Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > SEXO & MÍDIA

Pedro Doria

25/10/2005 na edição 352

‘Sexta-feira, dia 28, Bruna Surfistinha completará 21 anos. Aí se aposenta. Está planejando a mudança, e juntando dinheiro para isto, desde o início do ano. Trabalhou vendendo sexo três anos, dez dias. No dia em que saiu de casa, brigada com a mãe, brigada com o pai, ainda tinha 17. Aquele aniversário, completou-o internada num privê paulistano. Seu primeiro nome na vida foi Fernanda.

Tentei falar com Bruna estes últimos dias, mas o celular já estava fora do ar, sem caixa postal. Também não respondeu às mensagens no email profissional nem no pessoal. Talvez quisesse, enfim, encerrar os trabalhos.

Nós nos conhecemos por telefone, em agosto de 2004. Eu havia passado as semanas anteriores cruzando a Internet atrás de uma prostituta que parecesse interessante para contar sua história. Quaisquer pessoas que vivam em situações extremas têm algo para contar. Encontrei-a no GPGuia, um fórum em que clientes resenham e avaliam o desempenho de garotas de programa.

Bruna era a campeã de votos. Não era sua técnica que elogiavam: ela era meiga, carinhosa. Então encontrei o blog

– foi o primeiro de uma garota de programa no Brasil. A menina se expressava bem. Conversamos por pouco mais de uma hora. Me contou que era adotada, não me convenci. Também disse que gostava do trabalho quase sempre, acreditei.

Cinco clientes por dia, cinco dias na semana

Nós nos conhecemos pessoalmente no início de abril deste ano, no flat em que vive, em Moema. Estavam lá ela, sua amiga Gabi com quem dividia o apartamento, um poodle, uma gatinha angorá. Seu telefone fixo tinha a forma de Hello Kitty. Na parte de baixo, a decoração tinha um pouco de quarto de adolescente; no mezanino, uma cama de casal e, à cabeceira, uma foto sua com os seios nus, camisinhas e um tubo de lubrificante. No banheiro da suíte, um frasco de litro de uma loção bucal.

Gabi foi uma amiga especial, um dos pequenos segredos de Bruna. Foi Gabi, nos primeiros dias de carreira da amiga, quem disse que sua cara não era de Fernanda, mas de Bruna. Conhecia o nome de verdade, sempre a chamou de Bruna. Gabi deixou a vida e assumiu a casa. Cozinhava, atendia o celular enquanto a amiga trabalhava em cima. Muitos combinaram encontros com ela achando que conversaram com Bruna. Era o truque para atender sempre como se nunca trabalhasse. As duas dormiam na mesma cama. Embora eventualmente tenham feito um ou outro programa juntas, não eram amantes. Amigas.

Bruna trabalhou muito. Cinco clientes por dia, cinco dias na semana – e isto só depois que, pelo blog, conseguiu trabalhar por conta própria. Nos privês, era mais por menos. Tinha planos de conseguir juntar 100 mil reais até encerrar. No início pensava em reunir 500 mil, mas o tempo foi tornando a quantia mais modesta. Estava a meses, eternamente adiados, de encerrar o supletivo que lhe garantiria o segundo grau.

A Bruna que conheci em Moema era uma menina muito séria, ensimesmada. Jamais reticente: não evitava perguntas; no máximo, pedia que uma coisa ou outra não fosse publicada. Evitou uma: em todas nossas conversas, nunca contou o que fez para forçar a briga em casa que terminou na fuga. Parecia muito grave, talvez nem tenha sido. Em Moema, ela não era uma menina de 20 anos, claro que não. Meninas de 20 anos da classe média urbana, do tipo que ela seria se não tivesse deixado a casa dos pais, estão atrás de estágio, tentando ainda aprender como se portar no ambiente de trabalho. Bruna era segura, de uma segurança conformada.

E ela fazia análise, uma vez por semana

Tinha acabado com o namorado meses antes. Uma hora, enquanto descíamos a Avenida Moema até a praça, perguntei-lhe se gostava mesmo do serviço. Ela não disse nada, fez que não com a cabeça, sorriu. ‘Mas não escreve isso não, eles não vão entender.’ Talvez em algum período tenha gostado, talvez no fim já estivesse cansada. Parecia cansada.

Mas a sua não era uma tristeza de a vida estar num buraco negro. Na verdade, Bruna falava com um certo orgulho de suas aparições várias na imprensa, seus ‘quinze minutos’. ‘Eu tenho coisas para contar’, dizia. Deixava a impressão de que cada entrevista era uma sessão de análise, uma tentativa de recontar sua história para compreendê-la melhor. E ela fazia análise, uma vez por semana.

Tinha planos, planos muito bem definidos e planos vagos. Queria um amor. Isto, encontrou. Um ex-cliente, Pedro. Gabi deixou o flat, Pedro se mudou. Bruna queria demais isto, precisava desta companhia para uma nova vida. Queria também se reencontrar com os pais.

Na verdade, era preciso provocá-la para que falasse da mãe. Era seu pai quem vinha sempre à tona. A mãe, a seu ver, perdoaria – o pai é que não. O pai é quem lhe deu uma surra antes que fugisse de casa; o pai é quem deixou de falar com ela primeiro; o pai é quem não permitiria seu retorno. Bruna foi se expondo aos poucos. Primeiro no blog. Em sua primeira entrevista, não quis mostrar o rosto. Quando mostrou, nas páginas da revista ‘Época’ e de tantas outras depois, era para que os pais a vissem. Para que viessem. Não vieram. Em nossa última conversa, decidiu me contar seu nome. Perguntei se poderia publicá-lo. ‘Ainda não’, ela respondeu.

A psicologia era outra de suas obsessões. O dinheiro que juntou serviria para sustentar-se e ao curso, que talvez faça agora. O livro que escreve há tanto está pré-acordado com uma editora carioca. A letra de Bruna, no caderno em que anotou rigorosamente cada cliente que teve e o que fez no programa, era uma letra redonda de menina. Escrevia em rosa e em azul bem claro. Não anotava os nomes, não sentia ter o direito. Anotava pela estatística. Queria saber quantos foram.

O quanto do que conta é verdade ou o quanto é mito que criou para se sustentar, não sei. Ela tem em mente substituir a vida por um site para outras garotas de programa. Tem experiência nisso, é inteligente, aprende rápido. Bruna não tem nada de amarga. Perguntei-lhe mais que uma vez como conseguia ser carinhosa com tantos, em seqüência, num mesmo dia, todos os dias. Ela nunca soube responder. Mas aí, de alguns, sorria e falava com carinho, observava a timidez deste, o sem jeito do outro.

Ela manterá o blog, agora para dizer como anda. Há quem pense que prostitutas não se aposentam nunca. Se cumprir suas promessas todas, talvez em espírito realmente nunca tenha se aposentado. Na rede, Bruna Surfistinha continuará existindo.’



CELEBRIDADES & MÍDIA
Joaquim Ferreira dos Santos

‘Quadrado da hipotenusa’, copyright O Globo, 24/10/05

‘O telefone tocou aqui na redação do GLOBO, devia ser ali pelas duas e lá vai fumaça da tarde, e do outro lado da linha era a bela atriz madura que no jornal daquela manhã aparecia numa foto maravilhosa em conluio amoroso, de santa paz doméstica, com seu cachorrinho de estimação. Trocavam afagos, nem aí para a insanidade lá fora. Não tem mais que duas semanas. Não é bem uma crônica, aconteceu de fato. Saiba agora dos bastidores.

Na foto, cachorro e artista curtiam-se, jogados num gramado da bela mansão dela, a atriz de cinema que agora está ao telefone, os dois clicados numa cena de confraternização explícita que deveria inspirar um monte de leitores a seguir o exemplo. Essa era a idéia da coisa quando o colunista gente boa resolveu publicar a foto. Acordar o cidadão comum com um flagrante de bom-dia, um pedido gentil de ‘se põe de pé, meu nego’, ‘acorda, Maria Bonita’, que vai valer a pena encarar toda essa rotina de novo. Teu chefe é maneiro. Desencarna. Mire-se nessa foto e faça o mesmo com o seu destino. Cante comigo o ‘solte-se, liberte-se, abrace nessa vida o que ela tem de melhor’, um grito de guerra que tirei do jingle do Rexona nos anos 70 e mandei cunhar como palavra de ordem no frontispício do meu cafofo. Relaxa.

