Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 22 E 23/04

Primeira Leitura

25/04/2006 na edição 378

CRISE POLÍTICA
Imprensa, 24/04/06

Reinaldo Azevedo

‘Nelson de Sá, colunista da Folha que faz resumo de jornais, sites e blogs, voltou a chamar Primeira Leitura de ‘site tucano’ na edição desta segunda-feira. A classificação não chega a ser ofensiva, mas é falsa. Segundo a Ilustrada, em reportagem recentemente publicada que até considerei simpática, sou ainda um representante da ‘nova direita’.

Nem tudo o que penso está lá, mas não se publicou nada que eu não pense. Se, feitas as contas, para quem redigiu a matéria, tenho jeito de neodireitista, é uma prerrogativa do repórter. Nada a fazer. Assim, vejam só, sou ‘tucano’ e ‘de direita’, não ficando claro se o conectivo, aí, bastaria para dar conta da realidade ou se, mais apropriadamente, se pretenderia dizer: ‘Tucano, logo de direita’. Tal leitura tem história e tem marca: é petismo.

Há uma diferença entre tachar alguém de ‘direitista’ e de ‘tucano’. Num caso, um veículo ou um jornalista teria certa visão de mundo afinada com teses que são reconhecidas como ‘direitistas’, ‘conservadoras’ ou que sinônimo for do agrado do redator. No outro, trata-se de afirmar que o veículo, site, blog ou revista está a serviço do PSDB. A Folha já chegou até a ‘provar’ que Primeira Leitura foi especialmente beneficiada por verba publicitária da Nossa Caixa, que seria manipulada por aliados de Geraldo Alckmin, embora fosse claro o nosso apoio à então pré-candidatura de José Serra à Presidência. Das duas uma: ou ex-governador era bobo ou Primeira Leitura, além de atuar a soldo de alguém, ainda trai a confiança de quem o financia. Somos horríveis.

No domingo, Clovis Rossi, editorialista do jornal, escreveu um artigo intitulado Viva a ‘Revolução’. Numa atitude de ironia defensiva, antecipou que poderia ser objeto do ‘fuzilamento ritual’ da ‘patrulha da direita’. Como ‘neodireitista’, até me assanhei a pegar em armas retóricas, mas deixei para lá. Estava muito ocupado. Interessante: quem discorda de Rossi pertence a um pelotão de fuzilamento direitista; mas é claro que quem discorda de alguém considerado direitista está apenas ungido pelo bom senso, está cumprindo um dever cívico: jamais poderá ser classificado de ‘esquerdista’. Quem o fizer estará praticando ‘macarthismo’.

E o que Rossi dizia? Endossou as palavras de João Paulo Rodrigues, uma das vozes mais radicais e estridentes do MST (leia artigo na íntegra). Escreve o articulista: ‘Não dá para discordar de João Paulo Rodrigues, líder do MST, quando ele diz o seguinte: ‘Nós não entendemos a revolução como a tomada do Estado através de armas. Isso já está superado. Nós entendemos a revolução como uma forma de resolver a desigualdade social. Compreendemos que só é possível fazer isso no Brasil conjugando luta com o processo eleitoral’.

Como não dá? É claro que dá. Não dá se você concorda. Como eu não concordo, então discordo. Rodrigues, com a concordância de Rossi, tenta edulcorar o caráter violento e antidemocrático do MST, o mesmo movimento que agora invade terras produtivas e que, há dias, levou a barbárie a um laboratório da Aracruz – com as bênçãos de um bispo: dom Tomás Balduíno. Uma leitura rápida dos textos que orientam o formato que a ‘revolução’ de esquerda tomou nas últimas décadas vai indicar que a luta armada, com efeito, se tornou desnecessária. Não é preciso recorrer às armas para solapar a democracia, e Hugo Chávez sabe muito bem disso. Com efeito, ele não chega a ser o líder esquerdista sonhado pelos mais requintados. Mas é o que se tem à mão. Então vai ele mesmo

Rossi também acha – com o MST – que o Brasil ainda é ‘semifeudal’ em muitos aspectos. Eis uma tese, quero crer, impossível de ser provada. O debate teórico no terreno da esquerda sobre esse assunto já tem bem umas cinco décadas. Quem matou a questão a pau, imaginem vocês, foi Jacob Gorender, um comunista, com o livro O Escravismo Colonial, que elimina de vez a suspeita de que tenha havido qualquer coisa como ‘feudalismo’ no Brasil. Informa a livraria Cultura que o livro está esgotado. Até que não seja relançado, posso emprestar o meu para tirar cópia.

