início o processo de ruptura política que iria desembocar na Revolução de 1930.

Após grandes debates e o envolvimento da imprensa, de políticos, militares, juristas, os falsificadores se apresentaram. A publicação das ?cartas falsas? serviu de elemento de aglutinação de todas as forças descontentes com a política praticada na época. Ajudou a união dos jovens militares, os tenentes, que vão liderar a Revolução de 1930’’

 

 

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Entre principais fatos, Encilhamento e Canudos

‘PRIMEIRA CONSTITUIÇÃO REPUBLICANA

‘24 de fevereiro de 1891. Inspirada no modelo norte-americano. Consagrou a República federativa. Estabeleceu o sistema presidencialista de governo e eleições pelo voto direto e universal. Estado e Igreja passaram a ser instituições separadas. Deixou de existir uma religião oficial no Brasil.’

ENCILHAMENTO

‘Denominação dada à política financeira instituída pelo ministro da Fazenda Rui Barbosa, destinada a fomentar a industrialização e baseada na emissão de papel-moeda por vários bancos lastreado com títulos da dívida pública. A medida provocou o jogo na Bolsa de Valores, cuja agitação foi comparada à do momento de encilhamento dos cavalos logo após a largada na pista dos hipódromos, quando a atividade dos apostadores se torna frenética. No início de 1891 veio a crise, o valor da moeda brasileira começou a despencar. As conseqüências foram a alta da inflação e especulação desenfreada.’

REVOLTA DE CANUDOS

‘Rebelião popular de cunho messiânico liderada por Antônio Conselheiro, iniciada no sertão baiano em novembro de 1896. O governo teve que enviar inúmeras expedições militares para debelar o movimento, até esmagá-lo em outubro de 1897. Antônio Conselheiro convocava a população a construir igrejas, levar uma vida ascética. Pregava a volta da monarquia.’

REVOLTA DA CHIBATA

‘Revolta dos marinheiros que ocorreu em navios da Armada em novembro de 1910, sob a liderança do marinheiro João Cândido, em protesto contra os castigos corporais e reivindicando melhores vencimentos. Foi seguida, dias depois, de uma revolta do Batalhão Naval, sendo reprimidas com muita severidade (a Câmara aprovou anistia póstuma a João Cândido)’

GUERRA DO CONTESTADO

‘Rebelião popular de cunho messiânico ocorrida na região fronteiriça do Paraná com Santa Catarina, cuja posse era disputada pelos dois Estados. A partir de outubro de 1912, o governo enviou sucessivas expedições militares para debelar o movimento, até esmagá-lo em 1916.’

REAÇÃO REPUBLICANA

‘Movimento formado em 1921, com o apoio dos Estados da Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul para lançar o candidato Nilo Peçanha em oposição a Artur Bernardes. A Reação Republicana teria surgido das dissidências oligárquicas que não estavam diretamente ligadas à cafeicultura e se mostravam contrárias à política de valorização do café.’

COLUNA PRESTES

‘Liderada por Luis Carlos Prestes e Miguel Costa, a Coluna percorreu 13 Estados a partir de outubro de 1924 dando combate às tropas legais, até internar-se em 1927 na Bolívia, depois na Argentina e no Uruguai. Em 1931, Prestes foi morar na antiga União Soviética e só em 1934 entrou para o Partido Comunista, fundado em 1922.’

SEMANA DE ARTE MODERNA

‘Realizou-se em 13, 15, 17 de fevereiro de 1922, quando escritores, poetas e músicos como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Villa-Lobos apresentaram a arte moderna ao público, causando escândalo.’

FEDERAÇÃO BRASILEIRA PELO PROGRESSO FEMININO

‘Movimento feminista criado em 1922 por Berta Lutz. Uma das reivindicações do movimento era o direito ao voto feminino, o que foi alcançado em 1934.’’

 

 

INTERNET
Renato Cruz

Em Minas, o cérebro do Google no Brasil

‘Berthier Ribeiro-Neto, professor licenciado da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é co-autor de Modern Information Retrieval. O livro sobre recuperação de informação é adotado pelos cursos de ciências da computação das mais prestigiadas universidades americanas, incluindo Stanford, onde estudaram os fundadores do Google, Larry Page e Sergey Brin. ‘Recebemos visita de americanos que pedem autógrafo para ele’, afirma Alexandre Hohagen, diretor-executivo do Google para a América Latina.

