Segunda-feira, 24 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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O Estado de S. Paulo

10/02/2009 na edição 524

INTERNET
Lauro Lisboa Garcia

Fita gravada por João Gilberto em 58 vira hit na web

‘Durante toda a semana, blogueiros de música, colecionadores de discos e caçadores de raridades se agitaram em torno de uma preciosidade: a lendária e cobiçada fita cassete que João Gilberto gravou em 1958, antes de lançar a pedra fundamental da bossa nova, Chega de Saudade, caiu na web. Disponibilizados de graça por meio do blog Toque Musical (http://toque-musical.blogspot.com) e espalhados por outros, até com arte para quem quiser montar um CD com capa e contracapa, os registros realizados no apartamento do fotógrafo Chico Pereira viraram hit entre aficionados. São 38 faixas, entre conversas do cantor com os privilegiados que o receberam em casa, clássicos que ele incluiria nos primeiros e imprescindíveis LPs e outras canções que jamais gravou. Entre elas estão Mágoa (Tom Jobim/Marino Pinto), Nos Braços de Isabel (Silvio Caldas/José Júdice), Chão de Estrelas (Silvio Caldas/Orestes Barbosa), O Bem do Amor (Carlos Lyra) e Beija-me (Roberto Martins/Mário Rossi).

Especial da bossa nova

Além da voz e do violão de João, outros ruídos da casa aparecem vez ou outra nas gravações, como um latido, uma porta que fecha, o rodízio de uma cortina que passa pelo trilho, uma tosse aqui, um risinho de aprovação ali. Mas isso é o de menos e de maneira nenhuma compromete o interesse e a importância do registro. Considerando o tempo de existência e as condições precárias da gravação, algumas faixas estão com a qualidade de áudio bem boas, como Desafinado (Tom Jobim/Newton Mendonça) e Preconceito (Wilson Batista/Marino Pinto), graças ao trabalho minucioso de Christophe Rousseau, músico e engenheiro de som.

Rousseau não respondeu ao e-mail enviado pelo Estado até a noite de sexta-feira para falar de seu trabalho sobre essas fitas. No entanto, numa entrevista postada no site vitrola.blogspot.com, o engenheiro confirma ter recebido ‘esse documento’ de um amigo sueco que, por sua vez, o obteve de ‘um colecionador cujo nome ficou protegido por ele’. Rousseau também diz que ‘os japoneses foram os primeiros a colocar à venda lá nas terras deles esse documento, que se chamava João Gilberto – Private Sessions at Chico Pereira?s House, que era caro e de péssimo som’.

Na mesma entrevista, Rousseau confessa que quase desmaiou de felicidade quando esse material – que demorou ‘50 anos para aparecer e três dias para se tornar decente’ – caiu em suas mãos. ‘Foi com duas ferramentas profissionais de tratamento sonoro que consegui fazer renascer o som de baixo do barulho analógico das bandas Basf: primeiro o excelente BBE americano hardware Sonic Maximizer and Noise Reduction e o programa da Sony chamado Sonic Mastering Studio’, esclareceu o engenheiro uruguaio. No programa Metrópolis (TV Cultura) de sexta-feira, Rousseau disse em gravação via webcam que faz questão de entregar essa fita a João Gilberto, com a certeza de que ele adoraria.

Segundo o blogueiro do Toque Musical, que prefere ser identificado apenas como Augusto, um tempo atrás Rousseau o procurou propondo a disponibilização do material restaurado em seu blog. ‘Sei que vai ser uma bomba, porque todo mundo vai querer’, teria dito Rousseau. ‘Quando coloquei no ar sabia que ia dar impacto, mas não esperava tanto. Minha intenção é de que as pessoas saibam da existência disso’, diz Augusto, que se confessou receoso da ação, por conta de implicações legais, embora seu blog não tenha fins lucrativos.

Os internautas se depararam com uma certa dificuldade para baixar o material, pois os links são retirados e renovados a cada 12 horas por Augusto. ‘Retirei para evitar qualquer problema, porque vi que as pessoas estavam retirando em outros lugares também. Se por acaso alguém – o empresário do João Gilberto ou ele mesmo – pedir, eu retiro imediatamente. Não tenho a menor intenção de prejudicar a carreira dele ou qualquer coisa nesse sentido.’

Augusto acredita que a imprensa também ‘botou fogo’ na história para aumentar a repercussão. ‘Mas tudo bem, faz sentido, porque isso é uma gravação que ninguém conhecia. E quem tem interesse mesmo são as pessoas ligadas à bossa nova, fãs de João e gente que entende de música’, diz.