Pois agora, depois de ver a sua foto espetacular publicada de um lado ao outro da página na edição da manhã, a famosa atriz está ao telefone querendo falar comigo, o responsável por ter colocado aquela imagem de livro de auto-ajuda em 300 mil exemplares de jornal – a cena de uma mulher madura, ainda extremamente sedutora, mais seu animal de estimação, em completo desarmamento de espíritos, os dois saudando uma existência amorosamente cúmplice e brincalhona. Era o clichê da imagem que vale por mil palavras, no caso uma palavra só repetida ao infinito por ser a melhor de todas: felicidade.

Preparei os ouvidos para receber os agradecimentos de praxe, pois sei que ainda existe gente movida pela gentileza e a conjugação generosa do verbo muitobrigado em todos os seus tempos. Eu disse ‘alô’. Devo confessar, a vida de um colunista tem tantos telefonemas de dissabores e processos judiciais que, no antegozo de um telefonema positivo, tive vontade de dizer ‘Hello Moto’ – mas achei que ainda não era hora de ela saber quão engraçado eu sou. Eu disse ‘alô’. Ponto. Ela disse ‘alô’ também. Eu não agüentei e comecei a mostrar meus trunfos de cara espirituoso. Disse: ‘Te vi no jornal hoje’. Ela sorriu em ha-ha-ha e completou brincalhona que também tinha se visto.

Boa atriz, carregando de ternura todas as pausas entre as palavras que se seguiriam, ela perguntou de mansinho:

– Mas, Joaquim, precisava ter me colocado barriguda?

A vida de um colunista de jornal move-se por princípios muito subjetivos, e essa é a graça da profissão. Não é ciência exata. Aqui, a soma do quadrado dos catetos nem sempre é o quadrado da hipotenusa. Vareia muito, e quanto mais melhor. Longe de um laboratório de fórmulas rígidas, uma coluna de jornal lembra mais uma cozinha experimental de ‘Cláudia’. Misturam-se alhos com bugalhos para que ao final a comida servida ao leitor, aparentada com a dos outros chefs da profissão apenas pelo molho comum da ética e o sal dos bons princípios, fique com uma cara especial. O resto, como se diz nas receitas, é ao gosto.

Não é da pauta básica do negócio jornalístico passar mensagens de felicidade e esperança na Humanidade. Pelo contrário. Os jornais estão cheios de fatos garantindo que o Homem não deu certo. Fracassamos. Quando aparece um registro de esperança na forma de uma mulher em êxtase feliz com seu cachorrinho igual, aí é hora de aproveitar rápido o flagrante e mandar parar as máquinas. Extra! Extra! A paz é possível!

Foi então, no júbilo da descoberta, de que havia um sopro de felicidade a ser enviado ao café da manhã do assinante, foi aí que eu não notei o pneuzinho dela. Sedento que estava em imprimir nas retinas nacionais a poesia de todos os outros cantos da foto, não notei a adiposidade supra-abdominal da atriz. Foi, claro, a primeira coisa que ela viu quando abriu o jornal. E agora, com um jeito elegante, divertido e cheio de sorrisos em ha-ha-ha (há mulheres que sorriem em he-he-he, cuidado com elas!), a atriz madura usava sua voz mais sedutora para me assoprar do outro lado do telefone um punhado de entrelinhas que explicavam um dos princípios básicos da feminilidade.

Ela não queria ser amada, passar mensagem de confraternização com os diferentes ou reconhecida como gente boa. Coisa nenhuma. Isso fica muito bonito na biografia da Madre Teresa de Calcutá. A atriz madura queria ser varrida de desejo pelos olhos da platéia e não por e-mails cumprimentando-a pela simbiose gloriosa, a sinergia digna, com o mundo animal. A barriguinha, compreendi tarde demais, abalava esse propósito.

Deve ser uma mulher dos seus 60 anos e, no subtexto de sua doce reclamação, ela tentava explicar ao garoto do outro lado do telefone que jornalismo era uma coisa, mas havia na vida real matérias mais importantes que ele precisava aprender. Definitivamente, a bela atriz madura não estava nem aí para a nobre paz que o abraço no cãozinho doméstico informava como lição a esse mundo conturbado de lá de fora. Tudo passa, o corpo muda – mas ela continuava, e para sempre continuaria, privilegiando ser açoitada, vasculhada, pelo desejo do outro. É da índole, de princípio, da espécie e motivação.

Balbuciei alguma coisa do tipo ‘foi mal’, sem garantir que da próxima vez seria diferente. Eu sei, ela sabe, quem não? O jornalismo, como tudo que é masculino, deixa muito a desejar.

***

Na quarta-feira, a partir das 19h30m, lanço na Maria Bonita Extra, na Aníbal de Mendonça 135, Ipanema, o livro ‘Em busca do borogodó perdido’. Estão todos convidados. O livro, eu não garanto. O bufê do coquetel, de Celina Mello, é ótimo. Apareçam.’



NYT EM CRISE
Sérgio Dávila

‘‘Times’ é arrogante, diz ex-ombudsman’, copyright Folha de S. Paulo, 23/10/05

‘Os vários problemas pelos quais o mais influente jornal do mundo vem passando têm uma só raiz: arrogância. A opinião é do primeiro ombudsman a ocupar o cargo no ‘New York Times’, lá chamado de ‘editor público’, função criada na esteira dos escândalos que começaram a chacoalhar o diário em 2003.

Daniel Okrent, 57, não era funcionário do ‘Times’ quando assumiu a função, com um mandato pré-combinado de 18 meses, do qual se despediu em maio último.

Autor de vários livros, um dos quais lhe valeu uma indicação ao importante prêmio Pulitzer, fez sua carreira jornalística mais em revistas como a ‘Time’ e a extinta ‘Life’. Sua última obra foi ‘Great Fortune: The Epic of Rockefeller Center’ (‘a grande fortuna: o épico do Rockefeller Center’), publicado pela editora Viking Penguin, em 2003.

Ele conversou com a Folha sobre a repórter Judith Miller, que passou de vilã a mártir e a vilã de novo em menos de um ano (leia texto nesta página).

Falou por telefone de Manhattan, onde faz pesquisa para um livro sobre a Lei Seca, a sair em 2008, prepara a coletânea de seus artigos como ombudsman e treina palestras que dá pelo país cujo tema é: ‘Como sobrevivi às entranhas do ‘Times’.

Folha – A repórter Judith Miller foi assunto principal de três colunas suas durante seu mandato como ombudsman. O sr. já tinha a sensação de que ela poderia vir a ser um problema para o jornal?

Daniel Okrent – Ela já era um problema! Antes mesmo de eu assumir. Aliás, continuo achando que a repórter é um problema que o jornal terá de resolver…

Folha – Em um desses artigos, chamados ‘Armas de Decepção em Massa’, o sr. foi extremamente rigoroso com ela. Que resposta ou reação teve da repórter então?

Okrent – Ela foi cordial comigo, apesar de tudo. Não houve sinal de hostilidade. Eu a entrevistei por duas horas, então qualquer admissão de culpa estaria transcrita no meu texto. Ou seja, não houve mea culpa, não.

Folha – Ela mentia, o sr. acha?

Okrent – Creio que ela tenha sido sincera e franca comigo, não achei que tentou me enganar em nenhum momento. O que penso hoje é que ela tentava se enganar a si mesma.

Folha – Em sua última coluna, o sr. escreveu que a perspectiva de Judith Miller ir para a cadeia era ‘nauseante’. O sr. ainda pensa da mesma maneira, hoje em dia?

Okrent – Sim. Isso não quer dizer que eu aprove o jeito de ela ser como repórter. Mas a noção de jornalistas indo para a cadeia é nauseante para mim, qualquer um.

