Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 2 E 3/1

O Estado de S. Paulo

05/01/2010 na edição 571

MORDAÇA
Ricardo Brandt

Blogs fazem ‘permuta’ para driblar censura

‘Dois blogueiros censurados pela Justiça de publicar informações sobre casos de escândalos decidiram trocar informações, publicando um a notícia do outro. Dessa forma, conseguiram furar a mordaça imposta por tribunais estaduais sem que fossem executados judicialmente. Os autores da ideia são o jornalista Fábio Pannunzio e a economista Adriana Vandoni.

Desde que foi criada no dia 14 de dezembro, a ‘permuta de censura’ – como foi batizada – já ganhou duas adesões. A última da jornalista Alcinéia Cavalcanti, proibida pela Justiça do Amapá de publicar notícias sobre a família Sarney.

Segundo Pannunzio, jornalista da Rede Bandeirantes que mantém o Blog do Pannunzio, a proposta tem o ‘objetivo de preservar o interesse público e a liberdade de imprensa’. ‘Ao mesmo tempo em que respeitamos a decisão dos juízes que nos censuraram, cujas decisões alcançam apenas o que é veiculado em cada um dos blogs, e não de terceiros’, explica.

O Blog do Pannunzio está proibido pela Segunda Vara Cível de Curitiba de veicular notícias sobre Deise Zuqui, uma brasileira investigada pela Polícia Federal por suposto envolvimento com uma quadrilha de traficantes de trabalhadores.

Adriana Vandoni, que mantém o blog Prosa e Política, está proibida pela Justiça de Mato Grosso de publicar informações a respeito do presidente da Assembleia Legislativa local, José Riva, que responde a mais de 100 ações por improbidade administrativa.

No caso do Amapá, os blogueiros lembraram que ‘ao processar Alcinéa mais de vinte vezes, Sarney, que da tribuna do Senado afirmou que jamais processara um jornalista, transformou-se em pioneiro desse novo tipo de censura, agora decretada por juízes togados’.

Também integra a rede de ‘permutada de censura’ o blog Página do E, mantido pelo jornalista Enock Cavalcanti, também alvo de ação judicial no Mato Grosso.’

 

‘Estado’ sob censura há 156 dias

‘O empresário Fernando Sarney, filho do senador José Sarney, apresentou no dia 18, véspera do recesso forense, pedido de desistência da ação contra o Estado, mas a censura ao jornal permanece em vigor. A partir de 7 de janeiro, término do recesso, o jornal será intimado a decidir se concorda com a extinção ou prefere que a Justiça aprecie o mérito.

O pedido do empresário foi feito nove dias após o Supremo Tribunal Federal ter arquivado reclamação do jornal contra a censura sem decidir sobre seu mérito.’

 

DINAMARCA
Jamil Chade, de Genebra

Autor de cartuns de Maomé escapa de atentado

‘Um suposto terrorista tentou assassinar o cartunista responsável pelos desenhos sobre Maomé que causaram polêmica no mundo árabe entre 2005 e 2006. Kurt Westergaard, de 74 anos, teve sua casa invadida por um somali, que levava uma faca e um machado. Segundo a inteligência dinamarquesa, o autor do ataque, que ocorreu na noite de sexta-feira, tem relações com terroristas islâmicos. A polícia interveio, baleou o somali e o prendeu.

Em 2005, o cartunista publicou no principal jornal dinamarquês Jyllands-Posten desenhos em que mostrava o Profeta Moamé com um turbante em forma de bomba. Cinco meses depois, seus desenhos foram motivo de grandes protestos no mundo muçulmano, inconformados com a publicação dos desenhos. Embaixadas da Dinamarca em Damasco e em Beirute foram atacadas. Na ONU, em Genebra, Argélia e vários países muçulmanos tentaram lançar novas normas apelando para que a difamação religiosa passasse a ser considerada violação aos direitos humanos e acusando os desenhos de serem ofensivos. Países que defendiam a liberdade de expressão impediram a aprovação da lei.

Extremistas islâmicos prometeram US$ 1 milhão para quem matasse o dinamarquês, já que a lei islâmica proíbe a representação de Maomé em imagens. Segundo a polícia, o africano de 28 anos tem vínculos com milícias islâmicas e líderes da Al-Qaeda no leste africano. Ele teria entrado na casa do cartunista quebrando um dos vidros.’

 

TELEVISÃO
News Corp e Time Warner chegam a acordo

‘A News Corp, do magnata Rupert Murdoch, e a operadora de TV a cabo Time Warner anunciaram um acordo e encerraram a disputa que deixou 13 milhões de americanos sem alguns programas. A controvérsia envolvia a programação da Fox para Nova York, Los Angeles, Orlando e outros mercados.

News Corp e Time Warner travaram uma queda de braço sobre os preços que a operadora pagaria para transmitir os programas da Fox. A empresa de Murdoch pedia um dólar por assinante por mês, muito acima da média. A Time Warner oferecia 30 centavos. Os termos do acordo não foram divulgados.’

 

INTERNET
Google vai às compras em 2010

‘Em setembro, o presidente do Google, Eric Schmidt, disse que compraria mais de uma empresa por mês em 2010. O site da CNN Money listou seis possíveis alvos da companhia – explicando por que deve ou não comprar e qual a probabilidade de a operação sair. O primeiro deles é a rede de microblogs sociais Twitter, o mais conhecido dos brasileiros na lista. O site também inclui as empresas Digg, Jumptap, Yelp, Cellfire e Yandex.’

