Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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O Estado de S. Paulo

31/03/2009 na edição 531

REPÚDIO
O Estado de S. Paulo

ANJ repudia decisão contra jornal ‘Estado de Minas’

‘O vice-presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Júlio César Mesquita, divulgou ontem nota de repúdio à decisão do juiz da 4ª Vara Federal de Belo Horizonte, Ronaldo Santos de Oliveira, que concedeu direito de resposta à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) no jornal Estado de Minas.

A ANJ criticou o espaço oferecido à instituição, considerado ‘desproporcional e descabido’: além da primeira, foram ocupadas mais seis páginas.

A sentença veio após uma série de reportagens sobre supostas irregularidades nas prestações de contas da UFMG. O jornal cita favorecimento a professores e parentes em concursos e projetos com dinheiro público. A ANJ lembra que os dados são do Tribunal de Contas da União (TCU) e a UFMG foi procurada para se manifestar.’

 

TECNOLOGIA
Ethevaldo Siqueira

Novas interfaces, intuitivas e humanizadas

‘A tecnologia digital busca hoje todos os meios para humanizar as interfaces – isto é, o modo como nos relacionamos com as máquinas. Há muitos exemplos dessa tendência. As modernas telas de toque (touchscreens) criam uma relação muito mais intuitiva e amigável entre usuários e seu celular como o iPhone e concorrentes. Ou entre usuários e os notebooks ou desktops recém-lançados pela HP. Algumas dessas telas reconhecem até gestos, traduzindo-os em comandos aos aparelhos – ampliando, reduzindo, deslocando, empilhando e editando gráficos, textos e imagens.

A Toshiba japonesa apresentou recentemente um protótipo de televisor e monitor que pode ser operado apenas com movimentos das mãos e dos braços do usuário, feitos à distância de até quatro metros, diante do aparelho e detectados por minúsculas câmeras de vídeo embutidas nesse equipamento. É um tipo de comando quase mágico que reconhece movimentos (Spatial Motion Interface). Em lugar de usar o tradicional controle remoto, o usuário apenas faz movimentos com a mão e com o braço, diante do televisor, para selecionar canais, acessar a internet, organizar arquivos e fotos ou editar apresentações audiovisuais.

O comando de voz é outra interface que já está suficientemente evoluída para substituir os teclados tradicionais de centenas de dispositivos e aparelhos elétricos e eletrônicos. Nos últimos anos, passamos a usar formas avançadas de identificação biométrica, pela voz, impressões digitais, íris ou fisionomia, em incontáveis situações, em especial nos projetos de casa digital.

QUE É INTERFACE?

Interface é o conjunto de meios (hardwares e softwares) que nos permitem estabelecer relação com as máquinas. Vivemos uma época de humanização das interfaces. Graças à adoção de novos materiais e tecnologias, torna-se cada dia mais intuitivo e amigável nosso contato diário com computadores, celulares, iPods, televisores, câmeras digitais, automóveis, consoles de videogames, sistemas de áudio e vídeo ou softwares aplicativos.

Como usuário, tenho ainda muitas queixas em relação às interfaces pouco amigáveis que encontramos em dezenas de aparelhos eletrônicos ou dispositivos do mundo digital. Reconheço, no entanto, o avanço extraordinário já obtido e incorporado pela maioria dos equipamentos eletrônicos nos últimos anos.

Nos computadores pessoais, a interface gráfica de usuário (Graphic User’s Interface ou GUI) é a mais largamente conhecida e a que tornou realmente fácil e amigável o uso de todos os aplicativos e programas dessas máquinas. A GUI teve papel relevante na popularização da maioria dos softwares de PCs ao longo dos anos 1980 e 1990.. Quando usamos essa interface de ícones, clicando-os com um mouse nos computadores pessoais nem sempre nos lembramos que ela foi adotada primeiramente pelos computadores Lisa e Macintosh da Apple e, bem depois, pelos PCs, com sistema operacional Windows, da Microsoft.

