Terça-feira, 19 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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O Estado de S. Paulo

20/10/2009 na edição 560

LIBERDADE DE IMPRENSA
Moacir Assunção

‘Censura subverte o papel do Judiciário’

‘A censura contra o Estado, mantida desde 31 de julho pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal, demonstra, para o presidente da Associação Juízes pela Democracia (AJD), o juiz Luís Fernando de Barros Vidal, a força de um Estado autoritário que se crê onipotente, o que é muito grave para a democracia brasileira.

‘Expandindo um pouco esta questão, é o mesmo Estado que se considera desobrigado de pagar precatórios aos contribuintes, de punir torturadores que agiram sob suas ordens. Tudo isso demonstra uma consciência fortemente antidemocrática e que ainda há confusão entre o público e o privado no Brasil’, afirmou.

O Estado foi proibido pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJ-DF) de publicar informações sobre as investigações da Polícia Federal sobre o empresário Fernando Sarney, indiciado por lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, tráfico de influência e falsidade ideológica na Operação Boi Barrica. Fernando é filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e responsável pelos negócios da família.

O desembargador Dácio Vieira, ligado a Sarney, foi o responsável pela decisão, mantida pelo tribunal apesar de seu afastamento sob suspeição do caso. O TJ-DF se declarou incompetente para julgar a censura, que foi mantida, e determinou a remessa dos autos à Justiça Federal do Maranhão, que dará a palavra final sobre o caso.

Para o jurista, a decisão do desembargador atenta contra a liberdade de opinião, um dos principais pilares da democracia, juntamente com o direito ao voto, além de se contrapor à Constituição.

‘Os chamados pais fundadores da democracia americana sempre fizeram questão de lembrar que este é um direito basilar. Assim como o Judiciário jamais fez menção de controlar o voto, também não poderia nunca censurar a livre manifestação do pensamento.’

A Constituição, relembra Vidal, estabelece que não pode existir a censura prévia. Eventuais excessos no uso da liberdade ensejam ações civis e criminais, a posteriori, para reparar danos à privacidade . ‘Há uma completa subversão do papel do Judiciário, que existe para tutelar a liberdade de opinião e não para restringi-la, o que é extremamente grave.’

PRIVACIDADE

Além da censura, para o presidente da AJD há uma confusão de conceitos no caso que envolve o filho de Sarney. ‘O direito à privacidade existe para proteger o cidadão comum, privado, que leva sua vida de forma pacata. Os personagens envolvidos neste caso são públicos, tratando de questões públicas, o que joga por terra as alegações do tribunal para sustentar a ação’, afirmou o especialista.’

 

TELONA
Julia Duailibi

Filme sobre Lula pode ter o maior lançamento do cinema brasileiro

‘Ainda surfando no anúncio dos Jogos Olímpicos Rio 2016 e nos sinais de retomada do crescimento econômico, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prepara-se para colecionar mais dividendos políticos, dessa vez nas telas do cinema e em pleno ano eleitoral, quando todos os esforços estarão voltados para eleger a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, sua sucessora.

Lula, o Filho do Brasil, cinebiografia sobre o petista, será lançado em 1º de janeiro de 2010 com uma estratégia de distribuição que tem como objetivo torná-lo um dos maiores lançamentos do cinema nacional, desde a retomada da produção cinematográfica do País, em 1995. Para isso, a produção recorrerá a tradicionais bases de sustentação política de Lula, como sindicatos, e a regiões onde ele tem alta popularidade, como no Nordeste. Um universo de 10 milhões de pessoas sindicalizadas poderá comprar ingressos a preços populares para assistir ao filme, que pretende chegar aos rincões do País em 2010.

A estreia será feita em mais de 400 salas, sendo que 88 delas não fazem parte do circuito convencional. O objetivo é levar o filme para públicos populares, fora do mercado consumidor tradicional. O lançamento chegará a 19 salas que não fazem parte do parque exibidor de 1ª linha no Nordeste, em cidades como as baianas Alagoinhas e Santo Antonio de Jesus, a cearense Maracanaú e a pernambucana São Lourenço da Mata.

Aproveitando a alta popularidade de Lula no interior, a ideia é levar o filme para capitais fora do circuito tradicional, como Rio Branco (AC), Porto Velho (RO), Palmas (TO) e Macapá (AP). A cidade de Garanhuns, na região onde nasceu Lula, receberá cópias para exibição em duas salas, já no lançamento.

