Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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O Estado de S. Paulo

17/02/2009 na edição 525

GESTOR
Moacir Assunção

Entidades reagem a nova carreira de comunicação

‘A notícia de que a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) pretende criar uma nova carreira para jornalistas, publicitários e relações-públicas no serviço público, a de Gestor em Comunicação Pública, gerou polêmica entre entidades e profissionais ligados ao setor. A razão é que já existe na estrutura do governo federal uma carreira para a área, a dos Técnicos em Comunicação Social (TCSs), com cerca de 600 cargos, dos quais metade vagos, preenchidos por concurso público e destinadas a todas as repartições do governo. A Secom confirmou que planeja criar a nova carreira e o projeto deve ser encaminhado ao Congresso no segundo semestre.

‘É como determinada prefeitura criar o cargo de cirurgião-dentista quando já existe o de dentista. Questão puramente de nomenclatura, mas com uma sutileza: o salário dos futuros integrantes da carreira em estudo na Secom é de encher os olhos, enquanto profissionais concursados há décadas vão seguir com remuneração aviltante’, compara o jornalista Oswaldo Augusto Leitão, um dos integrantes do movimento dos profissionais de comunicação do Executivo Federal, formado por TCSs, em artigo no site Observatório da Imprensa.’

 

 

BOMBA
O Estado de S. Paulo

Mais uma granada é encontrada em jornal

‘Uma segunda granada foi encontrada no prédio da Rede Anhanguera de Comunicação (RAC), que edita o Jornal Correio Popular, em Campinas. O prédio foi alvo de atentado na noite de 21 de janeiro. A polícia acredita que o artefato tenha sido jogado no mesmo dia em que três homens atacaram o prédio. A segunda granada foi encontrada por uma faxineira na sala alvo dos suspeitos – que estava vazia e fechada desde o dia do atentado.’

 

 

AGRESSÃO
Jamil Chade

Brasil passa a ser alvo de críticas dos suíços

‘O Brasil tornou-se alvo de protestos por causa da suposta agressão contra Paula Oliveira, em Zurique, depois que a polícia da Suíça emitiu o laudo desmentindo a gravidez da advogada e colocando em dúvida a versão dela de que foi atacada por skinheads. Os jornais suíços criticaram ontem duramente o Brasil e até o chamaram de um dos países mais xenófobos do mundo. O consulado brasileiro em Zurique foi inundado por e-mails de cidadãos suíços, alguns agressivos, criticando autoridades, mídia e a sociedade por terem classificado o caso como ato de xenofobia. ‘Alguns nos acusam de ter dado um tratamento indevido ao caso’, afirmou a consulesa do Brasil em Zurique, Vitória Clever.

Para Genebra, que teve seu embaixador no Brasil convocado pelo chanceler Celso Amorim, o esclarecimento do caso virou questão de honra. A polícia ainda declarou que a brasileira pode ser indiciada por ‘armar uma farsa’ – crime que prevê tratamento psicológico, multa e, eventualmente, prisão.

Paula, de 26 anos, afirmou à polícia que foi atacada na segunda-feira na periferia de Zurique por três skinheads e a agressão teria provocado um aborto. Na sexta-feira, a polícia apresentou um laudo médico, concluindo que Paula não estava grávida e alertando que privilegiaria a suspeita de automutilação.

O pai da brasileira, Paulo Oliveira, mudou ontem seu discurso em relação às provas da gravidez que, na sexta-feira, garantiu que tinha. ‘Não sei nem onde procurar’, afirmou. Ele também abandonou as críticas à polícia e afirmou que sua filha está ‘em grave estado psicológico’. ‘Por ordens médicas, Paula ainda não sabe do laudo médico emitido pela polícia’, disse o pai. ‘Em qualquer circunstância, minha filha é vítima. Ou ela é vítima de graves distúrbios psicológicos, ou vítima da agressão que desde o início ela sustenta e eu não tenho motivos ainda para duvidar’, disse o pai. O hospital está mantendo uma enfermeira 24 horas por dia dentro do quarto da brasileira por causa de suas condições psicológicas. O consulado orientou a família para que contrate um advogado, caso queira contestar o laudo da polícia. Mas Oliveira disse que não contratará um advogado.