Mas é preciso lembrar que não foi a Apple que criou nem o mouse nem a interface gráfica de usuário dos computadores Lisa e Macintosh. Seus criadores foram Alan Kay e Douglas Engelbart, pesquisadores do laboratório de pesquisas da Xerox, o Palo Alto Research Center (Parc).

No processo de simplificação e humanização das interfaces, nada parece mais lógico e eficaz do que o comando verbal, com a sintetização da voz (voice synthesizing), combinada com o reconhecimento da fala (speech recognition), para que se possa estabelecer o diálogo homem-máquina. Na prática, no entanto, a maioria das pessoas resiste a esse diálogo. Ouvi de um jovem uma frase que resume a questão com precisão: ‘Me sinto um débil mental, conversando com as máquinas’.

Há pelo menos 20 anos, a indústria tenta introduzir, sem grande sucesso, as interfaces de voz humana ou, no jargão, as linguagens de alto nível mais próximas da linguagem humana. Nos primeiros anos, a razão principal desse insucesso talvez fosse a baixa qualidade dos softwares de voz sintética e de reconhecimento da fala. No entanto, mesmo com a evolução extraordinária dessa tecnologia, a maioria das pessoas não se entusiasma por esse tipo de interface, pelo menos se houver alternativas convencionais, como o velho teclado. A experiência dos celulares com comando de voz é uma prova disso. Poucos usam.

BIOMETRIA

O uso de características do próprio corpo humano – impressões digitais, a palma da mão, a íris, a fisionomia (rosto) ou a voz – embora desperte curiosidade como forma high-tech de interface encontra também resistências por parte de muitos usuários. Uma voz rouca por resfriado acaba, às vezes, impedindo a abertura de uma porta ou o reconhecimento de um usuário. Pequenas alterações da fisionomia, resultantes do envelhecimento do usuário, por exemplo, podem inviabilizar seu reconhecimento pela máquina ou sistema de segurança.

Pelo que vemos, nem todo esforço de humanização e de simplificação é aceito pelo usuário. O leitor conhece dezenas de pessoas que preferem o câmbio manual dos automóveis e não se entusiasmam pelo câmbio automático.’

 

REVISTA
Francisco Quinteiro Pires

Por que os vampiros não morrem

‘Uma criatura aterrorizante está em um quarto sombrio. Trata-se de um morto que, à noite, sai do túmulo para sugar o sangue dos vivos; em um palavra: um vampiro. Chama-se Conde Drácula, e sua intenção é morder o pescoço de Mina Harker. Ao fazer isso, Drácula a transformará, aos poucos, numa vampiresa. Processo que se acelera se Mina tomar o sangue desse ser imortal que pretende exercer poder irrestrito sobre ela. Mesmo assustada, Mina sente certo prazer.

Retirada do romance Drácula, do irlandês Bram Stoker, essa é a descrição que abre o ensaio de Joan Acocella sobre a permanência dos vampiros no imaginário ocidental. Publicado na New Yorker (16 de março, US$ 4,99), In The Blood – Why Do Vampires Still Thrill?, o texto de Acocella analisa o entusiasmo atual pelas lendas sobre os vampiros. O jornalista norte-americano vai à origem dos relatos sobre esses seres habitualmente descritos com olhos vermelhos, dentes pontiagudos, longas garras e um mau cheiro incrível – características que não anulam o desejo despertado por eles nas mulheres.

As histórias lendárias concentram-se no Leste Europeu, onde também surgem os métodos para exterminar os vampiros – cravar-lhes uma estaca de madeira no coração, decapitá-los ou queimá-los. E, se possível, os três em sequência. A obra From Demons to Dracula: The Creation of the Modern Vampire Myth, de Matthew Beresford, cita uma crença sérvia segundo a qual os vampiros nascem de abóboras guardadas por mais de dez dias. Mas a figura que ainda mexe com os medos e desejos dos homens atuais se consagrou no século 19 – ela é filha do romantismo.

