Sábado, 20 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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17/03/2009 na edição 529


CRISE


Deonísio da Silva


A crise e a marolinha


‘Um capitalista americano explicou a crise de outro modo. Na maré alta, aparecem só as cabeças, todo mundo nada feliz. Quando as águas se retiram, começa a aparecer o corpo inteiro. E aí vemos que tipo de calção ou maiô está sendo usado. E vemos também que alguns estavam nadando pelados.


A mídia pegou no pé do presidente Lula. Marolinha coisa nenhuma, a crise é feia e braba. O que esperavam? Que ele anunciasse o apocalipse? A mídia pode ensinar muita coisa ao presidente, mas não como ele deve se relacionar com o povo.


Depois de Lula, quase todos buscam imitá-lo, o que soa estranho e falso, pois cada político tem o seu jeito. O carisma de Lula é só dele. Carisma, isso mesmo, palavra que gregos e latinos nos trouxeram num caminho que começou bem antes de Cristo. Afinal, apesar de a língua portuguesa ter apenas um milênio, nela estão milhares de palavras que outras línguas, principalmente o grego e o latim, criaram antes que existisse o português.


Os antigos gregos e latinos diziam que o carisma é um dom dos deuses para aquela pessoa. Mas a graça recebida deveria ser posta a serviço da comunidade. A Igreja, ocupando todos os espaços do Império Romano, deu ao carisma uma aura cristã, identificando-o como dom sobrenatural concedido, não mais por aquela multidão de deuses pagãos, mas por um apenas.


A crise traz sempre novos mirantes. E nem sempre vem com o mesmo nome. Em minha infância, ela se chamava carestia. Também esta veio do latim caristia, derivada de charistia, que era um banquete de família, realizado no dia 20 de fevereiro, do qual não participavam os estranhos. Nem mesmo amigos ou vizinhos. Em resumo, se faltava para muitos, sobrava para poucos, os escolhidos. Em toda carestia ou crise, dá-se o mesmo há milhares de anos. Muitos perdem, mas alguns ganham e ganham muito com carestias e crises.


Crise veio do grego krísis, pelo latim crisis. Designa momento de decisão, de mudança. Leonardo Boff me lembrou que a origem remota é um étimo do sânscrito, kri, presente no ato de depurar o ouro. Em grego, ouro é krysós. Continua presente esta raiz em crisol, recipiente onde se misturam diversas substâncias. Por metáfora, passou a designar situação em que você fica sabendo de verdade quem é o teu amigo, o teu vizinho, e às vezes até o teu irmão, a tua irmã, os teus filhos, pois qualidades e defeitos são postos em evidência. Na linotipia, crisol era aquela vasilha onde o chumbo era derretido para fazer as letras. Ou elas, já usadas, eram derretidas de novo para se tornarem novas letras.


Vai acontecer o mesmo conosco depois desta crise, como depois de todas as que já vivemos. Não seremos mais os mesmos. Mas só até a próxima crise, pois toda crise é cíclica como uma encíclica. De vez em quando vem uma. Desta vez a financeira e a econômica vieram em dose dupla, mas já tivemos muitas outras.


A crise mistura tudo. Agora é a hora de discernir, de escolher o essencial, como no caso do fabrico do ouro. As substâncias impuras são separadas para que emerja a substância que buscamos, sem impureza nenhuma.


Lula fez bem em tratar a crise por marolinha. As coisas começam a dar certo quando você acredita que elas podem dar certo. E quando você acha de antemão que vai dar errado, a crise já encontrou em você, não um combatente, mas um aliado do fracasso. Ademais, muitas crises foram ruins para a classe dominante e boas para o povo. Lutemos e aguardemos.


E, para terminar, falta uma bolsa no governo Lula. A bolsa-teatro. Bem antes de Cristo, Péricles, o mais esclarecido governante da Grécia antiga, deu uma ajuda de custo para os pobres irem ao teatro. Fez muito bem. É no teatro que se representa a verdadeira vida, com bons textos, levando à reflexão. O que mais precisamos fazer hoje, inclusive antes de fazer alguma coisa, é pensar no que se vai fazer. No teatro, este momento é definido também como crise, especialmente nas tragédias.’


 


 


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