Domingo, 27 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 7 E 8/8

O Estado de S. Paulo

10/08/2010 na edição 602

TECNOLOGIA
Marili Ribeiro e Renato Cruz

Ligada à internet, tevê começa a ficar interativa

A disputa de audiência entre emissoras de TV e internet começa a acontecer numa tela só. Aparelhos com serviços interativos, que se conectam à banda larga, começam a ser mais comuns no varejo, com televisores de fabricantes como a Samsung e a LG. Ao mesmo tempo, as emissoras apostam no Ginga, software de interatividade da TV aberta, que, pelo menos por enquanto, está disponível somente em dois aparelhos da LG.

São dois modelos bem distintos de interatividade. No televisor conectado, a informação vem pela internet, de parceiros selecionados pelo fabricante. No aparelho com Ginga, os serviços interativos são transmitidos via ar pela emissora de TV, juntamente com a programação.

‘O espectador ainda está se acostumando a usar a internet na TV’, afirma Marcio Portella Daniel, diretor da Samsung, empresa que lançou modelos interativos no ano passado. Esses aparelhos não têm um navegador de internet. Os espectadores escolhem os serviços por meio de ícones parecidos com os que existem nos celulares inteligentes.

Para Fernanda Summa, gerente da LG, a TV aberta interativa e a TV com banda larga são produtos que se complementam. ‘Uma coisa não vai matar a outra’, diz. ‘Os serviços interativos podem aumentar a audiência dos programas de TV.’

As emissoras de televisão querem usar a interatividade para evitar que o telespectador saia da frente do aparelho. Ou que a escapadinha fique reduzida à visita ao toalete.

Desde a chegada da transmissão digital, há dois anos, a promessa da chamada interatividade na tevê está no ar. E assim permaneceu. Agora, com a chegada às lojas dos televisores com o software de interatividade Ginga, as desculpas acabaram.

‘A interatividade vai além de uma novidade para atrair atenção do público e poder agregar valor ao negócio da televisão’, reconhece Roberto Franco, diretor de tecnologia da Rede SBT. ‘Vamos oferecer mais informações, fazendo com que o público não tenha que levantar para conferi-las no computador’.

Reter audiência, perdida para universo de ofertas online, tem sido uma tarefa árdua os programadores de entretenimento nas televisão aberta.

Mercado. Como a indústria lucra mais vendendo TVs com conversores embutidos, não tem havido muito investimento para desenvolver e vender conversores com o Ginga. Sendo assim, o recurso da interatividade fica restrito a um público limitado. O cálculo é que não existam mais do que 100 mil aparelhos com a funcionalidade no mercado. E como diz Franco, só vai ganhar relevância quando atingir massa crítica, o que pode levar até três anos. No Brasil, 96% da população já tem televisor em casa. Terá que haver troca dos atuais equipamentos.

O diretor de engenharia da TV Globo, Raymundo Barros, não tem pressa em acelerar esse processo. Conta que acompanha as discussões de como isso será feito há três anos dentro do fórum da TV digital.

A preocupação, nunca assumida abertamente é evitar ônus ao atraente mercado anunciante da televisão aberta, que fica com quase 60% da verba publicitária investida em veículos de comunicação no Brasil. Criar facilitadores para a internet pode fazer com que anunciantes deixem os intervalos comerciais por outras formas de anúncios.

‘Nossa maior preocupação é garantir a interatividade em rede, para as 33 emissoras digitais afiliadas’, explica Barros. ‘Trata-se de uma operação complexa e diferente de um site. Não basta pôr no ar. É uma ferramenta de comunicação que vai oferecer na tela da TV um aplicativo interativo. Se o aparelho não é interativo, não acontece nada. Mas nos modelos que são interativos, ao ser apertado no controle remoto vai surgir na tela o sinal que aciona a tecla interatividade.’

No caso da Rede Globo, a janela que permite ao telespectador obter informações adicionais sobre o que acontece na tela aparece na lateral. ‘Há todo um grafismo integrado, por exemplo, ao adotado na linguagem da atual novela Passione, que é que já oferece a interatividade. Ao acessá-lo, o telespectador terá detalhes do capítulo perdido, ou poderá responder a enquetes sobre o desenvolvimento da novela.’ Na maior rede de televisão brasileira a opção foi pelo aplicativo individual para cada programa.

