Sábado, 24 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 20 E 21/9

O Estado de S. Paulo

23/09/2008 na edição 504


MORDAÇA
Ana Paula Scinocca


Governo quer punir veículo que divulgar escuta


‘Chega na segunda-feira ao Congresso projeto de lei do Executivo que prevê a possibilidade de punição criminal ao veículo de imprensa ou jornalista que divulgar escutas telefônicas, legais ou ilegais, sob segredo de Justiça. O projeto, preparado pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, já foi assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e deveria ter sido enviado ao Legislativo ontem. Mas a ausência da assinatura da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, adiou a tramitação, segundo a Secretaria-Geral da Câmara.


A proposta, que dá nova redação ao Artigo 151 do Código Penal, prevê, aos que transmitirem dados à imprensa, a possibilidade de também serem responsabilizados. A peça foi elaborada a pedido de Lula depois do episódio, revelado pela revista Veja, de grampo ilegal de conversa entre o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO).


A proposta estipula pena de reclusão de 2 a 4 anos e multa para quem ‘diretamente ou por meio de terceiros’ realizar ‘interceptação de qualquer natureza’ – ou seja, grampo – ‘sem autorização judicial ou com objetivos não autorizados em lei’. A pena pode ser aumentada de um terço até metade, se o crime previsto for praticado por servidor no exercício das funções.


Em relação ao grampo legal, o projeto determina punição para quem violar o sigilo ou segredo de Justiça em seu inciso 1 do parágrafo 1º. No inciso 2, o projeto diz que será punido aquele que usar qualquer tipo de grampo ‘para fins diversos dos previstos em lei’.


Da maneira como foi escrita, a proposta do Executivo autoriza um juiz a condenar um veículo de comunicação, jornalista ou fonte caso entenda que a ação teve objetivo ilegal como chantagem, calúnia, injúria e difamação. Ainda segundo a proposta, passa a ser crime ‘produzir, fabricar, comercializar, oferecer, emprestar, adquirir, possuir, manter sob sua guarda ou ter em depósito, sem autorização, equipamentos destinados à interceptação telefônica’.


CLAREZA


O ministro Tarso afirmou, em texto distribuído pela assessoria do Ministério da Justiça, que o projeto mantém integralmente o direito à informação e o sigilo da fonte. Para ele, quem diz que o texto abre brecha para punir jornalistas não leu o projeto ou ‘não teve clareza jurídica e técnica’ suficiente para compreendê-lo.


‘O que o projeto faz é dizer que utilizar essas informações para fins de obter vantagem ou proporcionar injúria, calúnia ou difamação passa a ser um delito conjugado. Apenas isso.’’


 


 


Roldão Arruda e Moacir Assunção


Para ANJ, proposta é autoritária


‘O responsável pelo Comitê de Liberdade de Expressão da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Júlio César Mesquita, condenou, com veemência a iniciativa do governo que visa a punir criminalmente profissionais de imprensa pela divulgação de grampos. ‘O governo busca formas de impedir a livre circulação. É uma proposta autoritária e antidemocrática, que não vingou nem mesmo na época da ditadura militar, de triste memória’, afirmou a entidade, em nota.


O presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Maurício Azedo, também criticou a idéia que, em sua visão, trata-se de ‘uma forma de intimidação’ ao trabalho de buscar e divulgar a notícia. ‘O projeto dá um passo atrás, apontando para um grave retrocesso político.’


A Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) também se posicionaram contra. De acordo com Cezar Britto, presidente da OAB, é dever do jornalista informar e direito do cidadão receber a informação.’


 


 


CAMPANHA
Daniel Bramatti


Na TV, petista explora parto feito por garoto de oito anos


‘O programa da candidata Marta Suplicy (PT) na TV, ontem à noite, usou o caso do garoto de oito anos que ajudou a mãe a dar à luz, na última segunda-feira, para atacar indiretamente o prefeito Gilberto Kassab (DEM), candidato à reeleição.


Marta disse que o menino Robert Vieira de Lima teve de ajudar a fazer o parto da irmã por falta de atendimento médico. A seguir, o programa exibiu entrevistas com Robert e seu pai, Luciano – este último disse que, ao saber do início das contrações da mulher, correu até uma AMA (Assistência Médica Ambulatorial). Segundo seu relato, havia três ambulâncias no local, mas nenhum motorista, o que o levou a buscar ajuda com a Guarda Civil Metropolitana.


As AMAs – unidades de atendimento intermediárias entre o posto de saúde e o hospital – são peça central da propaganda eleitoral de Kassab.


‘Quando cheguei em casa, minha filha já tinha nascido. Foi uma emoção e, ao mesmo tempo, senti um pouco de raiva, porque eles poderiam ter resgatado. Como tem viatura mas não tem motorista?’, disse o pai.


A seguir, Marta declarou: ‘Não vou aproveitar essa história para fazer drama sobre a saúde em São Paulo. O povo sabe como ela está, o que tem de bom, o que tem de ruim, e quanto precisa melhorar. Para mim, essa história serve para mostrar a força e a capacidade do nosso povo para enfrentar as dificuldades.’’


 


 


TELES
Gerusa Marques e Daniele Carvalho


Costa faz queixa formal à Anatel por demora no PGO


‘O subprocurador-Geral da República Aurélio Veiga Rios questionou a forma como está sendo conduzida a mudança do Plano Geral de Outorgas (PGO) para permitir a compra da Brasil Telecom pela Oi. Ontem, em reunião do conselho consultivo da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Rios disse que o Ministério Público ‘não deixará de examinar, no momento certo, a legalidade da operação’.


