Domingo, 22 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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O Estado de S. Paulo

29/09/2010 na edição 609


MÍDIA & POLÍTICA


Editorial


A imprensa no pós-Lula


O presidente Lula interrompeu a sucessão de pesados ataques aos meios de comunicação. Não que tenha mudado a sua peculiar visão do que seja a liberdade de imprensa – para ele, sinônimo de ‘informar corretamente’, deixando implícito que se considera juiz, como governante, não como leitor, do que possa ser informação correta e o seu oposto. Mas mudou de tom. Numa longa entrevista ao portal Terra, divulgada na quinta-feira, Lula trocou a agressão pela crítica civilizada. Refutou as acusações de autoritarismo que se seguiram aos seus canhonaços e disse duvidar que exista um país com mais liberdade de comunicação do que o Brasil, ‘da parte do governo’.


Esquece-se convenientemente de que o Planalto patrocinou em 2004 o projeto do Conselho Federal de Jornalismo que pretendia ‘orientar, fiscalizar e disciplinar’ a atividade de informar. Diante da vigorosa reação da sociedade, o governo deixou a proposta morrer. De todo modo, a imprensa brasileira é hoje tão livre como era no primeiro dia de Lula presidente. Quando não é, como no caso da censura prévia imposta a este jornal, o problema se origina no Judiciário. A questão suscitada por algumas das afirmações de Lula na mencionada entrevista diz respeito ao futuro, dependendo de quem der as cartas nesse jogo, na hipótese de eleição da candidata Dilma Rousseff.


Disse o presidente que ‘duas ou três famílias são donas dos canais de televisão, e as mesmas são donas das rádios e donas dos jornais’. (Nem por isso ele exprime desconforto com o fato de que o patriarca de uma dessas famílias é o seu dileto aliado José Sarney.) Disse também, embora não tivesse empregado o termo, que a propriedade cruzada dos meios de comunicação terá de ser revista no próximo governo, ou nos próximos governos, quando o Congresso deverá inexoravelmente estabelecer um novo marco regulatório do setor de telecomunicações. ‘Discutir isso’, ressaltou, ‘é uma necessidade da nação brasileira.’ De pleno acordo. Não é de hoje que o Estado critica a concentração da propriedade na mídia e as facilidades para que um punhado de grupos econômicos controle, numa mesma praça, emissoras e publicações.


Ocorre que a exortação de Lula não pode ser dissociada das investidas petistas contra a autonomia da produção jornalística. Em circunstâncias normais, a preocupação manifestada pelo presidente seria salutar e merecedora de apoio. Mas ela pode ser tudo menos isso. É como na Argentina. Há pouco tempo, o governo da presidente Cristina Kirchner fez o Congresso aprovar uma Lei de Meios, a qual, tomada pelo valor de face, se destinaria a coibir a formação de conglomerados de comunicação, abrangendo, além das modalidades tradicionais, serviços de internet, TV a cabo e telefonia. Mas, ao dotar o governo de amplos poderes para intervir no setor, esse marco regulatório tem o claro propósito de dar à Casa Rosada poder para premiar a imprensa complacente e asfixiar aquela que ainda não desertou de suas funções de fiscalização e crítica.


Imaginem-se, portanto, os riscos de que um Congresso dominado pela coalizão lulista – e sob pressão dos ‘movimentos populares’ atrelados ao PT – venha a impor uma legislação semelhante à do país vizinho, com o mesmo fim. Não se trata de fantasia. O ambiente para tal vem sendo laboriosamente construído pelos garroteadores em potencial da mídia. Entre um golpe de borduna e outro do presidente, por exemplo, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, cujas ambições partidárias no pós-Lula são amplamente conhecidas, aparece falando em ‘abuso do poder de informar’ – uma óbvia senha para a companheirada. Seria o cúmulo da ingenuidade não ligar os pontos dessa urdidura.


O único dado alentador, no momento, foram as declarações de Dilma em defesa da liberdade de imprensa. A candidata não só tornou a repetir a boutade de que o único controle social da mídia que aprova é o controle remoto do televisor, como prometeu que, se eleita, não tentará impedir que a imprensa fale dela o que bem entender. ‘No máximo’, antecipou, ‘vou dizer: está errado, por isso, por isso e por isso.’ É esperar que a sua posição prevaleça, se ela for a próxima presidente – que esperamos que não aconteça.