Estratégia. Já no SBT, a opção foi diferente, como explica Franco. ‘A partir de vários grupos de pesquisa com mais de 20 pessoas cada, fomos descobrindo quais as demandas que tiram os telespectadores da frente da telinha e desenvolvemos aplicativos para suprir essas necessidades’, diz ele. ‘A maioria levanta para ver no computador dados sobre meteorologia, resultados de jogos e as últimas notícias’. No SBT, a opção foi oferecer no primeiro clique a informação pura. Se o telespectador quiser mais detalhes, terá que dar um segundo clique e poderá obter mais informações sobre a novela em cartaz, como a sinopse.

Na hora em que é pressionada tecla de acesso à interação, aparece a primeira tela que oferecem as respostas mais comuns dos telespectadores da emissora. ‘De todos as emissoras que estão desenvolvendo o sinal para interatividade, só o SBT já o coloca à disposição por 24 horas’, conta ele. Isso é possível porque a emissora escolheu a metodologia mais simples. O próximo passo, que está em estudo, será o de integrar essa interação com às mídias sociais e, futuramente, promover comércio eletrônico.

 

EM PARATY
Raquel Cozer

Cartunistas fazem encontro morno na Flip

Ao fim da mais aguardada mesa da oitava edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em Paraty (RJ), o clima entre os espectadores que deixavam a Tenda dos Autores parecia o de torcedores de um time perdedor. O encontro entre os cartunistas americanos Robert Crumb e Gilbert Shelton foi o mais morno de todos os que aconteceram até ontem, penúltimo dia da feira.

Em parte pelo notório mal-estar de Crumb com a ideia de falar de si mesmo e pela distração de Shelton, em parte por problemas na mediação – que focou em conhecidas passagens na biografia de ambos e deixou de lado a discussão sobre suas obras e os quadrinhos em geral -, o que se viu foi mais uma entrevista do que um debate, com questões cujas respostas quem conhece os dois cartunistas já ouviu algumas vezes.

Crumb subiu ao palco fazendo graça, como que impressionado com a platéia lotada, mas avisou logo de saída: ‘Não sei porque me colocam nessa situação, sou entediante. Meu trabalho é o que interessa’. E mais uma vez reclamou dos fotógrafos (‘É desconfortável’), chegando a imitar um latido, enquanto Shelton disse que aceitou o convite porque não era mal ‘viajar de graça a um lugar bonito’.

Boa parte dos assuntos abordados tinha recebido respostas no dia anterior, na entrevista coletiva com ambos, como a rejeição de Crumb aos EUA e o que ele sentiu quando o roteirista Harvey Pekar, para quem ilustrou o primeiro número de American Splendor, morreu. A mediação também abordou o momento em que ambos se conheceram. ‘Não lembro muito bem, eu fumava muita maconha, usava muito LSD’, disse Crumb. Questionado sobre se era ‘competitivo’ o cenário entre quadrinistas na época, Crumb se espantou: ‘Competitivo? Está brincando? Éramos tão poucos, uns quatro, talvez’. Shelton falou mais uma vez sobre sua amizade com Janis Joplin – foi ele quem a convenceu a passar do folk para o rock -, ao que o amigo respondeu, numa das várias tiradas que deu ao longo da conversa: ‘Ela devia ter ficado no folk. Estaria viva…’

Barba. Por curiosidade, algumas das perguntas mais interessantes foram feitas por Shelton. Ao ver imagens do Gênesis de Crumb no telão, quis saber: ‘Por que seu Adão não tem barba?’, ao que o colega parou e pensou: ‘Acho que ele deveria ter barba só mais velho. Ele era novinho em folha nessa época, foi criado já adulto.’ A certa altura, Aline Kominsky-Crumb – que costuma se destacar em eventos dos quais o marido participa – foi chamada ao palco, mas sua entrada foi pouco aproveitada. A cartunista fez graça sobre a simplicidade de seus próprios desenhos (‘Um dia vou desenhar com os pés e nem perceberão a diferença’) e brincou com o fato de ser casada com um dos cartunistas mais famosos do mundo: ‘Estou feliz por estar aqui, porque fui ignorada por 40 anos’.