Ele ressaltou que foi criado um fato político e econômico em torno da fusão das duas empresas que tem apressado a decisão das autoridades em mudar as regras para permitir o negócio. ‘Toda vez que há uma interferência política forte em um negócio privado, isso se torna uma combinação explosiva’, disse. Essa ‘pressa’ teria sido reforçada, segundo ele, pelo prazo de dezembro, fixado pela Oi para concretizar a compra.


O ministro das Comunicações, Hélio Costa, por sua vez, formalizou a queixa feita na semana passada de que a Anatel está demorando na elaboração da proposta de novo PGO. O ministro encaminhou um ofício ao órgão regulador, no dia 11, pedindo que a agência conclua ‘com a maior brevidade possível’ a proposta e a encaminhe ao Ministério.


Na semana passada, Costa disse que os prazos da Anatel já estavam ‘razoavelmente vencidos’ e que esperava ‘para qualquer momento uma resposta da agência’. O processo do PGO já está na Anatel há sete meses e só deverá ser votado no conselho em outubro.


PREOCUPAÇÃO


Com a demora na definição do negócio de compra da BrT pela Oi, o mercado já começa a demonstrar preocupação. ‘O cronograma está demorando mais do que o esperado e é claro que isto causa preocupação. No mercado, há a percepção de que, apesar da demora, há tempo para se fechar o negócio, desde que não ocorram mais tropeços’, avalia a analista em telecomunicações Jacqueline Lison, da Fator Corretora de Valores.


O ponto central da apreensão tem origem no contrato assinado entre as duas operadoras, em que a Oi se compromete a pagar multa de R$ 500 milhões à BrT caso o negócio não esteja fechado até 240 dias após o anúncio da compra, feito em 25 de abril. O período se encerra, portanto, em 21 de dezembro.


Em teleconferência logo após o anúncio da compra, a Oi informou que esperava a mudança do PGO em 90 dias. O tag along – oferta de compra de ações dos minoritários por pelo menos 80% do preço pago aos controladores – ocorreria 90 dias a contar desse prazo. Mas as duas estimativas já foram estouradas.


O forte conteúdo político na criação da supertele, por outro lado, é apontado como um fator de alívio pelo mercado. Uma fonte que acompanha a operação de perto diz que o atraso não tem agradado à Oi, mas que a empresa se mantém confiante na concretização da compra, embora tema ter de ‘correr na reta final do prazo’. Ele ressalta, porém, que o contrato traz cláusula sobre uma possível prorrogação no prazo em até 125 dias. ‘Os motivos para essa prorrogação, no entanto, não são muito claros.’


O analista do Banif Investment Banking, Alex Pardellas, observa sinais dúbios entre os investidores. Segundo ele, a probabilidade de que o negócio não vá adiante pode ser observada no preço das ações ordinárias da Brasil Telecom Participações, que fecharam o pregão de ontem cotadas a R$ 48,85. ‘É um valor baixo se levarmos em conta que a Oferta Pública de Ações (OPA) feita pela Oi estipulou um teto próximo a R$ 58 para o papel.’’


 


 


PORTUGAL
Jair Rattner


Imprensa diz que brasileiro criou grupo criminoso


‘O Correio da Manhã, jornal mais vendido de Portugal, publicou ontem uma reportagem mostrando que grupos de criminosos brasileiros que moram na região de Setúbal teriam criado o Primeiro Comando de Portugal, organização que teria como modelo o Primeiro Comando da Capital (PCC). A manchete do jornal dizia ‘Máfia das favelas entra em Portugal’.


O texto se baseia na página no Orkut do mineiro Edivaldo Rodrigues, de 20 anos, que se encontra em prisão preventiva depois ter assassinado o dono de uma joalheria durante um assalto em Setúbal. O grupo teria colocado na rede imagens de dinheiros e celulares roubados e de armas. Ontem à tarde, os filmes que o grupo teria colocado no Orkut e no YouTube relatando os assaltos tinham sido retirados da rede.


Segundo o texto, Edivaldo, que no Brasil morava numa favela, teria visto o pai morrer degolado e cometeu o primeiro assassinato aos 14 anos. Em Portugal, além do assalto à joalheria, teria participado de um apedrejamento de um carro da polícia. Ele estava em situação de ilegalidade no país, aguardando o processo de expulsão.


Segundo a reportagem, na página no Orkut os outros membros do grupo têm codinomes como Filé com Fritas, Leléu, Piqueno, Pedro, Souzinha, Renan Tele, Tiago 22, Pesão, Evandro, Igor Men e Cabeção.


O presidente da Associação de Imigrantes Casa do Brasil, Gustavo Behr, critica a reportagem: ‘Acho uma irresponsabilidade. A reportagem parece que só se baseia em fontes da internet. É um assunto muito delicado para ser tratado apenas com essa espécie de fonte.’


O general Leonel de Carvalho, coordenador do Gabinete de Segurança, disse que o texto era fruto de uma imaginação fértil.’


 


 


INTERNET
Adriel Diniz


Pais de 10 jovens são condenados a indenizar professor por ofensas no Orkut


‘A Justiça de Rondônia condenou pais de dez adolescentes a pagarem R$ 15 mil para reparar danos morais causados ao professor Juliomar Reis Penna. Os estudantes criaram, em 2006, uma comunidade no Orkut em que ridicularizam o professor de matemática.


