Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > RUY ONAGA (1923-2007)

O revisor maior da nossa imprensa

Por Wladir Dupont em 11/12/2007 na edição 463

Houve época, no Brasil, meados dos anos 1950 a fins dos 1960, até o surgimento de Veja, que a hoje extinta revista semanal Visão era leitura obrigatória para homens de negócios, industriais, publicitários, banqueiros, investidores, políticos, enfim, as altas rodas do poder e da economia e finanças no país. Durante pouco mais de 30 anos um profissional muito competente e recatado, dedicado ao seu meticuloso e paciente trabalho de revisor, garantiu grande parte desse prestígio e respeito de nível nacional: mesmo os leitores mais distraídos percebiam a qualidade irrepreensível dos textos da revista.


Ele, Ruy Onaga, até poderia contar a trajetória da Visão, que sempre acompanhou de seu canto, em silêncio, nunca se envolvendo nos conflitos e mudanças internas. Ruy morreu na quarta-feira (5/12), aos 84 anos, três meses depois de seu irmão maior, Hideo, outro grande jornalista, repórter estrela das Folhas nas décadas de 1940 e 1950.


Foi Hideo que o levou para trabalhar na Visão, em 1959, quando voltou à casa pela segunda vez (lá estivera em 1954, um ano depois da fundação, como secretário), agora como redator-chefe da revista, cuja redação, apertada, ficava na Rua 7 de Abril, 252, depois na Bráulio Gomes, no então centro novo de São Paulo.


O diretor de Visão era o maranhense Hernane Tavares de Sá, que mais tarde, convocado pela ONU para tarefas internacionais, passou o cargo ao carioca Jorge Leão Teixeira. Do corpo de chefia ainda fazia parte outro jornalista experiente, José Yamashiro, cunhado de Hideo e Ruy.


Clima de terror


Como chefe da revisão, Ruy Onaga faria ao seu modo, quieto e produtivo, um trabalho admirável ao longo dos anos e das três fases de Visão. Depois da saída conflitiva de Hideo, em 1966, para dirigir uma nova publicação da Editora Abril, Quatro Rodas, o publicitário Said Farhat, que já fazia parte da diretoria, assumiu o comando, posteriormente comprou a revista e montou outra redação.


Em 1974, Farhat vendeu Visão para o engenheiro Henry Maksoud, dono da empresa Hidroservice, que mesmo assessorado por outro jornalista de alto nível, o já veterano Ewaldo Dantas Ferreira (e equipe jovem e brilhante, tirada do Jornal da Tarde, para indignação de Ruy Mesquita), aos poucos foi liquidando a revista com suas idéias políticas extravagantes e sua forma desastrosa e prepotente de lidar com os jornalistas, de resto uma raça incontrolável.


Em meio a todos esses tumultos e reviravoltas, Ruy Onaga jamais relaxou ou esmoreceu na sua aplicação algo obsessiva ao trabalho. Nos anos 1980 foi sondado por Veja, mas, ao sentir o clima de terror da redação, onde imperava um autoritarismo doentio e castrador, preferiu ficar na Visão até o fim da revista, nos anos 90.


Caçador de besteiras


Um de seus mais fiéis auxiliares na revisão, o jornalista Raul Drewnick, em depoimento a Yamashiro num livro de memórias deste (Trajetória de duas vidas, Aliança Cultural Brasil-Japão, 414 pág., São Paulo, l996) descreve com carinho e minúcia o chefe Ruy em plena pauleira:




‘Com os olhos fixos na folha de papel, o único movimento que ele se permitia era o da mão esquerda alisando o bigode. Na mão direita, sua canetinha, mais afiada do que um punhal, só esperava o momento de cortar as tolices gramaticais, as falhas de informação e os escorregões do estilo… Ele era o mais feroz de todos os caçadores de impropriedades da língua portuguesa. Com ele os verbos construídos com defeito, as construções exdrúxulas, os pronomes colocados com imperfeição, as crases antes de substantivos masculinos e outras barbaridades simplesmente não tinham vez.’


Tudo isso Ruy fazia de fato a partir das terças-feiras, pelo menos nos meus tempos de Visão, no fundo da redação, quando a profissão de revisor ainda era parte importante do trabalho jornalístico – tarefa manual de um grupo de gente modesta, mas do ramo –, isso antes do advento traumático da informática.


Assim, na segunda-feira, armada a pauta e distribuídas as tarefas, ele passava pela redação. Na terça, começava a conferir os primeiros textos, escritos em papel jornal e editados por Hideo e Leão Teixeira a lápis ou caneta. Depois eram datilografados em folhas de papel amarelo, pautadas e numeradas, prontas para os cálculos de paginação, feitos em folhas quadriculadas próprias para isso.


Em seguida, Ruy e seu auxiliar recebiam os originais em papel jornal e papel amarelo, para a primeira leitura. Depois, as matérias eram enviadas, todos os dias, à Lithográfica Ypiranga, na avenida Rio Branco, para a composição, ainda na velha e quente linotipo. Esse processo se estendia até sexta-feira. No sábado pela manhã, Ruy e seu assistente iam à Ypiranga para nova revisão, cotejo de originais e composição, lendo e relendo tudo em voz alta. Na segunda-feira a revista já estava nas bancas e chegava aos assinantes, com os mais bem produzidos e caros anúncios impressos da época.


Os professores e o foca


O revisor Ruy, contudo, não se limitava a detectar e corrigir os erros de sintaxe, vícios de linguagem, ortografia ou acentuação. Era rigoroso também no manejo da informação, que queria precisa, sem números ou dados dúbios. Não era sua função editar os textos, mas quando cheirava alguma disparidade informativa, alguma coisa que não batia com suas leituras e conhecimentos, pesquisava e mudava, contestando até mesmo números divulgados pelo governo. O irmão Hideo e Leão Teixeira nele confiavam.


Outro contemporâneo de Ruy na Visão, o jornalista Edwaldo Pacote, lembra que naquele tempo…




‘…nós tínhamos uma birra com a revisão, não apreciávamos muito o trabalho deles. Com o tempo, percebemos que aquilo tudo não era implicação do Ruy com os nossos textos, quando ele metia o lápis. Era para melhorar o nosso trabalho, a nossa forma de escrever. Hoje entendo isso muito bem’.


Fumante inveterado (como Hideo), Ruy sempre tinha um cigarrinho na boca, andava depressa pelas ruas do centro de São Paulo, entre a redação e a gráfica, e, nos intervalos, fazia suas refeições, em pé, na maravilhosa Salada Paulista, na Avenida Ipiranga, onde hoje funciona um insosso McDonald´s.


Lá almocei com ele algumas vezes, convivência que amenizava a dureza do aprendizado ao seu lado. Pois quando comecei na carreira, em l961, na Visão, estagiei em todos os departamentos antes de me converter em repórter e redator – paginação, pesquisa, arquivo e revisão. Com ele, eu, foquinha ansioso, entre um e outro sermão, aprimorei, na ponta do lápis, o que aprendia também com Hideo, ouvindo-o falar, não poucas vezes no grito, sobre o respeito pela língua portuguesa e a seriedade do ofício de escrever.

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Jornalista e escritor

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