Folha – O atual ombudsman, Byron Calame, ex-’Wall Street Journal’, vem ignorando a polêmica em relação a Judith Miller desde que ela saiu da cadeia. Se estivesse ainda em seu cargo, faria o mesmo? Aliás, o sr. sente falta de lá?

Okrent – Começando pelo fim, não. Estou satisfeito (risos). Estava combinado desde o começo que seriam apenas dezoito meses, que, passado esse tempo, eu continuaria com minha vida. Quanto à primeira parte da pergunta, sim, é um assunto muito interessante. Mas outros assuntos me interessam além do ‘New York Times’…

Folha – Qual sua opinião pessoal sobre Judith Miller?

Okrent – Prefiro não comentar nada, sofreria muita pressão.

Folha – Em sua visão, qual é o principal problema do ‘New York Times’ de hoje e de então?

Okrent – É difícil resumir numa frase, havia então uma gama de problemas com o jornal naqueles dias. Alguns deles surgiram por razões as mais variadas. Mas diria que o principal problema do ‘Times’ é a arrogância, aquela crença de que o jornal está acima de qualquer crítica. E não reagir às críticas, internas ou externas.

Folha – E esses problemas diminuíram desde a sua saída?

Okrent – (Risos) Bem, acho que a própria criação do cargo de ombudsman ajudou muito.

Folha – Há rumores de que os acionistas da empresa estão pedindo a cabeça de Arthur Sulzberger Jr., CEO da The New York Times Company, por conta dos seguidos problemas na Redação, agravados pela diminuição na venda e na publicidade do jornal e na queda dos lucros da empresa. Isso é plausível?

Okrent – Bem, primeiro temos de nos lembrar que os únicos acionistas que têm poder de mando na sociedade são os membros da família Sulzberger, cerca de 30 parentes. Eles controlam a votação dos acionistas. E, se você não falou com alguém que esteja na sala na hora da discussão desse grupo, não dá para confiar muito nos rumores. Mas talvez eles tenham pedido a cabeça mesmo, talvez eles estejam realmente descontentes.

Mas o importante é lembrar que, mesmo acontecendo em uma empresa de capital aberto, as decisões dentro do ‘New York Times’ são familiares, não de acionistas.

Folha – O sr. tem dado palestras sobre seu período no ‘Times’ pelo país. Qual a pergunta mais recorrente dos espectadores?

Okrent – ‘Conte-me tudo sobre a Judith Miller’.

Folha – E qual a sua resposta?

Okrent – (Risos) É uma resposta longa e complicada… Eu prefiro não dizer.’



***

‘Problemas no ‘New York Times’ vêm de longe’, copyright Folha de S. Paulo, 23/10/05

‘No longínquo dia 4 de novembro de 2000, o jornal ‘The New York Times’ escreveu um editorial sobre o futebol brasileiro em que chamava, no texto inteiro, Ronaldo de Romário. Este era o menor de seus problemas. Na mesma época, viria à tona o ‘escândalo do espião chinês’, reportagens baseadas em dados dúbios do FBI que afirmavam que o cientista Wen Ho Lee, que trabalhava no Laboratório Nacional de Los Alamos, era espião. Ele seria solto depois, livre das acusações.

Mas o pior estava por vir. Jayson Blair, então um jovem repórter em ascensão, foi pego em flagrante, e, na primeira do que viria a ser uma série de ‘reportagens-erramos’, o jornal admitiu que Blair errou, plagiou ou mentiu em 36 situações, pelo menos. Foi demitido, e com ele caíram os principais executivos da Redação.

O golpe, chamado pelo próprio publisher, Arthur Sulzberger Jr., de ‘o ponto baixo nos 152 anos de história do jornal’, abriu uma crise interna sem precedentes, que reverberou nos leitores e culminou na criação do cargo de ‘public editor’, ou ombudsman, em outubro de 2003, cujo primeiro ocupante foi Daniel Okrent.

Uma de suas colunas mais violentas foi publicada em 30 de maio, com o título ‘Armas de destruição em massa? Ou distração em massa?’, em que ele questionava as fontes e o relacionamento com o poder da jornalista que publicou as principais reportagens sobre o assunto pré-invasão do Iraque pelo governo Bush, sempre com um tom favorável.

O nome dela? Judith Miller. Nova ‘reportagem-erramos’ se seguiu, em que o jornal pedia desculpas a seus leitores por não ter sido ‘mais crítico’ em relação aos argumentos do governo antes que a invasão ocorresse, não depois.

Então, surgiu o caso do vazamento da Casa Branca de que a mulher de um ex-embaixador americano que vinha escrevendo artigos críticos ao fato de o governo não ter encontrado até hoje tais armas era uma espiã da CIA. Dois repórteres ouviram o nome dela, um deles o publicou -um crime federal.

A outra não publicou, mas decidiu não dizer ao juiz quem era sua fonte. O nome da jornalista? Judith Miller. Pela recusa, foi para a cadeia, onde ficou 85 dias, até o dia 29 último. No período, Sulzberger escreveu 15 editoriais defendendo-a, e ela virou uma espécie de ‘mártir’ da profissão, uma vez que seu colega, da revista ‘Time’, revelou a fonte e evitou a prisão.

A história piora um pouco. Agora, a fonte veio a público e revelou que, desde antes de ser presa, a repórter tinha sua autorização por escrito para revelar seu nome. É o chefe-de-gabinete do vice-presidente Dick Cheney, Lewis ‘Scooter’ Libby. Judith Miller preferiu ir para a cadeia.

Há três meses, uma consultoria global publicou resultado de pesquisa feita com empresários, formadores de opinião e políticos de 50 países segundo o qual o ‘New York Times’ não é mais o primeiro jornal em prestígio global: está em sétimo lugar; os dois primeiros são os econômicos ‘Financial Times’ e ‘Wall Street Journal’.

Procurado pela Folha, o segundo e atual ombudsman do ‘New York Times’, Byron Calame, respondeu por e-mail que não trataria do assunto com o repórter, mas poderia vir a fazer em sua coluna -provavelmente a de hoje. Judith Miller não respondeu pedidos de entrevista feitos.’



Folha de S. Paulo

‘Editor critica Miller em e-mail a jornalistas’, copyright Folha de S. Paulo, 23/10/05

‘O editor-executivo do ‘New York Times’, Bill Keller, enviou à equipe do jornal um extenso e-mail na noite da última sexta-feira sobre o caso Judith Miller, a repórter envolvida no vazamento do nome de uma espiã cujo marido denunciou como falsas acusações do governo Bush contra o Iraque. O texto traz críticas à jornalista, aponta falhas da publicação e faz um mea culpa sobre os recentes escândalos que colocaram o ‘Times’ na linha de fogo dos críticos.

No e-mail, Keller também lamenta que não tenha agido de maneira mais clara e incisiva na admissão de erros do jornal sobre a inexistência de armas de destruição em massa no Iraque.

‘Além de algumas ocasiões em que eu gostaria de ter escolhido minhas palavras com mais cuidado, levantamos alguns pontos diante dos quais gostaríamos de ter tomado decisões diferentes’, escreve. ‘São casos que, vistos com a clareza possibilitada pela distância, mostram erros dos quais podemos tirar lições.’

‘Eu não sabia que Judy era uma das repórteres na ponta receptora da campanha de rumores contra [a espiã Valerie] Plame’, admite, dizendo que só tomou conhecimento do fato quando a jornalista foi intimada a depor. ‘Gostaria que, ao saber que Judy Miller havia sido intimada como testemunha, eu tivesse me sentado com ela, feito uma extensa entrevista sobre o que ela sabia do caso e prosseguido com minha própria apuração’, desculpa-se.

‘Em outros casos poderia estar correto confiar aos advogados o teor das entrevistas e anotações em questão. Mas, nesse caso, eu não prestei atenção no que deveria ser um alarme óbvio’, continua Keller.

O editor-executivo afirmou que o jornal provavelmente teria defendido sua repórter em qualquer situação, já que ‘é um instinto natural e apropriado defender um repórter quando o governo tenta interferir em seu trabalho’. ‘Mas, se eu soubesse dos detalhes do envolvimento de Judy com [Lewis] Libby [assessor do vice-presidente Dick Cheney], eu teria tomado mais cuidado no modo como o jornal articulou sua defesa.’