Os adolescentes eram alunos de uma escola particular de Cacoal, a 470 quilômetros de Porto Velho. Eles já haviam sido condenados a cumprir medidas socioeducativas. Mas a vítima também entrou com um pedido de tutela jurisdicional, para que os pais fossem responsabilizados civilmente.


O acórdão da decisão foi publicado no dia 18, pela 2ª Vara Cível do Tribunal de Justiça. O primeiro valor fixado pelo juiz Edenir Sebastião Albuquerque da Rosa era de R$ 20 mil. Após recurso, foi reduzido para R$ 15 mil, e deve ser pago de forma proporcional, ficando os pais da menina que criou a comunidade com a maior fatia: R$ 2,6 mil.


RETRATAÇÃO


O professor disse que o seu objetivo não foi conseguir dinheiro. ‘O meu foco era a retratação’, argumenta. Além de ofensas relativas à obesidade e às roupas de Juliomar, os adolescentes, segundo a Justiça, também teriam ameaçado furar os pneus de seu carro. Ainda cabe recurso, mas 2 dos 19 condenados disseram que não pensam em recorrer.’


 


 


ARTE
Antonio Gonçalves Filho


Steinberg, lenda viva da critica, polemiza


‘Leo Steinberg está para a crítica de arte como Bill Gates para o negócio de computadores. O crítico, nascido em Moscou há 88 anos, criado em Berlim, educado em Londres e formado em Nova York, foi o único a desafiar há meio século o todo-poderoso da crítica norte-americana Clement Greenberg (1909-1994), quando o formalismo estava em alta e ditava as regras do mercado. No ensaio que dá título ao livro Outros Critérios (Cosac Naify, tradução de Célia Euvaldo, 296 págs., R$ 79), uma coletânea de seus históricos ensaios, Steinberg, ao analisar o panorama artístico nos anos 1960, assume estar em constante oposição ao formalismo, não por rejeitar a análise formal, mas por desconfiar de suas certezas.


Mais particularmente, Steinberg suspeitava de Greenberg, que descobriu Jackson Pollock e os expressionistas abstratos, defendendo a ‘planaridade inelutável da superfície’. Fora dela não há salvação para a pintura moderna, dizia Greenberg, que definia o modernismo por oposição aos mestres, classificando a arte do passado de ‘ilusionista’.


Steinberg, hoje aposentado e escrevendo um livro sobre Michelangelo, concedeu por telefone uma entrevista ao Estado, não sem antes pedir à secretária que lhe enviasse as perguntas. Aprovado o questionário, ele se dispôs a relembrar a polêmica com Greenberg e a comentar a situação da arte contemporânea, começando por criticar o inglês Damien Hirst, o oportunista que bateu o recorde dos leilões de arte ao vender esta semana zebras congeladas que certamente vão parar em coleções de novos ricos árabes e russos.


Antes desse leilão de mamíferos, Hirst criou companhia para vender edições limitadas de sua arte. E sabe como a batizou? Com o nome do livro de Steinberg, Other Criteria (Outros Critérios). ‘Finalmente uma obra minha se atrelou a empresa lucrativa’, brinca Steinberg, afirmando que, se tivesse 8 anos e entrasse num museu com obras de Hirst, jamais teria se tornado crítico. ‘Desistiria de ver arte para o resto da vida.’ Sorte dele que, em 1930, aos 10 anos, foi levado pela mãe a um museu em Berlim e viu um São Sebastião em tamanho natural, pintado em 1474 por Botticelli. Só mesmo um insensato para dizer que isso é ilusionismo.’


 


 


***


Crítico troca Hirst por Michelangelo


‘Aos 88 anos, Leo Steinberg parece disposto a enfrentar uma boa briga com a Igreja, após a publicação do livro que está escrevendo sobre Michelangelo, um ensaio sobre a pintura Sagrada Família (1504-1505), também conhecida como Tondo Doni, que está na Galeria degli Uffizi, em Florença. Ele argumenta que os cinco sodomitas que sugerem gestos lascivos atrás de Maria, José e do bambino não fazem apenas parte da decoração. Considerando a vida sexual de Michelangelo relevante para sua arte, seus garotos safados seriam intérpretes de um comentário codificado de Michelangelo sobre sexo sem procriação e procriação sem sexo – no caso de Maria, que, segundo Steinberg, segura a genitália do bebê santo, alimentando assim sua tese sobre a representação sexual do menino Jesus pelos renascentistas, publicada há mais de 20 anos.


Steinberg já irritou o clero e críticos, no passado, ao analisar a mais famosa tela de Picasso, Les Demoiselles d?Avignon (1907), que teve duas figuras masculinas – presentes nos estudos preliminares do quadro – suprimidas na versão final. Os modernos viram no quadro uma planeza inovadora em direção ao cubismo. E só. Steinberg viu mais, indo fundo no ‘espetáculo teatral’ de Picasso: as prostitutas retratadas pelo pintor encenariam uma ‘aterradora dessublimação da arte’, tornando o espectador patrono desse bordel. Esse é um dos 18 ensaios reunidos em seu livro Outros Critérios, sobre o qual Steinberg fala a seguir.


Há 40 anos sua contestação ao formalismo de Clement Greenberg provocou uma histórica controvérsia. Como o senhor se localizaria no contexto crítico atual?