 

PORTUGUÊS
João Ubaldo Ribeiro

Desta vez é despedida mesmo

Não sou político, mas devo estar aprendendo com o exemplo, porque prometi um par de vezes aposentar definitivamente meu caderninho de implicâncias com a linguagem, até porque não quero ocupar este espaço com mais uma coluna sobre o bom uso de nossa língua, para o que, diga-se a tempo, não sou muito qualificado. Tem bastante gente fazendo isso nos jornais, com competência. Mas não cumpri – aliás, não estou cumprindo agora – as promessas. Peço a indulgência geral e prometo, agora solenemente, que tão cedo não torno a outra. Bem verdade que os políticos também fazem promessas solenes, mas espero não imitá-los no hábito de esquecê-las.

Tento usar a língua direito, estudo um pouco, mas no geral toco de ouvido e creio que minhas notas encontram eco em qualquer um que tenha aprendido algum português na escola, não são ‘especializadas’, ou coisa assim. Devo prestar mais atenção na língua que a maior parte das pessoas porque sou escritor, vivo mexendo com as palavras e o que acontece com elas me afeta, às vezes de forma meio doida. E escrever para jornal ajuda a preservar o ritmo de jogo, a gente fica mais alerta para as bobagens, ou até absurdos, ditos ou escritos sem sentir e frequentemente sem querer. (Um amigo meu, vítima da mania de fazer o sujeito seguir-se de um pronome, como em ‘a realidade, ela é’, me telefonou, depois que eu escrevi sobre o assunto. ‘Eu não consigo falar de outro jeito, acho que vou ter que me internar’, disse ele. ‘Essa mania, ela vai me matar.’) Mas não pretendo encarnar o chato que vive catando o ‘erro de português’, até porque esse negócio de erro de português é muito relativo e minha preocupação é com a preservação da eficácia e da precisão da língua, atitude que está longe de ser elitista, como muita gente qualifica qualquer coisa expressa por um ou mais polissílabos. Uma língua que perde ou avilta seus recursos não pode aspirar a permanecer uma língua culta e servir para adequada expressão científica, filosófica e literária, temos que cuidar da nossa.

Nem pensar em patrulhar erro de português e, aliás, é por causa de certas patrulhas que tomei algumas de minhas notas. Penso particularmente na patrulha da colocação de pronomes, que, para os patrulheiros, é uma coleção supersticiosa de regras de aplicação às vezes ridícula. ‘O senhor disse que me queria ver’, expresso desta forma porque o ‘que’ atrai o pronome, força um pouco o falar do brasileiro, mas vá lá, não chega a ser ridículo. Contudo ‘o caderninho é tão chato que eu me resolvi livrar dele’ é dose, tanto por escrito quanto, e mais ainda, na conversa. Ou seja, decora-se que o ‘que’ atrai o pronome e se ignora uma exceção que mesmo os mais rezinguentos gramaticões de outrora sempre fizeram, quando, nessas locuções verbais, o segundo verbo está no infinitivo. Na fala, talvez nem tanto, mas na escrita fica até elegante construir ‘que eu resolvi livrar-me dele’.

Lembre-se ainda que, como já dizia o grande mestre filólogo M. Said Ali, as palavras não são eletromagnetos, para ficarem se atraindo lá e cá. Na verdade, qualquer leitura de clássicos da língua como Antônio Vieira e Manuel Bernardes ou mesmo do fundador Camões vai render um balaio cheio de pronomes colocados ‘erradamente’. A colocação, tanto na fala quanto na escrita, tem a ver com um sem-número de fatores, um dos mais importantes dos quais o espaço me obriga a citar taquigraficamente, é ser esse pronome, no enunciado, tônico ou átono. Certos pronomes que até os portugueses pouco letrados colocam ‘corretamente’ são átonos em Portugal, mas aqui viraram tônicos e os colocamos como os percebemos, geralmente sem nada de errado. E menção especial deve ser feita ao pronome solto entre dois verbos, como em ‘resolvi me livrar’. Isso está ‘errado’ e, como ‘resolvi-me livrar’ é também ridículo, além de não querer dizer a mesma coisa, fica-se obrigado a ‘resolvi livrar-me’ como única opção. No entanto, os brasileiros dizem, com o ‘me’ tônico, ‘resolvi me livrar’ e não há razão para demonizar isso, pois é assim no falar cotidiano até dos que observam costumeiramente a norma culta. E vamos admitir que ainda haja resistência quanto ao uso dos pronomes oblíquos no começo de oração. Certas coisas persistem mais que outras e deve haver alguma razão para que ainda usemos a ênclise (pronome depois do verbo) em discursos e ocasiões formais. Mas dizer ‘dê-me’ ou ‘dá-me’ na conversa dá a impressão de que o falante é aluno de um colégio de freiras de antigamente ou usa brilhantina no cabelo, ou coisa assim.