 


 


Mauro Chaves


Antes que seja tarde


Inebriados ou intimidados pelos altos índices de popularidade de um chefe de Estado e governo – decorrentes das circunstâncias conjunturais favoráveis, da continuidade da política econômica do governo (adversário) anterior, da habilidade de ampliar bons programas sociais herdados e, sobretudo, da extraordinária capacidade de comunicação com as camadas mais desinformadas da população -, setores da mídia, entidades da sociedade civil e lideranças oposicionistas, uns por excesso de cautela e outros em conluio com beneficiários (financeiros, sindicais, corporativos) do neopatrimonialismo vigente, deixaram que o presidente de uma nação democrática ultrapassasse todos os limites do desrespeito civil e da desmoralização institucional, confundindo os interesses de Estado com os de seu partido e grupo de aliados.


Na obsessão de manter o poder, titereando quem inventou para a sua sucessão, não obedecendo a limite algum, no desprezo ao mínimo de escrúpulo que se exige da majestade de seu cargo, tratando com deboche exigências legais e decisões da Justiça, o presidente da República passou a torpedear a imprensa por esta ter trazido a público os indícios mais veementes de um amplo esquema de corrupção, nepotismo, tráfico de influência e crimes correlatos no núcleo central de seu governo, sua Casa Civil, estruturada e conduzida por aquela que se tornou candidata ungida à sua sucessão. É verdade que não tem sido só agora, na campanha eleitoral, que o presidente e seus áulicos – a exemplo do que se faz na Venezuela, na Argentina e na Bolívia – tentam amordaçar a imprensa, com vários projetos e mecanismos de um chamado ‘controle social’ dos veículos de comunicação. Agora, porém, o chefe de Estado e governo foi longe demais, ao pregar, entre outras aberrações antidemocráticas, a extirpação de um partido político oposicionista e a assunção exclusiva, por sua pessoa e seu grupo partidário, da função de ‘opinião pública’, que, nas democracias, a imprensa transmite e representa.


Se se confirmarem as projeções segundo as quais as forças governistas sairão das eleições, daqui a uma semana, com esmagadora maioria em ambas as Casas Legislativas federais, não se duvide de que mudanças substanciais nas garantias constitucionais da liberdade de expressão e de imprensa serão produzidas com singelas alterações de texto em dispositivos da Carta Magna vigente. Vejamos, a seguir, as que já devem ter sido redigidas por assessorias jurídicas de parlamentares federais integrantes da ‘opinião pública’ oficial.


O artigo 5.º, IV, da Constituição, onde está escrito que ‘é livre a manifestação de pensamento, sendo vedado o anonimato’, ficará assim: ‘É livre a manifestação de pensamento, sendo vedado o anonimato das fontes.’


O artigo 5.º, IX, onde está escrito que ‘é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença’, ficará assim: ‘É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença, desde que fundamentada em informação correta e relevante interesse social.’


O artigo 5.º, XIV, onde está escrito que ‘é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional’, ficará assim: ‘É assegurado a todos o acesso à informação correta e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional e indispensável à segurança comunitária.’


O artigo 206, onde está escrito que ‘o ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber’, ficará assim: ‘O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber, desde que estes não sejam incompatíveis com os ditames do interesse público e da justiça social.’


O artigo 220, caput, onde está escrito que ‘a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição’, ficará assim: ‘A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo legítimo ou veículo autorizado, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.’ No parágrafo 1.º desse mesmo artigo, onde está que ‘nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social’, estará que ‘nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade jornalística em qualquer veículo idôneo de comunicação social’. E no parágrafo 2.º, onde está que ‘é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica ou artística’, estará que ‘é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica ou artística, salvo se necessária ao impedimento de distorções interpretativas que possam influenciar eleitores em períodos eleitorais’.