Ribeiro-Neto, de 48 anos, é o diretor de engenharia da gigante das buscas na região e comanda um laboratório com cerca de 80 pessoas, sendo 50 engenheiros, em Belo Horizonte. O centro de engenharia foi criado a partir da Akwan, uma empresa brasileira de buscas de que o professor foi um dos fundadores. Recentemente, o laboratório de Belo Horizonte se tornou responsável pelo desenvolvimento mundial do Orkut, serviço de rede social que se tornou o site mais visitado do Brasil.

Ao ser perguntado sobre os autógrafos aos colegas gringos, Ribeiro-Neto desconversa: ‘Existe uma concentração tão grande de inteligência no Google que você fica humilde rapidamente’. A Akwan foi criada em 2000 por quatro professores da UFMG – Alberto Laender, Ivan Moura Campos, Nivio Ziviani e Ribeiro Neto – e dois investidores – Guilherme Emrich e Marcus Regueira.

O sistema de busca nasceu como um projeto do Departamento de Ciência da Computação. Em novembro de 1999, foi lançado um protótipo na web, chamado TodoBR, que começou a atrair um volume grande de usuários, mesmo sem divulgação. A Akwan licenciou a tecnologia da universidade e começou a oferecê-la para clientes.

‘Nosso modelo era diferente do Google’, explica Ribeiro-Neto, em entrevista por videoconferência. ‘O modelo do Google é mais parecido com o da Rede Globo ou do Estadão, em que o serviço é gratuito e as receitas vêm da venda de publicidade. O modelo da Akwan era de venda de serviços de máquina de busca para outras empresas, que pagavam uma mensalidade, como na TV a cabo.’

Parte do trabalho do laboratório do Google em Belo Horizonte consiste em adaptar os serviços da empresa para a região. Eles criaram versões do Google Maps em que os usuários buscam rotas e endereços, para o Brasil e outros países da América Latina. Eles desenvolveram serviços do Orkut para o celular. ‘Precisamos integrar sistemas das operadoras com os do Google, o que exige uma interação local.’

Outra parte do trabalho, no entanto, é adotada em escala global. Os pesquisadores de Belo Horizonte criaram, por exemplo, uma solução que melhora a qualidade do resultado das buscas em língua não-inglesa. ‘Quando começamos a melhorar a busca para o Brasil, percebemos que, quando o usuário digitava, por exemplo, MP3, apareciam entre os primeiros resultados três sites em chinês e três em alemão, que eram pouco relevantes para o brasileiro. Nós encontramos a solução, que foi adotada em outros países’, disse o professor.

Antes de comandar o laboratório do Google, Ribeiro-Neto era diretor-executivo da Akwan. Quando criaram a empresa, os quatro professores da UFMG acharam que conseguiriam tocar a Akwan à distância, mantendo suas atividades na universidade, mas logo descobriram que não ia dar certo. Ribeiro-Neto acabou tirando uma licença não-remunerada do departamento, para tocar a empresa.

‘Foi uma transição de amplo risco’, diz o professor. ‘Na época, resolvi pensar na experiência, e não no sucesso. Eu pensei: ?Vamos entrar nessa empreitada e muito provavelmente vamos falhar, mas eu serei um professor muito melhor quando voltar para a universidade?.’

A Akwan acabou se provando um grande sucesso, que atraiu a atenção da maior empresa de buscas do mundo. A companhia mineira foi vendida para o Google em julho de 2005, por um valor não-divulgado. ‘Nesse caso, o risco maior foi o choque de culturas’, explica Ribeiro-Neto. ‘Por uma coincidência feliz, não aconteceu conosco. As duas empresas nasceram em universidades, eram animais com o mesmo DNA.’