Serão feitas ‘para lá de 300 cópias’ da cinebiografia, que conta os primeiros 35 anos da vida do presidente, do nascimento até a transformação dele em líder sindical, segundo Bruno Wainer, presidente da Downtown Filmes, que ao lado da Europa Filmes é responsável pela distribuição.

Lula, o Filho do Brasil fugiu do padrão nacional de financiamento de obras cinematográficas, baseado na renúncia fiscal. Causou polêmica no mercado, ao conseguir bancar a produção, de R$ 12 milhões, com dinheiro de empresas que não se beneficiaram de nenhuma lei de incentivo fiscal. Há construtoras, montadoras e outras empresas que não são tradicionais investidoras do setor – algumas têm contratos com o governo.

‘Para chegar a 400 salas, vão ter de entrar pesado no interior’, disse Luiz Severiano Ribeiro, diretor do Grupo Severiano Ribeiro/Kinoplex, que detém 200 salas de cinema. Os produtores, no entanto, acham ser possível chegar a 500 salas – Se Eu Fosse Você 2, campeão de público desde 1995, foi lançado em 315 e teve 6,1 milhões espectadores.

Ligadas ao governo Lula, CUT e Força Sindical negociaram promoções para a exibição. ‘O filme interessa a todo mundo, mas o público principal é o sindical’, disse Wainer. A ideia é que sindicatos ligados às centrais vendam ingressos antecipados, até 20 de dezembro, por R$ 5. O DVD do filme também deve chegar ao mercado a preço popular (R$ 10). ‘Pensamos em números nunca antes atingidos no Brasil’, afirmou Wilson Feitosa, diretor-geral da Europa Filmes. O plano é que parcerias com sindicatos e fundos de pensão ajudem a vender mais de 1 milhão de cópias.

Produtores e distribuidores querem pegar carona na história de Lula e transformar o filme, dirigido por Fábio Barreto, no mais visto da história do cinema nacional. Avaliam que a produção pode chegar a 20 milhões de pessoas. ‘Quando o Barreto (Luiz Carlos Barreto, pai de Fábio e produtor) fala 20 milhões, é um balão de ensaio. A expectativa do mercado é que esse filme tenha entre 4 e 5 milhões de espectadores. Já sai de um patamar alto. A expectativa de divulgação grande. É até possível que se pague’, afirmou Paulo Sérgio Almeida, cineasta e diretor da Filme B, empresa que faz análises do setor.

Para o filme ter entrada junto ao público de baixa renda, onde o presidente é bem avaliado, o preço do ingresso precisa cair. Recente paper da Universidade de Georgetown sobre o mercado cinematográfico no Brasil aponta o preço dos ingressos como entrave para o crescimento do setor. ‘A gente tentou antecipar o vale-cultura’, disse a produtora Paula Barreto, referindo-se ao programa que prevê isenção de Imposto de Renda a empresas que bancarem vale para trabalhadores gastarem em cultura.

A oposição ao governo Lula tem visto com reticências a estreia do filme justamente em ano eleitoral. Duda Mendonça, ex-publicitário de Lula, chegou a dar sugestões sobre a produção. Ao ver uma versão, sugeriu que fosse retirado trecho em que uma professora de Lula diz que ele é ‘muito especial’. Para Duda, a passagem deixaria ‘chapa branca’ o filme, que será transformado em minissérie – a Globo está na negociação.

Os envolvidos com a cinebiografia negam que ela vá ajudar politicamente Lula ou o PT. ‘Ninguém é petista aqui. Não fizemos por razões ideológicas’, disse Wainer. ‘A história é incrível, independentemente de você votar nele.’ Questionado sobre o lançamento em ano eleitoral, afirmou: ‘O Brasil está em eleição quase todos os anos.’

Produtores contam que até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso quis ‘estrelar’ o filme. Ao encontrar o diretor, o tucano brincou, dizendo que faltava seu personagem na cena do velório da mãe de Lula. Na ocasião, FHC estava ao lado do então líder sindical.’