O bem redigido Manifesto em Defesa da Democracia, encabeçado por dom Paulo Evaristo Arns e subscrito por uma plêiade de intelectuais, juristas e acadêmicos de alta credibilidade pública, lido na simbólica tribuna em frente às Arcadas da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco – a mesma em que há 33 anos Goffredo da Silva Telles lançou a Carta aos Brasileiros, marco da redemocratização do País -, é uma semente de resistência, cívica e apartidária, dos que não se submetem, por que vantagens sejam, à destruição dos valores que devemos repassar às futuras gerações – entre os quais está a noção de que ‘acima dos políticos estão as instituições, pilares do regime democrático’. É preciso impedir que destrocem esses pilares, antes que seja tarde.


JORNALISTA, ADVOGADO, ESCRITOR, ADMINISTRADOR DE EMPRESAS E PINTOR


 


 


Vera Rosa e Elder Olgliari


Lula recua e adota tom conciliador com a mídia


No penúltimo comício da campanha de Dilma Rousseff (PT), em Porto Alegre, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou tom conciliador com os meios de comunicação e disse que ninguém deve ficar ‘zangado’ com a imprensa. Disse, ainda, que somente Dilma pode construir a unidade no País após a eleição, espantando o ‘ódio’ da oposição.


Um dia depois do ato realizado em São Paulo, com apoio do PT, contra o ‘golpe midiático’, Lula tentou apaziguar o relacionamento com a mídia. ‘A imprensa é muito importante para este país’, disse ele, diante de uma multidão que lotou o Largo Glênio Peres, no centro da capital gaúcha. ‘Quando falam mal da gente ninguém gosta, mas quando falam bem, o ego enche. A gente precisa ter humildade.’


O discurso mais ameno faz parte da estratégia dessa reta final de campanha. Não sem motivo: pesquisas internas em poder do PT indicaram, nos últimos dias, que a desconfiança em relação ao chamado ‘radicalismo’ petista começa a reaparecer em segmentos da classe média.


Ao lado de Dilma e do concorrente do PT ao governo gaúcho, Tarso Genro, Lula disse que a democracia sempre foi um valor ‘incomensurável’ para ele. A candidata adotou a mesma linha e deu estocadas no adversário do PSDB, José Serra, que tem procurado associar o PT ao apoio a ditaduras. ‘Nós somos os verdadeiros democratas, porque acreditamos no povo e na liberdade de expressão’, afirmou Dilma.


Em recente comercial veiculado na internet – atribuído pelos petistas à campanha tucana -, um locutor diz que ‘o PT só não conseguiu calar a imprensa porque Lula não deixou’. O PT pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a suspensão do vídeo.


Bordoada. Depois de Serra ter acusado o PT de dividir o País, Lula disse que Dilma vai construir acordos com todos os setores da sociedade, se for eleita para ocupar sua cadeira no Planalto. O presidente lembrou os protestos que ocorreram no México e no Irã, após as eleições, para garantir que a situação não ocorrerá no Brasil. O presidente disse que Dilma não só dará continuidade ao seu governo como fará mais. ‘Ela vai ser eleita e ainda vão dizer: ‘Quem deu uma bordoada no metalúrgico foi uma mulher’.’


 


 


José Maria Mayrink


‘Lula poderá ser um poder paralelo’


A releitura de 372 artigos selecionados entre aqueles que publicou no jornal O Globo, entre junho de 2002 e junho de 2010, levou Merval Pereira à conclusão de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva instalou no poder um lulismo que marcará o governo nos próximos anos, com a eventual vitória do PT e de Dilma Rousseff.


Os artigos publicados no livro O Lulismo no Poder, a ser lançado terça-feira na Academia Brasileira de Letras, no Rio (Editora Record, 784 páginas, R$ 79,90), apresentam uma visão realista e, às vezes, profética do governo Lula, embora alguns deles tenham sido ultrapassados pelos acontecimentos. ‘Resolvi manter essas colunas porque mostram como se faz o jornalismo político no dia a dia.’


Quais são os indícios de que o lulismo assumiu o poder?