E, imagino que por causa do ‘companheiros e companheiras’, que por sua vez remonta a ‘brasileiros e brasileiras’, tudo depois que o general De Gaulle disse ‘français, françaises’, agora a velha e sedimentada norma, segundo a qual o plural das partes de um conjunto compreendendo os dois gêneros fica no gênero masculino, parece que não vai valer mais. ‘Brasileiros’ engloba tanto homens quanto mulheres e não há nada para uma feminista dos velhos tempos reclamar. Na nossa língua, por exemplo, ‘pessoa’ é feminino e nenhum homem se queixa de ser chamado de ‘uma pessoa’. Mas daqui a pouco, pelo visto, alguém é capaz de inventar o masculino ‘pessoo’, para não ofender os brios dos machões, que também são filhos de Deus. Ou muito me equivoco ou ouvi o presidente do Tribunal Superior Eleitoral dirigir-se aos eleitoras e eleitores. Está sendo realmente criada uma nova língua e o final do período anterior devia ser, de acordo com ela, ‘às/aos eleitoras e eleitores’. Imagino haver quem ache isso chique. Talvez dizeres tradicionais venham a ser reformulados, em versões como ‘quem for brasileira ou brasileiro me siga’. E já de novo se finda o espaço, sem que as notas tenham acabado. Mas mantenho a promessa. Se não cumpri-la, pelo menos não pedi voto.

 

TELEVISÃO
Patrícia Villalba

Além da imaginação

Há uma onda na TV americana, que demora a passar, de produções ligadas ao sobrenatural – de paranormais a vampiros. Mas, justamente no Brasil, onde o misticismo é bastante presente no cotidiano das pessoas, o tema andou meio esquecido nos últimos anos, até ser resgatado pelo autor João Emanuel Carneiro que, em parceria com o roteirista Marcos Bernstein, escreveu A Cura. Com direção-geral de Ricardo Waddington, o seriado estreia nesta terça-feira, às 23h.

Cercada de mistério, a trama acompanha a trajetória do jovem médico Dimas, interpretado por Selton Mello. De volta à cidade natal, a histórica Diamantina, em Minas, o que ele mais quer é se tornar cirurgião no hospital da cidade. Mas quem disse que alguém quer vê-lo com um bisturi na mão?

‘Paira sobre ele uma dúvida, porque ele é acusado de ter matado um amigo quando criança. Por isso, a chegada dele causa um rebuliço. Um cara que matou alguém pode operar as pessoas?’, explica Selton, que conversou com o Estado em um dos 25 dias que passou na cidade para as gravações.

Não bastasse a acusação de assassinato, Dimas descobre na cidade que tem poderes de cura espiritual, como o famoso Dr. Fritz. ‘Ele se surpreende ao perceber que pode operar tanto cientificamente quanto espiritualmente. Você assiste e passa o tempo todo na dúvida se ele tem mesmo poder de curar ou não e se matou mesmo alguém na infância’, completa.

Carma. Logo no primeiro capítulo o telespectador vai descobrir que a cura espiritual não é novidade na Diamantina da ficção. A história de Dimas remete à de um outro médico curandeiro, Otto (Juca de Oliveira), que foi assassinado na cidade décadas atrás. Quando se espalha a notícia sobre os supostos poderes de Dimas, muitos pensam que ele é a reencarnação de Otto.

E lá longe, no século 18, a história se entrelaça com a vida de Silvério (Carmo Dalla Vecchia), um explorador de diamantes de caráter duvidoso e que não tem pudores em arrancar a língua de uns e outros. Por causa desse temperamento e por sua ambição desmedida, ele sofre uma maldição terrível, lançada por um pajé. ‘Aos poucos, as pessoas vão perceber o que o Silvério tem a ver com o Dimas. É a repetição de um carma’, adianta Carmo (na foto da página ao lado), quase irreconhecível na caracterização, que lhe deu dentes destroçados, unhas sujas, feridas e pústulas nojentas – fora isso, ele emagreceu 15 quilos para o papel. A maquiagem levava 1h30. ‘Os machucados deles têm cinco fases, conforme avança a doença.’

