Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 9 E 10/10

O Globo

12/10/2010 na edição 611

ELEIÇÕES

Na TV, comparação de biografias e governos

No programa eleitoral de Dilma Rousseff ontem à tarde, o destaque foi a apresentação das obras do PAC-2 (Programa de Aceleração do Crescimento 2). Além disso, foi elaborado, de última hora, um quadro em que Dilma é entrevistada pelo presidente Lula e promete erradicar a miséria no país.

Os dois temas foram colocados no programa para abafar a ‘agenda negativa do aborto’.

O tema só foi abordado de forma indireta por Dilma, numa cena em que ela aparece numa casa de uma família de classe média se dizendo ‘a favor da família e da vida’.

O programa da tarde do tucano José Serra foi praticamente uma repetição da edição de sexta-feira. Numa forte ofensiva, foi ao ar a estratégia de ‘choque de biografias’ de Serra e Dilma. A propaganda afirmou: ‘Serra construiu a carreira com muito trabalho e muito esforço, diferente da Dilma, que nunca disputou uma eleição e só chegou até aqui pela mão do seu padrinho político’.

Para responder aos ataques, o programa do PT apresentou a biografia da candidata, ocupando cargos públicos no Rio Grande do Sul e no governo Lula.

Em seguida, surge a afirmação: ‘Quem tem uma biografia dessa, tem tudo para ser a primeira presidente do Brasil’.

O quadro em que Lula entrevista Dilma foi gravado na tarde da sexta-feira. Ele chegou a cancelar parte da agenda para gravar com a candidata. O programa do PT ainda resgatou com força a estratégia de comparar os governos de Lula e Fernando Henrique Cardoso.

 

INTERNET

Fernando Duarte

Stalkers, eles ainda vão vigiar você…

Normalmente ouve-se falar de stalking em casos de celebridades às voltas com fãs obsessivos e que vão aos tribunais buscar garantias de proteção. No entanto, o ato de invasão violenta da privacidade também tem meros mortais como vítimas, que na era da internet veem-se em situação mais vulnerável.

A ponto de o Ministério Público britânico ter atualizado dias atrás suas diretrizes para casos do gênero e criado procedimentos especiais para o stalking virtual (cyberstalking) — o primeiro reconhecimento oficial da prática pelas autoridades.

Que o diga o assistente social R.R., um dia alertado por um dos filhos sobre uma série de acusações anônimas de pedofilia espalhadas por fóruns virtuais de discussão. Há mais de um ano ele ainda encontra mensagens pela rede e precisa explicar a situação a colegas e conhecidos que algum dia esbarrem com elas. Até hoje não conseguiu descobrir o autor das acusações, o que foge um pouco dos casos tradicionais de stalking, em que as vítimas quase sempre conhecem seu perseguidor.

— Por sorte, meus chefes acreditaram em mim, mas ainda é um constrangimento ter de abordar o assunto.

E é praticamente impossível me defender na rede, pois o sujeito por trás disso pode aparecer em qualquer lugar — afirma o assistente social.

Os praticantes de stalking têm uma verdadeira obsessão por suas vítimas.

E a perseguição pode tomar variadas formas, desde as aparentemente mais inocentes — como esperar a passagem da pessoa pelos locais que ela costuma frequentar ou ficar mandando presentes — até as mais invasivas, como ligações telefônicas em série. Na modalidade cyber, incluem-se aí, entre outros, roubo de identidade e divulgação de boatos difamatórios, como no caso de R.R.. O resultado, geralmente, é a restrição da mobilidade da vítima, que se sente ameaçada, e danos psicológicos e emocionais.

40 mil acessos sobre colega em um ano

Entidades de assistência relatam casos de vítimas assediadas por email e, num caso recente investigado pela Scotland Yard, descobriu-se que um bancário pesquisara o nome de uma colega no Google 40 mil vezes num único ano — uma média de 110 acessos por dia ou, considerando-se apenas as 16 horas que uma pessoa normalmente passa acordada, um acesso a cada 10 minutos durante 365 dias.

A tecnologia tem agido como um complemento para práticas mais tradicionais.

Segundo um estudo publicado no ano passado pela ONG Network for Surviving Stalking (NSS), a internet se transformou num meio comum para a vigilância exagerada.

— Minha ex-namorada reagiu ao término do relacionamento com uma enxurrada de mensagens ameaçadoras.

Quando a bloqueei, ela começou a contactar conhecidos e parentes — conta Henry, um advogado que teve uma crise de depressão antes de procurar a NSS.

Em sua forma tradicional, o stalking já afeta ou já afetou mais de 18% das mulheres britânicas e quase 10% dos homens — 1,9 milhão de pessoas por ano, segundo o Levantamento de Crimes Britânico — mas de acordo com a coordenadora do estudo, a psicóloga Lorraine Sheridan, pelo menos metade dos perseguidores ouvidos em pesquisas admitiram usar a rede para ampliar seu leque de opções.