Cito o aparelhamento do Estado, o Bolsa-Família e a política externa. Vê-se aí que há uma lógica nesse governo. A confusão entre público e privado sempre existiu no governo Lula. Com o escândalo do mensalão, descobriu-se que, antes de chegar à administração federal, o PT já tinha essa mistura nas prefeituras que comandava. Foi a mesma coisa no controle dos meios de comunicação. Desde o primeiro momento, o governo apareceu com várias propostas de controle, como o Conselho Nacional de Jornalismo e o projeto para controlar a cultura.


O ex-ministro José Dirceu tem o maior destaque em seu livro. Foi com ele que se desenvolveu o lulismo?


Esse é o período do mensalão, quando Lula ficou enfraquecido e quase caiu. Depois que se recuperou, ele acelerou o projeto. Dirceu era e é até hoje fortíssimo no PT. A saída do Dirceu fez com que o lulismo crescesse. Lula passou a ser a figura central. Antes, era o Palocci, era o Dirceu. Claro que Lula nunca foi uma figura decorativa, mas havia personagens que tinham autonomia no governo. A partir da saída desses dois, especialmente do Dirceu, o lulismo cresceu. Lula teve essa sorte, é um homem de sorte. Quando a crise do mensalão veio, começaram a vir também os efeitos dos programas assistencialistas, que transformaram Lula num mito no Nordeste.


Quem constrói o lulismo, os petistas ou também Lula?


Principalmente o Lula. Tem aí uma figura central que é o Patrus Ananias. Porque o Fome Zero/Bolsa-Família, do jeito que estava montado pela turma do Frei Betto, era um projeto de reforma estrutural, da estrutura do Estado. Frei Betto queria fazer comissões regionais sem políticos, para distribuição do Bolsa-Família, e a partir daí fazer educação popular. Era um projeto muito mais de esquerda, muito mais voltado para mudanças estruturais da sociedade. O Bolsa-Família hoje é um programa para manter a dominação do governo sobre esse povo necessitado. Patrus transformou-o num instrumento político espetacular, que foi o começo da força do lulismo.


Em fevereiro de 2004, sua coluna mostrava que Lula estava por baixo e que talvez fosse melhor ele desistir da reeleição para voltar em 2010. Isso mudou. Foi aí que o lulismo disparou?


Deixei no livro vários artigos que foram depois superados pelos fatos justamente para mostrar como é feito o jornalismo político, no dia a dia. Naquele momento, Lula estava morto. Eu me lembro de que, no PSDB, achavam que era só deixar o Lula sangrando até a eleição. Aí a coisa virou. Na recuperação, Lula foi em frente, viu que tinha um respaldo popular, que era muito menor do que hoje.


O lulismo continuaria sem o Lula no poder, com a eventual eleição de Dilma, ou supõe que o Lula voltaria mais tarde?


Eu achava antes que o Lula não ia querer voltar em 2014 e que ia ter uma vida política no exterior, abrir uma ONG ou um instituto, que ia andar pelo mundo fazendo palestras e sendo homenageado. Esse projeto furou um pouco, depois da crise com o Irã, depois das crises internacionais em que se meteu.


Lula então se voltaria mais para o Brasil?


Ele está reagindo muito mal à perspectiva de ficar fora do poder. Vai querer permanecer atuando, vai querer escolher ministros da Dilma, vai querer interferir. Isso previsivelmente provocará uma crise política. Dirceu já disse que a eleição da Dilma é um projeto do PT. Se Dilma for eleita, é por causa do Lula e não por causa do PT. Se o PT está querendo tomar conta do governo tanto quanto o Lula, vai dar confusão. E, se o Lula passar a viajar pelo País, a fazer comícios, será um poder paralelo no governo. Não sei como o PT vai reagir, como a Dilma vai reagir.


 


 


AMÉRICA LATINA


Eduardo Bertoni


O cerco à imprensa da América Latina


Thomas Jefferson, alguns anos antes de se tornar presidente dos EUA, afirmou: ‘Como a base do nosso governo é a opinião do povo, o primeiro objetivo deve ser conservar esse direito e, se coubesse a mim decidir entre um governo sem jornais, ou jornais sem um governo, não titubearia um minuto em preferir este último.’