Mineirice. Pelas primeiras imagens que foram divulgadas, deu para perceber que Diamantina, com seu casario colonial em ótimo estado de conservação, foi a escolha perfeita para ambientar a série e imprimir um ar fantasmagórico. A produção movimentou a cidade com 120 profissionais do Rio, utilizando mais de 30 locações, entre elas pontos turísticos como Rua da Quitanda, Mercado Velho e Monumento a JK. As cenas do século 18 foram gravadas a 15Km, onde foi erguida uma casa característica da época.

O isolamento da cidade histórica, a 4h30 de Belo Horizonte, pareceu ideal para João Emanuel, que escolheu Minas Gerais como cenário para se valer da fama de desconfiado que o mineiro tem. ‘É uma terra de meias-verdades, o que combina com a ambiguidade do protagonista’, explica.

Para tornar a série o mais mineira possível, digamos assim, Waddington preferiu escalar atores mineiros. Selton, por exemplo, é de Passos. ‘Optamos por aprofundar o acento regional, porque a história não se passa numa cidade fictícia, mas na Diamantina de verdade’, detalha o diretor.

Foi uma oportunidade para levar de volta à Globo a atriz Andréia Horta, que chamou a atenção do diretor como a protagonista de Alice, série da HBO. Ela interpreta Rosângela, uma médica legista que é amiga de infância de Dimas. A personagem feminina, que curiosamente tem um trabalho ligado à morte, é um contraponto ao misticismo em que Dimas está envolvido. E é claro que há um clima de romance entre os dois. ‘Ela é uma pessoa muito correta. Será um apoio para Dimas na cidade quando tudo começar a acontecer’, conta ela, nascida em Juiz de Fora.

Suspense. A maneira como a série será apresentada é uma novidade na Globo. Os nove capítulos estão interligados, como numa minissérie. Mas serão apresentados semana a semana, no modelo da TV americana. ‘O desafio é prender as pessoas a ponto de esperarem uma semana para saber como a história continua. Vamos atravessar esse rio pela primeira vez. Se der certo, será um grande feito’, observa João Emanuel.

No seu primeiro seriado, o autor retoma a parceria com Bernstein que foi tão feliz quando os dois escreveram o roteiro do longa-metragem Central do Brasil, em 1998. Vale dizer que Bernstein estreia na TV logo depois de assinar o roteiro do sucesso Chico Xavier – O Filme. ‘A narrativa tem muitos ganchos, que são muito fortes, e a dúvida vai prender o telespectador’, aposta ele.

 

INTERNET
Sérgio Augusto

As últimas da Twitterlândia

Na manhã de quinta-feira, a apresentadora do programa Globo Esporte Glenda Kozlowski digitou um twit de 82 caracteres, um dos quais lhe custou caro. Um fatídico esse intrometeu-se em sua grafia de ‘cinismo’, precipitando um ataque em massa de internautas armados de cês até os dentes. Glenda pode não ter gostado da reação, mas foi reconfortante descobrir que um contingente razoável de twitteiros não só sabe escrever corretamente a palavra cinismo como se empenha em denunciar quem maltrata o idioma naquele espaço tão avaro de vocábulos e congestionado de adolescentes de miolo mole como o Twitter.

Dos factoides gerados na Twitterlândia, nos primeiros dias de agosto, o ‘sinismo’ de Glenda (bom título para um trash movie de Ed Wood) talvez tenha sido um dos menos explorados pela mídia. Muito mais repercussão tiveram o polêmico videochat dos meninos do Santos depois do jogo com o Prudente, domingo passado; as cenas de sexo daquele casal de adolescentes gaúchos, vazadas para milhares de internautas, na madrugada de segunda-feira; a blitzkrieg virtual contra o canastrão Sylvester Stallone, pelas cretinices que andou dizendo sobre o Brasil; o anúncio da gravidez da cantora inglesa Lily Allen; e a notícia de que um designer gráfico japonês acabara de expedir a vigésima bilionésima mensagem do Twitter, na tarde de sábado retrasado, atraindo por essa involuntária façanha uma enxurrada de parabéns nos mais variados idiomas.

Relevantes mesmo, só os vídeos dos jogadores santistas e dos perversos polimorfos gaúchos, dois momentos exemplares de irresponsabilidade e má conduta juvenis, com lições, que espero úteis, para todos.