Numa crítica direta a Miller, Keller cita um e-mail que recebeu de um de seus colegas como o que teria sido o modo ideal de lidar com o caso: ‘Há, ou deveria haver, um contrato entre o jornal e seus repórteres pelo qual o jornal os apóia institucionalmente, mas só até o momento em que o o repórter cumpre a sua parte, especificamente ao manter-se dentro de um padrão legal, ético e jornalístico consistente, sendo aberto com o jornal sobre suas fontes, erros, conflitos e similares, e que faça por merecer todos nós arriscarmos nossa reputação’.

O editor encerra colocando em questão o modo como o jornal lida com notícias a seu próprio respeito e indagando o quanto isso pode ferir o interesse do leitor.’



MÍDIA & RELIGIÃO
Volkhard Windfuhr e Bernhard Zand

‘‘Deus desapareceu no Ocidente’’, copyright O Estado de S. Paulo / Der Spiegel, 23/10/05

‘O xeque Yusuf al-Qaradawi, nascido no Egito, vive desde 1961 no Catar, onde chefia o Departamento de Direito Islâmico da Universidade de Doha. Por meio do programa Sharia e Vida, na TV árabe Al-Jazira, e do website Islam Online, ele atinge um público de milhões em todo o mundo muçulmano. Der Spiegel conversou com o xeque de 79 anos sobre terrorismo, excessos da modernidade no Ocidente e por que lançar aviões contra edifícios é inaceitável.

O sr. é considerado um dos mais influentes acadêmicos islâmicos contemporâneos, mas nem mesmo suas palavras são absolutas. O Islã precisa de um líder espiritual inconteste – um papa muçulmano?

A maioria dos muçulmanos gostaria de uma autoridade central como essa, a fim de evitar o debate constante sobre opiniões contraditórias e extremistas de estudiosos. Mas não temos um papa. Temos a Ulama, a associação dos acadêmicos. Para proteger a unidade do Islã, precisamos urgentemente chegar a um consenso sobre as grandes questões de nosso tempo: terror, ocupação e resistência. Demos um primeiro passo em julho de 2004, com a fundação de uma união mundial de estudiosos do direito islâmico. Fui eleito presidente e meus vices são um sunita, um xiita e um abadita (ramo do Islã predominante em Omã).

Mas ninguém no mundo islâmico impede que homens como Osama bin Laden ou Abu Musab al-Zarqawi – o representante de Bin Laden no Iraque – se apresentem como imãs e preguem o ódio.

Uma pessoa não pode simplesmente denominar-se imã ou mufti e emitir fatwas (decretos religiosos) segundo seus caprichos. Há claros pré-requisitos para esta posição, envolvendo experiência profissional, histórico acadêmico e caráter.

Pessoas como Bin Laden ou Zarqawi tendem a não se preocupar com isso. Mas exercem enorme influência sobre a imagem do Islã.

A vasta maioria dos estudiosos muçulmanos condena os atos de Bin Laden. Só uma pequena minoria o apóia. O que ajuda sua reputação, mais ainda que a opinião de estudiosos, é a injustiça que atinge os muçulmanos todo dia – sobretudo na Palestina. Vocês subestimam isso no Ocidente: a parcialidade do apoio americano a Israel tem conseqüências devastadoras.

Desde os atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA, terroristas mataram milhares em nome de Alá. O Islã diz ser uma religião de compaixão e bondade. Onde está a indignação com esses atos?

Fui o primeiro a condenar os crimes do 11 de Setembro – antes mesmo que estivesse claro, para muitos, que a Al-Qaeda estava por trás dos ataques. Certamente há uma diferença entre a violência usada num ato terrorista cego e aquela usada numa rebelião contra uma força de ocupação estrangeira.

Que diferença faz, para uma criança morta por uma bomba no Iraque, na Chechênia ou em Israel, o fato de o assassino ser um terrorista ou um combatente da resistência?

Apenas para evitar mal-entendidos: no Islã, existem regras claras para proteger os civis, mesmo em tempos de guerra. Não se permite que pessoas não envolvidas na luta sejam atacadas. Quando o Profeta soube que uma mulher fora morta durante uma batalha, ficou furioso e emitiu ordens que ainda são seguidas hoje: nunca matar mulheres, nunca matar crianças, nunca profanar os mortos. Nesse édito, fica claro que é um crime transformar aviões lotados em mísseis e usá-los para destruir edifícios.

Por que nenhum juiz ou lei muçulmana expulsou oficialmente Bin Laden e seus seguidores da religião?

Condenamos seus atos, mas oponho-me categoricamente à idéia de expulsão. Expulsá-los seria cometer o mesmo pecado que eles cometem: eles querem transformar a nós e seus outros críticos em hereges. Chegará o dia em que terão de submeter-se ao cádi (juiz islâmico), mais ainda não avançamos tanto. Primeiro temos de decidir quais deveriam ser seus juízes.

O aiatolá Ruhollah Khomeini, do Irã, não passou muito tempo discutindo essas questões quando emitiu uma fatwa determinando a morte do escritor Salman Rushdie.

Rushdie difamou a honra do Profeta e sua família e manchou os valores do Islã.

E quanto a Zarqawi, que não só decapita vítimas indefesas, como também filma os assassinatos?

Ele trouxe ao Islã a maior vergonha imaginável. Para nós, é um criminoso. Nunca será demais condená-lo.

Os clérigos islâmicos ortodoxos não teriam perdido sua autoridade?

De modo nenhum. Há um novo espírito no Islã que se volta contra os excessos do modernismo, mas também contra o radicalismo exagerado. Também somos modernos e também lucramos com as grandes invenções que vieram do Ocidente, com a revolução da era da informação e a comunicação global.

No entanto, apesar da superioridade tecnológica do Ocidente, vocês se sentem moralmente superiores.

Condenamos o materialismo excessivo do Ocidente. Deploramos a perda da solidariedade e da fraternidade, a decadência da moral e as violações diárias da dignidade humana. Deus desapareceu – quase todos no Ocidente deixaram de falar sobre Ele. Há um ano, houve uma manifestação contra mim em Londres porque falei contra a homossexualidade. As pessoas parecem ter esquecido que não fui eu quem criou esse modo de pensar. É parte da ordem de Deus transmitida por Moisés e mencionada até por Jesus.

Em Berlim, um pregador muçulmano foi filmado recentemente afirmando que os cristãos não têm o direito de ir para o céu.

Isso é totalmente absurdo e inaceitável. Todos os devotos das religiões reveladas – muçulmanos, cristãos e judeus – vão para o Paraíso se forem honrados e acreditarem em Deus. Tampouco existe algo dizendo que eles não podem viver uns entre os outros nem se casar. Mas isso, é claro, não muda o fato de que o Islã é uma religião que oferece a salvação a toda a humanidade.

O sr. compartilha do objetivo dos islâmicos radicais de criar um vasto Estado islâmico para todos os muçulmanos?

O Islã é uma só nação, só existe uma lei islâmica e todos rezamos para um só Deus. Tal nação acabará se tornando também uma realidade política. Mas ainda não se sabe se ela será uma federação de Estados já existentes, uma monarquia ou uma república islâmica.

Graças a seus programas semanais na TV Al-Jazira, o sr. se transformou numa personalidade importante para milhões de muçulmanos na Europa. Eles devem obedecer às leis dos países onde vivem, sem exceções?

A fim de resolver esse problema, fundamos o Conselho Europeu para a Fatwa e a Pesquisa – do qual sou diretor – há oito anos, em Londres. A cada conferência, conclamamos os fiéis a obedecer às leis dos países onde vivem. Eles se comprometeram a fazer exatamente isso quando foram para a Europa. E também são obrigados a respeitar a propriedade dos não-muçulmanos. Onde quer que vivam, os muçulmanos têm a obrigação de integrar-se à sociedade – e aceitar aquilo que a sociedade exige deles – sem abandonar sua fé. (Tradução de Alexandre Moschella)’

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ENTRE ASPAS > SEXO & MÍDIA

Pedro Doria

25/10/2005 na edição 352

‘Sexta-feira, dia 28, Bruna Surfistinha completará 21 anos. Aí se aposenta. Está planejando a mudança, e juntando dinheiro para isto, desde o início do ano. Trabalhou vendendo sexo três anos, dez dias. No dia em que saiu de casa, brigada com a mãe, brigada com o pai, ainda tinha 17. Aquele aniversário, completou-o internada num privê paulistano. Seu primeiro nome na vida foi Fernanda.

