Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 2 E 3/10

O Globo

05/10/2010 na edição 610

MÍDIA E POLÍTICA
Instituições democráticas e tolerância

Asexta eleição presidencial direta consecutiva, com escolha de governadores e renovação de casas legislativas federais e estaduais, merece ser comemorada como uma reafirmação da opção da sociedade pela democracia representativa.

O país completa o período de um quarto de século, sem interrupções, dentro dos marcos de um regime republicano. Sequer a votação do impeachment de um presidente, Collor, foi capaz de produzir algum curto-circuito grave.

Lula encerrará em 90 dias oito anos de uma experiência, também histórica, durante a qual uma eclética aliança política liderada pela esquerda governou o país sem maiores sustos.

Também devido a este ecletismo, o regime democrático e suas instituições foram testados na Era Lula, e demonstraram solidez. Grupos de esquerda autoritária abrigados nesta aliança não deixaram de trabalhar em prol da tutela da sociedade pelo Estado. Suas impressões digitais na campanha eleitoral foram percebidas quando Dilma Rousseff encaminhou à Justiça, como programa de governo, algumas propostas destiladas nesses laboratório do autoritarismo. Em boa hora, a candidata recolheu o documento.

A campanha do primeiro turno foi pautada pela atuação de um presidente decidido a eleger sua candidata mesmo contra a legislação eleitoral. Mais uma vez, os pesos e contrapesos da democracia atuaram. Houve admoestações e multas, pela insistência com que Lula confundiu o papel de chefe de governo com o de líder partidário e cabo eleitoral.

Ávido em fazer o sucessor, Lula se arvorou em ‘dono’ da opinião pública e confundiu notícia com os agentes dela, quando foi conivente com o desengavetamento da exótica acusação contra a imprensa profissional de ‘golpismo’, artifício dissimulador já acionado no mensalão e no caso dos aloprados. Uma imprensa partidária e/ou dependente de verbas oficiais encontra motivos — embora deploráveis — para não divulgar certas informações.

Mas o jornalismo independente, cuja razão de ser é a credibilidade, jamais fingirá que inexistem malfeitorias em Brasília ou em qualquer outro lugar, mesmo contra os interesses dos poderosos de ocasião.

Numa campanha em que regras rígidas estabelecidas pelos candidatos aos debates na TV impediram, mais uma vez, o aprofundamento da discussão de temas estratégicos, os marqueteiros continuaram a ocupar grande e indesejado espaço. Espera-se que um dia haja uma eleição no Brasil em que candidatos possam esgrimir argumentos como nas campanhas americanas, se mostrem por inteiro. Por tudo, as liberdades de expressão e imprensa estiveram no centro da campanha do primeiro turno.

Com acerto, Dilma Rousseff, na condição de quem sofreu violência desmedida de um estado ditatorial, perfilou-se entre os defensores das liberdades. Não podia ser diferente. Também aqui as instituições mostraram a necessária força, quando o Supremo Tribunal Federal (STF), atendendo à arguição da Abert (associação de emissoras de TV e rádio), tirou a mordaça do humorismo e do jornalismo político na mídia eletrônica em época de campanha. Entre as tendências detectadas pelas pesquisas, prevê-se, nas eleições proporcionais, a a formação, no Congresso, de uma sólida bancada lulopetista e de aliados. Ponto importante a observar, confirmado o cenário, é o que fará esta bancada: se testará limites constitucionais, senha para a deflagração de tensões desnecessárias, ou não. O encolhimento da mancha tucana no mapa político nacional, por sua vez, coloca na agenda do PSDB, mesmo se Serra vier a ser presidente, a crise de identidade do partido: resgata no passado o projeto modernizante exitoso de FH ou insiste na linha de ser uma força paralela ao petismo, apenas com uma suposta competência técnica mais apurada? Fecha a radiografia das urnas, tudo indica, a boa notícia do avanço da agenda verde de Marina Silva, tema do futuro mas que precisa ser debatido já. Haja o que houver na disputa entre Dilma, Serra e Marina, o país que sai do primeiro turno demonstra que nada justifica buscar a hegemonia política a qualquer preço. Quando isto ocorre, os anticorpos da democracia reagem. Neste sentido, a campanha reafirmou a imperiosa necessidade da tolerância e convivência entre contrários, como nos últimos 25 anos.