 

LIVRO
Marcos Guterman

A humanidade que se perdeu

‘A Guerra do Iraque é uma guerra de estrangeiros. Suas múltiplas camadas de interesses e ideologias muitas vezes estranhas aos costumes locais desacreditam a ‘clareza moral’ de que falava o então presidente dos EUA, George W. Bush, quando deflagrou o conflito, em 2003. Assim como na Babel bíblica, aliás erguida no mesmo lugar dos atuais combates, a enorme confusão instalada depois da invasão americana serve a vários propósitos, mas o principal deles, comum a todos os atores da guerra, é um só: destituir o inimigo de traços humanos. A animalização dos combatentes e das vítimas no Iraque é o trágico objeto de Dexter Filkins no recém-lançado livro Guerra Sem Fim, traduzido por Luciano Vieira Machado.

Jornalista do New York Times, Filkins conhece todos os cenários do conflito: cobriu a Guerra do Iraque desde o princípio e esteve também no Afeganistão. Ele é o ‘olhar americano’ sobre esses eventos, e muitas vezes, em razão disso, depende de intérpretes para saber o que está acontecendo. Mas não é só Filkins: todos os combatentes precisam de tradutores – quer os americanos, quer os estrangeiros que lutam pela Al-Qaeda, quer os próprios iraquianos. O resultado disso é que a Guerra do Iraque é inapreensível em seu todo, e o grau de desumanidade relatado por Filkins talvez se explique por esse fenômeno.

Tzvetan Todorov, em A Conquista da América, afirma que, ‘quanto mais longínquos e estrangeiros forem massacrados, melhor: são exterminados sem remorso, mais ou menos assimilados aos animais’. Ele falava das guerras coloniais, num modelo de interpretação que serve para entender Filkins, cujas anotações desconexas registram a acelerada degradação do Iraque e do Afeganistão e sua transformação em ‘terra de ninguém’, em que seres humanos são mortos como porcos, mesmo pelos civilizados americanos. Mas aquilo que o jornalista vê como o retorno à barbárie ancestral é, na verdade, sinal da mais pura modernidade, quando não há lei moral nem conexões sociais, quando ‘tudo é permitido’, no dizer de Ivan Karamázov. E a reflexão de Filkins, ao se perguntar ‘como os afegãos conseguiam suportar tanta dor’, apenas corrobora Dostoiévski: ‘Depois de tantos anos de guerra, alguma coisa de fundamental tinha se partido neles.’ Talvez fosse a ausência de Deus, ou talvez fosse o excesso d’Ele, mas o fato é que a barbárie havia se tornado a própria essência da vida cotidiana.

A violência, mostra Filkins, é o fator que sedimenta o desconcerto. Em certos lugares, ‘não havia a política para complicar as coisas’: ‘Lutava-se até a morte, e ponto final.’ Mesmo em Bagdá, onde se esperava um pouco de ordem, imperava o vale-tudo: ‘Voltara-se ao estado selvagem. Já não havia leis, já não havia tribunais, nada. Absolutamente nada. Agora raptavam crianças, matavam-nas e jogavam os corpos nas ruas. As gangues de sequestradores compravam e vendiam gente. Era um ecossistema terrível, funcionando segundo suas próprias regras.’

A resposta americana a esse conjunto de rupturas não fez outra coisa senão emulá-lo. A certa altura, Filkins revela que o comando militar dos EUA tornou aceitável que seus soldados atirassem em mulheres e crianças se estas expressassem ‘intenção hostil’. Em outro episódio, o jornalista mostra a loucura da reação americana ao relatar o cerco de 20 marines contra um único insurgente, alvo de um bombardeio incessante num prédio – o insurgente, ironicamente, conseguiu fugir montado numa prosaica bicicleta. E Filkins transcreve a indisfarçável satisfação de um atirador de elite americano depois de uma jornada de combates: ‘Tivemos um grande dia. Matamos um monte de gente.’

A espiral inexorável rumo à animalização, pontuada ao longo do livro, é simbolizada pela trajetória do tenente-coronel Nathan Sassaman. Descrito por Filkins como ‘o mais notável dos comandantes americanos que atuavam no Iraque’, Sassaman ‘era espirituoso, brilhante e obstinado, a personificação do melhor que os EUA tinham a oferecer’. Sua missão era instilar na população iraquiana em sua jurisdição a ideia de que a democracia era viável, e ele ‘trabalhava dia e noite para que o projeto americano para o Iraque tivesse sucesso’. Veio então uma rebelião sunita na região, cuja violência extrema não só comprometeu o trabalho de Sassaman como fez emergir nele sua porção monstruosa: o comandante doce e utópico se tornou um assassino frio e vingativo. ‘Deus não existe. O Deus aqui sou eu’, teria dito ele, segundo o relato de uma vítima, durante uma de suas expedições punitivas.

Essa descida ao inferno, essa emergência do mal, eis o âmago das guerras descritas por Filkins. É a desmoralização dos sonhos de juventude, de que já falava Erich Maria Remarque em seu Nada de Novo no Front, a propósito da carnificina da Primeira Guerra Mundial: ‘Não somos mais a juventude. Não queremos mais conquistar o mundo. Somos fugitivos. Fugimos de nós mesmos, e de nossas vidas. Tínhamos 18 anos e estávamos começando a amar a vida e o mundo e fomos obrigados a atirar neles e destruí-los. A primeira bomba, a primeira granada, explodiu em nossos corações. Estamos isolados dos que trabalham, da atividade, da ambição, do progresso. Não acreditamos mais nessas coisas; só acreditamos na guerra.’

O próprio Filkins, como os combatentes que descreve, chega ao final da jornada com a sensação de que algo crucial em sua humanidade se perdeu pelo caminho: ‘No curso dos acontecimentos aqui narrados, perdi a pessoa a quem eu mais queria. A guerra não a levou; a guerra levou a mim.’’

 

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