No caso do Orkut, o desafio, segundo o diretor do Google, é decidir como o serviço vai evoluir. ‘É como um barzinho, onde vai muita gente, que precisa se reinventar para manter o interesse’, exemplifica. O laboratório brasileiro vai compartilhar o trabalho no Orkut com a Índia, país onde o serviço de rede social também faz bastante sucesso. Nos Estados Unidos, onde foi criado, o Orkut não está entre os mais usados.

Segundo o professor, sua principal missão à frente do laboratório é resolver as questões administrativas, para dar tranqüilidade para os pesquisadores trabalharem. ‘O laboratório parece uma comunidade universitária, a estrutura é muito horizontal’, explica. Segundo ele, o crescimento da equipe depende do interesse da empresa nos candidatos que se apresentam. ‘Sempre que aparece um candidato muito interessante, fazemos uma oferta.’’

 

 

 

TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO
Ethevaldo Siqueira

Novo telescópio busca a origem do universo

‘Imagine, leitor, a reação de Galileu se renascesse hoje e pudesse comprovar o progresso da astronomia nos últimos 400 anos. Mais ainda: se tomasse conhecimento do projeto do Telescópio Espacial James Webb, sucessor do Hubble, cujo objetivo principal será revelar as origens do universo, a partir do estudo das primeiras estrelas, galáxias e outros corpos celestes mais distantes.

O novo telescópio espacial deverá ser posto em órbita em junho de 2013, por um foguete Ariane 5, a partir da Base de Kourou, na Guiana Francesa, num projeto de colaboração internacional entre a Nasa, a Agência Espacial Européia e a Agência Espacial Canadense. O nome James Webb é uma homenagem ao administrador da Nasa, da primeira fase do Projeto Apollo, de 1961 a 1968.

Orçado em US$ 5 bilhões, o novo telescópio espacial tem algumas características únicas, como o espelho principal ultraleve, de berílio, com 6,5 metros de diâmetro e distância focal de 131,4 metros. Ou suas 4 câmeras infravermelho ultra-avançadas, que lhe permitirão fotografar objetos nos confins do universo, a 13 ou 14 bilhões de anos-luz de nós.

Além de pesquisar os limites do tempo-espaço e as origens do universo, o novo telescópio tem outras missões específicas como: 1) identificar e fotografar as primeiras galáxias ou objetos luminosos formados logo após o Big Bang; 2) determinar como as galáxias evoluíram desde sua formação até hoje; 3) observar o nascimento de estrelas desde os seus primeiros estágios até a formação de sistemas planetários; 4) identificar e medir as propriedades físicas e químicas dos sistemas planetários; 5) pesquisar o potencial para formação da vida naqueles sistemas.

A ÓRBITA L2

Para obter os melhores resultados de suas observações, o telescópio espacial deverá estar situado num ponto em que a atração da gravidade dos três corpos celestes – Sol, Terra e Lua – se equilibra ou se anula. Esse ponto se chama L2 (Ponto de Lagrange 2). Nele, o telescópio permanecerá indefinidamente ou girará em torno do próprio ponto L2.

Em 2013, o James Webb será posto numa órbita muito mais alta que a de qualquer satélite, equivalente a 4 vezes a distância da Terra à Lua, a cerca de 1,5 milhão de quilômetros, fora, portanto, do alcance das missões de serviço e reparos feitas pelos ônibus espaciais.

Foi o matemático ítalo-francês Joseph Louis Lagrange que, por puro amor à ciência, no início do século 19, determinou cinco pontos no espaço – de L1 a L5 – nos quais a atração da Terra, do Sol e da Lua se equilibra ou se anula.

O James Webb fará primordialmente observações na faixa de luz infravermelha dos objetos mais distantes e de visibilidade mais difícil. A fim de evitar a incidência direta da luz solar e o aquecimento dos equipamentos mais sensíveis, o telescópio utilizará uma placa de proteção de 200 metros quadrados – do tamanho de uma quadra de tênis – que funcionará como uma espécie de toldo ou teto, para manter conjunto à sombra, a temperaturas próximas do zero absoluto e conferir ao observatório espacial uma extrema sensibilidade à luz infravermelha.