Embora o goleiro santista tenha se desculpado, no dia seguinte, pela grosseria cometida com um internauta que alfinetara sua empáfia (‘O que eu gasto de ração com o meu cachorro é o que você ganha no mês inteiro’, rosnou o arqueiro para a twitcam), o episódio continuou repercutindo nas chamadas mídias sociais. Por entender que tudo não passara de um ‘mal-entendido’ desmesuradamente explorado pela imprensa, e também, é claro, para não desestabilizar o time às vésperas da decisão da Copa do Brasil, a diretoria do Santos optou por um indulgente puxão de orelhas. Conquistado o título, nada mais a impede de ir além da ‘bronca didática’, para pôr um freio na petulância e na arrogância da molecada, que hoje sintetiza, com a bola nos pés, mas só com a bola nos pés, o que há de melhor no futebol brasileiro.

Ao ser informado de que fora o autor do vigésimo bilionésimo twit, o tal designer japonês tremeu nas bases, pois interpretou a coincidência como um recado divino de que seus dias estavam contados, só relaxando depois que a entendeu como uma retribuição, divina ou não, ao entusiasmo com que os seus patrícios se dedicam ao Twitter. Os japoneses enviam 8 milhões de mensagens por dia por esse serviço de microblogging. Perdem apenas para os americanos. Os terceiros do ranking são os indonésios. Em quarto lugar, ufanem-se, tolos, os conterrâneos do mulato inzoneiro.

No ranking que realmente importa, o do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) das Nações Unidas, o quarto posto é ocupado pelo Canadá. Nessa especialidade, continuamos na segunda ou terceira divisão, amargando o 75º lugar. Como não se pode ter tudo na vida, rejubilemo-nos com a nossa participação no bolo de 55 milhões de twits diariamente trocados na mais popular rede de relacionamento da internet. Se acrescentarmos os números do Orkut e do Facebook, alcançaremos um IVD (Índice de Vagabundagem Digital) de se tirar o chapéu.

Como é sabido e lamentado, as redes sociais da internet são um domínio de quem não tem o que fazer e adotou a evasão da privacidade como um modo de vida. Até aborto, justo no meio de uma reunião de executivos, já ganhou a internet, em tempo real, via Twitter. Daí a objeção padrão: ‘Não me interessa saber o que fulano está comendo, neste exato momento, na lanchonete da esquina’. E suas infinitas variações: ‘Por que seguir os passos de sicrano se não sou detetive particular nem o conheço pessoalmente?’ O que é que eu ganho participando da escolha da gravata que William Bonner usará no Jornal Nacional de hoje à noite? Que ensinamentos e prazeres pode me oferecer uma conversa fiada de jogadores de futebol mal entrados (se entrados) na idade da razão?

Por sua mobilidade, imediatidade, intimidade e capilaridade, o Twitter pode ser uma ferramenta preciosa para jornalistas, cientistas, criadores em geral ou simples usuários com boas ideias para trocar e denúncias a fazer. Poetas ganharam sobrevida na rede, não apenas produzindo haicais (sonetos, nem pensar), mas lendo e difundindo seus versos em videochats. O marketing da indústria de cinema descobriu nas redes sociais o veículo ideal para promover filmes e atrair mais público às salas exibidoras, revelou há dias o jornal inglês The Independent. Esse é o lado bom da coisa. Ou o menos pernicioso, na avaliação de alguns Galileus da internet.

Nicholas Carr, expert em tecnologia digital, desconfia que o Google nos esteja imbecilizando, robotizando nossos conhecimentos, embotando nossa memória, e que a Web dispersa em demasia nossa atenção e trivializa a vida intelectual através de blogs, tweets e quejandos. Sherry Turkle, do MIT, publica em breve um preocupante estudo sobre as mudanças comportamentais e neurológicas da geração escravizada ao celular e às mídias sociais. Seis meses atrás, George Packer alertou, na revista The New Yorker: ‘Não há como ficar online, navegando, enviando e-mails, postando mensagens, twitando e lendo twits e, em breve, ocupando-se da próxima novidade digital, sem pagar um preço elevado, sem roubar nosso tempo, nossa atenção, sem afetar nossa capacidade de apreender o que lemos e nossa experiência do mundo que imediatamente nos cerca’.

Quem se habilita a criar o primeiro Tecnólatra Anônimo?

 

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