Quinta-feira, 21 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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ENTRE ASPAS >

O Estado de S. Paulo

17/02/2009 na edição 525

TECNOLOGIA
Renato Cruz

Apesar da crise, empresas de tecnologia crescem no exterior

‘A crise global, é claro, atingiu o mercado de tecnologia. A venda de computadores e de celulares se expandiu fortemente nos últimos anos no País, mas o último trimestre de 2008 já registrou uma aceleração. Apesar disso, a maturidade alcançada pela indústria durante o período de expansão tem permitido que as empresas brasileiras continuem a buscar oportunidades no exterior.

No caso da Trellis, que fabrica equipamentos de comunicação de dados, a internacionalização permitiu reduzir o impacto da desvalorização do real. A empresa criou uma subsidiária em Hong Kong para acompanhar a produção terceirizada de seus produtos na China e para vender diretamente para o cliente brasileiro. Apesar de a área de projetos estar no Brasil, a maioria dos equipamentos da Trellis é produzida por parceiros chineses.

‘A crise nos pegou um pouco de calças curtas’, afirmou Cassio Spina, diretor executivo da Trellis. ‘Eu estava em Hong Kong para abrir a subsidiária quando o Lehman Brothers quebrou (em setembro). Pelo menos fizemos o investimento antes da mudança no câmbio.’

O escritório de Hong Kong acabou sendo importante para a Trellis quando o real começou a cair ante o dólar. A venda direta para os clientes brasileiros reduziu a cobrança de impostos em cascata, diminuindo o preço em cerca de 15%, compensando parte das perdas cambiais. A Trellis faz parte da Virtus, companhia que nasceu da fusão de oito empresas brasileiras de tecnologia no ano passado. Segundo Spina, o faturamento anual da Virtus está entre R$ 70 milhões e R$ 75 milhões, e a empresa, que ainda está sendo formada, emprega 450 pessoas.

A Spring Wireless, que desenvolve aplicações via celular para empresas, também foi para a China. A empresa abriu um escritório em Hong Kong em novembro, e mais dois, em Xangai e em Pequim, em dezembro. A Spring Wireless tem 16 escritórios internacionais, que respondem por cerca de 35% do faturamento. ‘Os maiores são México e Rússia’, disse Marcelo Condé, presidente da empresa.

A operação asiática da Spring Wireless recebeu investimento de US$ 7 milhões. Ela deve faturar US$ 8 milhões este ano e a previsão para 2010 é de US$ 20 milhões. Recentemente, a Spring Wireless comprou a Okto, que desenvolve serviços via celular para o mercado de consumo, e levou os serviços da empresa para o México. A Spring Wireless fatura cerca de US$ 100 milhões por ano e a Okto, R$ 60 milhões.

As empresas brasileiras de tecnologia estão indo para o exterior por motivos diversos, mas os movimentos mais recentes têm mostrado um ponto em comum: o foco em países emergentes. A Ação Informática, distribuidora brasileira de produtos de informática, foi convidada pela IBM e pela Oracle para criar uma operação na Colômbia. Ela também adquiriu uma empresa na Argentina, para atender os mercados argentino e uruguaio. ‘Muita coisa que a gente faz aqui e parece ?carne de vaca? pode ser exportado’, afirmou Enio Issa, presidente da Ação Informática. Ele citou como exemplo agregar serviços à distribuição de produtos, que é uma tendência nova em outros países da região.

O faturamento da Ação Informática atingiu R$ 322 milhões no ano passado, com previsão de crescimento de 40% este ano. A empresa estuda a possibilidade de abrir um escritório no Peru ainda neste trimestre. A empresa planeja investir cerca de US$ 20 milhões na aquisição de empresas na América Latina até 2012, com operações no Cone Sul (Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai), Região Andina (Colômbia, Peru e Venezuela) e América Central (México e Caribe).’

 

 

Microsoft terá lojas próprias para concorrer com a Apple

‘A Microsoft anunciou planos de abrir sua própria cadeia de lojas, como uma forma de fazer frente à rival Apple, que tem sido bem-sucedida em seu movimento rumo ao varejo. A maior companhia de software do mundo, que também desenvolveu o console de videogame Xbox e o tocador de música digital Zune, não informou quantas lojas pretende abrir com a sua marca ou quais linhas de produtos pretende vender.

As decisões serão tomadas por David Porter, executivo egresso da DreamWorks Animation que a Microsoft nomeou como vice-presidente das lojas do varejo. Porter, que também foi gerente da rede Wal-Mart, vai se reportar diretamente ao diretor de operações do grupo, Kevin Turner.

