Sábado, 21 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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O Estado de S. Paulo

28/07/2009 na edição 548

AFEGANISTÃO
O Estado de S. Paulo

Repórter do ‘Estado’ está ‘embedded’ no país

‘A correspondente do Estado em Washington, Patrícia Campos Mello, vai passar algumas semanas acompanhando os soldados americanos no Afeganistão na qualidade de ‘embedded’ – jornalista incorporada às tropas dos EUA. Washington começou com a prática de ‘embed’ de forma sistemática durante a invasão do Iraque, em 2003. O programa foi criado porque a imprensa se queixou da falta de acesso às operações no front durante a Guerra do Golfo e a invasão do Panamá. Além disso, ao fornecer acesso e até treinamento militar para jornalistas, o Pentágono esperava ganhar uma cobertura mais positiva.

Com um jornalista comendo, bebendo, dormindo e participando de missões com os soldados, esperava-se que eles tivessem uma maior compreensão sobre o dia a dia das tropas. No início da guerra do Iraque, isso até funcionou. Mas depois, o maior acesso permitiu aos jornalistas escreverem sobre as insatisfações dos soldados, as diferenças do discurso em Washington e a realidade no front.

‘Nas vezes em que as Forças Armadas tentaram esconder os fatos, o resultado foi catastrófico; no final das contas, a história vai ser contada de qualquer jeito’, diz o major T.G. Taylor, responsável por relações públicas da Força-Tarefa Guerreiro da Montanha.

Quando o repórter é incorporado às tropas, ele assina um termo de compromisso prometendo seguir as normas. A regra básica é: não escreva nada que possa resultar na morte de alguém. O jornalista não pode revelar informações estratégicas. Também não se pode fazer perguntas sobre política e opiniões sobre a legitimidade da guerra – embora, na prática, os soldados falem sobre isso, e muito. Não se pode afastar do destacamento nem carregar armas ou álcool.

A reportagem do Estado começou o processo de se candidatar a ?embedded? no início de abril e recebeu a resposta positiva apenas em junho. Os jornalistas precisam levar seu próprio colete antibala e um capacete. Um aparelho para acesso de voz e dados por satélite também é necessário. Saco de dormir é essencial, além de vacinas contra tétano e tifo e pílulas para malária.

Alguns jornalistas não são aprovados para se juntar às tropas. Às vezes, por falta de espaço, diz Taylor: ‘Nunca temos mais de um repórter em cada pelotão (40 soldados).’ Afinal de contas, o repórter é um fardo – ele não tem o mesmo preparo físico dos soldados e o maior medo é o jornalista ficar para trás e ser sequestrado.’

 

INTERNET
Brad Stone

Nova tecnologia vence a pirataria musical na web

‘Após uma década de intensa pirataria digital, que acabou com as vendas de discos, uma nova leva de páginas que disponibilizam músicas na internet via streaming está transformando a experiência de encontrar e escutar músicas legalmente tão sedutora quanto baixá-las de forma gratuita.

Muitos observadores da indústria musical acreditam agora que uma transformação fundamental esteja em curso: o download ilegal dá lugar a serviços licenciados de streaming como o MySpace, Imeem e Spotify, por meio dos quais o usuário pode escutar qualquer música a qualquer hora e, em breve, em qualquer dispositivo.

O acesso a essas páginas é gratuito, seu conteúdo é patrocinado por anúncios e, com um catálogo de músicas cada vez maior à disposição, elas estão finalmente prontas para suplantar os desajeitados serviços ilegais, cuja navegação pode representar um desafio para os iniciantes.

‘Já faz uma década que estamos numa busca interminável, tentando reunir tanto os clássicos favoritos quanto os novos sucessos’, disse Bob Lefsetz, autor da Carta Lefsetz, um boletim de notícias da indústria musical. Ele acredita que a esperança da indústria está na cobrança de assinaturas mensais pelo acesso a páginas com tecnologia streaming na web e nos telefones. ‘Se podemos ouvir uma música rapidamente por meio de um serviço de streaming, por que roubar?’

