Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 24 E 25/7

O Estado de S. Paulo

27/07/2010 na edição 600

TELEVISÃO
Alline Dauroiz

A boa face da babá eletrônica

Aliar cultura e educação em embalagem de entretenimento atraente aos olhos do público faz parte – ou deveria fazer – da missão de todas as redes de TV. Porém, poucos são os programas que conseguem conciliar conteúdo elaborado e apelo por audiência. Embora as intenções do gênero sejam mais comuns em canais ditos educativos ou pagos, a receita é um desafio para todos (sim, porque por mais instrutivos que alguns programas possam ser, ninguém consegue assisti-los por muito tempo sem um formato divertido).

Há 11 anos no ar como um dos programas mais populares do Canal Futura, o Afinando a Língua, comandado por Tony Bellotto, é caso raroMesmo liderado pela figura popular do titã e disposto a explorar gramática e literatura pela música, a atração nunca despertou a cobiça das redes comerciais, tão carentes de formatos inovadores. ‘Talvez as TVs comerciais estejam preocupadas com o entretenimento’, arrisca a gerente de Conteúdo do Futura, Débora Garcia.

A Globo justifica, por meio de e-mail enviado pela Central Globo de Comunicação (CGCom) que o Afinando a Língua, fruto da Fundação Roberto Marinho, foi pensado para o perfil do Futura. Mas a mesma Globo já absorveu ideias testadas com êxito em outros canais do grupo – caso do Cilada, que Bruno Mazzeo fazia no Multishow e virou quadro no Fantástico.

O mesmo e-mail enviado pela CGCom, em resposta a perguntas que o Estado endereçou inicialmente ao diretor geral de Entretenimento da Globo, Manoel Martins, informa que ‘não é possível fazer uma avaliação isolada de um programa específico’. ‘Os programas precisam ser avaliados no conjunto da grade de programação e, para tal, merecem estudo mais aprofundado do formato, da linguagem, do perfil, do público-alvo. Aliar entretenimento, informação e cultura nacional está no DNA da Globo.’

MUNDO DA LUA (89/90). Com artistas cedidos da Globo, a série da Cultura, foi um bom exemplo de programa educativo e divertido que emplacou na TV aberta com bons índices de audiência (para a Cultura)

De fato, a TV comercial sofre para conciliar programas que agradem a todos, em busca de ibope. Temas sociais têm rendido cenas nas novelas, enquanto as minisséries que restaram trafegam por focos históricos ou literários. Longe da dramaturgia, encontrar atrações de edutainment (do inglês, educação + entretenimento) não é tarefa fácil. Muitas vezes, quando essa feliz conjunção ocorre, o programa é relegado a horários marginais, como o Altas Horas, de Serginho Groisman, sustentado pelo slogan ‘vida inteligente na madrugada’. Mas por que na madrugada?

Ainda na Globo, em horário menos ingrato, é possível dar de cara com o doutor Drauzio Varella no Fantástico, programa que, entre um zilhão de ideias testadas nos últimos anos, fez bonito com as séries Filosofia e História. Na safra dos informativos, o leque pode ser maior, como manda o gênero, com linguagem de entretenimento mais caprichado nos casos do Profissão Repórter e das séries Globo Mar e Brasileiros.

Ou é bom ou não é. Diretora do prêmio de qualidade audiovisual Jeunesse Ibero-americano e ex-diretora de programação da TV Cultura, tendo participado da criação de programas como Castelo Rá-Tim-Bum, Mundo da Lua, Confissões de Adolescente, Cocoricó e Um Menino Muito Maluquinho, a jornalista Beth Carmona enfatiza que ‘ninguém quer tirar diploma pela televisão, mas é possível assistir a programas que façam você buscar mais e aprender’.

‘Quando se fala em audiovisual, é um erro separar forma e conteúdo’, explica. ‘Se um programa é educativo mas a embalagem dele é chata, é porque não é um bom programa, não tem qualidade’, crava.

Beth também dirigiu a Programação do Discovery para a América Latina e presidiu a fundação mantenedora da TVE, do Rio (hoje TV Brasil).

Cris Poli educadora com mais de 40 anos de experiência que incorpora a Supernanny, concorda. ‘Acredito na função social da TV. Você entra na casa das pessoas, é um excelente meio de comunicação, de cultura, informação e educação’, diz.