O movimento da Microsoft rumo à abertura de lojas próprias, amplamente aguardado pelo mercado, chega em um momento em que os gastos dos consumidores estão sob enorme pressão com a crise global. Uma tentativa similar da fabricante de computadores Gateway de abrir lojas próprias anos atrás não teve sucesso.

A Microsoft, afetada pela fria recepção do mercado ao seu mais recente sistema operacional, o Vista, enfrenta acirrada competição da Apple, que também atua no segmento de computadores pessoais e domina o mercado de música digital com o iPod. As lojas da Apple, que hoje somam mais de 200 em todo o mundo, têm sido cruciais em atrair clientes à marca nos últimos anos.

RECOMPENSA

A Microsoft também ofereceu uma recompensa de US$ 250 mil para encontrar os criadores de um ‘worm’ (verme) que ataca os sistemas dos computadores. O Conficker, ou Downadup, espalhou-se rapidamente, infectando milhões de computadores no mundo inteiro e ameaçando se apoderar, ou destruir, seus sistemas.

A Microsoft está trabalhando com especialistas de segurança em informática e com a Internet Corporation for Assigned Names and Number (Icann) para rastrear qualquer Conficker que esteja solto. A empresa prometeu a recompensa por qualquer informação que leve à captura das pessoas que lançaram o worm na web.’

 

 

LIVROS
Ubiratan Brasil

O pecado sempre morou ao lado de Marilyn Monroe e John Kennedy

‘Ele era adorado por sua simpatia, destemor e saudável bronzeado, mas não passava de um homem egoísta, constantemente doente e maníaco sexual. Ela era amada pela estonteante beleza, carisma e sex-appeal, mas era uma mulher depressiva, viciada em remédios e de higiene quase inexistente. John Fitzgerald Kennedy (1917-1963) e Marilyn Monroe (1926-1962) ainda habitam o imaginário de milhões de pessoas como exemplos na política e no cinema. Mas não para o romancista e crítico de cinema francês François Forestier, que destrinchou a vida de ambos no livro Marilyn e JFK (tradução de Jorge Bastos, 216 páginas, R$ 33,90), que a editora Objetiva lança na terça-feira.

Durante seis anos, o maior símbolo sexual dos Estados Unidos e o senador que se tornou presidente tentaram manter em segredo um relacionamento amoroso. O caso não se tornou público por conta de precauções da imprensa, mas um farto material foi coletado pela espionagem da máfia, FBI e da inimiga KGB. Afinal, a América vivia a insanidade da Guerra Fria, o que justificava o voyeurismo do Estado, as chantagens, manipulações, eleições compradas e dinheiro ilícito.

Forestier conta, logo na abertura do livro, que se valeu de um defeito crucial para ir fundo na pesquisa: uma má índole. De fato, o fel transborda em quase todas as páginas, na construção do retrato de um casal doentio. Nascida Norma Jeane, Marilyn era uma manipuladora da piedade. Conhecida por comédias memoráveis como Quanto Mais Quente Melhor, ela era, na verdade, segundo Forestier, uma atriz egoísta, que não se importava com os colegas. Utilizava o sexo como forma de conquista, habitualmente acordando em lençóis estranhos. Também era viciada em remédios, que criavam um sono artificial e um universo fictício, que a levaram à morte.

Talhado para ser presidente da República pelo pai, Joe Kennedy, ele mesmo um homem racista e afundado em negócios sujos, John era um político que se esquivava de problemas importantes e se concentrava nas mulheres, inúmeras, que frequentavam sua cama, para sexo de, no máximo, 15 minutos. Terminou assassinado, caindo no colo da primeira-dama, Jacqueline, que suportava o adultério em troca da fama. Sobre essa face podre da América dos anos 1960, Forestier respondeu por e-mail às seguintes perguntas do Estado.

Como um chefe de Estado mantia relações sexuais com tantas mulheres, e, ao mesmo tempo, comandava uma nação?