Procurado pela reportagem do Estado, o empresário de João Gilberto, Octávio Terceiro, afirmou que tanto ele como o cantor desconheciam o fato de a fita ter caído na rede e pediu que o link lhe fosse enviado por e-mail para que pudesse ouvir. Não houve tempo. No início da noite de sexta-feira, o Toque Musical estava fora do ar, restando apenas uma mensagem aos usuários: ‘Você em breve irá receber um e-mail, aguarde…’’

 

 

CENTENÁRIO
Zuza Homem de Mello

Carmen 100 anos

‘Com exceção de duas músicas, o choro Tico-Tico no Fubá, conhecido há anos e tocado em outro estilo pelos pianistas de New Orleans, e o samba-exaltação Aquarela do Brasil, gravado à beça no exterior com o título de Brazil, tudo o que se sabia sobre a música brasileira no resto do mundo até a chegada da bossa nova resumia-se a dois nomes próprios: Carmen e Miranda. Afora isso, nada mais. De 1940 a 1962.

Carmen havia brilhado no Brasil como nenhuma outra cantora durante a década de 1930, a chamada Época de Ouro da música popular brasileira. A entrada em cena foi rápida e retumbante; seu terceiro disco – a marchinha que seria celebrizada como Taí – abriu as portas do sucesso para si e para a gravadora Victor, então no segundo ano de atividades no Brasil. Era inevitável que se tornasse a primeira estrela da companhia, uma celebridade no ambiente das cantoras que flertavam com um incipiente profissionalismo. Carmen não, era ‘profissa’ antes mesmo de entrar em estúdio pela primeira vez.

Nos quase 10 anos seguintes o repertório de Carmen será uma divertida fotografia em preto-e-branco daquele Rio das confeitarias e das palhetas, um bocado diferente do que seria a capital 20 anos mais tarde, e mais ainda de 1960 em diante. Mas então em que medida o fon-fon das buzinas das baratinhas ou o dim-dim dos condutores de bonde, que servem de pano de fundo não audível nas suas gravações, podem despertar algo mais que mera curiosidade em quem vive no mundo de hoje? É algo semelhante ao que está presente nos imaginativos solos do cornetista Bix Beiderbecke com os Wolverines ou nas esplêndidas melodias de Mischa Spoliansky que nos remetem de per si e respectivamente à fascinante Chicago dos gângsteres nos anos 20 e à fervilhante Berlim dos permissivos cabarés entre as duas grandes guerras. É algo sutil que nos leva mais que simplesmente a reviver uma época, senão vivenciar uma quarta dimensão da história através do mais belo dos testemunhos, o da arte. E dela, a forma mais etérea, a música. É algo decorrente da singular percepção, provavelmente instintiva, de Carmen Miranda quando decidia o que gravar, quando cantava como gravou. É algo que só existia de fato nas suas performances de palco com balangandãs, turbantes, sandálias plataforma e tudo o mais, porém fortemente presente na imaginação de quem ouve seus discos.

São eles, para nós bem mais que os filmes de Hollywood, a valiosa herança do capítulo da arte popular brasileira que reúne um recorde de 286 gravações em menos de 10 anos, originalmente em 78 rotações, cujos rótulos estampam, abaixo dos nomes dos autores de cada canção, o dessa intérprete que soube combinar sua voz com uma figura cênica ímpar, no nível de Charles Chaplin.

Devido à profusão de inusitados elementos visuais e aos trejeitos que personalizaram seus espetáculos em circos, auditórios de rádio, teatros e cassinos, bem como filmes em que atuava, Carmen era uma cantora fácil de ser caricaturada como fez, como exemplo, a vedete Gina LeFeu em Tio Samba, um musical dos anos 60 produzido no Teatro Record.

Mas a essência da Carmen veio mesmo à tona em tributos consideravelmente mais marcantes, quando Ney Matogrosso e quando Ná Ozzetti realizaram, em momentos diferentes, magistrais recriações de seu repertório baseadas no que se ouvia em seus discos, reveladores do estilo da cantora.

O ‘it’ de Carmen é que ela tinha bossa. E tanta que, a partir do seu Taí para o Carnaval de 1930, o gênero marchinha começa de fato a existir nas canções dos três dias de folia, até então francamente dominadas pelo ritmo do samba. E assim, ditada pela bossa de Carmen, a marcha carnavalesca passou a ser um gênero fértil na música brasileira, representando por mais de 20 anos o quadro pitoresco e de fácil memorização de acontecimentos e de pensamentos vistos sob a ótica da pândega ou da crítica social.’