As autoridades suíças disseram ao governo brasileiro que ‘irão até o fim’ nas investigações para esclarecer o ocorrido. ‘Os suíços querem limpar a imagem do país e disseram que vão buscar uma solução ao caso, onde a verdade estiver’, afirmou a consulesa. Prevendo um abalo nas relações bilaterais, o Itamaraty tenta agora conter os danos provocados pelo caso.

Os jornais suíços fizeram um duro ataque ao Brasil. O prestigioso Neue Zürcher Zeitung ironiza o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e diz que a mídia brasileira ‘regularmente publica notícias de fatos inventados, acusações que já destruíram a vida de outras pessoas’. Segundo o jornal, a gravidez inventada seria técnica comum no Brasil para mulheres que querem pressionar seus maridos. Para o diário, o Brasil seria um dos países mais xenófobos do mundo: ‘O país está, segundo sondagens internacionais, entre os Estados com maior índice de xenofobia: 72% dos brasileiros são, segundo pesquisa, contra a recepção de estrangeiros.’’

 

 

TECNOLOGIA
Nilza H. Barros

Brasileiros viram líderes de tecnologia nos EUA

‘A empresa de computadores americana Maingear Inc., apesar de ainda pequena, é uma colecionadora de prêmios. É considerada a melhor companhia de computadores de alto desempenho do país. Suas máquinas são frequentemente eleitas as melhores do mundo para aplicações profissionais – ou para serem usadas por maníacos por jogos de computador – por algumas das revistas de informática mais respeitadas como C-Net, Computer Shopper, Digital Trends, CPU, Games for Windows e Hot Hardware. E, apesar da trajetória de sucesso que sugere uma história parecida com a de nomes como Michael Dell ou Steve Jobs, a Maingear tem uma peculiaridade: é uma empresa fundada e dirigida por dois brasileiros.

Wallace Santos, 25 anos, nascido em Governador Valadares (MG) e Jonathan Magalhães, 44 anos, de Belo Horizonte, chegaram aos EUA por caminhos diferentes. Santos mudou-se há 23 anos para o país com os pais José e Maria Santos. Diz que o pai, caminhoneiro, conseguiu visto de trabalho, o que possibilitou a mudança da família. Fez o ensino primário e secundário na pequena cidade de Kearny. Adolescente, trabalhava depois da escola numa loja de jogos eletrônicos, experiência que usaria alguns anos mais tarde em sua empresa. Estudou engenharia de sistemas no Cittone Institute, em Edison, Nova Jersey.

Jonathan emigrou primeiro para o Canadá, em 1984, onde estudou francês, inglês e concluiu o curso de engenharia estrutural na Universidade de Toronto. Mudou-se para os EUA em 1994, após conseguir emprego em uma empresa canadense que tinha filiais no país.

O caminho dos dois se cruzou em um curso de programação para computadores, em meados de 1994. Santos tinha apenas 12 anos e frequentava as aulas em companhia de um amigo, Giovani Solari, que hoje também faz parte da equipe da Maingear. ‘Desde os 10 anos de idade, já fazia cursos de informática; montei minha primeira máquina aos 13 anos’, diz. Magalhães lembra que era interessante ver os adolescentes numa classe de adultos. As famílias ficaram amigas e sempre conversavam sobre o projeto de abrir um negócio. ‘O Wallace sempre me dizia: temos de montar um negócio nessa área, porque não é muito explorada.’

Com um capital inicial de US$ 150 mil, a Maingear Inc. foi registrada em setembro de 2002. Em novembro do mesmo ano lançou a primeira linha para gamers – como são conhecidos os fanáticos por jogos -, com três modelos diferentes. ‘Começamos timidamente porque o nicho de mercado era altamente competitivo. O gamer é um cliente muito exigente, entende tudo sobre computador e sabe usá-lo em sua totalidade’, diz Magalhães.

Em meados de 2003, veio a primeira de muitas premiações, dada por um programa de tecnologia exibido na televisão americana, o The Screen Savers. Em 2006, o site Hard Consumer, especializado em testar máquinas e serviços das empresas, elegeu a Maingear a ‘Boutique Computer Manufactures’ do ano.