A necessária convivência pacífica entre contrários

 

ELEIÇÕES
Cobertura no site do GLOBO contará com 70 profissionais

A cobertura das Eleições 2010 no site do GLOBO hoje contará com cerca de 70 profissionais responsáveis pela atualização das últimas pesquisas de intenção de voto e de boca de urna, além da apuração nos 26 estados e no Distrito Federal em tempo real. O destaque será para um mapa interativo do Brasil, onde o leitor-eleitor poderá acompanhar a contagem dos votos para presidente, governador, senador, deputado estadual e federal. Todas as editorias do ambiente online reforçarão a equipe, além de nove estagiários do Blog Já Voto! Nas ruas, repórteres em todo o país terão a tarefa de acompanhar os candidatos no dia e no momento da votação.

Da sucursal de Brasília foram enviados jornalistas para Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Alagoas, Pará e Acre.

A sucursal de São Paulo não enviou repórteres para outros estados porque, lá, a equipe tem de cobrir não apenas a disputa estadual como também a votação de figuras importantes desta eleição, a começar pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que vota em São Bernardo do Campo.

Essa cobertura se estende ainda para outros países, onde correspondentes do jornal também mandarão notícias sobre a votação de brasileiros que moram no exterior e a repercussão da disputa nos países em que vivem.

No Rio de Janeiro, haverá um reforço de peso no domingo, dia das eleições, com praticamente todas as editorias ajudando no fechamento das edições especiais, tanto no jornal como no site, no ambiente especial Eleições 2010, e nas redes sociais. A apuração, que começa logo após o fechamento das urnas, poderá ser acompanhada não somente em tempo real pelo site do GLOBO, mas também pelos aplicativos das eleições para iPhone, iPad e Android, além do Twitter e do Facebook.

A equipe de Mídias Sociais terá a responsabilidade de acompanhar a produção dos perfis @globo_eleicoes e @jornaloglobo. Esses perfis devem dar importantes e atualizadas informações sobre eleições, como detalhes da votação, da apuração e das comemorações.

Os resultados parciais das apurações e o clima nas seções eleitorais e nas ruas de todo o país poderão ser acompanhados, passo a passo, na cobertura das emissoras de televisão. Na TV Globo, 25 equipes de reportagem em todo o país começam a transmitir flashes já nas primeiras horas deste domingo. Às 8h, a jornalista Renata Vasconcellos apresenta, ao vivo, boletim com informações sobre os primeiros momentos da votação.

Já Renato Machado ancora as edições do ‘Globo Notícia’, às 12h e às 16h.

Na TV, resultado da boca de urna a partir as 17h Imediatamente após o fechamento das urnas, às 17h, William Bonner apresenta o ‘Boca de urna’, com comentários de Alexandre Garcia e participação de Márcio Gomes. À noite, o ‘Fantástico’ mostra a cobertura completa do dia da eleição.

A partir das 17h, a Globo News inicia, ao vivo, a divulgação das pesquisas de boca de urna do Ibope e o começo da apuração, com os números de todos os estados. No estúdio, os apresentadores Sidney Rezende e Monica Waldvogel e os comentaristas Cristiana Lobo e Merval Pereira comandam os cerca de cem profissionais espalhados pelo país.

 

QUADRINHOS
Cora Rónai

O sentido da vida, segundo As Cobras

As crianças que nasceram quando Luis Fernando Verissimo parou de desenhar ‘As Cobras’, em 1997, já andam, já falam e já perguntam qual é o sentido da vida. Para quem acompanhava a dupla de répteis mais bem pensantes do planeta, as Cobras saíram de cena no outro dia, e deixaram imensas saudades.

Agora, para consolo dos fãs, chega às livrarias ‘As Cobras, antologia definitiva’, edição caprichada de quase 200 páginas e 470 tirinhas (no detalhe), que reúne o melhor do serpentário.

