Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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ENTRE ASPAS >

Os dois lados da sociedade do conhecimento

Por Mauricio Augusto Cabral Ramos Junior em 21/08/2018 na edição 1001

De um modo geral e segundo uma perspectiva socioeconômica, ao longo da história ocidental desenvolveram-se sociedades em torno de ícones que, passada a euforia inicial por sua adoção, se mostraram um tanto quanto controversos. Para citar alguns exemplos neste sentido, temos a democracia ateniense (que não garantiu direitos políticos a todos), a pax romana (uma paz imposta, segundo as diretrizes políticas, sociais, culturais e econômicas de Roma) e, a partir do século XVIII até meados do século XX, a sociedade industrial (que prometia progresso a todas as camadas sociais e que, por fim, se revelou mais como um sistema de concentração de riqueza e poder).

Hoje, assiste-se à consolidação da sociedade do conhecimento, cujo advento se deu na década final do século XX e que foi tema da entrevista dada pelo economista Ricardo Henrique ao jornal O Globo de 19.08.2018. Com o devido respeito pela trajetória profissional do entrevistado, cabe aqui criticar alguns pontos que citou.

Ao discorrer sobre se no Brasil a classe média e a elite dão valor à educação, o entrevistado diz  que “quando a sociedade não se discute como um todo e não discute seu futuro, ela não reconhece de forma objetiva o valor da educação” (ALMEIDA; RODRIGUES, 2018, p. 41). Segundo o portal eletrônico do Plano Nacional de Educação (PNE, 2018), o Plano Nacional de Educação 2014/2024 determinou diretrizes, metas e estratégias para a política educacional brasileira nos dez anos seguintes à sua promulgação, divididas em quatro grupos (garantia do direito à educação básica com qualidade, redução das desigualdades e valorização da diversidade, valorização dos profissionais da educação e ensino superior) elaborados a partir de um amplo movimento organizacional e social (inclusive com a participação da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, que o analisaram):

“O Ministério da Educação se mobilizou de forma articulada com os demais entes federados e instâncias representativas do setor educacional, direcionando o seu trabalho em torno do plano em um movimento inédito: referenciou seu Planejamento Estratégico Institucional e seu Plano Tático Operacional a cada meta do PNE, envolveu todas as secretarias e autarquias na definição das ações, dos responsáveis e dos recursos. A elaboração do Plano Plurianual (PPA) 2016-2019 também foi orientada pelo PNE. (PNE, 2018).”

Apesar da baixa qualidade justificadamente percebida pela sociedade a respeito de seus representantes no Congresso Nacional, ao que parece tamanha mobilização é sim um reflexo de uma sociedade disposta a discutir seu futuro, reconhecendo objetivamente o valor da educação (se assim não o fosse, não haveria, por exemplo, toda a sorte de indicadores e metas para aferir a efetividade da aplicação do plano, como atesta seu conteúdo – um dos pressupostos de uma estratégia qualquer, aliás, é a possibilidade de ter sua eficácia apurada o mais precisamente possível).

Diante dos inúmeros fracassos da classe política brasileira enquanto representante popular ao longo das últimas décadas, tornou-se comum dizer que a população está fora do processo decisório nacional, o que se revela uma inverdade quando se recorda que o Brasil é uma democracia, cujos representantes dos Poderes Executivo e Legislativo são eleitos através do voto direto, inclusive.

Em seguida, ao discorrer sobre a possibilidade do Brasil “ficar para trás na corrida tecnológica, se não investir em educação” (ALMEIDA. RODRIGUES, 2018, p. 41), o entrevistado enumera tendências mundiais em curso que justificariam um investimento forte em educação, dentre elas, a globalização, um movimento cada vez mais criticado pela respectiva desigualdade econômica que se percebe crescente, ao mesmo tempo em que sufoca as culturas locais em prol de uma cultura “globalizada”; ao que parece, o movimento trouxe mais malefícios que benefícios.

Por outro lado, afirma que o país se encontra muito defasado em criatividade. Não ficou claro em que se baseou o entrevistado para tal afirmação, uma vez que somos um povo reconhecido mundialmente como muito criativo em nossas manifestações artísticas e culturais, com destaques geniais na música, pintura, escultura e literatura, por exemplo. Na área organizacional, o Brasil é líder mundial em exploração de petróleo em águas profundas, atividade que demanda forte inovação (e, portanto, criatividade), além de referência mundial na regulação de sistemas financeiros (o sistema financeiro brasileiro é reconhecido como um dos mais seguros do mundo). Nosso sistema de votação e apuração eleitoral é 100% eletrônico, garantindo maior segurança e agilidade. Enfim, esta lista é longa.

