Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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O Globo

10/08/2010 na edição 602

LITERATURA
André Miranda

Controvérsia sobre direitos autorais

PARATY. A literatura não foi o único tema de discussão na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que termina hoje. No mês passado, o governo federal abriu para consulta pública uma proposta de alteração da Lei de Direito Autoral, que está em vigor desde 1998. Para o mercado editorial, a nova legislação pode representar mudanças em regras para autorização na concessão de licenças de reprodução das obras. O assunto ainda é polêmico e repercute nas ruas de Paraty em conversas entre editores, agentes literários e escritores.

Um artigo da lei, por exemplo, define que o presidente da República pode ‘conceder licença não voluntária para tradução, reprodução, distribuição, edição e exposição’ em casos específicos. Um desses casos seria ‘quando o autor ou titular do direito de reprodução, de forma não razoável, recusar ou criar obstáculos ao licenciamento previsto’. Em outro ponto, a lei determina que ‘não constitui ofensa aos direitos autorais a utilização de obras protegidas, dispensando-se, inclusive, a prévia e expressa autorização do titular’ em situações em que ‘não exista estoque disponível da obra’. A consulta pública do governo vai até 31 de agosto, para receber opiniões de qualquer pessoa. Até anteontem, mais de quatro mil sugestões haviam sido dadas.

 

CULTURA POP – LADY GAGA
Luiz Felipe Reis

Quem é essa mulher?

Ela quer chocar numa época em que a violência e a extravagância, o escatológico e o exótico já se tornaram banais. Para isso, eleva o excêntrico à máxima potência, une artifícios usados por subcelebridades e artistas do porte de Madonna e não para. Mente ao ponto de tornar a falácia mais crível que o real. Materializa em canções, vídeos e performances sonhos, fantasias, surtos psicóticos e lapsos do inconsciente.

Muda de nome, pele, corpo, roupa e cabelo todos os dias a ponto de fazer da mutação uma constante. Tudo em busca da fama. Tudo em nome do choque. Duas palavras que guiam o reconhecimento massivo que ela detém ao redor do globo. E é o caminho até lá que o mercado editorial brasileiro se apressa em explorar com o lançamento de três biografias que, assim como a biografada, fabricam versões para despistar e explicar quem de fato é Lady Gaga. Buscam, em vão, responder a uma única pergunta: Afinal, qual o motivo de tanto sucesso? Seria Gaga a criadora das canções, coreografias e figurinos mais originais da década? Dona da voz, do comportamento e da inteligência mais afiada? Os autores Helia Phoenix (‘Lady Gaga — Biografia’, Leya), Emily Herbert (‘Lady Gaga — A revolução do pop’, Globo) e Brandon Hurst (‘Lady Gaga’, Madras) dizem que sim e que não através dos escritos não autorizados que chegam simultaneamente às prateleiras.

— Ela é uma das mais interessantes artistas deste século — decreta Helia, em entrevista ao GLOBO. — Quebrou todos os tipos de recordes, ganhou prêmios por discos e singles, por acessos a vídeos… Não podemos negar que essa audiência surge pelo apelo de massa que suas canções carregam. São músicas que pegam. Além disso, não podemos descartar sua inteligência. Ela é bem diferente dos ícones pop que normalmente tentam nos vender.

Mas acho que devemos esperar para ver o que ela fará depois. Gaga lançou apenas dois álbuns.

Para Hurst, responsável por biografias de celebridades como Scarlett Johansson, Angelina Jolie e Kate Moss, Gaga não é uma novidade.

O autor se aferra a cantoras como Madonna e Gwen Stefani para afirmar que Gaga ‘é uma miscelânea de influências’. E cola um trecho de uma entrevista de Gaga concedida ao jornal escocês ‘Daily Record’ para embasar sua tese: ‘Minhas ideias sobre fama e arte não são novas. Algumas pessoas dizem que tudo (na música e na moda) já foi feito antes, e, até certo ponto, elas estão certas. Acho que o truque é honrar sua visão e juntar elementos que nunca foram colocados juntos antes’, diz Gaga. Seria a confissão de uma farsa? Ela mesma responde, em outro trecho surrupiado de uma entrevista: ‘Eu não quero ter base na realidade. Em meu show anuncio: ‘As pessoas dizem que Lady Gaga é uma mentira, e elas estão certas. Sou uma mentira.

E todos os dias me mato para tornar isso realidade’, disse.

Obcecada pelos binômios famaabrangência e desnorteamentofragmentação, Gaga estende seus tentáculos melhor do que qualquer artista da atualidade pelos meandros retalhados da internet. Faz de seus vídeos e canções verdadeiros mashups do que foi produzido, veiculado e consumido pela cultura pop de nomes como Andy Warhol e Michael Jackson.

— Ela é influenciada por artistas que mesclam música e moda… Pessoas que fizeram de suas vidas obras de arte. E é isso que ela quer parecer aos fãs. Ela reconhece a importância dos mitos, e é por isso que é obcecada por Mick Jagger e Madonna… — diz Helia.

Dando semelhante importância ao som e à imagem, à moda e à música, lançou mão de ferramentas como o MySpace e o YouTube para também forjar sua personalidade.

Abdicou do nome de batismo para se reinventar sob a pele de uma personagem que lhe garantiu identidade definitiva: Stefani Joanne Angelina Germanotta passou a atender por Lady Gaga. E é na investigação do limiar entre a obscuridade e a fama ascendente que o livro de Helia Phoenix cumpre sua melhor função — apesar de uma escrita quase infantil.

— Seus pais eram bem-sucedidos, ela nunca passou por dificuldades, mas não se adequava à escola. Gostava de arte, era um elemento estranho.

Acho que a música se tornou uma forma de expressão por ela não se adaptar ao padrão.

Criada em berço de ouro por Joseph e Cynthia Germanotta, ítalo-americanos que haviam vencido graças aos negócios relacionados à internet desenvolvidos pelo pai, Stefani passou longe de ser uma adolescente rebelde. Até os 17 anos, curvouse aos dogmas do Convento do Sagrado Coração, escola de celebridades como Paris Hilton e Nicole Ritchie. A transgressão só começaria a vingar aos 20, quando passou a circular pelo East Village carregando seu MacBook Pro e um teclado debaixo do braço para apresentar as suas primeiras composições.

Até encontrar o caminho da fama, Gaga viveu altos e baixos.

Saiu de casa, brigou com os pais, que se chocaram com as performances seminua como gogo dancer, assinou contrato e foi dispensada pela Def Jam e se afundou na cocaína até sentir que a paranoia estava perto de acabar com uma carreira que parecia prestes a decolar pelas mãos dos produtores Akon e RedOne.

Dos 22 aos 24 anos, ou entre 2008 e 2010, tudo mudou. Fenômeno dentro e fora da rede, Lady Gaga vendeu mais de 10 milhões de cópias dos álbuns ‘The fame’ e ‘The fame monster’ e lançou clipes que a tornaram recordista de acessos no YouTube e uma das personalidades mais instigantes do cenário da música pop.

— Gaga estudou a fama e tudo o que vem colado a essa ideia: diversão, moda, festas…

Mas com um apelo crítico em relação ao fato de as pessoas encararem isso de forma obsessiva.

Gaga é uma artista de festa, mas com um lado negro embutido — conclui Helia.

 

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