 

EUA
Gustavo Chacra

Amigo revela em livro confidências de Clinton

‘Bill Clinton foi presidente dos EUA há menos de uma década, de 1993 a 2001. Quando Yasser Arafat e João Paulo II ainda eram vivos; Osama bin Laden, uma figura nebulosa que atacava interesses americanos pelo mundo; o World Trade Center estava de pé; Facebook, YouTube e Twitter não existiam; e Barack Obama, tão irrelevante que aparece apenas como uma nota de rodapé numa página do livro The Clinton Tapes, do Prêmio Pulitzer Taylor Branch.

A obra, publicada neste mês nos EUA, tem como base conversas de Clinton com o jornalista ao longo dos oito anos de mandato. Em 79 ocasiões, o então presidente o recebeu na Casa Branca para fazer confidências sobre como é administrar o país importante do mundo. Não fosse pelo affair com a estagiária Monica Lewinsky, que é título de um dos capítulos, seus desafios se assemelham, em parte, aos de Obama.

Nas conversas, Clinton ficava com as fitas e seu objetivo era ter uma recordação dos seus anos na Casa Branca. Branch, ao sair, enquanto dirigia para a sua casa, gravava suas recordações do diálogo que havia acabado de ter com o presidente. Por todo o mandato de George W. Bush, ele guardou o segredo, incluindo informações inéditas. Mas, na sua visão, havia chegado o momento de tornar públicas as confidências de Clinton, que sempre foi um de seus melhores amigos. Nos encontros, o jornalista instigava o presidente com perguntas, mesmo sobre temas delicados.

Com 700 páginas, o livro se divide em 39 capítulos, dedicados a momentos-chave ou personalidades que marcaram os dois mandatos de Clinton, entre 1993 e 2001. Sua mulher, Hillary, Saddam Hussein, Yitzhak Rabin, João Paulo II são os tópicos principais de alguns capítulos. Outros tratam de eventos como a reeleição de 1996, a guerra em Kosovo e as negociações de paz entre palestinos e israelenses.

O ex-presidente dizia que ‘Arafat resistia a discutir sobre a governabilidade nos territórios, vital para o estabelecimento da sua nação, porque isso não fazia parte de sua personalidade’. O líder palestino, diz Branch, citando Clinton, ‘preferia conspirações, pactos e, especialmente, dinheiro. Ele era mais feliz com os antigos métodos de espionagem, recebendo montantes de dinheiro’. Clinton também mostra-se chocado com a falta de conhecimento histórico do presidente do Egito, Hosni Mubarak, sobre a questão palestina e israelense e de judeus e muçulmanos. A Jordânia, nos relatos, parece sempre estar de acordo com Israel, mas evitando demonstrar publicamente.

Bin Laden é descrito como um personagem dos filmes de James Bond. Surpreendentemente, quem ganha destaque livro é Boris Yeltsin. ‘Apenas a sorte impediu um escândalo durante visita de Yeltsin. Clinton recebeu a informação que um de seus agentes de segurança encontraram Yeltsin sozinho na Avenida Pennsylvania (uma das mais importantes da capital americana), bêbado, de cueca, gritando para conseguir um táxi. Os agentes secretos tentaram contê-lo, mas foram insultados. Ele não queria voltar para Blair House (onde estava instalado). Queria comer uma pizza. Perguntei como terminou a confusão. ‘Ele conseguiu a pizza’, disse-se o presidente’, relata Branch.

O Brasil não tinha tanta importância na época. Fernando Henrique não é citado e o nome país aparece apenas em duas páginas. Em uma delas, Clinton critica o Brasil por não preservar as suas florestas.’

 

TELECOMUNICAÇÕES
Ethevaldo Siqueira

Teles e especialistas rejeitam estatização

‘A maioria esmagadora dos dirigentes das teles e especialistas presentes ao Futurecom 2009, evento realizado em São Paulo na semana passada, manifestou sua discordância com a proposta de estatização do futuro Plano Nacional de Banda Larga. Para eles, não há qualquer sentido em excluir as operadoras de telecomunicações de um projeto dessa natureza.

O presidente da Oi, Luiz Eduardo Falco, diz que ‘o Brasil não tem dinheiro para duplicar infraestruturas’. Seu argumento básico é o de que as teles investiram R$ 11 bilhões em transmissão e dispõem atualmente de mais de 200 mil quilômetros de redes de fibras ópticas construídas. ‘O dinheiro do governo deve ser gasto em outras prioridades’ – conclui.