Tentei falar com Bruna estes últimos dias, mas o celular já estava fora do ar, sem caixa postal. Também não respondeu às mensagens no email profissional nem no pessoal. Talvez quisesse, enfim, encerrar os trabalhos.

Nós nos conhecemos por telefone, em agosto de 2004. Eu havia passado as semanas anteriores cruzando a Internet atrás de uma prostituta que parecesse interessante para contar sua história. Quaisquer pessoas que vivam em situações extremas têm algo para contar. Encontrei-a no GPGuia, um fórum em que clientes resenham e avaliam o desempenho de garotas de programa.

Bruna era a campeã de votos. Não era sua técnica que elogiavam: ela era meiga, carinhosa. Então encontrei o blog

– foi o primeiro de uma garota de programa no Brasil. A menina se expressava bem. Conversamos por pouco mais de uma hora. Me contou que era adotada, não me convenci. Também disse que gostava do trabalho quase sempre, acreditei.

Cinco clientes por dia, cinco dias na semana

Nós nos conhecemos pessoalmente no início de abril deste ano, no flat em que vive, em Moema. Estavam lá ela, sua amiga Gabi com quem dividia o apartamento, um poodle, uma gatinha angorá. Seu telefone fixo tinha a forma de Hello Kitty. Na parte de baixo, a decoração tinha um pouco de quarto de adolescente; no mezanino, uma cama de casal e, à cabeceira, uma foto sua com os seios nus, camisinhas e um tubo de lubrificante. No banheiro da suíte, um frasco de litro de uma loção bucal.

Gabi foi uma amiga especial, um dos pequenos segredos de Bruna. Foi Gabi, nos primeiros dias de carreira da amiga, quem disse que sua cara não era de Fernanda, mas de Bruna. Conhecia o nome de verdade, sempre a chamou de Bruna. Gabi deixou a vida e assumiu a casa. Cozinhava, atendia o celular enquanto a amiga trabalhava em cima. Muitos combinaram encontros com ela achando que conversaram com Bruna. Era o truque para atender sempre como se nunca trabalhasse. As duas dormiam na mesma cama. Embora eventualmente tenham feito um ou outro programa juntas, não eram amantes. Amigas.

Bruna trabalhou muito. Cinco clientes por dia, cinco dias na semana – e isto só depois que, pelo blog, conseguiu trabalhar por conta própria. Nos privês, era mais por menos. Tinha planos de conseguir juntar 100 mil reais até encerrar. No início pensava em reunir 500 mil, mas o tempo foi tornando a quantia mais modesta. Estava a meses, eternamente adiados, de encerrar o supletivo que lhe garantiria o segundo grau.

A Bruna que conheci em Moema era uma menina muito séria, ensimesmada. Jamais reticente: não evitava perguntas; no máximo, pedia que uma coisa ou outra não fosse publicada. Evitou uma: em todas nossas conversas, nunca contou o que fez para forçar a briga em casa que terminou na fuga. Parecia muito grave, talvez nem tenha sido. Em Moema, ela não era uma menina de 20 anos, claro que não. Meninas de 20 anos da classe média urbana, do tipo que ela seria se não tivesse deixado a casa dos pais, estão atrás de estágio, tentando ainda aprender como se portar no ambiente de trabalho. Bruna era segura, de uma segurança conformada.

E ela fazia análise, uma vez por semana

Tinha acabado com o namorado meses antes. Uma hora, enquanto descíamos a Avenida Moema até a praça, perguntei-lhe se gostava mesmo do serviço. Ela não disse nada, fez que não com a cabeça, sorriu. ‘Mas não escreve isso não, eles não vão entender.’ Talvez em algum período tenha gostado, talvez no fim já estivesse cansada. Parecia cansada.

Mas a sua não era uma tristeza de a vida estar num buraco negro. Na verdade, Bruna falava com um certo orgulho de suas aparições várias na imprensa, seus ‘quinze minutos’. ‘Eu tenho coisas para contar’, dizia. Deixava a impressão de que cada entrevista era uma sessão de análise, uma tentativa de recontar sua história para compreendê-la melhor. E ela fazia análise, uma vez por semana.

Tinha planos, planos muito bem definidos e planos vagos. Queria um amor. Isto, encontrou. Um ex-cliente, Pedro. Gabi deixou o flat, Pedro se mudou. Bruna queria demais isto, precisava desta companhia para uma nova vida. Queria também se reencontrar com os pais.

Na verdade, era preciso provocá-la para que falasse da mãe. Era seu pai quem vinha sempre à tona. A mãe, a seu ver, perdoaria – o pai é que não. O pai é quem lhe deu uma surra antes que fugisse de casa; o pai é quem deixou de falar com ela primeiro; o pai é quem não permitiria seu retorno. Bruna foi se expondo aos poucos. Primeiro no blog. Em sua primeira entrevista, não quis mostrar o rosto. Quando mostrou, nas páginas da revista ‘Época’ e de tantas outras depois, era para que os pais a vissem. Para que viessem. Não vieram. Em nossa última conversa, decidiu me contar seu nome. Perguntei se poderia publicá-lo. ‘Ainda não’, ela respondeu.

A psicologia era outra de suas obsessões. O dinheiro que juntou serviria para sustentar-se e ao curso, que talvez faça agora. O livro que escreve há tanto está pré-acordado com uma editora carioca. A letra de Bruna, no caderno em que anotou rigorosamente cada cliente que teve e o que fez no programa, era uma letra redonda de menina. Escrevia em rosa e em azul bem claro. Não anotava os nomes, não sentia ter o direito. Anotava pela estatística. Queria saber quantos foram.

O quanto do que conta é verdade ou o quanto é mito que criou para se sustentar, não sei. Ela tem em mente substituir a vida por um site para outras garotas de programa. Tem experiência nisso, é inteligente, aprende rápido. Bruna não tem nada de amarga. Perguntei-lhe mais que uma vez como conseguia ser carinhosa com tantos, em seqüência, num mesmo dia, todos os dias. Ela nunca soube responder. Mas aí, de alguns, sorria e falava com carinho, observava a timidez deste, o sem jeito do outro.

Ela manterá o blog, agora para dizer como anda. Há quem pense que prostitutas não se aposentam nunca. Se cumprir suas promessas todas, talvez em espírito realmente nunca tenha se aposentado. Na rede, Bruna Surfistinha continuará existindo.’



CELEBRIDADES & MÍDIA
Joaquim Ferreira dos Santos

‘Quadrado da hipotenusa’, copyright O Globo, 24/10/05

‘O telefone tocou aqui na redação do GLOBO, devia ser ali pelas duas e lá vai fumaça da tarde, e do outro lado da linha era a bela atriz madura que no jornal daquela manhã aparecia numa foto maravilhosa em conluio amoroso, de santa paz doméstica, com seu cachorrinho de estimação. Trocavam afagos, nem aí para a insanidade lá fora. Não tem mais que duas semanas. Não é bem uma crônica, aconteceu de fato. Saiba agora dos bastidores.

Na foto, cachorro e artista curtiam-se, jogados num gramado da bela mansão dela, a atriz de cinema que agora está ao telefone, os dois clicados numa cena de confraternização explícita que deveria inspirar um monte de leitores a seguir o exemplo. Essa era a idéia da coisa quando o colunista gente boa resolveu publicar a foto. Acordar o cidadão comum com um flagrante de bom-dia, um pedido gentil de ‘se põe de pé, meu nego’, ‘acorda, Maria Bonita’, que vai valer a pena encarar toda essa rotina de novo. Teu chefe é maneiro. Desencarna. Mire-se nessa foto e faça o mesmo com o seu destino. Cante comigo o ‘solte-se, liberte-se, abrace nessa vida o que ela tem de melhor’, um grito de guerra que tirei do jingle do Rexona nos anos 70 e mandei cunhar como palavra de ordem no frontispício do meu cafofo. Relaxa.