‘Eles compravam nossas máquinas anonimamente e avaliavam desde a eficiência de website, passando pela forma com que o produto era confeccionado, entrega, serviço técnico e a satisfação do cliente’, conta Magalhães.

BRASIL É PRÓXIMO ALVO

A Maingear vende desktops, notebooks, media centers e workstations. Usa os componentes mais sofisticados dos grandes fabricantes mundiais em seus equipamentos. Seus computadores chegam a ter 12 gigabytes de memória e disco rígido de 4 terabytes – números muito superiores aos das máquinas convencionais. Como esses computadores são em geral usados em condições extremas, a empresa desenvolveu um sistema de refrigeração a água para evitar superaquecimentos.

Ainda é uma empresa pequena: são apenas 12 funcionários que montam cerca de 250 máquinas por mês. A receita gira em torno de US$ 1 milhão por ano. ‘Todo mundo se surpreende quando vê o nosso tamanho. Pelo barulho que fazemos, acham que somos bem maiores’, diz Santos.

Segundo ele, em 2007 a empresa recebeu uma oferta de compra de US$ 6 milhões de uma empresa rival. ‘Era uma boa oferta, mas achamos que tínhamos condições de crescer muito mais.’

O Brasil é o próximo alvo da Maingear. A empresa deve iniciar operações de venda no País no segundo semestre. ‘Somos brasileiros, considerados os melhores aqui nos Estados Unidos. São nossos parceiros e clientes que dizem isso. Queremos agora levar isso também para o Brasil’, diz Santos.’

 

 

INTERNET
Alexandre Rodrigues

Miliciano foragido reaparece no YouTube

‘Foragido desde que escapou pela porta da frente do presídio Bangu 8 em outubro, o ex-policial militar Ricardo Teixeira da Cruz, o Batman, reapareceu ontem na internet. Quatro vídeos foram postados no site YouTube com uma espécie de entrevista (veja no www.estadao.com.br/e/c5). O homem apontado como líder de uma das milícias que atuam na zona oeste do Rio nega estar por trás de assassinatos ocorridos após sua fuga. Ele acusa policiais de corrupção e diz ter pago R$ 50 mil para não ser preso.

Batman diz que a milícia Liga da Justiça, chefiada pelo ex-vereador Jerominho Guimarães e seu irmão, o ex-deputado estadual Natalino Guimarães, é uma invenção da imprensa. No entanto, admite que controlou a máfia de transportes alternativos na zona oeste. Ele diz que policiais do delegado Marcus Neves, da delegacia de Campo Grande e responsável pela prisão dele e dos irmãos Guimarães, foram seus aliados.

Batman nega ter subornado agentes penitenciários para fugir da prisão. Diz ter aproveitado uma falha na segurança. Num dos vídeos, ele fala que se apresentará se houver disposição das autoridades para investigar suas denúncias.

A Secretaria de Segurança informou que investiga a origem e o teor do vídeo, mas o secretário não comentaria o assunto. O delegado Marcus Neves não foi encontrado.’

 

 

RECUPERAÇÃO
Edison Veiga

Livros da Mário de Andrade passam por desinfestação inédita

‘Há um vilão silencioso e cruel que habita as páginas de 31% dos livros da Biblioteca Mário de Andrade, a segunda maior coleção pública do País e a mais importante de São Paulo. Mas, como em uma história de final feliz, a morte desse vilão é certa. E deve ocorrer no próximo capítulo, quando os heróis empunharão as últimas armas de uma batalha que dura oito anos.

Esse enredo de guerra e morte não está impresso em livro nenhum – sai em tinta e papel pela primeira vez agora, no Estado. O vilão, com seus vorazes arroubos de maldade, não integra nenhuma obra de ficção. São as brocas, insetos semelhantes ao cupim, que se alimentam de papel – e adoram algumas substâncias naturais encontradas na cola utilizada em processos de encadernação até os anos 70. O exército de heróis é formado por três frentes: os funcionários da biblioteca, consultores externos e uma equipe contratada como reforço extra para o derradeiro golpe, desferido a partir desta semana.