O articulista pede calma e observa que a fala de Rodrigues não é a de um ‘bolchevique’. Nem poderia, dada a origem de sua luta. Rodrigues estaria mais para um maoísmo retardatário. Mas essa nomenclatura é bobagem. O que interessa é saber se o homem está disposto a lutar dentro ou fora da lei. Escreve Rossi para meu espanto: ‘Mas a frase de Rodrigues traz, embora diluída, a idéia de que a lei é o limite ao descartar a ‘tomada do Estado através de armas’. Isso não se prova nem teórica nem praticamente. Do ponto de vista puramente conceitual, quem disse que a única maneira de desrespeitar a lei é pegando em armas? No que concerne à prática, Rossi está dizendo que o MST está renunciando, então, a seus métodos de luta? A invasão da Aracruz foi legal? Ou lhe basta que Rodrigues pisque para a lei com um olho e saia invadindo propriedades privadas?

Pronto! Fiz o ‘ritual de fuzilamento’ que Rossi previa porque, afinal de contas, sou um neodireitista. E evoluirei rapidamente à condição de um macarthista se eu afirmar que ele endossa a prática do MST e tudo o que dela deriva, incluindo o arsenal de corpos para a história do martírio dos oprimidos. E será detestável se eu disser que ele se tornou um ‘sem-terra’. É claro que, doravante, não escreverei assim: ‘O articulista sem-terrista (emessetista?) Clóvis Rossi…’. Mas o De Sá pode lascar na sua coluneta: ‘site tucano Primeira Leitura…’.

Não estou recorrendo a Rossi para responder a Nelson de Sá. É que, no texto do editorialista, existe ao menos o esboço de uma idéia, ainda que equivocada. E esse esboço me serve de exemplo para demonstrar que a patrulha só é justa se for para tentar desqualificar aqueles que a esquerda considera ‘direitistas’ ou ‘tucanos’.

Volto a um texto que escrevi aqui dia desses. Se Primeira Leitura tivesse uma caderneta e uma régua para distribuir de forma contábil e centimétrica críticas e elogios ao PT ou ao MST – flertando, de vez em quando, com as transgressões de ambos ao Estado de Direito -, seria, claro, um site isento. Como não abre mão dos 100% de convicção de que a promoção da ilegalidade não torna o país melhor, então só pode ser ou ‘tucano’ ou ‘neodireitista’.

Gente que promove invasão de um laboratório ou de propriedade privada tem é de estar na cadeia – ainda que Rodrigues recite de cabo a rabo a Constituição americana (‘Nós, o povo…’) e A Democracia na América e reze cinco Salve-Rainha e 10 Creio em Deu Pai (para agradar à ‘Escatologia da Libertação’ de Dom Balduíno). Não vamos elogiar o seu maroto (e falso) elogio à legalidade só para que os coleguinhas nos considerem ‘isentos’.’



******************

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‘Nelson de Sá, colunista da Folha que faz resumo de jornais, sites e blogs, voltou a chamar Primeira Leitura de ‘site tucano’ na edição desta segunda-feira. A classificação não chega a ser ofensiva, mas é falsa. Segundo a Ilustrada, em reportagem recentemente publicada que até considerei simpática, sou ainda um representante da ‘nova direita’.

Nem tudo o que penso está lá, mas não se publicou nada que eu não pense. Se, feitas as contas, para quem redigiu a matéria, tenho jeito de neodireitista, é uma prerrogativa do repórter. Nada a fazer. Assim, vejam só, sou ‘tucano’ e ‘de direita’, não ficando claro se o conectivo, aí, bastaria para dar conta da realidade ou se, mais apropriadamente, se pretenderia dizer: ‘Tucano, logo de direita’. Tal leitura tem história e tem marca: é petismo.

Há uma diferença entre tachar alguém de ‘direitista’ e de ‘tucano’. Num caso, um veículo ou um jornalista teria certa visão de mundo afinada com teses que são reconhecidas como ‘direitistas’, ‘conservadoras’ ou que sinônimo for do agrado do redator. No outro, trata-se de afirmar que o veículo, site, blog ou revista está a serviço do PSDB. A Folha já chegou até a ‘provar’ que Primeira Leitura foi especialmente beneficiada por verba publicitária da Nossa Caixa, que seria manipulada por aliados de Geraldo Alckmin, embora fosse claro o nosso apoio à então pré-candidatura de José Serra à Presidência. Das duas uma: ou ex-governador era bobo ou Primeira Leitura, além de atuar a soldo de alguém, ainda trai a confiança de quem o financia. Somos horríveis.

No domingo, Clovis Rossi, editorialista do jornal, escreveu um artigo intitulado Viva a ‘Revolução’. Numa atitude de ironia defensiva, antecipou que poderia ser objeto do ‘fuzilamento ritual’ da ‘patrulha da direita’. Como ‘neodireitista’, até me assanhei a pegar em armas retóricas, mas deixei para lá. Estava muito ocupado. Interessante: quem discorda de Rossi pertence a um pelotão de fuzilamento direitista; mas é claro que quem discorda de alguém considerado direitista está apenas ungido pelo bom senso, está cumprindo um dever cívico: jamais poderá ser classificado de ‘esquerdista’. Quem o fizer estará praticando ‘macarthismo’.

