Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CIêNCIA > PROPAGANDA DE ALIMENTOS

Publicidade privilegia consumo em vez da saúde

Por Pablo Pires Ferreira em 02/10/2007 na edição 453

A propaganda de alguns tipos de alimentos para fins especiais (como os do tipo light e diet) tem escamoteado informações relevantes para a saúde do consumidor. Essa é a principal conclusão da pesquisa intitulada ‘A propaganda de alimentos para fins especiais como estímulo ao consumo’, de autoria da biomédica Bianca Ramos Marins.

O projeto recebeu menção honrosa ao ser apresentado sob a forma de pôster durante três congressos, ocorridos simultaneamente e promovidos pela Associação Brasileira de Pós-Praduação em Saúde Coletiva (Abrasco), pela International Association of Health Policy (IAHP) e pela Asociación Latinoamericana de Medicina Social (Alames), entre os dias 13 e 18 de julho deste ano. ‘Este trabalho é apenas um eixo da minha futura tese, que abordará a comunicação na área da Vigilância Sanitária’, esclarece Bianca, atualmente doutoranda da pós-graduação do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS) da Fiocruz.

O trabalho de Bianca inspirou-se em observar as estratégias do mercado para estimular o consumo de alimentos, classificados como ‘alimentos para fins especiais’ pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e dirigidos a públicos populacionais com alguma necessidade, como diabéticos, idosos, pacientes hospitalares, crianças ou atletas.

Trata-se, portanto, de produtos ‘especialmente formulados ou processados, nos quais se introduzem modificações no conteúdo de nutrientes, adequados à utilização em dietas diferenciadas e/ou opcionais, atendendo às necessidades de pessoas em condições metabólicas e fisiológicas específicas’, explica a pesquisadora.

Informações e advertências inexistentes

A biomédica resolveu, então, analisar 20 peças publicitárias veiculadas na imprensa escrita entre junho e outubro de 2006, debruçando-se em questionamentos tais como ‘quem fala’, ‘a quem se dirige’, ‘como fala’, ‘o que fala’ e ‘qual o interesse’. As peças foram extraídas de encartes semanais de dois jornais diários e de nove revistas: duas de atualidades e outras dirigidas ao público feminino ou de ‘vida saudável’. ‘É o tipo de publicação facilmente presente em salas de espera de consultórios e cabeleireiros’, exemplifica Bianca.

A doutoranda encontrou anunciados produtos como barras de cereais, pão de forma, pó para preparação de sucos, leites, adoçantes, embutidos, pizzas, dentre outros. ‘Observei a predominância de alimentos dietéticos, light e infantis, dentro da classificação para fins especiais da Anvisa’, diz. De modo geral, produtos com publicidade feita para atingir as mulheres, propondo o consumo sem culpa, prometendo a combinação entre estética e saúde e associando os alimentos à felicidade, à longevidade, à vitalidade e a uma vida equilibrada.

Na seqüência, a pesquisadora estabeleceu resultados que destacam as estratégias de convencimento adotadas pelos publicitários. São alguns exemplos: alertar, nas peças publicitárias, sobre a necessidade de bons hábitos de vida e de dieta equilibrada, passando-se assim a imagem de que o emissor da propaganda está consciente e preocupado com a saúde do consumidor; patrocinar atividades esportivas com a marca a ser divulgada; explorar fotos ou imagens de felicidade, vitalidade, disposição e saúde mental e física; utilizar termos em outro idioma, para conferir sofisticação aos produtos; utilizar, por vezes de modo inadequado, termos como diet e light; convidar celebridades para conferir legitimidade aos produtos e induzir, em alguns casos, a substituição de refeições pelos produtos divulgados.

Uma importante observação feita pela biomédica foi a inexistência ou tímida apresentação de informações nutricionais e de advertências em relação ao uso do produto nas peças publicitárias.

Mais estudo e investimento

A partir dos dados e dos resultados observados, Bianca pôde chegar a algumas importantes conclusões. A principal, a de que a publicidade examinada desconsidera ou oculta informações necessárias ao esclarecimento do consumidor sobre os aspectos nutricionais dos alimentos divulgados. Desse modo, ‘até que ponto o consumidor tem seu direito à informação correta respeitado?’, pergunta a biomédica. Para ela, a publicidade ‘deveria priorizar a educação e a informação, ao invés de estritamente o consumo’, pois este, quando feito sem o devido esclarecimento, ‘pode ter reflexos na saúde’.

Conseqüentemente, o trabalho discute se a atual regulamentação da propaganda é suficiente, se é possível uma melhor monitoração, se o Estado tem responsabilidade no assunto e se a informação leva realmente a uma escolha crítica por parte do consumidor. ‘O tema pede mais estudos e investimento’, conclui Bianca.

No INCQS, Bianca Ramos Marins é orientada pela engenheira química Silvana do Couto Jacob; no entanto, como sua tese abordará a comunicação na saúde, a biomédica é também orientada pela comunicóloga Inesita Soares de Araújo, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict), da Fiocruz.

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Assessor de Imprensa do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS), Fiocruz, Rio de Janeiro, RJ

Todos os comentários

  1. Comentou em 07/10/2007 Felipe Faria

    Paulo de Tarso, desempregado,se alguem ganha com a industria alimentícia é a população, que por ser alimentada, deixa de passar fome.

  2. Comentou em 05/10/2007 Marco Antônio Leite

    Caro Faria, quanta asneira! Você comeu sabe lá o que, será que foi um belo zoião, mas não fique feliz com essa refeição pouca nutritiva, procure se informar quantos brasileiros existem pôr esta imensa quase nação, que não se alimentam já faz muito tempo.

  3. Comentou em 04/10/2007 Felipe Faria

    Hoje eu almocei Chica-Bon e daí?

  4. Comentou em 04/10/2007 Marco Antônio Leite

    Beba com moderação, porque também não se diz, coma com comedimento. Para que isso ocorra de fato se faz necessário dizer os prós e contras desses alimentos que são veiculados pêlos meios de comunicação de massa. Quando se trata de propaganda de alimentos, deveriam usar pessoas acima do peso, teoricamente fora dos padrões de beleza, ou seja, uma pessoa que não esteja nesse esquema, com idade avançada, bem como pessoas sedentárias para deglutir tais alimentos, os quais são propagados como uma panacéia para a longevidade. Para estimular o consumo, não vale usar pessoas saudáveis para tal fim, isso fica parecendo truque de manipulação da verdade. Ademais, após um tempo comendo esses alimentos, mostrar o cidadão que participou ativamente desse processo, a fim de provar que esses alimentos nutriram de fato!

  5. Comentou em 04/10/2007 Marco Antônio Leite

    Beba com moderação, porque também não se diz, coma com comedimento. Para que isso ocorra de fato se faz necessário dizer os prós e contras desses alimentos que são veiculados pêlos meios de comunicação de massa. Quando se trata de propaganda de alimentos, deveriam usar pessoas acima do peso, teoricamente fora dos padrões de beleza, ou seja, uma pessoa que não esteja nesse esquema, com idade avançada, bem como pessoas sedentárias para deglutir tais alimentos, os quais são propagados como uma panacéia para a longevidade. Para estimular o consumo, não vale usar pessoas saudáveis para tal fim, isso fica parecendo truque de manipulação da verdade. Ademais, após um tempo comendo esses alimentos, mostrar o cidadão que participou ativamente desse processo, a fim de provar que esses alimentos nutriram de fato!

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