Pois agora, depois de ver a sua foto espetacular publicada de um lado ao outro da página na edição da manhã, a famosa atriz está ao telefone querendo falar comigo, o responsável por ter colocado aquela imagem de livro de auto-ajuda em 300 mil exemplares de jornal – a cena de uma mulher madura, ainda extremamente sedutora, mais seu animal de estimação, em completo desarmamento de espíritos, os dois saudando uma existência amorosamente cúmplice e brincalhona. Era o clichê da imagem que vale por mil palavras, no caso uma palavra só repetida ao infinito por ser a melhor de todas: felicidade.

Preparei os ouvidos para receber os agradecimentos de praxe, pois sei que ainda existe gente movida pela gentileza e a conjugação generosa do verbo muitobrigado em todos os seus tempos. Eu disse ‘alô’. Devo confessar, a vida de um colunista tem tantos telefonemas de dissabores e processos judiciais que, no antegozo de um telefonema positivo, tive vontade de dizer ‘Hello Moto’ – mas achei que ainda não era hora de ela saber quão engraçado eu sou. Eu disse ‘alô’. Ponto. Ela disse ‘alô’ também. Eu não agüentei e comecei a mostrar meus trunfos de cara espirituoso. Disse: ‘Te vi no jornal hoje’. Ela sorriu em ha-ha-ha e completou brincalhona que também tinha se visto.

Boa atriz, carregando de ternura todas as pausas entre as palavras que se seguiriam, ela perguntou de mansinho:

– Mas, Joaquim, precisava ter me colocado barriguda?

A vida de um colunista de jornal move-se por princípios muito subjetivos, e essa é a graça da profissão. Não é ciência exata. Aqui, a soma do quadrado dos catetos nem sempre é o quadrado da hipotenusa. Vareia muito, e quanto mais melhor. Longe de um laboratório de fórmulas rígidas, uma coluna de jornal lembra mais uma cozinha experimental de ‘Cláudia’. Misturam-se alhos com bugalhos para que ao final a comida servida ao leitor, aparentada com a dos outros chefs da profissão apenas pelo molho comum da ética e o sal dos bons princípios, fique com uma cara especial. O resto, como se diz nas receitas, é ao gosto.

Não é da pauta básica do negócio jornalístico passar mensagens de felicidade e esperança na Humanidade. Pelo contrário. Os jornais estão cheios de fatos garantindo que o Homem não deu certo. Fracassamos. Quando aparece um registro de esperança na forma de uma mulher em êxtase feliz com seu cachorrinho igual, aí é hora de aproveitar rápido o flagrante e mandar parar as máquinas. Extra! Extra! A paz é possível!

Foi então, no júbilo da descoberta, de que havia um sopro de felicidade a ser enviado ao café da manhã do assinante, foi aí que eu não notei o pneuzinho dela. Sedento que estava em imprimir nas retinas nacionais a poesia de todos os outros cantos da foto, não notei a adiposidade supra-abdominal da atriz. Foi, claro, a primeira coisa que ela viu quando abriu o jornal. E agora, com um jeito elegante, divertido e cheio de sorrisos em ha-ha-ha (há mulheres que sorriem em he-he-he, cuidado com elas!), a atriz madura usava sua voz mais sedutora para me assoprar do outro lado do telefone um punhado de entrelinhas que explicavam um dos princípios básicos da feminilidade.

Ela não queria ser amada, passar mensagem de confraternização com os diferentes ou reconhecida como gente boa. Coisa nenhuma. Isso fica muito bonito na biografia da Madre Teresa de Calcutá. A atriz madura queria ser varrida de desejo pelos olhos da platéia e não por e-mails cumprimentando-a pela simbiose gloriosa, a sinergia digna, com o mundo animal. A barriguinha, compreendi tarde demais, abalava esse propósito.

Deve ser uma mulher dos seus 60 anos e, no subtexto de sua doce reclamação, ela tentava explicar ao garoto do outro lado do telefone que jornalismo era uma coisa, mas havia na vida real matérias mais importantes que ele precisava aprender. Definitivamente, a bela atriz madura não estava nem aí para a nobre paz que o abraço no cãozinho doméstico informava como lição a esse mundo conturbado de lá de fora. Tudo passa, o corpo muda – mas ela continuava, e para sempre continuaria, privilegiando ser açoitada, vasculhada, pelo desejo do outro. É da índole, de princípio, da espécie e motivação.

Balbuciei alguma coisa do tipo ‘foi mal’, sem garantir que da próxima vez seria diferente. Eu sei, ela sabe, quem não? O jornalismo, como tudo que é masculino, deixa muito a desejar.

***

Na quarta-feira, a partir das 19h30m, lanço na Maria Bonita Extra, na Aníbal de Mendonça 135, Ipanema, o livro ‘Em busca do borogodó perdido’. Estão todos convidados. O livro, eu não garanto. O bufê do coquetel, de Celina Mello, é ótimo. Apareçam.’



NYT EM CRISE
Sérgio Dávila

‘‘Times’ é arrogante, diz ex-ombudsman’, copyright Folha de S. Paulo, 23/10/05

‘Os vários problemas pelos quais o mais influente jornal do mundo vem passando têm uma só raiz: arrogância. A opinião é do primeiro ombudsman a ocupar o cargo no ‘New York Times’, lá chamado de ‘editor público’, função criada na esteira dos escândalos que começaram a chacoalhar o diário em 2003.

Daniel Okrent, 57, não era funcionário do ‘Times’ quando assumiu a função, com um mandato pré-combinado de 18 meses, do qual se despediu em maio último.

Autor de vários livros, um dos quais lhe valeu uma indicação ao importante prêmio Pulitzer, fez sua carreira jornalística mais em revistas como a ‘Time’ e a extinta ‘Life’. Sua última obra foi ‘Great Fortune: The Epic of Rockefeller Center’ (‘a grande fortuna: o épico do Rockefeller Center’), publicado pela editora Viking Penguin, em 2003.

Ele conversou com a Folha sobre a repórter Judith Miller, que passou de vilã a mártir e a vilã de novo em menos de um ano (leia texto nesta página).

Falou por telefone de Manhattan, onde faz pesquisa para um livro sobre a Lei Seca, a sair em 2008, prepara a coletânea de seus artigos como ombudsman e treina palestras que dá pelo país cujo tema é: ‘Como sobrevivi às entranhas do ‘Times’.

Folha – A repórter Judith Miller foi assunto principal de três colunas suas durante seu mandato como ombudsman. O sr. já tinha a sensação de que ela poderia vir a ser um problema para o jornal?

Daniel Okrent – Ela já era um problema! Antes mesmo de eu assumir. Aliás, continuo achando que a repórter é um problema que o jornal terá de resolver…

Folha – Em um desses artigos, chamados ‘Armas de Decepção em Massa’, o sr. foi extremamente rigoroso com ela. Que resposta ou reação teve da repórter então?

Okrent – Ela foi cordial comigo, apesar de tudo. Não houve sinal de hostilidade. Eu a entrevistei por duas horas, então qualquer admissão de culpa estaria transcrita no meu texto. Ou seja, não houve mea culpa, não.

Folha – Ela mentia, o sr. acha?

Okrent – Creio que ela tenha sido sincera e franca comigo, não achei que tentou me enganar em nenhum momento. O que penso hoje é que ela tentava se enganar a si mesma.

Folha – Em sua última coluna, o sr. escreveu que a perspectiva de Judith Miller ir para a cadeia era ‘nauseante’. O sr. ainda pensa da mesma maneira, hoje em dia?

Okrent – Sim. Isso não quer dizer que eu aprove o jeito de ela ser como repórter. Mas a noção de jornalistas indo para a cadeia é nauseante para mim, qualquer um.