No verão de 1816, o poeta inglês Lord Byron, enfrentando dificuldades matrimoniais, refugiou-se com seu médico particular, John Polidori, em Lake Geneva, localizado entre a Suíça e a França. No imóvel, Byron, Polidori e amigos como Percy Bysshe Shelley passavam horas falando de histórias de terror. Certa feita, Byron sugeriu a todos que inventassem as próprias narrativas fantasmagóricas. Apenas duas pessoas concretizaram a proposta.

Amante de Shelley, Mary Godwin, então com 18 anos, escreveu o clássico Frankenstein (1818). E, aparentemente baseado num esboço de Byron, John Polidori inventou The Vampyre: A Tale (1819). O protagonista desse romance era um aristocrata orgulhoso e bem-apessoado, que atraía o desejo feminino. Nascia ali o vampiro moderno, farto material para poemas, peças teatrais, óperas, programas televisivos e filmes. Entre os mais de 150 filmes inspirados em Drácula, Nosferatu (1922), do cineasta alemão F.W. Murnau, é considerado pela crítica como a melhor produção.

Nenhum dos milhares de livros que sucederam ao de John Polidori e tratam de vampiros fez o sucesso de Drácula, romance escrito por Bram Stoker em 1897. Joan Acocella arrisca explicações para o êxito, confirmado pela grande quantidade de estudos acadêmicos – alguns esdrúxulos, mais preocupados em difundir teorias sem fundamento. Um dos estudos, The Essencial Dracula, de Raymond T. McNally e Radu Florescu, diz que Drácula foi inspirado em Vlad Drácula, um príncipe romeno do século 15 que defendia seu território dos turcos invasores com o emprego de métodos cruéis, como o empalamento. Os dois professores do Boston College teriam baseado a tese em anotações de Bram Stoker.

O método narrativo de Drácula, marcado pela multiplicidade de vozes, todas em primeira pessoa, é um dos motivos da popularidade, segundo Acocella. O narrador se assemelha à peça de um quebra-cabeça: ‘Nenhum dos narradores sabe o que os outros têm a contar aos leitores, e isso força uma leitura nas entrelinhas’, escreve Acocella. O romance de mais de 400 páginas não perde a fluência, apesar dos defeitos, como as cenas supérfluas, o sentimentalismo e a retórica excessiva.

No mais, a estrutura narrativa lacunar, à moda de um diário pessoal, dialoga com o momento histórico de Drácula – de grandes conquistas tecnológicas que, apesar das promessas, não amenizaram medos básicos do ser humano.

Nascido na Inglaterra vitoriana, Drácula desafiou o racionalismo e a autoconfiança de um império que não via o Sol se pôr e que dominava a ciência. Esse poderio abalou valores antigos, ligados à religião, como a doçura, a reverência e a resignação. As invenções tecnológicas, como o trem a vapor, lançaram o homem num mundo novo. O desconhecido continuou a aterrorizar, talvez até com mais força. A razão, mostrando-se falível, não foi o melhor consolo. Nesse contexto, os personagens de Drácula, homens racionais e autoconfiantes do império britânico, foram levados a aceitar ‘ que existe algo além do entendimento’.

E aqui se vai à essência. Os vampiros encarnam aquilo que mais ultrapassa a capacidade de compreensão: o desejo e a morte, faces da mesma moeda. Como símbolo, transmitem esse medo duplo. Abordam a dor provocada pela passagem destrutiva do tempo, essa sugadora da energia vital do homem semelhante à boca sedenta de um vampiro. Enfim, esses seres horripilantes representam a verdade amedrontadora – de que o indivíduo não passa de uma experiência única, causadora de grande perplexidade.’

 

CULTURA
O Estado de S. Paulo

As mudanças na Lei Rouanet

‘Depois de anunciá-la com grande antecedência, o governo finalmente apresentou a primeira versão do projeto da nova Lei de Fomento e Incentivo à Cultura, que substituirá a Lei Rouanet, em vigor há 18 anos. Segundo o ministro da Cultura, Juca Ferreira, as mudanças têm por objetivo reestruturar o Fundo Nacional da Cultura, diversificar as fontes de financiamento para projetos culturais e ‘democratizar a destinação dos recursos’.