Dois estudos recentes do comportamento dos internautas contribuem para esse otimismo. Em junho, duas agências britânicas de pesquisa, MusicAlly e The Leading Question, ganharam as manchetes da imprensa especializada em tecnologia ao relatarem que a proporção de jovens entre 14 e 18 anos que utilizam serviços de compartilhamento de arquivo ao menos uma vez por mês foi reduzida para 26% em janeiro deste ano, em comparação com os 42% registrados em dezembro de 2007.

Um estudo parecido realizado no semestre passado nos Estados Unidos pelo NPD Group descobriu que os adolescentes de idades entre 13 e 17 anos baixaram ilegalmente um número de músicas 6% menor em 2008 do que em 2007, enquanto mais da metade deles disse acompanhar serviços legais de rádio online como o Pandora, um aumento de 34% em relação ao ano anterior.

Há bons motivos para não levar tais resultados ao pé da letra – alguns adolescentes podem ter mentido a respeito dos seus hábitos de download, por exemplo. Mas há também fatores positivos indiscutíveis em funcionamento.

Os serviços musicais via streaming estão oferecendo uma alternativa não apenas autorizada como, em alguns casos, superior, e podem ser a primeira parada óbvia para uma geração jovem demais para se lembrar de quando o Napster original revolucionou a indústria musical.

O MySpace Music, inaugurado em setembro último, disponibiliza atualmente milhões de músicas gratuitas, acompanhadas por anúncios e links para a aquisição de ingressos para shows e produtos licenciados. A Nielsen relatou recentemente que o número de visitantes que acessaram o site aumentou para 12,1 milhões em junho, em relação aos 4,2 milhões de visitantes registrados em setembro.

O YouTube também disponibiliza o acesso a milhões de músicas via streaming sob a forma de videoclipes por meio de acordos com três das quatro principais gravadoras – a Warner Music segue resistindo – e o acesso gratuito é cada vez mais procurado a partir de celulares como o iPhone.

Nas semanas seguintes à morte de Michael Jackson, por exemplo, 12 milhões de pessoas assistiram ao videoclipe de Thriller a partir de páginas do YouTube que exibem anúncios e links patrocinados para a aquisição das músicas.’

 

BIOGRAFIA
Michael Greenberg

Caminhos de García Márquez

‘Quando Gabriel García Márquez terminou de escrever Cem Anos de Solidão, em 1966, estava com quase 40 anos, era pai de dois meninos e não tinha dinheiro suficiente para mandar os manuscritos da Cidade do México para seu possível editor em Buenos Aires. O episódio é famoso, aliás, um dos muitos que contribuíram para a imagem pública cuidadosamente elaborada de populista e estereótipo do gênio. No prazo de um ano, o sucesso do romance deslumbraria o autor, que foi tomado, como diria mais tarde, pelo ‘frenesi da fama’. Antes de Cem Anos de Solidão, ele havia publicado apenas três contos em pequenas edições quase clandestinas. Não parecia razoável esperar mais.

A carreira de jornalista proporcionou a García Márquez a oportunidade de ir para a Europa em 1955. Foi o período mais intenso da repressão conservadora na Colômbia, que durou 20 anos, conhecida como La Violencia. Fugir foi uma necessidade pessoal, não política.. Sempre cauteloso, García Márquez nunca contestou explicitamente o governo em suas matérias. Pouco depois de sua chegada a Paris, o jornal de Bogotá para o qual ele escrevia, El Espectador, foi fechado pelo governo. Em Paris, permaneceu um ano e meio e morou com uma atriz espanhola tão pobre quanto ele. Posteriormente, contou a Gerald Martin, autor da notável biografia Gabriel García Márquez: A Life, recém-lançada nos EUA pela Knopf, que poderia ter encontrado trabalho em outro jornal, mas decidiu não fazê-lo. Ao contrário da maioria dos escritores latino-americanos de sua geração, não foi a Paris para ‘absorver cultura’, mas para aprender a respeito de si mesmo, para cuidar ‘das minhas emoções, do meu mundo interior’.