 

 

***

A ‘bossa’ é que faz toda a diferença

‘A bossa é a fonte que faz a diferença da nossa canção popular para quase todas as demais. Assim como João Gilberto é efígie da bossa nova, Carmen era da bossa. Foi o que encheu os olhos do seu descobridor Josué de Barros, do compositor Joubert de Carvalho, do empresário americano Lee Shubert que a levou para a América do Norte mesmo tendo de aceitar o contrapeso do Bando da Lua. Lá chegando Carmen com seu inglês arrevesado encantou os ‘horn hill corn hill’ habituados à perfeição visual e sonora da Broadway. Por quê? Porque, além da exótica figura esfuziante em cena, a voz de Carmen tinha a luminosidade que projetava contagiante alegria nas marchinhas e nos sambas ingênuos na letra e na melodia. Assim como no Brasil iam direto para a boca do povo, os chica-chica-bum foram adotados. O south american way.

Da mesma forma como criara uma fantasia no imaginário dos brasileiros e argentinos que a assistiram nos anos 1930, Carmen foi consagrada como uma bombshell entre os ianques. Foi pioneira ao ensinar-lhes a bossa, o jeitinho brasileiro, a solução alegre e surpreendente que atraiu os mais sequiosos em ir um pouco além do que sabiam sobre aquele povo diferente south of the border. Com Carmen, a bossa começa a vir à tona na música brasileira, a bossa de Lamartine Babo em Moleque Indigesto, de Assis Valente em Camisa Listrada, de André Filho em Bamboleô, a bossa de Vicente Paiva em Diz Que Tem, de Ary Barroso em No Tabuleiro da Baiana, a bossa de Dorival Caymmi em O Que É Que a Baiana Tem.

Com a dose de malícia que injetava nos versos, com a graça que concebia na melodia, ela havia moldado seu estilo notável. O historiador Jairo Severiano acerta duas vezes quando define esse estilo como ingênuo e sensual. Se a canção era ingênua, Carmen a incrementava com sua sensualidade, se maliciosa, trapaceava com falsa ingenuidade. Carmen é dos que dão vida à música, como Bessie Smith, Edith Piaf, Ray Charles, como Elis Regina, Bola de Nieve, Loretta Lynn, como João Gilberto e não muitos mais. Carmen Miranda fazia viver uma canção.

Zuza Homem de Mello é musicólogo, jornalista, escritor e produtor’

 

 

REVISTA
João Luiz Sampaio

No Nordeste ou no Sul, fazendo boa música Brasil afora

‘O fenômeno da descentralização, no que diz respeito à vida musical do País, é recente. Não se passaram nem dez anos desde que o Festival Amazonas e o Festival do Teatro da Paz se consolidaram como principais polos produtores de ópera brasileiros; da mesma forma, o posto de vanguarda em linguagem cênica é aquisição recente para Belo Horizonte. Mas já é possível afirmar que, apesar da predominância de tradição – e financeira -, o eixo Rio-São Paulo não reina sozinho. E outras iniciativas começam a surgir ou ganhar vulto no cenário, como os dois festivais realizados em janeiro, temas de artigos publicados na versão online da revista Concerto (www.concerto.com.br).

O jornalista Irineu Franco Perpétuo foi ao Recife, onde se realizou o 11º Virtuosi, dirigido pelo casal de músicos Ana Lúcia Altino e Rafael Garcia. O que começou, no fim dos anos 90, como iniciativa de expressão local, hoje tem bala na agulha para levar a Pernambuco artistas como o contratenor Phillipe Jaroussky, o violinista Ilya Gringolts e o trombonista Christian Lindberg, além de artistas e conjuntos nacionais de expressão como o violoncelista Antonio Meneses e o Ensemble São Paulo. Além dos concertos e das masterclasses, os músicos se reúnem na sinfônica do festival, regida por Garcia.

Já o crítico e compositor Leonardo Martinelli rumou em direção ao Sul do País e acompanhou alguns dias de programação do Femusc, Festival de Música de Santa Catarina. Seu diretor musical é o maestro e oboísta Alex Klein. O forte, ali, é a atividade pedagógica, narrada por Martinelli, que chama atenção para o sentido de um evento como esse, em que alunos dividem espaço com professores. ‘Em um festival como esse, recomenda-se adentrar por suas espessuras da mesma maneira que se faz um passeio pela mata: pode até ser que seu objetivo final seja uma deslumbrante cachoeira, mas até chegar lá você irá se deparar com muitas outras belezas (ainda que não da mesma envergadura)’, escreve.