Mas chegar a esse número não foi fácil, como explica Isa Pessoa, da Editora Objetiva: — Em quase 30 anos, Verissimo deve ter desenhado mais de duas mil tiras, já que elas começaram a ser publicadas aos domingos e depois passaram a ser diárias, ou quase — diz ela. — A Fernanda Verissimo (filha de Luis Fer nando) nos a j u d o u m u i t o , porque conhecia bem o material e chegou a fazer uma primeiríssima triagem. De qualquer forma, quando as caixas chegaram na editora, tentamos traçar o mapa das cobras. Por onde andaram e onde deixaram seus rastros impagáveis? Assim definimos o roteiro, editando o material por blocos.

As Cobras nasceram na ‘Folha da Manhã’, de Porto Alegre, em plena ditadura militar; além de divertir o distinto público, tinham a delicada missão de passar o recado nas entrelinhas.

O regime da época, além de achar que a imprensa abusava do direito de informar, não tinha qualquer pudor em eliminar o que lhe parecia manifestação de mídia golpista.

Jornalistas e humoristas trabalhavam numa fronteira delicada, a um passo do censor.

Os desenhos tinham melhor sorte do que os textos. O humor gráfico tem uma conotação lúdica, infantil — e parecia, talvez, menos ameaçador do que o seu irmão escrito. Ou, como observa Verissimo, também é possível que os censores entendessem ainda menos os desenhos do que os textos.

Assim é que a trupe das Cobras conseguiu serpentear livre, leve e solta entre tesouras e teorias conspiratórias. E, por incrível que pareça, se manteve atual até os dias de hoje.

— As tiras políticas, ao contrário do que imaginávamos, não envelheceram — diz Isa.

— Nossa preocupação era manter a piada e não perder o leitor, mas a crítica das cobras se concentra no ato político e seu contexto, como a corrupção, o tormento das eleições, e assim por diante.

Outras obsessões da dupla, como o fim do mundo, Deus, o futebol, o espaço, foram contempladas em separado — as cobras emitem opinião sobre tudo, mas seria um desperdício perder algum veneno sobre temas que lhes são mais caros…

Assim, a preguiça para o banho frio ou a angústia diante do universo mereceram blocos à parte, como o que abre o livro, ‘As cobras existencialistas’.

Por que cobras? Porque são fáceis de desenhar, ‘só pescoço’, como diz o autor, que se considera mau desenhista, apesar do sucesso dos seus cartuns e da tirinha Família Brasil, que continua em cartaz até hoje na ‘Zero Hora’ e no ‘Estado de S. Paulo’, aos domingos.

Embora Verissimo ache que as primeiras cobras eram horrorosas e muito mal ajambradas, elas viraram xodó dos leitores assim que saíram do ovo.

Em 1977, ganharam uma primeira antologia (‘As Cobras e outros bichos’, L&PM), mas nem por isso ficaram blasées. A essa altura já tinham ultrapassado as fronteiras do Rio Grande do Sul e eram curtidas no país inteiro, mas continuaram gentis e perplexas, questionando o mundo à sua volta e dividindo o espaço da tirinha, generosamente, com uma galeria de personagens inesquecíveis, como Queromeu, o corrupião corrupto, Dudu, o alarmista, Sulamita, a pulga lasciva… As Cobras só eram perversas com as minhocas, a quem espezinhavam sem dó nem piedade: ‘Sabe qual é a diferença entre uma minhoca e uma serpentina? A serpentina pelo menos é útil uma vez por ano.’ Às minhocas, completamente destituídas de amor próprio, só restava suspirar.

As cobras sobreviveram à ditadura, mas não aos 60 anos de Luis Fernando Verissimo, que achou que não pegava bem um senhor sexagenário a desenhar cobrinhas. Em 2006, por ocasião do lançamento da ‘Terra Magazine’, elas ressuscitaram brevemente, para alegria dos fãs — mas logo se recolheram novamente ao silêncio, de onde, a julgar pela disposição do autor, não sairão tão cedo.

 

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