Otávio Marques de Azevedo, presidente da Andrade Gutierrez, uma das acionistas controladoras da Oi, considera a ideia de se criar uma estatal para cuidar de banda larga, ‘um retrocesso sem sentido’.

Durante três dias, a banda larga foi o assunto dominante dos debates do evento, com foco principal no Plano Nacional de Banda Larga, em fase de elaboração pelo governo federal.

A notícia de maior repercussão no evento foi a assinatura pelo governador José Serra, perante mais de 500 pessoas, no grande auditório do Futurecom, do decreto que isenta de ICMS a banda larga para pessoa física, de 200 quilobits por segundo (kbps) até mil kbps ou 1 megabit/segundo (Mbps). A primeira operadora a aderir ao modelo foi a Telefônica, que começa a vender essa modalidade de serviço popular no início de novembro, ao preço mensal de R$ 29,80.

Diversos palestrantes e autoridades setoriais previram um crescimento extraordinário da banda larga, nos próximos anos. A previsão de investimentos para a construção de uma rede moderna e avançada de banda larga, com infraestrutura fixa e móvel, é muito superior às estimativas divulgadas pelos defensores da recriação da Telebrás, como demonstrou o ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Daniel Vargas, com base em estudos do Banco Mundial.

Segundo o ministro, se o Brasil quisesse construir uma infraestrutura avançada de dados e banda larga, semelhante à dos países desenvolvidos, como os Estados Unidos ou a Inglaterra, teria de investir de US$ 100 bilhões e US$ 300 bilhões, a médio e longo prazos. ‘Um investimento dessa ordem – afirmou – não pode resultar apenas de esforço estatal. É claro que o governo não pode abrir mão da participação da iniciativa privada, nem o fará. O ideal será uma grande parceria entre o governo e a iniciativa privada, aproveitando a infraestrutura existente de cabos ópticos, de redes sem fio, de satélites e redes telefônicas.’

VOZ DISCORDANTE

A única personalidade discordante, entre os debatedores e palestrantes, foi Rogério Santanna, secretário de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento. Defensor da reativação da Telebrás e da exclusão das operadoras privadas dos projetos de banda larga governamentais, Santanna fez um discurso inteiramente ideológico ao estilo das pregações estatizantes e xenófobas de Leonel Brizola dos anos 1960.

Desautorizado pelo ministro das Comunicações, Hélio Costa, a falar como porta-voz do governo sobre o Plano Nacional de Banda Larga, Santanna ironizou seus interlocutores, entre os quais, Renato Guerreiro, ex-presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), e Juarez Quadros do Nascimento, ex-ministro das Comunicações.

Em declaração a esta coluna, Guerreiro revidou: ‘É difícil debater com alguém tão agressivo e que desrespeita os interlocutores. Santanna fala como dono da verdade, confunde os fatos e se comporta como se tivesse dado grande contribuição às telecomunicações deste País. Eu o respeitaria muito mais se ele tivesse feito um décimo do que já fiz pelo setor.’

UNIVERSALIZAÇÃO

A primeira concessionária de telefonia fixa do Brasil a levar a banda larga a todos os municípios de sua área de concessão é a CTBC Telecom, que atua no Triângulo Mineiro, no sul de Goiás e no nordeste do Estado de São Paulo, segundo o presidente da empresa, Luiz Alexandre Garcia.

‘Além da banda larga fixa – lembra Garcia – levamos também a telefonia celular a 100% dos 245 municípios servidos pela CTBC. Iniciamos agora a expansão da banda larga móvel, por meio do celular de terceira geração (3G).’

O clima de otimismo dominante no Futurecom 2009 resultou, acima de tudo, da perspectiva de grandes investimentos a serem feitos pelas operadoras brasileiras, para atender às exigências da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016. É provável que a expansão e modernização das redes de banda larga, fixas e móveis, terrestres e via satélite, exijam investimentos da ordem de R$ 20 bilhões por ano, a partir de 2010, o que dará um total acumulado de R$ 120 bilhões até 2016.

O melhor de tudo isso é que os investimentos exigidos pela Copa e pela Olimpíada dotarão o País de uma das mais modernas redes do mundo, que permanecerá à disposição da sociedade como alavanca da economia após a realização daqueles megaeventos.’