Folha – O atual ombudsman, Byron Calame, ex-’Wall Street Journal’, vem ignorando a polêmica em relação a Judith Miller desde que ela saiu da cadeia. Se estivesse ainda em seu cargo, faria o mesmo? Aliás, o sr. sente falta de lá?

Okrent – Começando pelo fim, não. Estou satisfeito (risos). Estava combinado desde o começo que seriam apenas dezoito meses, que, passado esse tempo, eu continuaria com minha vida. Quanto à primeira parte da pergunta, sim, é um assunto muito interessante. Mas outros assuntos me interessam além do ‘New York Times’…

Folha – Qual sua opinião pessoal sobre Judith Miller?

Okrent – Prefiro não comentar nada, sofreria muita pressão.

Folha – Em sua visão, qual é o principal problema do ‘New York Times’ de hoje e de então?

Okrent – É difícil resumir numa frase, havia então uma gama de problemas com o jornal naqueles dias. Alguns deles surgiram por razões as mais variadas. Mas diria que o principal problema do ‘Times’ é a arrogância, aquela crença de que o jornal está acima de qualquer crítica. E não reagir às críticas, internas ou externas.

Folha – E esses problemas diminuíram desde a sua saída?

Okrent – (Risos) Bem, acho que a própria criação do cargo de ombudsman ajudou muito.

Folha – Há rumores de que os acionistas da empresa estão pedindo a cabeça de Arthur Sulzberger Jr., CEO da The New York Times Company, por conta dos seguidos problemas na Redação, agravados pela diminuição na venda e na publicidade do jornal e na queda dos lucros da empresa. Isso é plausível?

Okrent – Bem, primeiro temos de nos lembrar que os únicos acionistas que têm poder de mando na sociedade são os membros da família Sulzberger, cerca de 30 parentes. Eles controlam a votação dos acionistas. E, se você não falou com alguém que esteja na sala na hora da discussão desse grupo, não dá para confiar muito nos rumores. Mas talvez eles tenham pedido a cabeça mesmo, talvez eles estejam realmente descontentes.

Mas o importante é lembrar que, mesmo acontecendo em uma empresa de capital aberto, as decisões dentro do ‘New York Times’ são familiares, não de acionistas.

Folha – O sr. tem dado palestras sobre seu período no ‘Times’ pelo país. Qual a pergunta mais recorrente dos espectadores?

Okrent – ‘Conte-me tudo sobre a Judith Miller’.

Folha – E qual a sua resposta?

Okrent – (Risos) É uma resposta longa e complicada… Eu prefiro não dizer.’



***

‘Problemas no ‘New York Times’ vêm de longe’, copyright Folha de S. Paulo, 23/10/05

‘No longínquo dia 4 de novembro de 2000, o jornal ‘The New York Times’ escreveu um editorial sobre o futebol brasileiro em que chamava, no texto inteiro, Ronaldo de Romário. Este era o menor de seus problemas. Na mesma época, viria à tona o ‘escândalo do espião chinês’, reportagens baseadas em dados dúbios do FBI que afirmavam que o cientista Wen Ho Lee, que trabalhava no Laboratório Nacional de Los Alamos, era espião. Ele seria solto depois, livre das acusações.

Mas o pior estava por vir. Jayson Blair, então um jovem repórter em ascensão, foi pego em flagrante, e, na primeira do que viria a ser uma série de ‘reportagens-erramos’, o jornal admitiu que Blair errou, plagiou ou mentiu em 36 situações, pelo menos. Foi demitido, e com ele caíram os principais executivos da Redação.

O golpe, chamado pelo próprio publisher, Arthur Sulzberger Jr., de ‘o ponto baixo nos 152 anos de história do jornal’, abriu uma crise interna sem precedentes, que reverberou nos leitores e culminou na criação do cargo de ‘public editor’, ou ombudsman, em outubro de 2003, cujo primeiro ocupante foi Daniel Okrent.

Uma de suas colunas mais violentas foi publicada em 30 de maio, com o título ‘Armas de destruição em massa? Ou distração em massa?’, em que ele questionava as fontes e o relacionamento com o poder da jornalista que publicou as principais reportagens sobre o assunto pré-invasão do Iraque pelo governo Bush, sempre com um tom favorável.

O nome dela? Judith Miller. Nova ‘reportagem-erramos’ se seguiu, em que o jornal pedia desculpas a seus leitores por não ter sido ‘mais crítico’ em relação aos argumentos do governo antes que a invasão ocorresse, não depois.

Então, surgiu o caso do vazamento da Casa Branca de que a mulher de um ex-embaixador americano que vinha escrevendo artigos críticos ao fato de o governo não ter encontrado até hoje tais armas era uma espiã da CIA. Dois repórteres ouviram o nome dela, um deles o publicou -um crime federal.

A outra não publicou, mas decidiu não dizer ao juiz quem era sua fonte. O nome da jornalista? Judith Miller. Pela recusa, foi para a cadeia, onde ficou 85 dias, até o dia 29 último. No período, Sulzberger escreveu 15 editoriais defendendo-a, e ela virou uma espécie de ‘mártir’ da profissão, uma vez que seu colega, da revista ‘Time’, revelou a fonte e evitou a prisão.

A história piora um pouco. Agora, a fonte veio a público e revelou que, desde antes de ser presa, a repórter tinha sua autorização por escrito para revelar seu nome. É o chefe-de-gabinete do vice-presidente Dick Cheney, Lewis ‘Scooter’ Libby. Judith Miller preferiu ir para a cadeia.

Há três meses, uma consultoria global publicou resultado de pesquisa feita com empresários, formadores de opinião e políticos de 50 países segundo o qual o ‘New York Times’ não é mais o primeiro jornal em prestígio global: está em sétimo lugar; os dois primeiros são os econômicos ‘Financial Times’ e ‘Wall Street Journal’.

Procurado pela Folha, o segundo e atual ombudsman do ‘New York Times’, Byron Calame, respondeu por e-mail que não trataria do assunto com o repórter, mas poderia vir a fazer em sua coluna -provavelmente a de hoje. Judith Miller não respondeu pedidos de entrevista feitos.’



Folha de S. Paulo

‘Editor critica Miller em e-mail a jornalistas’, copyright Folha de S. Paulo, 23/10/05

‘O editor-executivo do ‘New York Times’, Bill Keller, enviou à equipe do jornal um extenso e-mail na noite da última sexta-feira sobre o caso Judith Miller, a repórter envolvida no vazamento do nome de uma espiã cujo marido denunciou como falsas acusações do governo Bush contra o Iraque. O texto traz críticas à jornalista, aponta falhas da publicação e faz um mea culpa sobre os recentes escândalos que colocaram o ‘Times’ na linha de fogo dos críticos.

No e-mail, Keller também lamenta que não tenha agido de maneira mais clara e incisiva na admissão de erros do jornal sobre a inexistência de armas de destruição em massa no Iraque.

‘Além de algumas ocasiões em que eu gostaria de ter escolhido minhas palavras com mais cuidado, levantamos alguns pontos diante dos quais gostaríamos de ter tomado decisões diferentes’, escreve. ‘São casos que, vistos com a clareza possibilitada pela distância, mostram erros dos quais podemos tirar lições.’

‘Eu não sabia que Judy era uma das repórteres na ponta receptora da campanha de rumores contra [a espiã Valerie] Plame’, admite, dizendo que só tomou conhecimento do fato quando a jornalista foi intimada a depor. ‘Gostaria que, ao saber que Judy Miller havia sido intimada como testemunha, eu tivesse me sentado com ela, feito uma extensa entrevista sobre o que ela sabia do caso e prosseguido com minha própria apuração’, desculpa-se.

‘Em outros casos poderia estar correto confiar aos advogados o teor das entrevistas e anotações em questão. Mas, nesse caso, eu não prestei atenção no que deveria ser um alarme óbvio’, continua Keller.

O editor-executivo afirmou que o jornal provavelmente teria defendido sua repórter em qualquer situação, já que ‘é um instinto natural e apropriado defender um repórter quando o governo tenta interferir em seu trabalho’. ‘Mas, se eu soubesse dos detalhes do envolvimento de Judy com [Lewis] Libby [assessor do vice-presidente Dick Cheney], eu teria tomado mais cuidado no modo como o jornal articulou sua defesa.’