Naqueles dias felizes, todos os jornalistas e escritores estavam cientes do fato de que o presidente exagerava, traindo sua mulher como um louco. Mas eles se sentiam obrigados a não comentar nada. Quando um cidadão enviou fotos de JFK com outra mulher, nenhum jornal publicou. Quando Phil Graham, o chefão do jornal Washington Post, declarou publicamente que o presidente colecionava affaires e amantes, nenhuma revista divulgou. Havia um consenso: a vida privada do presidente estava além dos limites. Mas, como Kennedy conseguia governar o país, é um mistério. Como vivia doente, ele funcionava adequadamente apenas algumas horas por dia, tirando uma soneca às tardes e divertidas sestas à noite… Alguém disse que JFK gastou metade do seu tempo perseguindo as mulheres, e a outra metade pensando nisso. Acho que ele era muito rápido, com certeza.

No prólogo, você confessa ter a má índole necessária para escrever tal livro. Era preciso tanto assim?

Sim. Se tentar dizer a alguém que Marilyn não era uma santa, mas uma mulher suja e manipuladora, você é olhado como louco. Se falar algo sobre a imoralidade de JFK, a mesma reação. Assim, para trazer a verdade, é preciso enfrentar preconceitos. E mau humor é um instrumento necessário. Sem isso, o jornalismo é possível. Meus melhores amigos são mal-humorados.

Marilyn Monroe tinha fama de ser uma mulher inteligente.

Não concordo. Ela era uma mulher astuta, mas para usar as pessoas, provocá-las, deixá-las enfeitiçadas por ela. Marilyn também não era profissional, deixava a equipe de filmagem esperando, não decorava suas falas e era totalmente inacessível. Não tinha respeito pelos colegas de trabalho. Fez também estranhas exigências para a Twentieth Century Fox e, quando se tornou produtora, foi péssima. Sua inteligência era um mito. Além disso, ela era mentalmente insana e, como atriz, logo decaiu. Acredito que, se vivesse mais alguns anos, Marilyn acabaria internada em uma clínica, como sua mãe.

Por seis anos, JFK e Marilyn se relacionaram. Era apenas sexo? A relação era sincera?

Acredito que, no início, era apenas sexo. Eles se conheceram quando JFK era um senador (casado) e Marilyn, uma starlet. Kennedy era incapaz de amar e Marilyn, incapaz de sustentar uma relação. Ambos eram carentes de amor. Em todo caso, descobriram uma forma de relacionamento. Ela lhe deu sexo, que foi seu melhor presente uma vez que era frígida (ela disse isso a seu analista); ele retribuiu com um sopro de energia e de esperança. Os dois eram desiludidos. De alguma forma, encontraram um raio de luz, algo que, por breves momentos, pareceu ser amor. Talvez eles tenham tido, durante um segundo apenas, uma verdadeira história de amor.

Seu livro traz alguma novidade sobre a morte de Kennedy?

Não, nenhuma. Mas traz novidade sobre sua vida: era um homem cuja moralidade era inexistente. Ele foi criado por um homem crente que o dinheiro podia comprar tudo e que seus filhos eram de uma casta superior. Um pai simpatizante do nazismo, além de gângster. Ele legou valores desvirtuados aos filhos. E suas filhas não eram nada. Quanto à morte do JFK, penso que houve uma diabólica aliança entre os exilados cubanos e a plebe. No mês anterior, houve dois atentados contra a sua vida, com o mesmo modus operandi: um atirador com experiência cubana e, à sombra, um grande chefão da máfia, provavelmente Carlos Marcello.

A política atual é diferente?

Sim. Pense no escândalo Clinton-Lewinsky. E Clinton não fez nem uma fração do que JFK estava acostumado. Estranhamente, os americanos se preocupam com a vida privada de seus líderes. Quando pararem com isso (como acontece na França, onde ninguém dá atenção com quem Mitterrand ou Sarkozy dormiram), então, a era dos escândalos sexuais estará sepultada. Quanto às ‘relações políticas’, no sentido político, não, nada mudou. Eles serão sempre políticos – nada confiáveis para cuidar de seu cão por uma noite.’

 

 

Daniel Piza

Darwin, pensador da cultura

‘Em seu bicentenário de nascimento, comemorado na quinta passada, Charles Darwin (1809- 1882) não poderia estar mais em evidência. Ele é visto, mais do que um grande cientista, como um marco cultural, um ponto de virada irreversível na história da mentalidade. A prova disso está na série de livros que a efeméride – bem como os 150 anos da publicação de A Origem das Espécies, que serão celebrados em agosto – tem suscitado no mundo todo. Um deles, do jornalista americano Adam Gopnik (leia texto nesta página), o situa ao lado do presidente Abraham Lincoln como um pai da civilização liberal moderna.