 

QUADRINHOS
Jotabê Medeiros

O divórcio entre o morro e o asfalto

‘Aquela ‘grande suavidade’ que o legado da escravidão espalhou pela alma brasileira, segundo descreveu Joaquim Nabuco (1849-1910), de vez em quando é examinada pela ficção. Mas raramente pela ficção pop, a não ser no caso do hip-hop dos Racionais, MV Bill e outros que sabem bem onde o calo aperta.

Negrinha (R$ 44, 104 páginas, Editora Desiderata, tradução de Fernanda Abreu) desafia essa tradição. Trata-se de uma história em quadrinhos escrita por um francês (de sangue tropical, pois a mãe é brasileira), Jean-Christophe Camus, e desenhada por outro francês, Olivier Tallec, e que examina com lupa essa triste suavidade do racismo brasileiro – ou a suposta ‘democracia racial’, como esquematizou Gilberto Freyre nos anos 1930.

A HQ foi publicada originalmente na França este ano pela Gallimard Jeunesse. Teve boa acolhida, com resenhas positivas em publicações como L’Express. É uma história parcialmente biográfica, conta, em entrevista ao Estado, Jean-Christophe Camus, que ouviu parte dos relatos de sua mãe, ‘enxertando’ nos fatos reais alguma dose de ficção. Para recriar tudo, o autor ambientou sua ação num Rio de Janeiro ainda idílico, nos anos 1950. É nesse Rio pré-bossa-novista, numa Copacabana ainda com trejeitos aristocráticos, que uma menina de 13 anos vai descobrir que nem tudo na vida é cenário.

Neste universo, dona Olinda, negra e analfabeta, cria a única filha, Maria, num gigantesco apartamento aristocrático de um embaixador, que é seu patrão. Mas o embaixador nunca está, Olinda tem muito espaço e cria a filha sem que esta saiba da verdadeira origem de sua mãe – o morro. A menina, mulata, frequenta escola de elite, ambiente burguês clássico, estuda balé e mesmo suas amigas a têm como ‘uma delas’.

O parisiense Camus, de 47 anos, estreou aos 20 como autor desenhando para a Charlie. É diretor artístico das Éditions Delcourt, e fundador da agência gráfica Trait pour Trait. Admirador de Albert Uderzo (o criador do Asterix) e do cineasta e cartunista Gérard Lauzier (autor de Lili Fatale), ele buscou conselheiros brasileiros para embasar sua visão do País. Um desses amigos que o orientou foi Antonio ‘Tunico’ Carlos Amâncio, um teórico do cinema, doutorado pela USP com uma tese sobre a representação do Brasil no cinema estrangeiro de ficção. Amâncio publicou O Brasil dos Gringos: Imagens no Cinema (Intertexto), sobre como o País tem sido representado na tela pelos estrangeiros.

‘Uma morena de Copacabana não é uma negrinha da favela’, diz uma tia a Maria, personagem-título de Negrinha, preocupada com a sobrinha que vai descobrindo sozinha o universo que lhe é interdito – o samba, a festa, o morro, o amor. É por meio de um vendedor de amendoim na praia, Toquinho, que o drama de Jean-Christophe Camus se aproxima de outro Camus, Marcel, e seu Orfeu Negro, cult cinematográfico.

Camus trata o tema com cores solares e uma abordagem ingênua, por vezes piegas, que vê o morro como uma terra sem conflitos, amorosa e abnegada. Há alguns erros e por vezes o discurso é mal ajambrado, como nessa parte: ‘Você é descendente de escravos, meu amor, e apesar de a escravidão ter sido abolida 65 anos atrás, pode acreditar, é melhor ser branco do que ser preto. A menos que você seja músico ou jogador de futebol.’

Não é pelo discurso, no entanto, que o Rio de Janeiro de Camus se firma como verossímil. É pela contraposição entre personagens, pela doçura com que o autor enxerga seus protagonistas. Religiosa, honesta, fustigada pela própria consciência Dona Odila se vê diante de um problema quando resolve abrigar Dona Ruth, decadente aristocrata abandonada pelo marido com uma das mãos à frente e a outra atrás. A mulher, mesmo por baixo, a trata como empregada todo o tempo, a explora e toma a decisão de ficar ‘encostada’ quanto puder na benfeitora.