O que há de comum entre as duas iniciativas é a capacidade de, ao mesmo tempo em que ganham expressão nacional, manter ligação íntima com a cidade ou região em que são realizadas. No Recife, o Virtuosi atrai um grande público e conseguiu devolver ao Teatro Santa Isabel, construído em 1850, uma programação de alto nível – reinaugurado em 2002 depois de décadas de descaso e alguns anos de reforma. O Femusc, realizado em Jaraguá do Sul, no vale do Rio Itapocu, ao norte do Estado, este ano ganhou significado mais amplo. Essa foi, afinal, uma das regiões mais atingida pelas chuvas no fim do ano passado. E Martinelli conta que a manutenção do evento só foi possível pelo esforço da comunidade e seus empresários, que viram no evento uma espécie de rito de sobrevivência. Tal articulação entre realidade regional e relevância nacional, multiplicada às dimensões planetárias, é um dos temas do momento. Em particular na música, em todo o mundo, fica cada vez mais claro que o sentido de qualquer evento ou conjunto está na contribuição que traz às comunidades que os baseiam – e é a partir dela que a contribuição nacional pode se dar. Tudo é muito recente, mas… que venham mais exemplos.’

 

 

HISTÓRIA
Lilia Moritz Schwarcz

Um personagem do seu tempo

‘‘Não está muito longe o dia em que, no mapa geográfico da escravidão, o Brasil e Cuba, duas das regiões mais belas e férteis do globo, já não serão manchas escuras na terra americana.’ Era dessa maneira que, em 8 de abril de 1880, Joaquim Nabuco se dirigia a Charles H. Allen, secretário da Foreign Anti-Slavery Society; uma organização inglesa que lutava pela abolição da escravidão. Na década de 1880, essas eram as duas únicas nações ocidentais a admitir a escravidão em seus territórios, e não sem um pingo de ambivalência o parlamentar brasileiro contrasta a beleza física do local com a ‘mancha’ que representava a escravidão. A carta revela, igualmente, o caráter moderado de seu autor, que estabelece a data de 1º de janeiro de 1890 para a abolição total da escravidão – a despeito de desculpar-se pelo prazo por demais ‘conciliatório’.

O fato é que o clima político andava esquentado, e Nabuco, considerado a essas alturas um paladino da luta pela abolição, ao mesmo tempo em que conciliava, procurava avançar. Por um lado, o Império andava com sua imagem externa chamuscada, desde que a Junta Francesa pela Abolição pedira, em 1866, pelo fim da escravidão. Por outro, vivíamos em meio à desastrada Guerra do Paraguai, e o imperador Pedro II, que até então se vangloriava de seus atos ‘civilizados’, não tinha mais como elidir a verdade de que o Estado contornava, mas a escravidão mantinha-se firme. A abolição entraria, então, na agenda do Segundo Reinado, para não sair mais.

E é uma foto, em bom ângulo, que o leitor tem agora em mãos, com a publicação de Joaquim Nabuco e Os Abolicionistas Britânicos: Correspondência 1880-1905; livro organizado por Leslie Bethell e José Murilo de Carvalho. A obra apresenta as cartas trocadas entre Nabuco e membros da Anti-Slavery Society, assim como outras recebidas e enviadas a cidadãos britânicos envolvidos na causa. São no total 110 missivas; um conjunto documental que ilumina esse momento ambivalente, em que no Brasil se procurava, de todas as maneiras, apagar tal questão. A tática de delação praticada por Nabuco a partir dos anos 1880 surge, assim, de maneira clara. Era necessário expor abertamente a situação dos escravos no Brasil, e assim constranger as elites políticas nacionais.

Por isso mesmo, a conexão britânica para a luta abolicionista é da maior importância para Nabuco, que andava convencido de que a saída era internacionalizar a polêmica e mobilizar a opinião pública. E para tanto, não havia lugar melhor do que a Inglaterra; centro econômico e político à época. Não por acaso, o contato de Nabuco com os britânicos estreitou-se a partir de 1880, logo depois que o político decidiu adotar o abolicionismo. Por outro lado, ele nunca escondera a predileção por Londres: a sua cidade universal. Isso sem esquecer o contato estreito com a aristocracia londrina, promovido pelo barão de Penedo, que sempre amparou Nabuco, sem convencer-se da missão do jovem colega e hóspede frequente.