O VELHO HUBBLE

O saldo de realizações do Hubble, ao longo de 18 anos de atividade, é imenso: o telescópio espacial calculou com precisão a idade do universo, descobriu evidências da energia negra e trouxe-nos centenas de milhares de imagens de galáxias distantes no universo jovem, forneceu aos cientistas uma massa de informações milhares de vezes maior do que tudo que a humanidade conhecia até a data de seu lançamento, em 1990.

No final deste ano, uma equipe de astronautas viajará até o Hubble no ônibus espacial Atlantis para executar a quarta e última missão de serviço, para reparos e substituição de equipamentos, permitindo que o telescópio permaneça em atividade no espaço até 2013. Com essa renovação, o veterano telescópio ganhará nova vida. Os astronautas que irão trabalhar nessa missão já estão em treinamento, para a viagem ao espaço ser iniciada em 8 de outubro.

A Nasa conta ainda com três outros telescópios espaciais ou grandes observatórios, menos famosos que o Hubble. São eles: 1) Spitzer, que opera no infravermelho; 2) Chadra, que faz varreduras de raios X; e 3) Compton Gamma Ray Observatory. A Agência Espacial Européia (ESA) dispõe do XMM-Newton, grande telescópio que opera com raios X.

ESPERO ESTAR LÁ

Assistir ao espetáculo de lançamento de satélites ou de sondas espaciais é uma experiência inesquecível, que nos dá uma sensação contraditória de poder e de pequenez do ser humano diante do universo. Por isso, mesmo com cinco anos de antecedência, já faço planos para testemunhar na Base de Kourou, na Guiana Francesa, o lançamento do Telescópio Espacial James Webb, como fiz em outras oportunidades, ao longo de meu trabalho profissional, em mais de uma dúzia de lançamentos de satélites e sondas espaciais, desde o Projeto Apollo, à Voyager-2, aos satélites Brasilsat e o próprio Hubble.

Com os olhos da imaginação, já estou vendo a lenta decolagem do foguete Ariane 5 levando o James Webb ao espaço.’

 

 

MEMÓRIA / SÁBATO MAGALDI
O Estado de S. Paulo

Edição reúne textos do crítico Sábato Magaldi

‘Sábato Magaldi começou como crítico teatral no Diário Carioca, em 1950. Desde então, ele se dedica à defesa e ao estudo do bom teatro brasileiro. Seus artigos se tornaram referência obrigatória para a crítica. Os textos desta edição têm natureza variada: notas curtas sobre um autor dramático, uma peça, um artista e ensaios longos sobre a cena moderna brasileira. Há ainda textos sobre dramaturgos do passado (José de Alencar e Artur Azevedo) e contemporâneos (Millôr Fernandes, Maria Adelaide Amaral, Bosco Brasil). Atores (Cacilda Becker, Sérgio Cardoso e Nydia Licia) também foram contemplados. Em Sobre A Crítica, Magaldi faz defesa intransigente de uma postura ética para o crítico.’

 

 

ELEIÇÕES AMERICANAS
Caio Blinder

Abominação no circo das eleições

‘No sentido mais estrito de uma resenha literária, não há muito o que dizer sobre The Obama Nation. Dando o troco no trocadilho infame do título do livro do autor Jerome Corsi sobre o candidato democrata, trata-se de uma abominação O material lançado dias antes da convenção partidária que irá coroar Barack Obama é um pegajoso ataque político. Corsi compilou tudo de desfavorável já publicado sobre Obama (em geral na Internet), inclusive mentiras, rumores desacreditados e distorções com o objetivo transparente de alertar sobre as idéias, questionar o patriotismo e avacalhar a vida pessoal do candidato.

Corsi já esteve lá. Há quatro anos foi co-autor de um livro que manchou a reputação heróica na guerra do Vietnã do então candidato democrata John Kerry. O livro talvez tenha contribuído para a derrota de Kerry contra George W. Bush, aquele que se safou de combate no sudeste asiático. Corsi não esconde o desejo de repetir o feito, ou seja, impedir uma vitória de Obama em novembro. E começa pela capa. Há uma foto de um Obama com um jeito reflexivo, enigmático e, mais sintomaticamente, sinistro.