A frase resume a importância da imprensa nas nossas sociedades. Mas em alguns países latino-americanos constatamos um aumento da hostilidade contra uma imprensa mais crítica de governos, com a adoção de leis e práticas restritivas e contrárias às normas internacionais.


Talvez a expressão mais clara desta hostilidade sejam os processos de reforma de leis que regem o rádio e a TV em vários países. Essas reformas resultam em mecanismos de controle da mídia negativos para as democracias latino-americanas. A ‘lei de responsabilidade social de rádio e da TV’, na Venezuela, é o mais nítido exemplo do cerceamento verificado nos últimos anos. O Equador segue o mesmo caminho.


Outro caso emblemático da violação da liberdade de imprensa é a censura imposta pelo Judiciário em países como o Brasil, onde os magistrados determinaram a não publicação de notícias, mesmo quando elas são claramente de interesse público, pois são opiniões abertas que, supostamente, estariam prejudicando determinadas pessoas.


Um caso de grande repercussão, citado pelo Comitê de Proteção a Jornalistas (CPJ), com sede em Nova York, no seu informe de 2009, foi a decisão do Tribunal Federal de Brasília impedindo o jornal O Estado de S. Paulo e o seu website, Estadão.com, de publicar informações sobre fatos envolvendo a família do ex-presidente José Sarney.


A utilização de crimes como desacato à autoridade ou difamação retrocedeu em alguns países. A Argentina reformou sua legislação penal, assim como o Uruguai e o México. Digno de nota também é o avanço observado na jurisprudência do Sistema Americano de Direitos Humanos. Não é menos certo que os avanços na legislação e na prática judicial em alguns países contrastam com os retrocessos observados em outros. Além disso, a violência contra quem expressa determinadas opiniões tem aumentado perigosamente. Exemplos são Honduras e México, onde o número de jornalistas assassinados é alarmante.


A estes problemas, que preocupam a América Latina há anos, outros vieram se acrescentar, como a pressão financeira exercida sobre os meios de comunicação e os jornalistas por meio do uso arbitrário da publicidade oficial. Na Argentina, essa prática discriminatória é denunciada por várias ONGs. Outro problema crescente é a intolerância dos altos escalões do governo à crítica, o que se traduz em discursos públicos agressivos contra jornalistas feitos por vários presidentes da região. Tais discursos podem ser interpretados como um cheque em branco para agredir a imprensa.


Não podemos também ignorar um fenômeno registrado em vários países: os cidadãos estão perdendo confiança nos meios de comunicação. De um lado, a imprensa é responsável perante o cidadão, motivo pelo qual o estabelecimento de padrões éticos ou profissionais pelo governo deve ser repudiado. Mas, de outra parte, essa perda de confiança beneficia os governos que querem levar à censura ou à autocensura. Trabalhar para recuperar a confiança da sociedade deve fazer parte da estratégia para defender essa liberdade. Os jornalistas latino-americanos não podem correr o risco de perder a confiança do seu aliado mais natural. Se isso ocorrer, os governos se sentirão livres para agir contra a imprensa. Se essas medidas se consolidarem, não só perderemos um direito fundamental, mas a democracia estará correndo risco. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO


É DIRETOR DO CENTRO DE ESTUDOS DE LIBERDADE DE EXPRESSÃO DA UNIVERSIDADE DE PALERMO, BUENOS AIRES


 


 


Ariel Palacios


‘La Nación’ denuncia suborno dos Kirchners


O jornal La Nación publicou ontem uma denúncia de que Lidia Papaleo de Graiver, viúva de David Graiver, dono da empresa Papel Prensa, morto nos anos 70, teria negociado com a presidente Cristina Kirchner e o marido dela, Néstor, um pagamento para contar outra versão sobre a venda da companhia, em 1976, a única produtora de papel de jornal da Argentina.


A nova versão de Lidia diz que Clarín e La Nación foram cúmplices dos militares, que a torturaram para a obrigar a vender as ações da Papel Prensa a baixos preços. Ambos os jornais afirmam que a venda foi realizada em condições normais e, meses após o negócio, Lidia foi detida pelos militares e torturada, em uma operação sem vínculos com a Papel Prensa.


