Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 3 E 4/1

O Estado de S. Paulo

06/01/2009 na edição 519

TELEVISÃO
Gustavo Miller

Vídeos antigos somem do site

‘Dois grandes projetos, voltados a resgatar a memória da TV brasileira, sumiram da internet na semana passada. Os canais MofoTV e Memória da TV, ambos do YouTube, foram excluídos pelo site após notificação da gravadora Sony BMG. A decisão tirou do ar cerca de 2 mil vídeos, que continham preciosas imagens. Muitas delas, nem as próprias emissoras têm em seus arquivos.

O dentista José M. Neto, do Mofo TV, explica que o seu perfil sumiu no dia 24 de dezembro. Ele diz não ter sido notificado pelo portal de vídeos do Google, apesar de receber algumas semanas antes um recado de que o site havia tirado do ar dois vídeos de Zezé di Camargo & Luciano (artistas da Sony BMG), após pedido da gravadora. Um mostrava os cantores em uma de suas primeiras aparições na TV: no Domingão de Faustão, em 1991, com É o Amor. O outro trazia a dupla em 1999, no Domingo Legal, com Julio Iglesias.

‘No dia 24 minha página sumiu e só recebi um e-mail dizendo que minha conta foi removida por eu ser reincidente’, diz Neto. ‘Desta vez, a Sony tinha notificado um vídeo meu que mostrava o Skank no começo da carreira, em 1993, tocando Let Me Try Again no Domingão do Faustão.’

Mensagem semelhante recebeu Guilherme Staush, do Memória da TV, mas por vídeo de Adriana Calcanhotto. Só a Mofo TV tinha 1.080 vídeos no YouTube e uma média de 40 mil acessos diários. ‘Não entendo por que apagar tudo de uma vez, mas aceito, apesar de questionar como a gravadora possa ter direito sobre as imagens de seus artistas em programas de TV’, diz. ‘Cada vez mais, por questões comerciais, o nosso passado é esquecido.’

O Estado acionou as assessorias de imprensa da Sony BMG e do Google, por telefone e e-mail, mas não obteve resposta até ontem.’

 

FILMES
Sérgio Augusto

Os melhores filmes de 2008 realizados nos últimos 86 anos

‘Não saberia selecionar os melhores filmes de 2008; e a dez certamente não conseguiria chegar. Em parte por ojeriza a listar e hierarquizar preferências (viciosamente subjetivas e discutíveis); em parte porque não me lembro de haver assistido a tantos filmes memoráveis no ano que há três dias se foi – e já foi tarde. Se obrigado a relacionar os que melhor o retrataram, virtudes estéticas à parte, três não poderiam faltar na minha lista: Dr. Mabuse, A Felicidade Não se Compra e Poder e Cobiça.

Ora, direis, que nenhum deles estreou por aqui, nem em qualquer outra parte do mundo, em 2008. Verdade. Dr. Mabuse (e me refiro ao mais antigo da série dirigida por Fritz Lang, Dr. Mabuse, Der Spieler) é de 1922 (há 86 anos); A Felicidade Não se Compra, de 1946; e Poder e Cobiça, de 1987. Volta e meia, porém, passam na televisão e já saíram em DVD no Brasil; estão portanto acessíveis ou já foram bem vistos.

Os acréscimos que faria tampouco foram produzidos recentemente. Se o cinema se permite tantos e tão inúteis remakes, adaptando clássicos e modestas antiqualhas a questões e situações atuais (ou apenas a novas pirotecnias computadorizadas, como é o caso do novo O Dia em que a Terra Parou), não vejo inconveniente algum em buscar em décadas passadas os filmes que mais fielmente espelharam o que de pior nos aconteceu em 2008. Sobretudo porque o fizeram com alguma ou bastante antecedência.

Sim, é da crise financeira deflagrada há três meses e o caos econômico que se seguiu que estou falando. Se ela, como alguns suspeitam, persistir e redundar em outra Depressão, fiquem à vontade para acrescentar à lista Vinhas da Ira (Grapes of Wrath, de John Ford, 1940), vários dramas criminais e musicais da Warner dos anos 1930, e até comédias como Sócios no Amor (Design for Living, de Ernst Lubitsch, 1933) e Garota de Sorte (Easy Living, de Mitchell Leisen, 1937).

Mas, por enquanto, o primeiro Mabuse, a fantasmagoria de Frank Capra e a diatribe de Oliver Stone estão de bom tamanho.

Stone é presunçoso, tem a mão pesada e uma teoria conspiratória para quase todas as vicissitudes históricas, mas, se errou, foi por pouco na composição de Gordon Gekko, o especulador da Bolsa de Nova York encarnado por Michael Douglas em Poder e Cobiça (Wall Street). Gekko não teve de esperar os 21 anos que se passaram entre o lançamento do filme e o estouro financeiro de setembro passado para entrar para o léxico como o protótipo do financista ganancioso e sem escrúpulos, o Lex Luthor do mercado de ações, o Darth Vader do capitalismo predatório. Seu lema, ‘Greed is good’ (a ganância é uma aspiração positiva), fez escola e um número incalculável de vítimas, no filme e na vida real. Não há, no universo das finanças, quem desconheça Gordon Gekko e sua tenebrosa significação.

(Idem Sherman McCoy, o infausto investidor yuppie de A Fogueira das Vaidades. Mas este não só surgiu na tela três anos depois de Gekko, como o filme de Brian De Palma, de tão ruim, não merecia um lugar na lista nem se Tom Wolfe tivesse acoplado à sua cria o sobrenome Lehman ou Madoff.)