Bem, penso em mim como um ser anacrônico, porque, como costumo dizer, qualquer pessoa, cedo ou tarde, vira acadêmica em relação ao que rejeita. Não sou e nunca fui contra a análise formal, mas a academização da vanguarda é um processo contínuo. De resto, o formalismo dispensa outros critérios de julgamento ao eleger um único. Greenberg concentrou-se em três ou quatro artistas além de Pollock, reduzindo a arte a um fluxo unidimensional e rejeitando todo o seu conteúdo narrativo e simbólico. Ora, se você só vê forma, não vê o suficiente, e digo que Greenberg se encaixa nisso por ter reduzido os grandes mestres do passado a meros ilusionistas, submetendo-os a seu critério. Quanto ao contexto atual, não me entusiasma escrever sobre Damien Hirst ou Jeff Koons. Isso é só mercado, obras para encher coleções de milionários de Dubai ou mafiosos russos. Não tenho muito tempo a perder. Prefiro me dedicar a Michelangelo. Escrevo atualmente um livro inteiro sobre o Tondo Doni que está na Galleria degli Uffizi de Florença.


O senhor poderia adiantar alguma coisa sobre esse livro?


O significado daquelas cinco figuras masculinas nuas atrás de Maria, José e do Menino Jesus, no painel de madeira de Michelangelo, nunca foi totalmente esclarecido, mesmo com a ausência de relação entre esses garotos – sodomitas, a considerar a aproximação dos corpos – e a cena à frente. Essa é uma pintura que sempre me intrigou, mesmo com a habitual presença desses ‘ignudi’ em outras pinturas de Michelangelo. Há ali não apenas um embate entre a civilização pagã e a cristã, como defende a interpretação clássica, Vasari incluído. Ele dedica uma linha apenas a esses garotos, que muitos preferem ver como anjos e a cena frontal como uma apresentação do Menino Jesus ao espectador. Para mim, trata-se claramente de um embate de ordem sexual, articulado entre as figuras de fundo, que representam o sexo sem procriação, e as centrais, representantes da procriação sem sexo. Maria segura a genitália do garoto para indicar de onde ele saiu. Ele não representaria só a humanidade protegida pela graça divina, conforme a manobra diversionista de Vasari, que há quase 500 anos engana o mundo. Creio que a pintura de figura do Renascimento não teria se desenvolvido no cristianismo se o apelo sexual do nu tivesse sido assumido, confessado.


O senhor assumiu mais de uma vez ter cometidos equívocos de interpretação ou avaliação sobre artistas, bastando citar os casos de Jasper Johns ou Rauschenberg. É um raro caso, entre os críticos, de alguém disposto a rever suas opiniões. Não teme se enganar, conduzindo seus leitores a uma leitura equivocada?


É engraçado. Fui o único a me arrepender, a fazer um ?mea culpa? por Rauschenberg. Ninguém menciona Greenberg ou Rosenberg. Acho que atraí toda a hostilidade para mim. É bom lembrar que, em 1955, Rauschenberg pintou a própria cama e os travesseiros, pendurando-os verticalmente, numa atitude paródica à verticalidade do quadro renascentista. Minha reação inicial foi mais ou menos como recebi, três anos depois, a primeira individual de Jasper Johns, da qual não gostei e que me deprimiu a tal ponto que só me restou estudar sua obra. Foi o que aconteceu com Rauschenberg, sobre quem acabei escrevendo um livro (Encounters with Rauschenberg, Chicago University Press).


O senhor apontaria algum caso semelhante mais recente? Como interpreta o desvio de rota de artistas contemporâneos, entre os quais o próprio Damien Hirst, que parece estar fazendo liquidação das peças antigas para entrar num território mais contemplativo, considerando sua exposição Superstition. A arte contemporânea já superou o choque?


É difícil dizer. Não poderia generalizar e muito menos fazer profecias quando existem milhares de artistas em todo o mundo além de Damien Hirst. Como desconsiderar um artista do Congo, de Los Angeles, do Brasil? Arte, para mim, é entender um trabalho de arte, o que talvez explique essa minha obsessão em ir a fundo na obra de um artista ou num trabalho específico como o Tondo Doni. É como tentar entender uma mulher. Sobre isso, James Joyce perguntou a um amigo quem era o personagem mais importante da história da humanidade. Ele respondeu que era Cristo. Joyce retrucou, dizendo que não, que o mais importante era seu personagem Stephen Dedalus (o escritor de seu livro Ulysses e alter ego do autor), porque Cristo nem mesmo tentou viver com uma mulher. Convivi com as Demoiselles d?Avignon um bom tempo da minha vida e posso dizer que essa foi uma convivência difícil. Não sei o que responder. A gente faz uma profecia e no dia seguinte ela cai por terra. Só posso dizer que existem artistas que seguem Cézanne. Outros seguem o mercado.


Os últimos parecem estar em maior número…


Pois é, arte e mercado são palavras tão ligadas hoje que, se eu fosse aquela criança que minha mãe levou para ver Botticelli há quase 80 anos, teria desistido de ser crítico de arte. O que me atraía antes não é o que eu vejo hoje. Como me sentir atraído por Jeff Koons ou Damien Hirst? O que me chamava a atenção para estudar, por exemplo, um trabalho como as Demoiselles d?Avignon era a discrepância entre o que eu lia a respeito e o que eu via. Hoje, as pessoas parecem programadas para ver aquilo que os críticos querem que elas vejam. Quando revelei ao falecido diretor do Museu de Arte Moderna de Nova York, William Rubin, que pretendia escrever um livro sobre o quadro de Picasso (The Philosophical Brothel), ele me desencorajou, dizendo: ‘Para quê? Há tanto livros sobre ele.’ É o tipo de argumento que exige mesmo outros critérios.’