Agora, Julio Saguier, dono do La Nación, diz ter se reunido em maio com Lidia. Na ocasião, o governo já havia declarado guerra aos dois jornais por causa da Papel Prensa. Na conversa, Lidia teria confessado que os Kirchners lhe ofereceram US$ 200 mil para confirmar a versão oficial. Caso fosse convincente, ela ganharia mais US$ 2 milhões.


Lidia admitiu que precisava do dinheiro. Para evitar a filtragem de informações sobre esses encontros secretos, realizados na residência presidencial de Olivos, o deputado Carlos Kunkel, amigo dos Kirchners, teria levado Lidia pessoalmente às reuniões. Segundo Saguier, as denúncias serão agora apresentadas formalmente aos tribunais de La Plata.


 


 


PETROBRÁS


Sílvio Guedes Crespo


Mídia global destaca avança do Estado


A capitalização de US$ 70 bilhões da Petrobrás foi notícia em diversos sites estrangeiros, ao longo do dia de ontem do americano The Wall Street Journal ao australiano Sydney Morning Herald. De uma forma ou de outra, a mensagem em geral foi de que investidores ficaram contrariados com o aumento da presença do Estado na empresa, mas mesmo assim resolveram participar da operação.


Ao longo do dia, a estatal permaneceu no topo do ranking ‘Comprando na Baixa’, que reúne as ações da Bolsa de Nova York com maior afluxo de capital entre as que operam em baixa. O indicador é calculado pelo ‘WSJ Market Data Group’.


Veja como noticiaram a informação os principais jornais do mundo:


THE WALL STREET JOURNAL


‘O petróleo é um setor em que os investidores há muito tempo lidam com risco político. Por isso, mesmo que a oferta da Petrobrás tenha aumentado a participação do governo na empresa, de 40% para 48%, os investidores não estão assustados’, afirmou o Wall Street Journal, na seção ‘Heard on the Street’.


Comparando a Petrobrás com a General Motors, que deve fazer uma grande oferta de ações em novembro, o diário nova-iorquino acredita que a empresa americana não terá tanta facilidade quanto a brasileira. Primeiro, porque o governo do Brasil comprou grande parte das ações. Depois, porque ‘o mundo precisa de mais petróleo; de carros, nem tanto’.


O Wall Street Journal faz também uma comparação que vale pelo menos para os supersticiosos: antes da Petrobrás, a empresa que detinha o recorde mundial de uma oferta de ações era da japonesa Nippon Telegraph & Telephone. A operação ocorreu em 1987, ‘quando o mercado de Tóquio estava com tudo’; pouco depois, o Japão entrou em fase de estagnação econômica. ‘Sem querer que chova na festa do Brasil, a história deveria deixar os brasileiros um pouco tensos’, disse o Journal.


FINANCIAL TIMES


O blog ‘BeyondBrics’, do Financial Times, vê uma incerteza sobre o que pode acontecer com a eficiência e a produtividade da Petrobrás, após o aumento da participação do governo. Normalmente, não faz muita diferença se o controlador tem 51% das ações ordinárias ou 100%.


Mas essa máxima não vale para a Petrobrás, avalia o jornalista Jonathan Wheatley. Tendo mais ações da companhia, o Estado terá direito a uma parcela maior dos dividendos, o que pode deixar o governo de plantão tentado a intervir mais nos negócios da companhia.


Em texto que será publicado na edição impressa do FT, Wheatley diz que ‘o Brasil toma banho de sol sob os holofotes da Petrobrás’ e cita uma frase de Lula: ‘Estado fraco nunca foi sinônimo de setor privado forte’.


THE ECONOMIST


A revista The Economist avaliou, em seu site, que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não exagerou ao dizer que a capitalização foi um ‘enorme sucesso’, e apontou um lado positivo da relação entre o Estado e a Petrobrás: ‘O presidente Lula quer usar esse dinheiro, parte da receita da estatal, para transformar o Brasil em um país desenvolvido, por meio de projetos em educação, bem-estar social e infraestrutura’.