É nos EUA, curiosamente um país onde a Teoria da Evolução ainda divide a opinião pública ao meio, ao contrário do que ocorre nos demais países desenvolvidos, que a maioria dos lançamentos tem ocorrido. Daqui até o final do ano, seguramente muitos outros sairão no mundo todo. No Brasil, por exemplo, está previsto para maio A Grande História da Evolução, de Richard Dawkins, um dos mais ardorosos e controversos defensores de Darwin nos últimos 30 anos. Dos melhores livros publicados desde o fim de 2008 até agora, porém, não há previsão de tradução.

O maior destaque é Evolution – The First Four Billion Years, editado por Michael Ruse e Joseph Travis (Harvard) e prefaciado por outro célebre darwinista, Edward O. Wilson, que diz apostar que o volume será o mais abrangente entre todos os lançamentos do ano. A primeira parte traz análises do desenvolvimento da teoria nos mais diversos campos de pesquisa, como a origem da vida, a paleontologia, a biologia molecular, a genética, a sociologia e a psicologia. A segunda parte é um utilíssimo guia alfabético de personagens e conceitos da biologia evolutiva.

O ponto comum é a ampla comprovação experimental de suas ideias, ainda que em graus diferentes de uma disciplina para a outra. Darwin deixou claro em A Origem das Espécies que esperava que muito trabalho metódico seria feito para confirmá-la – além do que ele mesmo fez, razão principal pela qual demorou 30 anos para publicar sua teoria em livro. E foi o que aconteceu. A maior controvérsia, porém, é sobre sua aplicação para o estudo do comportamento humano. Em autores como Edward Wilson, trata-se apenas de uma questão de tempo para que se possa explicar 100% materialmente os traços da psique.

Não que não haja controvérsia dentro da própria biologia. Uma visão completa da maneira como as espécies se adaptam, do mecanismo da seleção natural, ainda está por ser formulada. Para alguns, como Stephen Jay Gould, uma espécie pode ter vantagens comparativas sendo mais simples ou mais complexa. Para outros, como Simon Conway Morris, autor do recente Deep Structure of Biology (Templeton), a maior frequência de sucesso se dá entre organismos mais complexos. A evolução seria progressiva, sim, embora isso não signifique que o homem esteja no topo de uma espécie de escala moral.

Biografias, claro, não poderiam faltar, ainda que os trabalhos de Janet Browne e da dupla Adrian Desmond e James Moore sejam tão consistentes. O próprio Desmond acaba de escrever Darwin?s Sacred Cause (Houghton Mifflin Harcourt), que se detém na rejeição à escravidão que o gênio vitoriano sentiu ao longo de toda a vida. Apesar de passagens do livro A Descendência do Homem, sem dúvida nenhuma ele não subscreveria teses racistas que se apoiaram no evolucionismo para afirmar a superioridade de uma etnia sobre as demais. Quando passou por Salvador e Rio de Janeiro, em 1832, Darwin anotou no diário que jamais voltaria a pôr os pés num país escravocrata.

Outro livro é Charles & Emma, de Deborah Heiligman, que trata dos cuidados de Darwin em não atacar a religião em que sua esposa acreditava. Ele sabia que a defesa da seleção natural já era, em si mesma, um golpe no criacionismo. Mas não deixou de articular por correspondência, com nomes como Thomas Huxley, a defesa pública de sua ciência em face do clero. Sua obstinação, por sinal, é clara em todas as suas cartas de 1822 a 1859, reeditadas agora no volume Origins (Cambridge). Em The Young Charles Darwin (Yale) Keith Stewart Thomson mostra como ele, que só teve o ‘eureca’ em 1838, depois da leitura de Malthus, já percebera como geólogo e naturalista do Beagle que as camadas de tempo se confundem, revelando uma história em que a variação é a regra e não a exceção.

Foi esse o achado maior de Darwin, pois não ficou nos limites da história natural e ganhou a filosofia e a cultura. Se em Lamarck a vantagem adaptativa era criada pela necessidade, em Darwin é a necessidade que premia a vantagem adaptativa. As mutações acontecem; o ambiente é que vai permitir que uma se afirme em detrimento de outra. Como a gravidade de Newton e a relatividade de Einstein, há uma lei invisível regendo os fenômenos. Pesquisadores como Alfred Russell Wallace enxergaram a mesma revolução, mas não coletaram observações e generalizações com a grandeza de Darwin. Ele percorreu toda a órbita de sua originalidade, e é nesse planeta que vivemos até hoje.’

 

 

 

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