E o que Rossi dizia? Endossou as palavras de João Paulo Rodrigues, uma das vozes mais radicais e estridentes do MST (leia artigo na íntegra). Escreve o articulista: ‘Não dá para discordar de João Paulo Rodrigues, líder do MST, quando ele diz o seguinte: ‘Nós não entendemos a revolução como a tomada do Estado através de armas. Isso já está superado. Nós entendemos a revolução como uma forma de resolver a desigualdade social. Compreendemos que só é possível fazer isso no Brasil conjugando luta com o processo eleitoral’.

Como não dá? É claro que dá. Não dá se você concorda. Como eu não concordo, então discordo. Rodrigues, com a concordância de Rossi, tenta edulcorar o caráter violento e antidemocrático do MST, o mesmo movimento que agora invade terras produtivas e que, há dias, levou a barbárie a um laboratório da Aracruz – com as bênçãos de um bispo: dom Tomás Balduíno. Uma leitura rápida dos textos que orientam o formato que a ‘revolução’ de esquerda tomou nas últimas décadas vai indicar que a luta armada, com efeito, se tornou desnecessária. Não é preciso recorrer às armas para solapar a democracia, e Hugo Chávez sabe muito bem disso. Com efeito, ele não chega a ser o líder esquerdista sonhado pelos mais requintados. Mas é o que se tem à mão. Então vai ele mesmo

Rossi também acha – com o MST – que o Brasil ainda é ‘semifeudal’ em muitos aspectos. Eis uma tese, quero crer, impossível de ser provada. O debate teórico no terreno da esquerda sobre esse assunto já tem bem umas cinco décadas. Quem matou a questão a pau, imaginem vocês, foi Jacob Gorender, um comunista, com o livro O Escravismo Colonial, que elimina de vez a suspeita de que tenha havido qualquer coisa como ‘feudalismo’ no Brasil. Informa a livraria Cultura que o livro está esgotado. Até que não seja relançado, posso emprestar o meu para tirar cópia.

O articulista pede calma e observa que a fala de Rodrigues não é a de um ‘bolchevique’. Nem poderia, dada a origem de sua luta. Rodrigues estaria mais para um maoísmo retardatário. Mas essa nomenclatura é bobagem. O que interessa é saber se o homem está disposto a lutar dentro ou fora da lei. Escreve Rossi para meu espanto: ‘Mas a frase de Rodrigues traz, embora diluída, a idéia de que a lei é o limite ao descartar a ‘tomada do Estado através de armas’. Isso não se prova nem teórica nem praticamente. Do ponto de vista puramente conceitual, quem disse que a única maneira de desrespeitar a lei é pegando em armas? No que concerne à prática, Rossi está dizendo que o MST está renunciando, então, a seus métodos de luta? A invasão da Aracruz foi legal? Ou lhe basta que Rodrigues pisque para a lei com um olho e saia invadindo propriedades privadas?

Pronto! Fiz o ‘ritual de fuzilamento’ que Rossi previa porque, afinal de contas, sou um neodireitista. E evoluirei rapidamente à condição de um macarthista se eu afirmar que ele endossa a prática do MST e tudo o que dela deriva, incluindo o arsenal de corpos para a história do martírio dos oprimidos. E será detestável se eu disser que ele se tornou um ‘sem-terra’. É claro que, doravante, não escreverei assim: ‘O articulista sem-terrista (emessetista?) Clóvis Rossi…’. Mas o De Sá pode lascar na sua coluneta: ‘site tucano Primeira Leitura…’.

Não estou recorrendo a Rossi para responder a Nelson de Sá. É que, no texto do editorialista, existe ao menos o esboço de uma idéia, ainda que equivocada. E esse esboço me serve de exemplo para demonstrar que a patrulha só é justa se for para tentar desqualificar aqueles que a esquerda considera ‘direitistas’ ou ‘tucanos’.

Volto a um texto que escrevi aqui dia desses. Se Primeira Leitura tivesse uma caderneta e uma régua para distribuir de forma contábil e centimétrica críticas e elogios ao PT ou ao MST – flertando, de vez em quando, com as transgressões de ambos ao Estado de Direito -, seria, claro, um site isento. Como não abre mão dos 100% de convicção de que a promoção da ilegalidade não torna o país melhor, então só pode ser ou ‘tucano’ ou ‘neodireitista’.

Gente que promove invasão de um laboratório ou de propriedade privada tem é de estar na cadeia – ainda que Rodrigues recite de cabo a rabo a Constituição americana (‘Nós, o povo…’) e A Democracia na América e reze cinco Salve-Rainha e 10 Creio em Deu Pai (para agradar à ‘Escatologia da Libertação’ de Dom Balduíno). Não vamos elogiar o seu maroto (e falso) elogio à legalidade só para que os coleguinhas nos considerem ‘isentos’.’



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