 


 


CINEMA
Flávia Guerra


Jean Charles, baseado em fatos reais


‘‘O que este povo está fazendo aqui? Não está satisfeito? Volta para o Brasil!’, dizia um típico cidadão inglês indignado com a confusão que se formava na tarde de quinta, na frente da estação de metrô de Stockwell, na zona sul de Londres. ‘Seu preconceituoso. Não vê que ele era inocente? Podia ter sido qualquer um!’, responde uma senhora, também tipicamente londrina.


Enquanto a discussão se desenrola, os ?brazukas? continuam o protesto. Em punho, cartazes clamando por uma justiça que, três anos depois de um crime que chocou a opinião pública, ainda não chegou. Se estiver a caminho, deve chegar em um dos metrôs lotados das linhas mais congestionadas de toda a Europa. E deve ter-se atrasado em uma das milhares de baldeações que milhões de moradores de Londres têm de fazer todos os dias para chegar ao trabalho. Foi numa dessas viagens que Jean Charles de Menezes se perdeu. O protesto que tumultuava e chamava a atenção dos que passavam defendia a condenação dos culpados pela morte de Jean Charles, brasileiro morto com sete tiros na cabeça em julho de 2005 ao sair da estação de Stockwell, quando foi confundido pela Scotland Yard com um suspeito terrorista.


O protesto, os cartazes e os revoltosos faziam parte do elenco do filme Leave to Remain, que está sendo rodado em Londres e conta a história desse brasileiro. O protesto era fictício. Mas a indignação é real. O santuário em homenagem a Jean Charles também. Há uma melancolia de tristes trópicos no memorial ?favelinha? (como os brasileiros ironicamente definem o altar) precariamente construído na saída da estação. Três anos depois, ninguém ousa tocar no santuário. Nem nos culpados por esse grande ?mal-entendido? que foi a morte de Jean.


Muito por isso, havia um estranho clima de ?baseados em fatos reais demais? nas filmagens do longa-metragem. Dirigido pelo brasileiro Henrique Goldman e protagonizado por Selton Mello, o filme vai contar não só a história do crime que até hoje incomoda não só brasileiros e perturba profundamente os brios da polícia inglesa. Ainda sem nome definido, Leave to Remain (que poderia ser definido como ?permissão para ficar? ou ?ir para ficar?) conta também a história de um imigrante comum, que tenta ganhar a vida e a civilidade em uma capital européia onde bairros exclusivamente ingleses são raridade. Caso simbólico em um mundo globalizado até segunda ordem. Uma aldeia global que funciona muitas vezes segundo as regras de quem inventou a globalização e não de quem tenta se inserir em suas entrelinhas. Vale lembrar que o assassinato de Jean Charles tem profundo significado simbólico.


No tumultuado julho de 2005, duas semanas depois de Londres ter sofrido atentados, de a polícia inglesa estar sob imensa pressão para encontrar culpados, em um ano em que o mundo transpirava pavor, a morte de um inocente ganhou tons geopolíticos que ultrapassaram a mera crônica policial. Confundido com um suspeito terrorista, esse imigrante poderia ser grego, turco, indiano, paquistanês, colombiano, chinês até… Mas era brasileiro. Eletricista, mineiro, filho de família pobre que, como milhares, vê na imigração, ainda que seja para entrar em um país estrangeiro na condição de ?working class?, a chance de prosperidade não encontrada em seu próprio país.


Filme que desde já está dando o que falar, Leave to Remain ganha na próxima semana mais um forte ?fato real? que o deixa ainda mais atual. Começa na segunda o inquérito público que vai reconstituir todos os passos de Jean Charles de casa até a estação de Stockwell, no dia em que foi morto. Presentes, estarão os primos Alex, Vivian e Patricia, que moravam com ele na época. Patricia também estava presente no protesto fictício. Procurada por Goldman na fase de pesquisas do filme, foi convidada para interpretar a si mesma. E aceitou. Quem vive Alex é o ator Luis Miranda. E a atriz Vanessa Giacomo é quem interpreta Vivian. ‘No início, fiquei muito receosa. É minha história que este filme conta. Reviver tudo que vivi não é fácil. Muitas vezes, a sensação de tristeza e desespero volta como se fosse tudo real de novo. Mas estou adorando a experiência e está valendo muito a pena’, conta Patricia, que mora em Londres até hoje e, até conhecer Goldman, fazia faxina em escritórios na cidade. ‘Como a grande maioria dos brazucas que chega, e muitos chegam sem falar inglês, sobra mesmo o ?cleaning? para fazer. Na hora do trabalho, não tem historinha’, conta a brasileira.