Os primeiros vestígios de que o centenário acervo da Mário de Andrade – a biblioteca foi fundada em 1926, mas incorporou a antiga coleção da Câmara Municipal – padecia da infestação desses comilões insetos surgiram no ano 2000. ‘Eles vieram aqui por um conjunto de fatores. As janelas, por exemplo, ficavam abertas durante o horário de trabalho’, reconhece a bibliotecária Rita D?Angelo, diretora da Divisão de Acervo.

Uma solução paliativa foi adotada por um grupo de funcionários da instituição, capitaneado por Marluce dos Santos, chefe da Seção de Restauro e Encadernação. Eles passaram a folhear, página a página, cada um dos 200 mil exemplares da chamada Coleção Geral, que ocupa as estantes do 6º ao 14º andar – felizmente, os cerca de 50 mil títulos raros, melhor acondicionados no 1º, 2º, 3º, 4º e 5º andares, não foram atingidos. Cada bicho encontrado era arrancado do livro com uma pinça. E esmagado.

Nesse trabalho ingrato e quase infinito, Marluce chegou a ter a companhia de outros nove colegas, dos 91 que trabalham na biblioteca. Em 2006, essa operação ganhou ares científicos. Começou-se a contabilizar o número de obras infestadas pela praga. Essas, antes de retornar à estante, foram embaladas em um saco de tecido e receberam uma etiqueta com um ‘I’ (de ‘infestado’). Os livros imediatamente vizinhos também foram ensacados e rotulados – com um ‘R’ ( ‘em risco’).

Dezoito meses depois, os resultados aterrorizaram qualquer amante das Letras. De acordo com um relatório interno da instituição, há andares em que as brocas foram encontradas em mais de 70% dos volumes. No total, 31% do acervo estava infestado. ‘Graças ao processo constante de higienização, as brocas não destruíram completamente os livros’, ressalta a restauradora Norma Cassares, presidente da Associação Brasileira de Encadernação e Restauro (Aber) e um dos profissionais que prestam consultoria à Mário de Andrade. ‘Mas desde 2005 eu vinha sugerindo um tratamento mais radical e definitivo.’

A solução veio. Ao custo de R$ 700 mil, bancados pela Secretaria Municipal de Cultura. No seguramente maior trabalho de desinfestação já feito em uma biblioteca no Brasil – e, acredita-se, no mundo – uma empresa especializada vai utilizar alta tecnologia para matar os insetos, sumariamente, asfixiados.

E é por isso que, desde o início do ano, o corre-corre no prédio da Mário de Andrade, no comecinho da Rua da Consolação, no centro, tem um objetivo: colocar os 200 mil livros em 4 mil caixas de papelão, de modo sistemático, organizado e cuidadoso. Essas caixas começariam a ser levadas ontem para um galpão em Santo Amaro.

Ali, uma moderna estrutura está sendo montada – e deve começar a funcionar ainda nesta semana – para a execução dos insetos. As caixas serão empilhadas e ficarão dentro de uma bolha plástica que abrangerá uma superfície de 110 m². ‘É um plástico especial, de 12 camadas’, explica o especialista alemão em conservação e restauro Stephan Schäfer, proprietário da empresa, cuja sede fica nos Jardins, e professor da Universidade Nova de Lisboa, em Portugal. Dentro da bolha, nada de produtos tóxicos. Nitrogênio é injetado, ‘expulsando’ o oxigênio. ‘Durante 30 dias, vamos manter uma concentração de 0,1 a 0,3% de oxigênio’, explica Shäfer, que receberá, pelo celular, boletins de meia em meia hora com informações sobre temperatura, umidade e níveis de oxigênio dentro da estrutura.

O processo vai repetir-se outras duas vezes até que todo o acervo da biblioteca seja desinfestado. Aí novamente entrará em ação a equipe de Marluce, para limpar, página a página, os restos mortais dos bichos.

Com a reforma da Mário de Andrade – a previsão é de que a instituição volte a funcionar no fim deste ano – todos os andares do prédio terão sistema de ar condicionado. As janelas ficarão vedadas. ‘Esperamos que as brocas virem história. E nunca tornem a atacar’, torce o bibliotecário William Okubo, um dos protagonistas desta guerra que, parece, está chegando ao final feliz.’