Ainda neste quesito, ao afirmar que o país precisa executar um programa de educação em massa de desenvolvimento cognitivo avançado e habilidades socioemocionais (ALMEIDA; RODRIGUES, 2018), talvez tenha esquecido o entrevistado de dizer que um dos pilares da educação é a escola, mas o outro é a família, estrutura social fundamental que se encontra hoje em franco processo de transformação, com resultados muitas vezes negativos que se podem comprovar ao se deparar com as exigências sociais e materiais cada vez mais severas (inclusive vistas como decorrentes diretamente da globalização e sua agenda neoliberal), que subtraem um precioso tempo de convívio (inclusive para o desenvolvimento destas habilidades) entre pais e filhos como suscita inclusive o entrevistado ao dizer “Quantos de nós participam das reuniões de pais que discutem o desempenho dos filhos?” (ALMEIDA; RODRIGUES, 2018, p. 41). Atribuir a responsabilidade pela educação somente a instituições de ensino, como o entrevistado deixa entrever, é, portanto, apenas um dos lados desta questão.

Em outro ponto da entrevista, causa estranheza a afirmação de que “O Brasil de alguma forma driblou várias necessidades do mundo do trabalho” (ALMEIDA; RODRIGUES, 2018, p. 41). Mais uma vez não se percebe em que se baseia o entrevistado ao afirmar isto quando, por exemplo, se rememora a redução da carga horária dos cursos de pós-graduação lato sensu e criação dos cursos de nível superior de curta duração no primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso (1994-1997), ações alinhadas aos preceitos neoliberais então em forte evidência no cenário nacional e criticados por se tratar de formar o mais rápido possível trabalhadores especializados para o mesmo mercado de trabalho referido pelo entrevistado.

Em outro ponto, o entrevistado parece confuso ao afirmar que “o que você quer é uma sala de aula diversa, numa escola diversa, numa sociedade diversa”, para em seguida dizer que “a diversidade é nossa força” (ALMEIDA; RODRIGUES, 2018, p. 41). De fato, a diversidade brasileira é vista como uma das causas de nossa criatividade e, por consequência, capacidade de inovar, que se encontra presente inclusive nas salas de aula, sejam elas de escolas públicas ou particulares, uma vez que sucessivos desastres econômicos a partir dos anos 1980 fizeram com que parte dos alunos de classe média se transferisse das escolas particulares para as públicas. Por outro lado, nos últimos anos houve um incremento na participação das universidades públicas brasileiras em programas de intercâmbio de graduação e pós-graduação, com a vinda cada vez maior de estudantes estrangeiros.

É importante ressaltar que foi a mesma sociedade do conhecimento referida pelo entrevistado que possibilitou a ampliação do espaço onde o aprimoramento do conhecimento individual e coletivo se dá: com as novas tecnologias de informação e comunicação, pode-se aprender a qualquer hora e lugar, fisicamente falando. Isto cria dificuldades para um país como o Brasil, que tem uma estrutura física deficiente para acessar a Internet ou estabelecer redes virtuais de informação e comunicação, indicando que o investimento em educação, por si só, não é suficiente para acompanhar o ritmo de desenvolvimento que esta sociedade demandaria.

Em contrapartida, assim como os ícones do passado aqui citados, a sociedade do conhecimento não é feita apenas de benesses: segundo Schwartz (2018), há um movimento organizado por empresas (situadas no Vale do Silício, no estado norte-americano da Califórnia) que se preocupam com os malefícios do uso intensivo da Internet, e que, por isto, desenvolvem ferramentas tecnológicas que permitem estipular o tempo dedicado a acessar redes sociais virtuais como Facebook e Instagram, incentivando um uso mais saudável da tecnologia.

Os frutos da sociedade do conhecimento, bons ou ruins, são para serem compartilhados igualmente por todos os habitantes deste planeta, de acordo com a diversidade desde sempre presente na história humana e da maior capacidade de integração entre os indivíduos possibilitada pelas novas tecnologias de informação e comunicação; pode-se dizer que esta sociedade talvez seja uma nova tentativa de sustentar os preceitos democráticos de outrora, agora em escala mundial. Neste sentido, há que se buscar oferecer chances igualitárias de desenvolvimento humano através da educação, mas respeitando-se os limites desta diversidade. Portanto, não se deve estabelecer uma corrida tecnológica de “vida ou morte” entre os países, como suscita o entrevistado em questão, porque estes, assim como as pessoas, não são homogêneos, mas complementares em suas necessidades, aspirações e expectativas.

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Mauricio Augusto Cabral Ramos Junior é mestre em Administração e Doutorando em Ciência da Informação.

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REFERÊNCIAS

ALMEIDA, C., RODRIGUES, L. “Desigualdade já não serve mais a quase ninguém”. Jornal O Globo, Rio de Janeiro, 19 ago. 2018. Economia, p. 41.

PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO (PNE). Disponível em: <http://pne.mec.gov.br/>. Acesso em: 19 ago. 2018.

SCHWARTZ, , C. Livrai-nos do smartphone. Tecnologia rouba (e ainda vende) nosso tempo. Jornal O Globo, Rio de Janeiro, 19 ago. 2018. Economia, p. 38.

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