Brasileiro também imigrante, que deixou o Brasil há 26 anos (já morou nos EUA, Itália e Londres, onde vive atualmente), Goldman é diretor de documentários e seu primeiro longa de ficção também parte da observação da realidade para contar no cinema a história de um travesti brasileiro que se casa com um cliente que conhece nas ruas de Milão. Em Leave to Remain, Goldman não só escalou não atores (como Patricia e Mauricio, que foi chefe na vida real de Jean e também interpreta a si mesmo no filme), como faz questão de dar às cenas que filma o tempero da realidade. Na última quinta, enquanto filmava o protesto, nenhuma área foi isolada. Os transeuntes passavam tranqüilamente pela locação e eram até convidados a ?entrar em quadro?, se quisessem. Um dia antes, foi a vez de filmar, no extremo norte da cidade, a cena em que os primos Vivian, Alex e Patricia voltam pela primeira vez depois do crime para o apartamento em que moravam com Jean Charles. Mais uma vez, nada de grandes produções hollywoodianas. Os moradores do condomínio passavam tranqüilos pelo local. O elenco de apoio e figurantes iam se esquentando ao longo das repetições da cena e as instruções eram dadas por Goldman da forma mais tranqüila possível.


‘Foi uma experiência incrível e inédita para mim. Não só pelo tema, que me exigiu demais, mas pela experiência de filmar no exterior. Esta é a primeira vez que eu praticamente só trabalhei com uma equipe estrangeira. Tive de me adaptar à cidade, ao inglês, à história, a tudo’, contou Selton Mello, que já está de volta ao Brasil, onde mostra, na semana que vem, seu primeiro longa como diretor, Feliz Natal, no Festival do Rio. ‘Há vários brasileiros na equipe, mas todos moram em Londres. E há muitos ingleses também. Essa interação entre países e culturas também foi ótima para o filme. A história também fala disso. Afinal, não vivo na tela só o último dia do Jean. Há muito da vida dele, de como ele se divertia aqui, quem era, onde ia, onde trabalhava. Foi um processo muito bom poder criar esse personagem. Jean era brasileiríssimo. Não era um galã, mas tinha charme, era astuto, inteligente. Como tantos brasileiros, era mestre no jeitinho e no bom humor. Estou muito feliz com essa nova experiência.’


Encerradas as filmagens em Londres, e depois de 40 dias na capital londrina, Selton embarcou de volta ao Brasil na quinta-feira. O restante da equipe viaja amanhã para Paulínia, no interior paulista, onde todas as cenas que se passam no Brasil serão rodadas em outubro. ‘Como o filme tem verba do concurso de roteiros e incentivo de Paulínia, o enterro, as cenas na casa dos pais do Jean, entre outras, serão filmadas na cidade’, contou Goldman, enquanto se preparava para rodar uma das últimas cenas do filme. Em meio à multidão que disputa as calçadas do polêmico e agitado bairro de Brixton, Vivian (Vanessa) caminha em direção à estação de metrô do bairro. Foi por lá que ela chegou a Londres. É de lá que ela parte para o Brasil três anos depois. E assim um ciclo se fecha.’


 


 


TELEVISÃO
Luiz Carlos Merten


Maravilhas de Alice inspiram série sobre a cidade grande


‘Lewis Carroll foi uma referência, com certeza. Quando o assunto é Alice, é muito difícil fugir à influência do clérigo que narrou a história daquela garota numa viagem rumo ao conhecimento, atravessando os países das maravilhas e dos espelhos. Karim Aïnouz diz que não se baseou especificamente em Carroll, mas que ele estava lá, de fundo. Seria difícil para o co-diretor-geral da minissérie que começa amanhã no HBO negar a evidência, porque o primeiro episódio se chama justamente Pela Toca do Coelho.


É por aí que a Alice da TV paga entra no universo da cidade grande e São Paulo é co-protagonista da história que a minissérie conta, sobre esta garota de Palmas, no interior de Goiás, que abandona uma vida estável mas sem muitos horizontes para desembarcar na metrópole e enterrar o pai, que se suicidou. Alice, interpretada por Andréia Horta, deixa lá um noivo, que termina por abandonar, e ingressa num estilo de vida que a leva de descoberta em descoberta. No primeiro episódio, que o próprio Karim dirige, ela é empurrada – pela vida, pela cidade. Um engarrafamento de trânsito, coisa mais paulistana, a leva a perder o vôo de volta para casa e aí vem uma festa, um estranho com quem Alice vai para cama e sua vida nunca mais será a mesma.


‘Nada mais paulistano do que não ser paulistano’, diz Karim, que nasceu em Fortaleza, viveu muito tempo no Rio e há dois anos mora em São Paulo, por conta justamente do seu envolvimento no projeto que agora se concretiza para o público. Embora goste de praia, céu, mar, essas coisas que fazem o charme do Rio, ele não consegue mais se ver de volta à cidade que é chamada de ?maravilhosa?. Karim lançou âncora em São Paulo e a minissérie é um pouco seu canto de amor por essa cidade frenética, às vezes cruel, quase sempre neurotizante, mas que também é cosmopolita e oferece atrativos de sobra para fisgar quem por aqui aporta, seja o criador de Alice ou a própria garota da história.


O namoro de Karim com a HBO começou há dois anos e, na verdade, é um triângulo, pois inclui o co-diretor-geral Sérgio Machado, que também assina alguns episódios. Machado é outro ?estrangeiro? em São Paulo, um baiano (de Salvador) que mora no Rio. Mas quem conversa com a reportagem do Estado é Karim Aïnouz, autor de dois filmes tão fortes quanto diversos, Madame Satã e O Céu de Suely. Ele foi chamado quando já existia um projeto, sobre uma garota que trabalhava numa seguradora e cada episódio era menos a sua história do que as daqueles com quem ela se envolvia, até por exigências do trabalho. A personagem não dava liga com o diretor e ele propôs outra coisa – a história da interiorana que descobre São Paulo e realiza seu rito de passagem. Seria uma facilidade fazer de Alice uma prostituta, que ela não é, embora o telespectador talvez experimente a tentação de julgá-la moralmente no primeiro episódio, quando a protagonista, até de forma inconseqüente, sai de um enterro para uma festa e troca o noivo, na boca do altar, por esse estranho com quem passa somente uma noite.