Mas a causa abolicionista era, sobretudo, uma herança do pai, o senador Nabuco de Araújo, que também lhe preparara a candidatura e pavimentara seu futuro político. Nabuco ganharia notoriedade a partir de seus pronunciamentos na Câmara contra a importação dos coolies – os trabalhadores chineses que substituiriam a mão de obra escrava -, e de sua denúncia à companhia inglesa St. John Del Rey Mining Company, que mantinha o regime de cativeiro em seus domínios. A partir de então, o político alcançaria proeminência internacional, e se aproximaria da Anti-Slavery Society. E dessa maneira começa essa história, tão bem narrada pelas cartas de Nabuco e acompanhada pelos organizadores deste livro, que não só incluem uma expressiva introdução, como apresentam notas explicativas que ajudam a reconhecer personagens hoje pouco conhecidos, e a elucidar episódios mencionados na correspondência. Por meio das missivas pode-se dimensionar o novo impulso que o movimento ganhava; a importância da abolição da escravidão no Ceará, em 1884; o descrédito diante da lei dos sexagenários de 1885; a aproximação com Isabel – ‘que demonstrava grande interesse pelo assunto’; e por fim a promulgação da Lei Áurea, que enche Nabuco de orgulho.

Vemos também o esforço do político em ganhar a opinião pública internacional, sua visita ao papa – bem como o pedido para que ele intercedesse -; o apreço de Nabuco pelo The Times, ‘a voz da civilização’; ou o lado legalista do abolicionismo advogado pelo político: ‘A emancipação (escreve ele em 1881) não pode ser feita por meio de uma revolução. Ela só pode ser realizada por maioria parlamentar.’ Após o ato, tudo estaria ‘definitivamente reabilitado’, a não ser a sorte da Regente e do Império; por quem o parlamentar tanto temia.

Vemos também, e mais de perto, as veleidades do estadista, que parece chamar por comprimentos quando menciona ‘seu fraco inglês escrito’; ou mesmo quando defende a igualdade entre as raças. Explicava Nabuco que no Brasil ‘não existiam maneiras de traçar a linha de cor como fronteira política tão claramente como nos Estados Unidos’ e que por aqui ‘não havia preconceito’. Aí aparece Nabuco, filho e neto de donos de escravos, que a exemplo de seu famoso ensaio, Massangana, condena a escravidão mais por fatores pessoais e morais, do que como sistema. Mas se esse traço mais intimista surge de forma localizada, o que o conjunto denuncia é a visão do político que, atuando na esfera pública, condena a escravidão em nome dos valores universais.

Não por coincidência, a correspondência após a abolição perde vigor. Voltamos a encontrar Nabuco já acomodado na sua fama, confraternizando pelo fim da abolição. Nas cartas, reproduzidas fielmente em inglês e português, o público reconhecerá o estilo particular de Nabuco, que sempre misturou ativismo político com reflexão pessoal. No entanto, conforme chegamos ao fim do livro, tudo vai ganhando ar de passado. Nabuco, em seus Diários, comparara a passagem dos séculos à confluência de dois rios e admitiu não saber nadar: ‘Fico imóvel na margem onde nasci.’ Na década de 1890, o antigo agitador resignara-se a uma espécie de ostracismo, a ‘viver oculto em si’, diante do que considerava ser a censura, a violência e o arbítrio da República.

Mas o ativista seria chacoalhado outra vez, com a nomeação diplomática em Washington, e assim se reconciliaria com a República. O fato é que por meio desses documentos se percebe, de maneira definitiva, como o movimento pela Abolição não se confundiu com a luta em prol da República, e como Nabuco era personagem de seu tempo. O contexto era outro e com a surdez que desenvolvera passava a ver ‘o mundo como uma grande pantomima’. Em seus Diários desabafaria: ‘De que serve fazer a pérola quando não se pode passar de ostra?’

Nabuco nunca foi exatamente uma ostra e sempre deixou rastros por onde passou. Talvez por isso tenha enviado um papagaio como presente a Allen: aí estava um símbolo do exótico Brasil, uma lembrança para não deixar esquecer. Na verdade, foram dois os papagaios, mas ambos, apesar de suportarem bem o inverno londrino, jamais falaram. Diferente de seu antigo dono, que se pronunciava muito, e em qualquer ocasião, o bichinho de estimação abriu mão de sua faculdade única de falar. A ave andava ‘até sem vergonha’, mas, coitada, morreria muda e, conforme escreveria o secretário da Anti-Slavery Society, sem jamais ter tido a oportunidade de contar seus segredos ou os de Nabuco!

Lilia Moritz Schwarcz é professora titular do Departamento de Antropologia da USP e autora, entre outros, de O Sol do Brasil: Nicolas-Antoine Taunay e As Desventuras dos Artistas Franceses na Corte de D. João (Companhia das Letras, 2008)’

 

 

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