Hoje, ele é o escritor emblemático do chamado boom literário latino-americano. Mas García Márquez não tinha o nacionalismo continental dos seus contemporâneos. Foi só em 1961, por volta dos seus 35 anos, quando morava na Cidade do México, que se deu conta da existência de uma literatura latino-americana coerente da qual ele poderia se tornar um expoente. Até então, ele havia sentido a mais profunda afinidade com os escritores norte-americanos que lera em traduções: Hemingway, Dos Passos e principalmente Faulkner, que lhe deu a ideia de que era possível retratar personagens analfabetos típicos das regiões mais atrasadas em termos míticos.

Segundo seu próprio relato, o ritmo e o conteúdo de Cem Anos de Solidão surgiram ‘repentinamente’. Com certeza, tratava-se de algo diferente de tudo o que ele havia escrito antes. A cidade fictícia do romance, Macondo, tornou-se o símbolo das regiões mais atrasadas do interior hispano-americano – um lugar isolado, quase sem lei, cujos habitantes vivem em sua própria Idade Média.

Um aspecto intrigante da biografia de Martin está em demonstrar que os eventos de Cem Anos de Solidão refletem os da infância de García Márquez, embora no romance sejam vistos quase que por refração através de uma grossa lente de impassível exagero. Decidida a acompanhar o marido itinerante, a mãe de García Márquez deixou o filho para ser criado pelos avós na tórrida cidadezinha de Aracataca, que, depois de um período de florescimento, acabara declinando – servindo de modelo para Macondo. A figura mais importante da sua vida foi o avô, Nicolas, um coronel do lado derrotado da guerra civil. Para o neto, ele era uma espécie de totem da bravura, da virilidade e do poder. Costumava dormir com uma pistola de baixo do travesseiro, embora tivesse deixado de usar armas na rua depois que assassinara o filho de uma das suas amantes. Aos 10 anos, pouco depois da morte do avô, García Márquez foi morar com os pais. Segundo narra Martin, a mudança tem o caráter de uma lenda folclórica em que o pai biológico se torna o padrasto mau que manda num bando de crianças, legítimas e ilegítimas, que o protagonista – García Márquez – mal conhecia.

O sucesso de García Márquez como romancista permite-lhe estabelecer amizades intensas com as versões vivas dos ditadores do Caribe sobre os quais escrevia – os mais famosos são Omar Torrijos, do Panamá, e Fidel Castro. Mais do que qualquer um de seus contemporâneos, ele penetrou na psique do ‘pueblo’. Suas opiniões eram uma espécie de commodity, e ele se encontrava constantemente sob pressão para declarar uma posição política coerente. Mas a coerência política não era o seu natural. Parecia valorizar sua proximidade com os poderosos, em si. Em 1961, 15 anos antes de se tornar amigo de Castro, morou em Nova York como correspondente da Prensa Latina, agência de notícias criada com o respaldo financeiro de Havana. Depois de meses, demitiu-se, pressionado pelos membros do Partido Comunista preocupados em afastar a revolução cubana do seu improvisado estilo caribenho.

García Márquez nunca ingressou no Partido Comunista e na época foi visto em geral pelos comunistas ortodoxos como apenas mais um membro de um grupo flutuante de progressistas latino-americanos sempre indecisos, que não estavam dispostos a fazer sacrifícios reais pela causa. Foi o mesmo cisma da esquerda que se repetia em outras partes do mundo desde 1917. Indubitavelmente, ele tinha consciência desse quadro. Viajara pela Europa Oriental como jornalista, em 1957, e havia visto os que faziam parte das bases do socialismo internacional, com uma aparência, segundo suas palavras, ‘derrotada e amargurada… como pedintes humilhados’. Na Hungria, dez meses depois da repressão soviética do levante de 1956, ficou chocado com o cinismo das pessoas que encontrava pela rua. Mas, após conseguir uma audiência particular com o secretário-geral, Janos Kadar, escreveu um artigo favorável, em que explicava que este ‘teve de renunciar às suas convicções a fim de continuar’.

