Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
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ENTRE ASPAS > Fatos e versões

Quem cochichou no ouvido de Lula?

Por Italo Bertão Filho em 20/04/2018 na edição 983

No último fim de semana, dois veículos da grande imprensa — Época e Folha de S.Paulo — trouxeram a mesma pauta: os últimos dias do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva antes da prisão, ocorrida em 7 de abril. Apesar de tratar-se do mesmo assunto e enfoque, as matérias divergem em alguns pontos cruciais do processo.

Intitulada “Pessimista com Judiciário, Lula planejou todos os passos de sua prisão”, a reportagem da Folha, assinada por Daniela Lima e Marina Dias e publicada no caderno Ilustríssima, detalha os bastidores dos dias e horas finais antes de Lula se entregar à Polícia Federal, em São Bernardo do Campo.

Época, por sua vez, também traz reportagem com mesmo enfoque, “A costura”, assinada por Thiago Herdy e Cleide Carvalho, com colaboração de Sérgio Roxo e Dimitrius Dantas.

Folha e Época partem do mesmo ponto: o momento em que Sérgio Moro decreta a prisão de Lula, no fim da tarde de quinta-feira, dia 6 de abril. O ex-presidente estava reunido com aliados em uma sala no Instituto Lula.

A reportagem do jornal paulistano afirma que, além de Lula, estavam no ambiente “a ex-presidente Dilma Rousseff, a senadora e presidente do partido, Gleisi Hoffmann (PT-PR), e o ex-governador Cid Gomes (PDT-CE)”, além de “alguns assessores de Lula” e “um deputado do PT”, acompanhado da mulher. Época acrescenta ao time o deputado federal José Guimarães — que não foi citado pela Folha nominalmente — e exclui a mulher do deputado não identificado. A revista da Editora Globo ainda cita que Lula tratava de estratégias eleitorais no Ceará, fato que não é abordado pela Folha.

As divergências se acentuam no momento em que Lula foi avisado da decisão de Moro. Para Época, foi Gleisi Hoffmann, “com expressão assustada”, quem comunicou a Lula, cochichando em seu ouvido. Já a Folha afirma que “coube a Dilma interromper a conversa amena do petista com o deputado”. Gleisi teria chegado depois na versão do jornal. As duas reportagens ressaltam o silêncio de Lula nesse momento.

Em outro ponto, a reportagem da Folha afirma que o ex-ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, havia chegado ao prédio do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC “mesmo sem convite” para ser introduzido no centro da negociação entre os dirigentes petistas e a Polícia Federal. Época diverge, afirmando que o ex-ministro foi chamado por dois amigos de Lula: o advogado e ex-deputado Sigmaringa Seixas e o ex-secretário-geral da Presidência Gilberto Carvalho.

Quando forma-se a comitiva do PT que iria à sede da Polícia Federal em São Paulo para conduzir a negociação, Época e Folha dão os mesmos nomes: Seixas, o ex-prefeito de Osasco e tesoureiro do PT, Emídio de Souza e o deputado federal Waldih Damous.

Realidade nunca acabada

A reconstituição dos fatos é uma das tarefas mais árduas no jornalismo, dependendo das fontes consultadas e checagem posterior. Nem sempre será uma realidade acabada, como afirma Luiz Costa Pereira Júnior em “A apuração da notícia” (Vozes, 2000):

“No jornalismo, construir sentido é reduzir incertezas. Porque a realidade não pode ser contada aos outros por inteiro, noticiar é selecionar fatos para organizar um sentido. Cabe ao jornalista sedimentar uma realidade sólida para o público, sem enganá-lo com a falsa promessa de uma realidade “real”, pronta, acabada”. (p. 70)

Apesar de divergir em pontos cruciais, Época e Folha reconstituem e confirmam os fatos em linhas gerais: houve uma reunião no Instituto Lula com dirigentes petistas, Lula parecia alienado da situação até receber a notícia emitida por um grande nome do partido, Cardozo foi o protagonista das negociações e formou-se uma comitiva de petistas para se dirigir à PF.

O resto é detalhe e não compromete a importância e confiabilidade das reportagens. Este não é um texto acadêmico, nem almeja sê-lo. É apenas um exercício de apuração, uma comparação necessária entre duas reportagens com o mesmo enfoque e pauta — ainda mais necessárias quando são realizadas por veículos relevantes como a Folha de S.Paulo e a revista Época.

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Italo Bertão Filho é estudante de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e trabalha na revista Amanhã, de Porto Alegre.

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