— E o mais preocupante é que existe apoio para práticas de stalking, com a profusão de sites que abrem espaço para que ex-namorados ou parceiros expressem seu ressentimento — diz a psicóloga.

A tarefa dos perseguidores também é facilitada por vítimas engajadas em atividades sociais online, especialmente sites como o Orkut e o Facebook.

Mas para a também psicóloga Emma Short, da Universidade de Bedfordshire, que está conduzindo uma pesquisa nacional sobre vítimas de cyberstalking, há uma curiosa particularidade do assédio virtual na forma do imediatismo que caracteriza a comunicação online.

— Há casos em que a perseguição é intencional, mas é preciso também observar que muitas das convenções tradicionais podem ser desrespeitadas inadvertidamente no mundo virtual — relativiza Short. — É muito mais fácil, por exemplo, enviar um monte de emails ou comentários em sites de relacionamento social do que telefonar, por exemplo. Isso pode levar a situações em que se comete cyberstalking praticamente sem perceber.

 

AMÉRICA LATINA

Janaína Figueiredo

Chávez e Cristina, tuitando a imprensa para fora do jogo

Durante a última crise política latino-americana, que teve como cenário o Equador, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, decidiu utilizar seu Twitter para contar ao mundo o que estava acontecendo com o colega Rafael Correa. Em 30 de setembro passado, dia em que o presidente equatoriano enfrentou uma rebelião policial que, segundo seu governo, foi uma tentativa de golpe de Estado, a presidente argentina escreveu mais de dez mensagens no microblog sobre o conflito. ‘Estou na Casa Rosada, 21.10hs. Rafael Correa está no telefone’, escreveu Cristina naquele dia. Minutos depois, a presidente argentina continuou seu relato: ‘Comovido (Correa) me comentou que franco-atiradores dispararam contra seu automóvel. Tem cinco impactos de bala’.

Cristina entrou para o ‘mundo do Twitter’ quatro meses depois do lançamento da página do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, outro fanático dessa nova ferramenta de comunicação virtual. Ambos os presidentes escrevem mensagens quase todos os dias e utilizam o Twitter como um meio de contato direto com seus seguidores e, também, com seus adversários políticos. Para dois chefes de Estado — mergulhados numa verdadeira guerra com a imprensa privada de seus países — que costumam evitar o contato com jornalistas, o Twitter representa uma solução ideal para anular a participação dos meios de comunicação como intermediários entre seus governos e o povo. Os presidentes do Chile, Sebastián Piñera, e do México, Felipe Calderón, têm menos conflitos com os jornalistas, mas também aderiram à nova moda comunicacional.

Nas últimas semanas, a presidente argentina atacou através do Twitter a Corte Suprema de Justiça e juízes de seu país, pela decisão de favorecer o Grupo Clarín na disputa sobre a implementação da polêmica Lei de Serviços Audiovisuais. ‘Existe uma Justiça para o monopólio e outra para o resto da sociedade’, opinou Cristina, referindo-se ao Clarín Na visão de jornalistas da região, a presidente tem todo direito de usar a ferramenta para comunicar suas opiniões.

O problema, disseram ao GLOBO, é o estilo pouco protocolar adotado por Cristina.

— Como líder política, a presidente pode fazer o que quiser para comunicar suas ideias, mas ela deveria respeitar algumas formalidades — opinou Fernando Alonso, secretário de redação do jornal ‘El Cronista’.

Segundo ele, ‘um presidente não pode atacar a Justiça como fez Cristina.

Usar o Twitter é uma coisa, violar todas as regras de comportamento de um chefe de Estado é outra’.

Para a venezuelana Gloria Bastidas, jornalista do ‘El Nacional’, o Twitter permite aos presidentes isolar-se e fugir do ‘incômodo vínculo com os meios de comunicação opositores’.

— Após as eleições legislativas de 26 de setembro passado, Chávez não apareceu na sacada do Palácio Miraflores, como faz sempre, escreveu no Twitter — comentou Gloria.

De fato, naquele dia, o líder bolivariano digitou uma mensagem fria e distante, que não reflete o suposto clima de vitória que seu governo tentou criar. ‘Os resultados do processo eleitoral nos permitiram esclarecer o processo político nacional’, disse Chávez. Minutos depois, o presidente venezuelano assegurou que ‘continuaremos avançando e construindo o socialismo no ritmo e na velocidade que as circunstâncias nos impuserem’.

— O Twitter representa um refúgio para Chávez, uma via escapatória — concluiu a jornalista venezuelana.

 

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Estado de S. Paulo – Domingo

Estado de S. Paulo – Sábado

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