Para evitar o julgamento e até a natureza expositiva do primeiro episódio, que apresenta personagens e situações e em geral não leva a lugar nenhum, só abrindo caminhos, Karim, se pudesse, começaria logo mostrando amanhã o segundo ou o terceiro episódios, que são muito melhores e já vão revelando uma outra Alice em processo de mutação. No segundo, ela busca a meia-irmã que saiu de casa e se perdeu na cidade, fugindo à mãe – à madrasta de Alice. Inicialmente, a personagem interpretada por Carla Ribas, de A Casa de Alice e Gertrude na montagem de Hamlet com Wagner Moura, parece uma megera, mas já no segundo episódio as coisas vão se revelando como são, não como parecem, e ela também muda.


Por isso mesmo, é apressado avaliar criticamente Alice a partir do primeiro episódio. É preciso um pouco mais de tempo e Karim até reflete. ‘Filmamos, em super-16 mm, na ordem cronológica, mas acho que teria sido melhor se tivesse começado pelo segundo e pelo terceiro episódios – NR: o segundo, ?O Tesouro de Alice?, também é dirigido por Karim Aïnouz; o terceiro, ?O Retorno de Elvira Ciprianni?, com Teresa Rachel como uma prima donna que volta a São Paulo, por Márcia Faria -, para só depois fazer o primeiro. Acho que todos estaríamos mais integrados, teríamos mais pique. O primeiro episódio não me satisfaz. Tem barrigas, a Andréia ainda está muito crua, como mulher e atriz. Ao longo da minissérie, ela vai sofrer uma mudança muito forte, não apenas emocional, mas física, e lá pelo quinto, sexto episódios fica muito mais bonita. Mas não adianta. Não há como fugir à síndrome do primeiro episódio. É preciso começar apresentando essas pessoas.’


Alice é a primeira minissérie brasileira da HBO que possui uma primeira temporada completa, de 13 episódios. As precedentes, Mandrake e Os Filhos do Carnaval, estrearam com meia temporada e só agora estão sendo completadas. Alice começa integral e, no último episódio, a garota, virada mulher, já estará pronta para novas aventuras e emoções – mas é prematuro dizer se haverá segunda temporada. A garota que deixa o interior para se perder e encontrar na cidade grande refaz, em sentido inverso, a trajetória de Hermila Guedes em O Céu de Suely e o personagem do noivo remete ao João Miguel que nunca deixou de esperar por Hermila/Suely na pequena cidade do Nordeste. Karim queria oferecer um papel a Hermila, mas ela agora é contratada da Globo e a emissora não liberou. Ele é um caso curioso de diretor que não gosta de escrever. Karim é muito bom para avaliar roteiros, mas quem escreve é o parceiro Sérgio Machado, que dirigiu o belo Cidade Baixa, com Alice Braga. Ambos são homens de cinema e fazem uma ponte interessante entre cinema e TV. De fundo, São Paulo e o segundo episódio, no qual Alice vai trabalhar na Mostra de Cinema, abre-se com uma homenagem ao clássico São Paulo S.A., de Luiz Sérgio Person. Como Alice, a cidade também se agita e transforma, e a idéia de Karim e Sérgio Machado é traçar um arco urbano que começando lá com Person, nos anos 60, chega agora à megalópole, que Sampa já é.’


 


 


Cristina Padiglione


Cultura veta infantil


‘Em iniciativa inédita na TV brasileira, a TV Cultura promete banir da programação, a partir de janeiro, toda e qualquer publicidade com apelo infantil. Não quer dizer que produto infantil não seja mais vendido nos seus intervalos. Diretor de Marketing e Captação do canal, Cícero Feltrin explica: um DVD do Cocoricó, por exemplo, produto da Cultura Marcas, poderá ser anunciado só durante a programação para adultos e ‘apelo’ dirigido aos pais – a ênfase vai para os atributos pedagógicos.


Durante a programação infantil, a contar de 1º de janeiro, Feltrin avisa que nenhum produto de apelo comercial terá espaço. Isso significa, só de segunda a sexta-feira, a faixa das 8h às 19h. Os intervalos serão ocupados por chamadas da programação e filmes institucionais – alguns podem até ajudar a pagar parte da conta antes custeada por anunciantes. É o caso da Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), que exibe projeto para crianças sobre a importância da química no dia-a-dia, sem anunciar produto algum.


Feltrin antecipa ainda que a Cultura começa a criar uma campanha para conscientizar a platéia infantil sobre esse tal de consumismo.’


 


 


Marcelo Rubens Paiva


Vende-se eu


‘Na semana passada, Zezé Polessa participava do programa Happy Hour (GNT), que debatia os traumas de uma separação. Em sua camisa, lia-se um paradoxo: ‘Não sou feliz, mas tenho marido’.


Me intrigou o significado e o capricho do figurino. Então, pensei, que excelente recurso! Da próxima vez que eu participar de um debate, terei no peito pinceladas do pensamento dialético, para polemizar e enriquecê-lo.