 

 

FOTOGRAFIA
Luiz Zanin Oricchio

Cartier-Bresson: o olhar do século 20

‘Você com certeza já deve ter visto algumas dessas imagens: Sartre na Pont des Arts, Gandhi, um casal se beijando em Paris, um garoto sorridente carregando duas garrafas de vinho na Rue Mouffetard, o rosto trágico de Edith Piaf. São de Henri Cartier-Bresson (1908-2004), sinônimo de fotografia no século 20. Contra sua vontade, ele fundou uma escola e um estilo. A teoria do ‘instante decisivo’, a opção pelo preto-e-branco, a Leica, a recusa ao uso do flash – tudo isso constituiu uma mitologia em torno do homem que elevou a fotografia à condição de arte (teve exposições em Nova York e no Louvre num tempo em que a fotografia era considerada apenas registro técnico). Ao mesmo tempo, com Robert Capa, fundou o fotojornalismo. Virou ícone e mito mas fez questão de manter sua vida pessoal numa zona de sombra. Seu biógrafo Pierre Assouline tenta levantar o véu de mistério que cerca esse personagem em Cartier-Bresson – O Olhar do Século, que sai agora pela L&PM (tradução de Julia da Rosa Simões, 352 págs., R$ 56).

Assouline não se contenta em fazer uma biografia convencional. Além de reconstruir a vida de Cartier-Bresson (designado, na França, pela sigla HCB), procura compreender seu processo de trabalho, entender o que faz de uma foto dele algo único, singular, inimitável. Assouline tem prática na coisa. Entre outros, já biografou personalidades como Georges Simenon, Gaston Gallimard e Hergé, o criador de Tintin. É jornalista cultural do Le Monde e mantém no ar o blog literário de maior sucesso em seu país (http://passouline.blog.lemonde.fr/), com milhares de acessos e centenas de comentários por dia. Certo, é na França, mas mesmo assim, invejável.

Compreensão implica entendimento do contexto. HCB vem de família rica. Essa contingência, independente da vontade do sujeito pois ninguém escolhe o berço em que nasce, pode conduzir à soberba, à indiferença ou a nada disso. Já a riqueza do jovem Henri fazia-o sentir culpa em relação às classes desfavorecidas. Menino, recortou do jornal L?Echo de Paris o artigo intitulado De Onde Vem o Dinheiro? e o pregou em cima do espelho, para vê-lo todas as manhãs. A culpa é elemento importante na motivação, ensinou Freud (‘Não é a fé, é a culpa que remove montanhas’, dizia).

Isso pode em parte explicar a escolha de temas, mas de onde vem a ‘estética’ das fotos de HCB, sua incomparável noção de volume, os retratos famosos, instantâneos que parecem resumir toda uma vida dos fotografados? Nesse caso é preciso lembrar que a primeira vocação de Cartier-Bresson foi a pintura – ele ama Cézanne, em particular. Mas também a literatura, tendo Proust como guia de toda a vida. ‘São suas verdadeiras referências culturais’, escreve Assouline. ‘São seus ?fotógrafos? de cabeceira.’ O jovem Henri cuida também da parte ‘técnica’ e se matricula na escola de André Lothe, onde trabalha a pintura e, em especial, o desenho. Vai com regularidade ao Louvre e copia obras dos mestres. De Lothe apanha o ‘vírus’ da geometria. Adota como seu o lema da Academia de Platão: ‘Quem não for geômetra, não entre.’

O curioso é que, na composição da personalidade de HCB, o espírito de geometria tenha de se afinar com o que parece ser seu oposto – a convivência com Breton e Aragon, e portanto com o surrealismo, seu flerte com o inconsciente, o acaso e o desejo. Dessas exigências contrárias ele tira a síntese que seria a grande lição de Lothe: não existe liberdade sem disciplina. Na verdade, o que acontece nesses anos de formação é menos a aquisição de uma técnica ou o aprendizado de um ofício do que a formação de um olhar. Olhar que, por sua vez, encontra na flexibilidade de um aparelho fotográfico alemão o seu veículo perfeito. Esse é um dos casamentos do século: HCB e a sua Leica.