Corsi é venenoso e engenhoso. Ele construiu uma contranarrativa à história pessoal de Obama, que essencialmente impulsionou sua carreira política. Em dois best-sellers autobiográficos e inúmeros discursos, Obama conta sua história de filho de pai negro do Quênia e mãe branca do Kansas, que descobriu sua identidade e, se culminar a jornada na Casa Branca, transcendendo os rancores raciais e sociais, mostrará que o sonho americano está mais vivo do que nunca.

O Obama de Corsi é filho de ‘polígamo alcoólatra’, a mãe preferia ‘homens de cor’ do Terceiro Mundo para serem seus ‘parceiros’ e o candidato se identifica mais com seu ‘sangue africano’ do que com suas raízes americanas. O livro trata Obama como um ser alienígena, exótico e extremista. Corsi retoma as distorções sobre ‘uma extensa educação muçulmana’ quando o garoto Barack vivia na Indonésia e insiste que ele é tomado por uma ‘fúria’ negra. Obama não passa de um político maquiavélico e corrupto, com pose de bom moço. Com suas posições radicais de esquerda e alguns sentimentos ‘antiamericanos’, ele irá dividir o país ainda mais, caso seja eleito.

Sem apresentar evidências, Corsi sugere que Obama possa ainda usar drogas (o candidato admitiu que fez isto na juventude) e divaga que alguém que tentou esconder do público seu hábito de fumante inveterado pode estar escondendo coisas muito piores. Além das infâmias e bobagens, há erros factuais no livro. Alguns menores (Obama menciona sua meia-irmã Maya na autobiografia Sonhos do Meu Pai) e outros mais significativos, como sugerir que o candidato seria a favor da retirada das tropas americanas do Afeganistão. Pelo contrário, ele defende o reforço.

Isto é o de menos em meio aos comentários bizarros e conspiratórios. Corsi faz o possível para não parecer um maluco da Internet (ele se define como repórter sênior do site de extrema direita World Net Daily) e na capa do livro faz questão de exibir suas credenciais acadêmicas: Jerome R. Corsi, Ph.D. (ciências políticas em Harvard). Para quem tiver paciência, são 59 páginas de anotações bibliográficas (no total, o livro tem 364 páginas).

A bizarrice, as tolices conspiratórias e ofensas pessoais fazem parte do currículo do doutor em filosofia Corsi. Ele já escreveu que o papa João Paulo II era ‘senil’, qualificou o islamismo de ‘vírus’, definiu John Kerry como ‘anticristão’ e insinuou que Hillary Clinton seria lésbica. Corsi tampouco dá muita colher de chá para os republicanos de George W. Bush. Acusou o presidente de fazer pouco para guarnecer a fronteira sul dos EUA e é um proponente da conspiração da União Norte-Americana, sobre a existência de uma ‘organização supranacional’ que em breve fará a fusão dos EUA, Canadá e México.

Envergonhado, o conservador respeitável Peter Wehner, na revista Commentary, lamenta as diatribes de Corsi. Wehner escreve que o livro é ‘errado e repelente’. Para Wehner, os ataques contra o candidato democrata devem ser centrados nos méritos de sua filosofia de governo. Mas a abominação está rendendo uma farra no circuito de talk-shows no rádio e televisão.

The Obama Nation foi escrito, publicado e se tornou uma controvertida sensação graças a um modelo de negócios em que poderosas casas editoriais têm pequenas unidades que publicam material combustível de extrema direita. O livro de Corsi foi publicado pela Threshold Editions, uma divisão da Simon & Schuster, sob a supervisão de Mary Matalin, a lendária marqueteira republicana (mulher do também lendário marqueteiro democrata James Carville) e ex-assessora do soturno vice-presidente Dick Cheney.

O modelo funciona bem pois existe uma caixa de ressonância nos talk-shows e o empenho de clubes do livro e grupos conservadores para fazer da obra um best-seller, com a compra antecipada no atacado. E de qualquer forma, o desconto do livro de Corsi é estupendo. O preço de capa é US$ 28. Na Barnes & Noble, eu paguei apenas US$ 17.98 (com imposto). Mesmo assim, foi um custo abominável.’

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