Com toque latino, a argentina dá à versão brasileira deste formato internacional, produzida pelo SBT, um caráter afetivo que falta às babás europeias. Como a TV tem multiplicado sua vocação para reality shows, Poli é caso ainda mais raro de vida útil nesse métier,

Para Beth, a fórmula depende de uma série de fatores, como bom diretor, bom produtor, bom conteudista, bom cenógrafo, bom figurinista, boa trilha… ‘Agora, é mais caro? Sim. E as emissoras comerciais, já que têm de investir em algo caro, escolhem sempre por algo que dê mais ibope.’

 

Alline Dauroiz

Ele pagou a língua?

Quando Tony Bellotto escreveu com os colegas do Titãs a letra de Televisão, para o álbum homônimo de 1985, não imaginou que um dia comandaria um programa tão duradouro no veículo que até então criticava. Hoje, 25 anos depois, o músico e escritor está prestes a estrear a 10.ª temporada de seu programa, o Afinando a Língua, que há 11 anos é um dos mais vistos do Canal Futura. A atração fala sobre Língua Portuguesa e literatura por meio da música.

Nesta temporada, que estreia dia 21 de setembro, foi lançado no Twitter o concurso Banda Afinada: a banda que obtivesse mais votos dos internautas faria um episódio do programa. Em duas semanas, 200 bandas se inscreveram – dessas, cinco foram selecionadas e, com 84,95% dos votos, os vencedores foram os meninos da Curimba, de Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

‘Foi um case de sucesso’, diz a diretora de programação do canal, Débora Garcia. Vencemos o desafio de falar com o jovem. Foram 25 mil rettwittes, o que significa mais de 2 milhões de público potencial alcançado’. diz.

Neste bate papo, entre as gravações de dois dos 13 episódios desta nova temporada, Tony Bellotto conta sobre sua relação de amor e ódio com a TV comercial.

Qual a fórmula para se manter em um programa cultural durante tanto tempo?

Foi uma sacada do Hugo Barreto (secretário Geral da Fundação Roberto Marinho), que me convidou em 1998, com uma ideia meio vaga de chamar a atenção dos jovens que ouvem música e têm resistência e preguiça de ler e mostrar, por meio das letras das músicas, que a literatura é tão interessante quanto. E com o tempo, o programa foi deixando o lado didático, para falar mais de linguagem. No começo, achamos que o público ia ser jovem, meio MTV, e com o tempo, vimos que a audiência é bem variada. Garçons e porteiros vêm me falar que adoram.

Você não acaba falando mais de música do que de literatura?

A gente tem uma certa liberdade. Porque falar de literatura não é a mesma coisa que ler. E a música acontece. Um Alceu Valença, que teve formação híbrida, ouvindo cantadores do Nordeste a um Elvis Presley, que recita um poema com tanta paixão, diz muito mais do que ficar ali falando da obra do Dostoievski, do Machado de Assis.

Seu programa contraria um pouco a letra da canção ‘A televisão me deixou burro, muito burro demais.’ Quem mudou: você ou a televisão?

(Risos) Acho que foi a televisão. Quando a gente escreveu Televisão não existia a TV a cabo, que permitiu uma TV de mais qualidade. A TV aberta continua deixando a música muito atual. Adoro assistir TV e vejo muito mais coisas de canais alternativos. Gosto de canais de jornalismo, de música, algo que cada vez menos a gente encontra na TV, de programas de gastronomia, que antes eram tão bagaceira e hoje são geniais.

A TV deixou de ser vilã?

Deixou. Mas quando a gente compôs a música, era uma crítica bem-humorada, de alguém que já estava inserido naquilo. Os Titãs sempre tiveram uma relação positiva com a TV. Acho que a TV foi vilã num pensamento meio marxista, que era o ópio do povo, que emburrecia as crianças. Quando eu era pequeno e morava no interior com meus pais, professores universitários, não tínhamos TV. Hoje não imagino uma sociedade sem televisão.

Você é um pai que pega no pé dos seus filhos (Nina, João e Antônio, de 28, 15 e 13 anos), com o português?

Lembro que quando meu filho mais velho estava na 5.ª série e não estava indo bem em gramática, eu disse: ‘Pô, João. Não faz isso comigo que pega mal para mim.’ Sempre corrijo essas manias de falar frases clichê, o ‘tipo assim’. Tento mostrar a riqueza da língua, a possibilidade de usar palavras inusitadas. Mas não sou um pai chato. Não quer ler não lê.

Seu programa é um dos mais populares do Futura. Já te convidaram para uma TV comercial?

Nunca. Seria genial se rolasse, acredito que exista espaço. Um dos programas com mais música na TV aberta é o (Altas Horas) do Serginho Groisman (Globo)que, embora esteja num horário marginal, pelo menos não fica se mediocrizando em nome da competição. Acho estranho nunca terem me chamado.

 

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