Gerald Martin é um biógrafo entusiasta, efusivo demais às vezes, mas escrupuloso em sua pesquisa. Entretanto, ao terminar o livro tem-se a impressão de que faltam os aspectos cruciais do seu tema principal. Antes de Cem Anos de Solidão, García Márquez teve uma carreira bem-sucedida escrevendo slogans para as agências multinacionais de publicidade, como Walter Thompson e McCann Erickson. Posteriormente, revelou-se um adepto da administração da bem-sucedida marca García Márquez. Martin afirma que García Márquez destruiu a maior parte dos vestígios escritos de sua vida privada ‘e até mesmo de sua atividade literária’ – o contrário do artista recluso que confia à correspondência tudo o que lhe diz respeito , como Samuel Beckett ou V.S. Naipaul. A preocupação com a publicidade com a qual García Márquez conduziu sua vida garantiu de alguma forma que ele permanecesse essencialmente desconhecido.

Martin admite: ‘Não foi fácil para mim encontrar o caminho através das múltiplas versões que García Márquez nos deu de quase todos os momentos importantes da sua vida. Mesmo quando podemos ter certeza de que um episódio qualquer se baseia em algo que de fato ocorreu, ainda assim não podemos dar-lhe forma definitiva porque descobrimos que ele contou boa parte dos episódios conhecidos de sua vida em várias versões diferentes. Tenho uma experiência pessoal dessa mitomania, pela qual também me deixei prazerosamente contagiar.’ Um dos enigmas que Martin não conseguiu solucionar é o casamento de García Márquez aos 50 anos com Mercedes Marcha. Segundo a história, ele resolveu torná-la sua esposa após conhecê-la quando ela tinha 9 anos e ele, 14 – outro incidente crucial que se apresenta como pertencente à ordem superior do destino, refutando a análise. Mercedes corrobora vagamente o fato, e Martin, com delicadeza, não aprofunda o caso.

O que Martin transmite, de forma convincente, é a enorme distância social que García Márquez percorreu. Ele se tornou uma espécie de parque temático literário de si mesmo. Em 2007, no 40º aniversário da publicação de Cem Anos de Solidão, regressou a Aracataca de trem, com milhares de pessoas ao longo do percurso que gritavam seu apelido carinhoso (‘Gabo, Gabo’) como se ele fosse um dos caudilhos de sua criação. Entretanto, o ficcionista vive com o que Martin chama, com considerável agudeza, de uma ‘nota permanente de aristocrática identificação’, frequentando os bilionários latino-americanos, emprestando-lhes a credibilidade do seu brilho populista, recebendo em troca o apoio para a fundação para escritores que criou em Cartagena.

Em 1999, ele escreveu o elogio do século 20 da América Latina com uma nota de desespero bolivariano: ‘Acabamos como um laboratório de ilusões fracassadas. Nossa principal virtude é a criatividade e, no entanto, não fizemos muito mais do que viver de doutrinas requentadas e das guerras dos outros… Continuemos quietos com nossa Idade Média.’ Cem Anos de Solidão e O Outono do Patriarca são a descrição mais completa que temos dessa Idade Média.

No prefácio da obra, Martin escreve que ela é a versão reduzida de uma biografia muito mais extensa que planeja publicar dentro de alguns anos. Quem sabe, do próximo livro possa emergir um retrato mais profundo do escritor. Esperamos que sim. De certo modo, a vida extraordinária de García Márquez pode ser considerada um registro da guerra que o século 20 travou consigo mesmo.

Michael Greenberg é crítico literário do New York Times e escritor, autor de À Espera do Sol (Record), entre outros livros’

 

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