Numa crítica direta a Miller, Keller cita um e-mail que recebeu de um de seus colegas como o que teria sido o modo ideal de lidar com o caso: ‘Há, ou deveria haver, um contrato entre o jornal e seus repórteres pelo qual o jornal os apóia institucionalmente, mas só até o momento em que o o repórter cumpre a sua parte, especificamente ao manter-se dentro de um padrão legal, ético e jornalístico consistente, sendo aberto com o jornal sobre suas fontes, erros, conflitos e similares, e que faça por merecer todos nós arriscarmos nossa reputação’.

O editor encerra colocando em questão o modo como o jornal lida com notícias a seu próprio respeito e indagando o quanto isso pode ferir o interesse do leitor.’



MÍDIA & RELIGIÃO
Volkhard Windfuhr e Bernhard Zand

‘‘Deus desapareceu no Ocidente’’, copyright O Estado de S. Paulo / Der Spiegel, 23/10/05

‘O xeque Yusuf al-Qaradawi, nascido no Egito, vive desde 1961 no Catar, onde chefia o Departamento de Direito Islâmico da Universidade de Doha. Por meio do programa Sharia e Vida, na TV árabe Al-Jazira, e do website Islam Online, ele atinge um público de milhões em todo o mundo muçulmano. Der Spiegel conversou com o xeque de 79 anos sobre terrorismo, excessos da modernidade no Ocidente e por que lançar aviões contra edifícios é inaceitável.

O sr. é considerado um dos mais influentes acadêmicos islâmicos contemporâneos, mas nem mesmo suas palavras são absolutas. O Islã precisa de um líder espiritual inconteste – um papa muçulmano?

A maioria dos muçulmanos gostaria de uma autoridade central como essa, a fim de evitar o debate constante sobre opiniões contraditórias e extremistas de estudiosos. Mas não temos um papa. Temos a Ulama, a associação dos acadêmicos. Para proteger a unidade do Islã, precisamos urgentemente chegar a um consenso sobre as grandes questões de nosso tempo: terror, ocupação e resistência. Demos um primeiro passo em julho de 2004, com a fundação de uma união mundial de estudiosos do direito islâmico. Fui eleito presidente e meus vices são um sunita, um xiita e um abadita (ramo do Islã predominante em Omã).

Mas ninguém no mundo islâmico impede que homens como Osama bin Laden ou Abu Musab al-Zarqawi – o representante de Bin Laden no Iraque – se apresentem como imãs e preguem o ódio.

Uma pessoa não pode simplesmente denominar-se imã ou mufti e emitir fatwas (decretos religiosos) segundo seus caprichos. Há claros pré-requisitos para esta posição, envolvendo experiência profissional, histórico acadêmico e caráter.

Pessoas como Bin Laden ou Zarqawi tendem a não se preocupar com isso. Mas exercem enorme influência sobre a imagem do Islã.

A vasta maioria dos estudiosos muçulmanos condena os atos de Bin Laden. Só uma pequena minoria o apóia. O que ajuda sua reputação, mais ainda que a opinião de estudiosos, é a injustiça que atinge os muçulmanos todo dia – sobretudo na Palestina. Vocês subestimam isso no Ocidente: a parcialidade do apoio americano a Israel tem conseqüências devastadoras.

Desde os atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA, terroristas mataram milhares em nome de Alá. O Islã diz ser uma religião de compaixão e bondade. Onde está a indignação com esses atos?

Fui o primeiro a condenar os crimes do 11 de Setembro – antes mesmo que estivesse claro, para muitos, que a Al-Qaeda estava por trás dos ataques. Certamente há uma diferença entre a violência usada num ato terrorista cego e aquela usada numa rebelião contra uma força de ocupação estrangeira.

Que diferença faz, para uma criança morta por uma bomba no Iraque, na Chechênia ou em Israel, o fato de o assassino ser um terrorista ou um combatente da resistência?

Apenas para evitar mal-entendidos: no Islã, existem regras claras para proteger os civis, mesmo em tempos de guerra. Não se permite que pessoas não envolvidas na luta sejam atacadas. Quando o Profeta soube que uma mulher fora morta durante uma batalha, ficou furioso e emitiu ordens que ainda são seguidas hoje: nunca matar mulheres, nunca matar crianças, nunca profanar os mortos. Nesse édito, fica claro que é um crime transformar aviões lotados em mísseis e usá-los para destruir edifícios.

Por que nenhum juiz ou lei muçulmana expulsou oficialmente Bin Laden e seus seguidores da religião?

Condenamos seus atos, mas oponho-me categoricamente à idéia de expulsão. Expulsá-los seria cometer o mesmo pecado que eles cometem: eles querem transformar a nós e seus outros críticos em hereges. Chegará o dia em que terão de submeter-se ao cádi (juiz islâmico), mais ainda não avançamos tanto. Primeiro temos de decidir quais deveriam ser seus juízes.

O aiatolá Ruhollah Khomeini, do Irã, não passou muito tempo discutindo essas questões quando emitiu uma fatwa determinando a morte do escritor Salman Rushdie.

Rushdie difamou a honra do Profeta e sua família e manchou os valores do Islã.

E quanto a Zarqawi, que não só decapita vítimas indefesas, como também filma os assassinatos?

Ele trouxe ao Islã a maior vergonha imaginável. Para nós, é um criminoso. Nunca será demais condená-lo.

Os clérigos islâmicos ortodoxos não teriam perdido sua autoridade?

De modo nenhum. Há um novo espírito no Islã que se volta contra os excessos do modernismo, mas também contra o radicalismo exagerado. Também somos modernos e também lucramos com as grandes invenções que vieram do Ocidente, com a revolução da era da informação e a comunicação global.

No entanto, apesar da superioridade tecnológica do Ocidente, vocês se sentem moralmente superiores.

Condenamos o materialismo excessivo do Ocidente. Deploramos a perda da solidariedade e da fraternidade, a decadência da moral e as violações diárias da dignidade humana. Deus desapareceu – quase todos no Ocidente deixaram de falar sobre Ele. Há um ano, houve uma manifestação contra mim em Londres porque falei contra a homossexualidade. As pessoas parecem ter esquecido que não fui eu quem criou esse modo de pensar. É parte da ordem de Deus transmitida por Moisés e mencionada até por Jesus.

Em Berlim, um pregador muçulmano foi filmado recentemente afirmando que os cristãos não têm o direito de ir para o céu.

Isso é totalmente absurdo e inaceitável. Todos os devotos das religiões reveladas – muçulmanos, cristãos e judeus – vão para o Paraíso se forem honrados e acreditarem em Deus. Tampouco existe algo dizendo que eles não podem viver uns entre os outros nem se casar. Mas isso, é claro, não muda o fato de que o Islã é uma religião que oferece a salvação a toda a humanidade.

O sr. compartilha do objetivo dos islâmicos radicais de criar um vasto Estado islâmico para todos os muçulmanos?

O Islã é uma só nação, só existe uma lei islâmica e todos rezamos para um só Deus. Tal nação acabará se tornando também uma realidade política. Mas ainda não se sabe se ela será uma federação de Estados já existentes, uma monarquia ou uma república islâmica.

Graças a seus programas semanais na TV Al-Jazira, o sr. se transformou numa personalidade importante para milhões de muçulmanos na Europa. Eles devem obedecer às leis dos países onde vivem, sem exceções?

A fim de resolver esse problema, fundamos o Conselho Europeu para a Fatwa e a Pesquisa – do qual sou diretor – há oito anos, em Londres. A cada conferência, conclamamos os fiéis a obedecer às leis dos países onde vivem. Eles se comprometeram a fazer exatamente isso quando foram para a Europa. E também são obrigados a respeitar a propriedade dos não-muçulmanos. Onde quer que vivam, os muçulmanos têm a obrigação de integrar-se à sociedade – e aceitar aquilo que a sociedade exige deles – sem abandonar sua fé. (Tradução de Alexandre Moschella)’

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