Mas a revista assinalou que ‘um grande medo é que isso seja o início de uma retomada da intromissão do governo na indústria’.


THE NEW YORK TIMES


O site ‘Deal Book’, do New York Times’, observou que a oferta da Petrobrás assumiu ‘tons políticos’, ‘uma vez que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma política de fortalecimento do controle do governo sobre a indústria do petróleo’.


EL PAIS


O site do jornal espanhol El País notou que a Petrobrás não apenas se tornou a segunda maior petrolífera do mundo em valor de mercado, atrás da americana Exxon Mobil, como também a terceira maior empresa do continente americano, abaixo da vice-líder Apple.


SYDNEY MORNING HERALD


O australiano Sydney Morning Herald publicou reportagem da Reuters segundo a qual a capitalização dá à Petrobrás a musculatura necessária para explorar os recursos do pré-sal.


Segundo o texto, uma fonte que pediu anonimato informou que fundos soberanos do Oriente Médio e da Ásia compraram ações da Petrobrás e houve uma ‘tremenda demanda’ por parte de fundos americanos.


 


 


TELEVISÃO


Keila Jimenez


Ídolos chega ao fim e pode deixar a Record


A terceira edição de Ídolos chegou ao fim anteontem na Record com pinta de despedida do formato. Apesar de a final conquistar o primeiro lugar em audiência – consagrando Israel Lucero como vencedor – o reality show encerrou sua passagem pela emissora com a mesma média de ibope das temporadas anteriores: 11 pontos. A grande final do programa registrou média de 12 pontos, segundo medição na Grande São Paulo, mantendo a Record na liderança no horário. Procuradas, tanto a emissora com a dona do formato, a Fremantle, confirmam haver uma negociação para a extensão do contrato, que previa, a priori, a realização de apenas três edições de Ídolos.


Fila de premièrs


Eva Wilma tem duas estreias nos próximos dias. Está em Araguaia, próxima trama das 6 da Globo e estrela, ao lado de Karin Rodrigues e Ângela Dip, o longa A Guerra dos Vizinhos, de Rubens Xavier.


18,7% foi a média de audiência da versão espanhola de The Bus, da Endemol. Por aqui, Busão do Brasil está empacado em 2 pontos porcentuais de audiência na Band.


de nove meses ela volta a ficar magrinha!’ Marcelo Carvalho, vice-presidente da RedeTV! a Amaury Jr, sobre o aumento de peso da mulher, Luciana Gimenez.


O que Araguaia, próxima trama das 6 da Globo, e Michael Jackson têm em comum? Nada, mas depois da apresentação de uma cantora goiana, foi o som do ídolo pop que animou a pista da festa de lançamento da trama, anteontem, em São Paulo.


Da mesma pista partiu o grito para o DJ: ‘toca Lady Gaga’, vindo do mocinho da novela, Murilo Rosa. Calma, o galã estava apenas atendendo o pedido da colega de elenco, a animada Mariana Rios.


Laços de Sangue, novela fruto da parceria da portuguesa SIC com a Globo, triplicou a audiência do canal no horário em sua primeira semana no ar. A trama, que estreou dia 13 em Portugal, vem registrando audiência de 9% no horário.


Em tempo, o desabafo contra a Band no Twitter registrado anteontem na coluna era de um Edgard Piccoli fake, peça pregada em uma galera que entende de web, como Marcelo Tas. O Edgar real está inconformado com o falsário.


A série As Cariocas, de Daniel Filho, já tem data para estrear na Globo: 19 de outubro.


A série Three Rivers dobrou sua audiência na RedeTV!. Estreou com ibope de 1 ponto e no terceiro episódio já pulou para 2,5 pontos.


Não tão bem em audiência na TV aberta, o Fantástico foi o melhor ibope da Globo News em agosto. O programa é reprisado no canal pago logo depois de seu término na Globo.


Pergunta que não quer calar:quem assistirá Extreme Makeover social da Record aos sábados, depois da meia-noite? Ah, a atração terá reprises na Record News.


Luciano Huck exibirá em breve no seu Caldeirão, na Globo, entrevista gravada com o tenista Guga, em Florianópolis.


 


 


 


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