Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > TELEVISÃO

Oscar fracassa ao tentar conquistar público jovem

01/03/2011 na edição 631


Folha de S. Paulo, 1/3


Thales de Menezes


Oscar fracassa feio ao tentar conquistar o público jovem


Na noite em que tentava uma aproximação com o público jovem, ousando até na escalação de um casal de apresentadores da nova geração, a festa do Oscar fracassou nessa missão.


Tanto que teve seu momento mais animado com o veteraníssimo Kirk Douglas. Ao apresentar um prêmio, venceu as claras dificuldades impostas pelos 94 anos bem vividos, disparando piadas e galanteios para as atrizes.


A tarefa de dar uma cara mais moderna ao Oscar foi sabotada pela própria Academia, que optou pelo convencional no grande prêmio.


Foi mais uma vitória do chamado ‘filme de Oscar’, essa entidade cinematográfica que preenche alguns requisitos básicos, como roteiro edificante, de preferência baseado em gente de verdade, e atores com falas muito longas e nervosas, o que facilita a produção dos clipezinhos exibidos na cerimônia.


‘O Discurso do Rei’ se encaixa perfeitamente nessa categoria, com bônus de ter um elenco completo com sotaque britânico, algo que os americanos ainda encaram como um charme irresistível.


É todo certinho e, por isso, inatacável. Mas é só isso, certinho, e, por isso, não empolga. Alguém se lembra de ‘O Paciente Inglês’?. Outro filme careta que levou o Oscar. E ainda bateu ‘Fargo’!


Foi desperdiçada a chance de dar o prêmio a um filme pertinente como ‘A Rede Social’ (poucas vezes o cinema falou tanto ao dia a dia de todos) ou a obras que, nada perfeitas, trazem ar fresco ao cinema comercial, como ‘127 Horas’ ou ‘Cisne Negro’.


De ‘jovem’, mesmo, ficou a impressão de que muitos rostos frescos na festa podem voltar outras vezes, uma garotada indicada que morreu na praia: Jesse Einsenberg (vai além de seu ótimo Mark Zuckerberg?), Hailee Steinfeld (com só 14 anos, será que vinga?) e Jennifer Lawrence (um vulcão dentro de um vestidinho vermelho).


James Franco, ótimo como ator em ‘127 Horas’, promete uma carreira mais encorpada daqui para frente, mas pode desistir dessa história de apresentar Oscar. Um tanto nervoso, sem achar o tom certo, foi um peso morto, bem diferente da parceira.


Anne Hathaway superou os textos óbvios com muito charme. Alguém falou, com razão, ‘a Audrey Hepburn de sua geração’. É bonita, boa atriz e a fofa da hora.



 


 


O Estado de S. Paulo, 1/3


Ubiratan Brasil


Tradição e tecnologia


Hollywood flerta com o futuro sem se esquecer do passado – foi o que demonstrou a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas com a 83.ª edição da entrega do Oscar, em cerimônia que terminou quando já era madrugada de ontem, no Brasil. De um lado, as estatuetas para Colin Firth (ator), Tom Hooper (diretor) e O Discurso do Rei (filme), confirmando o gosto dos eleitores por um cinema de narrativa tradicional.


Do outro, a tentativa de seduzir um público mais novo, elegendo o mais jovem casal de apresentadores da história do Oscar (Anne Hathaway, de 28 anos, e James Franco, de 32), trocando cenários por projeções digitais e, principalmente, escancarando sua opção pelas redes sociais – Franco tuitou nos intervalos, colocando até vídeos em sua página no Facebook, enquanto a paródia de músicas, comum na internet, foi uma das atrações. Afinal, uma pesquisa encomendada pelos anunciantes da cerimônia aponta como a faixa mais expressiva de público a localizada entre 18 e 49 anos.


As inovações dividiram opiniões – em sua edição de ontem, o jornal The New York Times comentou que ‘os esforços prolongados para atrair a atenção do público mais jovem foram penosos’. O coro foi reforçado pelo Boston Herald, segundo o qual ‘as referências à internet, aplicações e Facebook não transformam um espetáculo em algo moderno e divertido’.


Por outro lado, a publicação Weekly elogiou as atuações de Anne e Franco como mestres de cerimônia, afirmando que estiveram ‘divertidos, equilibrados, relaxados e elegantes’. Mas não deixou de lembrar da presença marcante de um veterano apresentador do Oscar (Billy Cristal, que homenageou Bob Hope) e do legendário Kirk Douglas, de 94 anos, que, mesmo com as palavras afetadas pelo derrame sofrido há algumas semanas, brincou gentilmente com a beleza de Anne Hathaway. Ou seja, como muitas celebridades, a Academia de Hollywood procurou exibir uma fachada jovem, apesar da essência mais velha, como demonstrou ao revelar a distribuição das estatuetas.


É como andar em uma corda bamba, mantendo o equilíbrio ao segurar um bastão: os quatro Oscars para o convencional O Discurso do Rei confrontaram com os outros quatro de A Origem, filme considerado avançado pelo uso dos efeitos especiais para narrar uma história (na verdade, um sonho) que acontece simultaneamente em três tempos.


Um observador apressado diria que a balança penderia para os moderninhos ao apontar as três estatuetas de A Rede Social mas, assim como os prêmios para o filme de Christopher Nolan, essas foram todas para áreas técnicas, enquanto O Discurso do Rei só faturou estatuetas de primeira linha.


A vitória qualitativa do longa dirigido por Tom Hooper comprovou a eficácia de produções de orçamento modesto. ‘O filme não existiria se não fosse o financiamento do governo britânico’, observou Gareth Unwin, um dos três produtores premiados. Eles também lembraram da importância de seu braço americano, Harvey Weinstein, que ‘popularizou’ O Discurso do Rei nas últimas três semanas, justamente as decisivas na eleição da Academia.


Uma das figuras mais bem-sucedidas e temidas no ramo do cinema independente, Weinstein dá sinais de sobrevivência depois que a sua produtora, que leva seu sobrenome, acumulou prejuízos a ponto de obrigá-lo a hipotecar 250 filmes de seu acervo para sobreviver.


Foi ele quem descobriu o potencial de O Discurso do Rei, ressaltando sua sofisticação ao humanizar a figura real. Depois, Weinstein explorou cuidadosamente os recursos de marketing do filme, seduzindo o público a ir ao cinema e lembrando aos votantes da Academia de que a comédia de costumes cuidadosamente elaborada era digna de consideração. Diante de um futuro com tantos caminhos incertos, Weinstein parece ter a lanterna dirigida a uma trajetória segura.

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