É um terreno espinhoso esse no qual pisam os franceses Camus e Tallec. Travas de interpretação perseguem o tema. Um dos mais populares cartunistas brasileiros, Mauricio de Sousa, teve um inesperado contratempo. ‘Eu estava lendo uma entrevista de uma ex-ministra da Igualdade Racial, e ela usava como exemplo de como os negros são vilipendiados no nosso país citando o meu personagem Cascão’, conta Mauricio.

‘A ex-ministra dizia que até no mundo das crianças a imagem dos negros era prejudicada, e por isso o Cascão era um negro que não tomava banho. Eu caí duro. Cresci num mundo em que não havia esse tipo de coisa, não havia esse maniqueísmo. Na minha rua, tinha negro, italiano, japonês. O que a gente considerava era se era bom colega, se era bom de bola, de estilingue. Só depois de velho é que aprendi isso que as pessoas rotulam como raça. Esse sistema artificial de segregação é um crime’, diz o cartunista.

A propósito: Cascão não é negro, informa Mauricio. Ele lembra que, em uma de suas aventuras, os amigos o limparam com um aspirador de pó e descobriram que não só ele é branco, como tem olhos azuis.’

 

Jotabê Medeiros

Longe da influência underground

‘Negrinha, que terá uma continuação, segundo seus autores, marca uma tendência nos quadrinhos contemporâneos: é um álbum de traço ‘chique’, em oposição à influência onipresente do quadrinho ‘sujo’, filho do underground, nos comics modernos.

A razão é quase acidental: o desenhista Olivier Tallec, de 39 anos, não é verdadeiramente um quadrinista, mas um ilustrador que já fez diversos trabalhos para Les Inrockuptibles (cultuada publicação pop parisiense) e também mais de 50 desenhos para livros infanto-juvenis. Nascido em Morlaix, França, estudou na École Supérieure des Arts Appliqués Duperré, em Paris. Nunca tinha feito uma obra como Negrinha. Seu traço, clean e esquemático, muitas vezes lembra o do artista Carybé, argentino que adotou a Bahia como pátria.

É imensa e inescapável ainda hoje a influência de artistas norte-americanos dos anos 1960, como Gilbert Shelton e Robert Crumb. Sua produção pode ser reconhecida em quase tudo o que se produz atualmente em termos de quadrinhos, e parece saudável para o leitor quando começam a aparecer as exceções – mesmo que ainda precisem se provar, como é o caso de Tallec.

Para poder capturar a atmosfera do Rio de Janeiro, Tallec passou um período de três meses na cidade, a fim de ‘absorver a atmosfera da cidade e do povo’. Utilizou fotos da família brasileira de Jean-Christophe Camus e fez pesquisas em revistas dos anos 1950 para recriar o clima da história. O ilustrador estava até quinta-feira na cidade – veio ao Brasil para participar do Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte. Ele disse que teve de adaptar seu traço para poder conceber a HQ Negrinha. E, sim, admite: encontrou dificuldade. Tallec tem um método de trabalho original: primeiro faz as cores e, só depois, as linhas, para não deixar o desenho demasiado carregado. Trabalha de duas em duas páginas em formato A4, criando os desenhos no tamanho real em que serão publicados.

Ele conta que o processo de criação de Negrinha durou três anos. Seu interesse não era fazer um trabalho de fundo histórico, nem respeitar demasiadamente a cronologia dos fatos nacionais. ‘O que mais interessava era retratar a relação mãe/filha, as protagonistas da HQ. E obviamente a mãe do Camus não queria que todos os detalhes da vida dela fossem contados na história’, revelou o desenhista. A paixão da garota por um vendedor de amendoim do Morro do Cantagalo, contou ele, é uma das licenças que a ficção tomou – não aconteceu de verdade.

Tallec adiantou que Negrinha terá continuação – aliás, ele e Camus já trabalham na sequência do enredo carioca. No momento, no entanto, o desenhista desenvolve outro projeto, desta vez sobre a Prússia de 1715. ‘É um novo desafio’, resume. Tem razão: agora, terá de desenvolver simplesmente uma epopeia em HQ.’

 

***

Acolhimento francês ajuda a explicar o Brasil, diz Gilberto Gil

‘Leia a seguir, na íntegra, o prefácio do cantor, compositor e ex-ministro da Cultura para a edição nacional de Negrinha.