O projeto, no entanto, não se limita a estabelecer uma nova sistemática de incentivos fiscais. Vai muito além disso, no que parece ser mais uma tentativa de estabelecer o dirigismo cultural, na medida em que diminui a liberdade das empresas de selecionar os projetos em que querem investir e acrescenta uma espécie de ‘vale-cultura’ – ao lado do tíquete-alimentação e do vale-transporte – ao pacote de benefícios trabalhistas existentes no País. Além disso, o projeto cria uma loteria, em parceria com a Caixa Econômica Federal e outras instituições financeiras, para incentivar atividades culturais.

O vale-cultura, no valor máximo de R$ 50 mensais, poderá ser usado em cinema, teatro, shows e espetáculos culturais em geral. O trabalhador arcaria com 20% de seu custo, a União bancaria 30% e os 50% restantes seriam pagos pelas empresas. ‘Existe um apartheid cultural no Brasil e poucos têm acesso à cultura’, diz Ferreira, lembrando que 90% dos municípios não têm ‘espaços multiuso’ e que 78% dos brasileiros jamais assistiram a um espetáculo de dança, 93% jamais foram a uma exposição de arte e 92% não frequentam museus e teatros. Para o ministro, as empresas que aceitarem bancar o vale-cultura estarão fazendo uma ‘parceria’ com o governo.

Outro ponto polêmico na proposta do MinC são os critérios de distribuição dos incentivos. A Lei Rouanet permite que projetos aprovados pela Comissão Nacional de Incentivos à Cultura recebam patrocínios de empresas, financiados com abatimento de parte do Imposto de Renda. As empresas têm liberdade de escolher, entre os projetos aprovados, os que pretendem financiar. Já a proposta do MinC limita essa prerrogativa e cria uma comissão com composição paritária entre governo e ‘sociedade civil’ para definir faixas diferenciadas de incentivo.

A inovação não foi bem recebida nos meios empresariais. Empresas e produtores culturais alegam que os critérios de escolha dos representantes da chamada ‘sociedade civil’ são muito imprecisos, podendo resultar em favorecimentos e escolhas políticas. ‘A decisão vai variar conforme a pessoa que estiver no governo’, diz Sérgio Ajzenberg, diretor de uma empresa em que metade de seus trabalhos depende dos incentivos da Lei Rouanet.

Para justificar a mudança, o ministro Juca Ferreira alega que as grandes empresas só patrocinam projetos culturais que dão retorno de imagem, em prejuízo de atividades culturais de baixo apelo de marketing, como folclore regional, manifestações culturais indígenas e de minorias étnicas. Os produtores culturais rebatem a crítica, alegando que não cabe a uma lei de incentivos corrigir essa distorção.

O sistema de incentivo à cultura envolve um volume considerável de recursos. Sem contar o financiamento do setor pelo governo, a Lei Rouanet permitirá às empresas destinar R$ 1,3 bilhão para projetos culturais, em 2009. É a partilha desses recursos que o MinC quer ‘democratizar’ e descentralizar, com o objetivo de favorecer projetos culturais oriundos fora da Região Sudeste. Atualmente, segundo Ferreira, 50% dos recursos públicos captados com base na Lei Rouanet ficam nas mãos de um seleto grupo de produtores culturais do eixo Rio-São Paulo.

A proposta do MinC contém inovações importantes, mas polêmicas, e ficará submetida a consulta pública durante 45 dias. Depois de estudar as sugestões recebidas, o órgão formulará a versão do projeto de lei a ser enviada ao Congresso. Há muito tempo que empresas, produtores culturais e a classe artística vinham reivindicando uma nova lei de incentivos para o setor. Agora é o momento de apresentarem suas contribuições para o aperfeiçoamento da lei de incentivos à cultura.’

 

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