União que poderia ser menos fértil caso HCB fosse um artista de gabinete. Pelo contrário, ele se mostrou viajante incansável, tendo morado em vários países. Além disso, buscou sempre fazer-se presente onde as coisas aconteciam, ou poderiam acontecer. Esteve na guerra civil na Espanha, foi feito prisioneiro durante a 2ª Guerra Mundial, escapou e assistiu à Liberação de Paris. Registrou, com terror, a caça aos colaboracionistas. Estava na Índia quando Gandhi foi assassinado e foi dos últimos a vê-lo com vida. Em contato com o inesperado da experiência, era insuperável na escolha daquele momento único no qual o obturador deve ser disparado para captar uma imensidão de vida em uma fração dela. Toda a arte da fotografia está na escolha desse momento, que HCB definiu como o ‘instante decisivo’. Por isso, um dos seus personagens, Sartre, pôde defini-lo como ‘o homem que fotografou a eternidade’.

Em tempo: o próprio Henri Cartier-Bresson odiava ser fotografado. Só deixou sua imagem ser captada em raras e especiais ocasiões.’

 

 

CIDADES
João Luiz Sampaio

A vida urbana recriada em imagens

‘‘Os cenários da vida pública são os lugares onde se celebra a vida urbana e a linguagem pela qual se identifica um tipo de urbanidade particular. O que pode, no entanto, acontecer quando a localização e/ou a natureza desses lugares mudam? Parece-nos que há simultaneamente um movimento de mudança na própria identidade urbana que se opera.’ É tomando como ponto de partida a interação entre comportamento e urbanização que chega às bancas o novo número da revista Cidades, editada pelo Grupo de Estudos Urbanos. O volume marca uma mudança de foco na publicação, que agora passa a ser temática.

No espírito dessa interação é que se articulam os textos de Imagens da Cidade. A escolha é explicada na apresentação de Paulo Cesar da Costa Gomes e Vincent Berdoulay. ‘Quase todas as cidades possuem certos espaços que são privilegiados em relação aos outros. Às vezes, uma praça, jardins, um conjunto de ruas, um cruzamento de avenidas, pouco importa o modelo em sua origem, esses lugares concentram significações, são densos de sentidos, atraem o público e simbolizam a cidade. Esses lugares colaboram de forma fundamental na construção de imagens da identidade de cada cidade e sobre eles ocorre a cenarização da vida pública. Eles são assim os lugares onde se celebra a vida urbana e a linguagem pela qual se identifica um tipo de urbanidade particular.’

Costa Gomes, em seu artigo, assinado conjuntamente com Marcos Paulo Ferreira de Góis, elege como tema a representação da cidade nos quadrinhos, mostrando, por exemplo, que nas histórias de super-heróis ‘há uma predominância de grandes cidades que, ao serem percorridas pelos protagonistas, são por ele ressignificadas.’ ‘Desde os anos 30 até os quadrinhos mais recentes, é uma constante a representação de altos prédios, entremeados por avenidas onde circulam muitos veículos e pessoas. Isso parece possuir um significado original que reside na comunhão entre poderes espetaculares para responder aos grandes problemas que surgem nesse quadro das grandes cidades.’

Em linha parecida segue André Lima Alvarenga, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, cujo artigo analisa ‘a espacialidade urbana criada e colocada em jogo pelo videogame Grand Theft Auto: San Andreas’, tentando mostrar ‘a particularidade e riqueza desse meio infográfico, interativo e hipertextual para uma análise geográfica’. O filme Redentor, de Cláudio Torrer, é o ponto de partida para artigo de Maria Helena Braga e Vaz da Costa, que discute a relação entre a percepção e a experiência do espaço na produção cinematográfica. Também a partir de um filme – no caso, O Signo de Leão, de Eric Rohmer -, Alice Nataraja Garcia Santos investiga de que maneira a escolha das locações contribuem ‘na transmissão de significados e na compreensão dos sentidos da ação dramática’.

O que provoca a desordem pública? Ou melhor, ela ‘resulta da desobediência ou se projeta como uma imagem de uma nova ordem’? É tentando responder a essas perguntas que se constrói o ensaio de Iná Elias de Castro e Ataíde Teixeira, professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Já Laurent Vidal discute o uso político de imagens da cidade, seja em programas de marketing, seja para apoiar uma ambição política.’

 

 

 

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