Foi uma decepção quando, no fim do programa, revelou-se que ela divulgava, na verdade, um espetáculo teatral que protagoniza chamado Não Sou Feliz, Mas Tenho Marido.


Zezé tem o direito de divulgar o que quiser, como quiser. Mas inaugura um procedimento que causará um ruído visual na tevê brasileira. Então, atores, cineastas, músicos e escritores trarão no peito o logotipo da obra que pretendem divulgar, transformando o seu corpo num outdoor ambulante, que anuncia a si próprio, vende uma obra.


Lembrei-me dos anos 80, em que condenávamos o culto à imagem pessoal. Éramos de corpo e alma concentrados politicamente numa causa, baseada no dito de Brecht: pobre do povo que precisa de heróis.


Herdeira de uma luta armada fracassada, de um projeto de utopia que deu no stalinismo e no maoísmo, órfã de ideais, a geração 80 não confiava em timoneiros ou comandantes, mas na revolução pelas arte e, principalmente, pela intervenção cultural. Por isso, foi tachada pela velha esquerda de Geração AI-5 ou Geração Coca-Cola. ‘A gente somos inútil’, foi a resposta.


O movimento punk foi uma das primeiras expressões do pós-modernismo que propôs o fim dos rótulos, das tendências, da técnica, a desconstrução da música, moda e razão. A cultura de massa passava a ser produzida pela massa. Morte ao glamour, pop star, ídolo. Viva a anarquia, pregavam.


Cada música tinha um debate por trás. Ciúme, do Ultraje, retratava a decadência do modelo de homem moderno. Nós Vamos Invadir Sua Praia, o fim do monopólio da cultura carioca, como espelho do País. Meus Heróis Morreram de Overdose, do Cazuza… bem, nem é preciso explicar.


Até Gilberto Gil aparecer maquiado de azul, na tevê, protagonizando um comercial de uma marca de jeans, cantando Índigo Blues.


OK, Marcel Duchamp propôs: toda obra é arte. Abandonaram o poder de mobilização da cultura de massa, especialmente da música. Roubaram a arte da arte. Veja, Torquato, no que a Tropicália se meteu.


Grandes pensadores e artistas não deveriam fazer comerciais de tevê, pensávamos, muito menos vender a sua história e talento para esse gênero menor, corrompido, chamado publicidade. A poesia não deve estar a serviço do capital.


Enquanto eu desencorajava adolescentes do ABC que queriam fazer o meu fã-clube, sugerido que não combinava comigo, que acreditava que fã, de fanatismo, era sintoma de fraqueza, meus colegas começaram a vender suas músicas e imagem para ‘reclames’ de tevê. Alguns passaram a vender produtos.


Recusei uma proposta de R$ 150 mil para protagonizar um comercial de um laboratório farmacêutico, que anunciava um remédio contra impotência sexual, pois eu não queria manchar anos de luta para desassociar a imagem de cadeirantes da impotência – nem alimentar o preconceito que existe contra a vida sexual de portadores de deficiência.


Eu disse não à Rede Globo, que quis fazer uma minissérie de Feliz Ano Velho, por não querer expor demais uma obra que virara peça e filme. Disse não outra vez à mesma emissora, que quis fazer um programa sobre o meu pai. E, pelo visto, estou só na trincheira. Todos foram à luta.


O IRA! anunciou uma faculdade. Arnaldo Antunes, um supermercado. Seu Jorge, pinga. Jota Quest, Fanta! A família de Renato Russo vendeu uma música para um banco. O parceiro de Raul Seixas virou… Paulo Coelho.


Cultura virou chiclete. Conseguimos transformá-la num subproduto do comércio. O consumo virou cultura. Vender é arte.


Um livreiro me disse que, para vender livro, eu tinha de ter um programa de tevê. Eu o lembrei de que tive um programa de tevê diário, com banda e tudo, e larguei a emissora para estudar literatura em Stanford.


Quá-quá-quá. Como sou otário, anacrônico. Não tenho site. Nem blog. Fiquei meses no Orkut, até uma desconhecida me dar uma bronca, pois não a adicionei como ‘amiga’, e abandonei essa galeria virtual de excessos e carências.


Não tenho fotolog, nem nada no MySpace. Nunca postei um vídeo no YouTube. Eu não existo, caro leitor. Sou um mero escritor analógico, idealista, low profile, que nunca mostrou o seu lar em Caras e eletrificou a cerca que separa o público do privado.


Podem rir de mim. Acredito ainda no poder de transformação da literatura e liturgia da dramaturgia. Não faço livro sob encomenda. Nem teatro comercial. Vivo na contracorrente. Sou a piada da década.


Mas isso vai mudar! Começo logo logo um blog. E lanço um livro em novembro. Aparecerei de camiseta com o seu título, A Segunda Vez Que Te Conheci, na Caras, Chiques e Famosos, Flash!


Quero ser entrevistado pelo Amaury Júnior e pela Luciana Gimenez. Quero ser jurado do Faustão e dar detalhes de A Segunda Vez que Te Conheci! Quero tirar o chapéu no Raul Gil. Rir com Hebe de A Segunda Vez Que Te Conheci. Guardou o nome? Aprendi a me vender? Quero chorar com Gugu, ter 1 milhão de amigos e bem mais forte poder cantar…’


 


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Folha de S. Paulo – 1


Folha de S. Paulo – 2


O Estado de S. Paulo – 1


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