Bernard L. Madoff, o mega-agiota que deu aquele rombo de US$ 52 bilhões mundo afora e já levou pelo menos um de seus clientes ao suicídio, teve um precursor no cinema: o diabólico Doktor Mabuse. Criação literária do luxemburguês Norbert Jacques internacionalmente popularizada pelo cineasta Fritz Lang, Mabuse era uma reencarnação nietzschiana do rei Creso e um ancestral de Goldfinger, entre outros Übermenschen obcecados por acumular riquezas e dominar o universo. Com os mesmos dotes hipnóticos de Svengali e do Dr. Caligari, submetia quem quisesse a seus desígnios megalômanos, arquitetava roubos mirabolantes, falsificava dólares, manipulava a Bolsa de Valores alemã, instaurando o pânico na economia europeia. Era o Mesmer do mal, um ilusionista zaratustraniano, um ogro protonazista que desdenhava dos que acreditavam no amor e na felicidade: ‘Não existe amor, só desejo. Não existe felicidade, só vontade de poder.’

Sua primeira aparição era, sintomaticamente, ambientada em Munique, a cidade onde Hitler poria para chocar o ovo da serpente nazista. Embora o caos econômico na República de Weimar, logo após a Primeira Guerra Mundial, tivesse sido menos uma consequência da manipulação do mercado acionário do que da gastança e do descontrole monetário do governo, a figura do especulador abjeto, do bicho-papão financeiro, do usurário sem entranhas, era muito forte no imaginário popular, a ponto de ser vista como uma possibilidade real no país mais contaminado pela ‘tavolagem econômica’ da Europa.

A facilidade e rapidez com que Mabuse tornou-se, a exemplo de Caligari, um símbolo da destruição dos valores da velha sociedade alemã, surpreenderam até seu criador, vítima, ele próprio, de um golpe aplicado por Thea von Harbour, roteirista e mulher de Lang, que do personagem virou dona até morrer, em 1954. Lang contribuiu para a transformação de Mabuse em franquia (filmou O Testamento do Dr. Mabuse em 1932, fechando sua carreira com Os Mil Olhos do Dr. Mabuse, em 1960), mas nada teve a ver com a maracutaia da mulher, de quem, aliás, se divorciou em 1934, deixando-a à vontade para lamber as botas do primeiro escalão nazista.

Com o tempo e um controle maior do mercado, a figura do especulador mabusiano cedeu lugar a outras assombrações e, mais recentemente, a um avatar benigno, cuja interferência nos pregões gerou, com a economia em mar de almirante, muito mais lucro do que prejuízo para os investidores. George Soros forçou a desvalorização da libra esterlina em 1992, afinal metabolizada como algo positivo. Mas o que parecia enterrado junto com os ‘papéis podres’ de Michael Milken (cuja devastadora atuação na Wall Street real motivou a criação de Gordon Gekko) renasceu com renovado vigor na década passada, quando relaxaram a fiscalização da venda e compra de ações e estas passaram a ser negociadas com a rapidez de um raio através de computadores. Bernard L. Madoff pode ter sido apenas a primeira reencarnação de Mabuse do século 21.

Há mais de meio século A Felicidade Não se Compra (It’s a Wonderful Life), de Frank Capra, é festejado como o filme natalino por excelência. A televisão americana o exibe todos os anos na noite de 25 de dezembro. Talvez seja o mais apreciado presente de Papai Noel que Hollywood já confeccionou para os corações de manteiga. É um prodígio de manipulação emocional, uma encantadora e edificante fábula sobre a superioridade dos bons sentimentos, uma ode à vida e à solidariedade entre os humildes. O que mais se podia esperar de um filme que começa com esta afirmação: os anjos existem?

Há seis ou sete anos, porém, alguns olhares menos anuviados pela magistral lábia capraniana começaram a encarar o filme quase como o oposto de uma fábula edificante e otimista. A Felicidade Não se Compra seria um drama ambivalente, um filme meio noir sobre a hipocrisia da pequena burguesia americana (quem numa primeira instância salva da bancarrota a financeira de George Bailey, o personagem de James Stewart, não é a população de Bedford Falls mas os US$ 2 mil que sua noiva guardou para a lua-de-mel) e uma crítica, possivelmente involuntária, à ingênua concepção de progresso defendida por Bailey. Haja vista quão animada e dinâmica é Pottersville, a pecaminosa cidade em que Bedford Falls teria se transformado se Bailey não tivesse nascido e tão tenazmente lutado para que ela permanecesse… estagnada, provinciana, pachorrenta, sem vida noturna, e com um único cinema (a exibir o xaroposo Os Sinos de Santa Maria).

Sob qualquer ângulo revisionista, o vilão da cidade continua o mesmo de sempre: Mr. Potter, um Scrooge da calva aos pés, papel na medida para a rabugenta misantropia de Lionel Barrymore. Sua visão econômica é mais ‘avançada’ e ‘moderna’ que a de Bailey, mas também mais sujeita às falcatruas que, com incômoda assiduidade, vêm aflorando às primeiras páginas do jornais. Mr. Potter, prenome Henry (quase, hein?), não é um Mabuse, nem um Gekko, nem um Madoff. Apenas um Scrooge com vontade de poder e a cínica certeza de que a felicidade pode ser comprada. O que já é muito.’

 

 

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