Sexta-feira, 24 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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Profissão: jornalista

Por Paulo Bento Bandarra em 26/05/2009 na edição 539

Acabou de cair a legislação que protegia o jornalista de trabalhar, regulamentava a profissão e otras cositas más. Ninguém pode desmerecer a importância deste profissional para qualquer sociedade. Essencial para os que visam ao Estado democrático e à defesa intransigente dos direitos humanos e da defesa do povo de seus governantes, nem sempre honestos e guiados pelos reais interesses republicanos. Mas este espaço é dedicado aos mesmos e a imprensa carece de elogios rasgados para esta profissão essencial para as sociedades modernas e futuras. Minha discordância, já dita inúmeras vezes, se restringe ao impedir que demais profissionais possam exercer tal mister em suas áreas específicas de atuação, ficando na mão dos jornalistas o papel de ‘tradutor’ de coisa na qual não possuem a devida formação e nenhuma vivência.

Outro defeito de formação do mesmo é o de ser ‘cristão’, assim como os partido da mesma confissão. Como se pode criar uma sociedade plural e livre se visamos a eliminar as outras confissões e modos de pensar que ‘ofendam’ o cristianismo? Como partidos e jornalistas podem partir já ofendendo os demais cidadãos tratando-os como de segunda categoria, ou indesejáveis? Imagine ser cristão dentro de um Estado muçulmano com partidos muçulmanos, visto que cristão não admite pessoas não cristãs como normais.

Façamos este esforço de imaginação, as nossas maiorias cristãs daqui, para tentar alguma empatia com aqueles que professam outros credos desprezados por este jornalismo e por estes partidos confessionais. Trata-se, na verdade, da negação disfarçada do jornalismo e da democracia. Creio que isto seja um fator complicador do jornalista que na verdade já foi criado previamente dentro de uma sociedade que abusa das crianças educando-as dentro de credos segregacionistas e com a visão de ‘verdade verdadeira’ dentro da sociedade. A dificuldade de se conseguir cidadãos realmente livres de preconceitos e de pensamento livre e igualitário de verdade. Já temos os nossos ambientes públicos jurídicos e militares ocupados por uma ‘religião’ oficial.

Propaganda enganosa

Mas o que desejo tratar não é sobre o jornalista a recém de ser retirada a sua legislação, passados 20 anos da Constituição Cidadã que até hoje não foi regulamentada. Deveríamos ser um estado laico, por suposta intenção, solapado pelos partidos confessionais. Assim causa admiração que certas profissões estejam sendo discutidas no Congresso. Como o projeto de lei do senador Artur da Távola (PSDB-RJ), jornalista, de criar a profissão de astrólogo. O que evidencia que o interesse público pode ser facilmente colocado de lado por pessoas desta profissão dando vazão a interesses particulares inacreditáveis.

Deve ser isto que o padre Richard John Neuhaus e o jornalista Michelson Borges clamam contra: ‘A ciência é a autoridade suprema na sociedade. Se há uma disputa, a ciência é o juiz. Se uma lei está para ser aprovada, a ciência tem de comprová-la. Quando a ciência é ignorada, brados de protesto ecoam na mídia, nas universidades e nas esquinas’ (ver aqui) Liberdade para as borboletas e para os exploradores da credulidade popular. Para a propaganda enganosa.

Hieromancia ou pitonisa?

Dois projetos de lei sobre a profissão de teólogo estão em tramitação no Congresso. Hoje, teólogos devem ser formados em cursos de graduação. O projeto de Marcelo Crivella, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e ex-candidato à Prefeitura do Rio, declara que, para o título, bastaria ter vida contemplativa. A proposta de Victorio Galli, (PMDB-MT), pastor da Assembléia de Deus, é detalhada e prevê a classificação para celebrantes e membros de todas as religiões. O que é deveras interessante que uma sociedade precise de teólogos profissionais para exercer uma profissão, que dentro das alegadas propriedades do divino, deveriam ser de livre interpretação e liberdade. E muito menos de caráter profissional como o proposto. Quem pode ser dono de Deus profissionalmente? Quem pode ser dono da verdade para vender como profissão? E, por incrível que pareça, o Cremesp e CFM, não se limitou aos médicos. A Câmara Técnica de Bioética do Cremesp é multiprofissional, incluindo teólogos, advogados, enfermeiros e professores universitários de diferentes áreas. Teólogos vão delimitar na sociedade o que Deus permite ou não para aqueles que não professam a fé cristã. Inclui-se ainda a concordata firmada entre o presidente Lula e o Vaticano em nome de uma sociedade e de um Estado que deveria ser laico. De todos.

O teólogo heterodoxo suíço Hans Küng pediu a renúncia do papa Bento XVI após o escândalo gerado pela reabilitação pela Igreja Católica do bispo Richard Williamson, que nega o Holocausto e recentemente teve sua excomunhão suspensa. Deve ser uma das utilidades desta profissão. Como a da Teologia da Libertação. Pena que para a sociedade e um mundo que deva ser plural mesmo, pouca utilidade possui. Imagine-se então um jornalista teólogo.

Esperamos que o Planalto não estivesse pensando criar estas duas profissões como carreiras de Estado. Será que as próximas propostas serão de Hieromancia ou de pitonisa?

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Médico, Porto Alegre, RS

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