‘Com sua peculiar formação sociocultural, o Brasil tem se tornado, cada vez mais, objeto da curiosidade jornalística, da investigação acadêmica, da observação política, da fantasia artística e da admiração cívica de tantas outras nações do mundo contemporâneo. Pela configuração de uma sociedade pluriétnica e pluricultural, formada ao mesmo tempo dentro e à margem do modelo colonial europeu, nosso país vem criando expectativas crescentes no contexto da civilização pós-colonial e pós-industrial que começa a se esboçar. Conseguindo um equilíbrio razoável entre a vocação republicano-democrática de um Estado moderno e a vocação anárquico-espontaneísta de uma sociedade civil trans-histórica, o Brasil do século XXI emerge como filho de uma nova espécie de civilização – um mutante de uma nova categoria de humanidade, quiçá mais adequada, mais afeita, mais propícia aos novos tempos pós-humanistas que se ensaiam.

Sabemos o quanto a França tem se mostrado atraída por esse experimento civilizatório particular e intrigante. Em vários momentos da trajetória da nossa história no mundo, o acolhimento francês tem sido fundamental para explicar o Brasil. À luz do empreendimento iluminista que ela, como nenhuma outra nação, legou à cultura moderna, a França sempre esteve atenta ao desenvolvimento diferenciado desse herdeiro afro-ameríndio e o Brasil tem encontrado sempre, na França, um observador atento das suas peculiaridades.

Negrinha é resultado desse histórico hibridismo, que tem marcado a vida brasileira e o seu reconhecimento pela França e pelo mundo. Sendo um de seus autores, ele mesmo, produto dessa expansão da carne e da alma do Brasil para dentro do território biontológico francês, este livro traz para o campo de um gênero literário tão moderno – a história em quadrinhos – uma narrativa franco-brasileira sobre a miscigenação, um dos nossos típicos modos de construção sociocultural. Em sua acepção mais abrangente, a miscigenação brasileira encontra, aqui, uma narrativa digna do seu sonho: a família filha de muitas raças, muitas religiões, muitas culturas.

O personagem principal desta história em quadrinhos é o povo que anda pelas ruas do Brasil, desde a sua descoberta até os dias de hoje.’’

 

 

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Cidades são reinventadas na visão de cartunistas

‘Tamburini e Liberatore reinventaram Roma com Ranxerox. Paris nunca pareceu a mesma depois da recriação futurista de Moebius. Nova York não existe sem os becos, os bueiros, as escadas de incêndio de Will Eisner. São Paulo e Lourenço Mutarelli têm ligações sanguíneas. Os quadrinhos e as cidades são moedas de uma face só.

Mas algumas cidades começaram a ser reengendradas muito recentemente, com leituras bastante particulares. No caso de Negrinha, a escolhida é o Rio de Janeiro do passado, mais precisamente o Rio de 1953, quando se passa toda a ação da história.

No ano 2000, a editora Casa 21 teve uma ideia brilhante: sabedora da capacidade dos quadrinhos em situar suas histórias em cidades visionárias, convidou artistas do gênero dos quatro cantos do globo para desenhar cidades brasileiras. A série Cidades Ilustradas começou justamente com o Rio de Janeiro, que foi visitada pelo francês Jano.

Jano não só ‘captou a mensagem’, como foi além: traçou um retrato imemorial da Cidade Maravilhosa, com senso crítico e argúcia de veterano. O funk, o boteco, o Maracanã, o malaco, o batedor de carteiras, o policial desleixado: está tudo lá em sua obra, rapidamente transformada em um clássico dos quadrinhos.

Depois, o espanhol Miguelanxo Prado fez Belo Horizonte e Jean-Claude Dennis reinventou Belém do Pará. Para desenhar o grande desafio metropolitano, São Paulo, veio um artista igualmente desafiador: David Lloyd, autor do gibi V de Vingança.

Lloyd veio à cidade com três câmeras fotográficas, em 2006. ‘No dia que cheguei, estava ensolarado e quente. No dia seguinte não estava mais. No dia seguinte, chovia. O tempo muda muito rápido em São Paulo. É uma cidade que é uma mistura de verde e cinza, e contém muitos elementos de outras grandes metrópoles. Tem um desenvolvimento fascinante. Dizem que é fria, mas acompanhei uma grande experiência de pessoas ajudando umas às outras’, disse Lloyd ao Estado, na época da visita.’

 

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