Terça-feira, 22 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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ENTRE ASPAS > SEXTA-FEIRA, 28/12

Record ‘namora’ mexicana TV Azteca

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 28/12/2007 na edição 465

Leia abaixo a seleção de sexta-feira para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Sexta-feira, 28 de dezembro de 2007


PAQUISTÃO
Folha de S. Paulo


Ex-premiê Benazir morre em atentado


‘A ex-premiê do Paquistão Benazir Bhutto foi morta ontem em um atentado na cidade de Rawalpindi, próxima à capital do país, Islamabad. O ataque acontece num ano marcado pelo derramamento de sangue causado pela instabilidade política no Paquistão, país que detém a bomba atômica e posição crucial na geopolítica asiática.


Benazir, 54, havia encerrado um comício da campanha para as eleições parlamentares, marcadas em princípio para o próximo dia 8 de janeiro. Testemunhas relatam que ela deixava o parque Liaquat Bagh em um carro cercado por simpatizantes quando alguém se aproximou e disparou contra ela.


A rede de TV CNN conta que Benazir acenava às pessoas através do teto solar do carro no momento dos disparos . Em seguida um homem-bomba se explodiu, matando não só Benazir mas ao menos 22 outras pessoas. Segundo o Ministério do Interior do Paquistão, a causa da morte foi um tiro no pescoço, dado pela mesma pessoa que se explodiu em seguida.


Benazir foi levada ao Hospital Geral de Rawalpindi, onde médicos tentaram reanimá-la por mais de meia hora, segundo o ‘New York Times’. Mas ela foi declarada morta às 18h16 locais (11h16 em Brasília).


‘Coloquei minha vida em risco e vim até aqui porque sinto que este país está em perigo. As pessoas estão preocupadas. Vamos tirar o país desta crise’, dissera ela no comício.


No final do dia, seu corpo estava sendo transportado para sua cidade natal, Larkana.


Acordo


Adversária política do ditador do Paquistão, Pervez Musharraf, Benazir Bhutto tentava costurar com ele um acordo para que, após as eleições, ocupasse o cargo de premiê sob sua Presidência.


A perspectiva desse acordo, que havia desandado recentemente, fez com que o governo Musharraf a anistiasse e possibilitou sua volta ao Paquistão em outubro último -condenada por corrupção, ela estava exilada no Reino Unido.


Logo no dia de sua volta, 18, ela foi alvo de um grande atentado, em Karachi, que matou 140 pessoas.


Em pronunciamento na TV, Pervez Musharraf pediu ontem calma à população e lamentou o atentado, ‘uma crueldade que é trabalho dos terroristas com os quais estamos lutando’, decretando três dias de luto.


Tendo abandonado o posto de general do Exército no último dia 28 de novembro, após ter seu mandato como presidente renovado pelo Parlamento, Musharraf, que deu o golpe em 1999, tenta acomodar pressões internas de facções islâmicas radicais e de forças pró-democracia. Além disso, é pressionado a prestar conta aos EUA do combate a milícias islâmicas radicais que se abrigam no território do país.


Apesar do apelo de Musharraf e de as forças de segurança terem sido postas em estado de alerta, a morte de Benazir despertou a fúria de simpatizantes, principalmente contra o governo, manifestada em distúrbios que mataram mais 14 pessoas.


Futuro incerto


A primeira grande dúvida que surge com a morte da ex-premiê é acerca da realização das eleições de janeiro. De cara, o PPP perde a figura em torno da qual se unia.


Além disso, o também ex-premiê Nawaz Sharif, que, embora tivesse diferenças com Benazir, é feroz adversário de Musharraf, já pedia ontem a renúncia do ditador e anunciava que seu partido, o PLM-N, boicotará a eleição. Sharif ainda atribuiu a Musharraf ‘a origem de todos os problemas do país’.


Tanto a morte de Benazir quanto a reação de Sharif podem prover um cenário favorável para que Musharraf volte a decretar estado de emergência -que vigorou por seis semanas, até o último dia 15- e suspenda o pleito.


Radicais islâmicos


Apesar de ninguém haver ainda reivindicado a autoria do atentado, as suspeitas recaem principalmente sobre grupos extremistas islâmicos. O jornal britânico ‘The Guardian’ lembra que as posições pró-Ocidente de Benazir faziam dela um alvo para os grupos radicais que atuam no Paquistão.


Depois do atentado frustrado de Karachi, em outubro, o marido de Benazir, Asif Ali Zardari, acusou membros do ISI, o serviço de segurança do Paquistão, por sua autoria. A agência abriga adeptos do islamismo radical, pró-Taleban, e ganhou força no Paquistão sob o governo do general Zia ul Haq, que derrubou o pai de Benazir, Zulfikar Ali Bhutto, do poder em 1977.’


 


Folha de S. Paulo


Política do assassinato


‘DESDE 18 de outubro, data em que Benazir Bhutto voltou ao Paquistão, estava claro que, por onde andasse, a ex-premiê seria alvo preferencial de atentados. Naquele dia, um ataque em Karachi (sul) matou mais de 130 pessoas que festejavam seu retorno de oito anos de exílio, mas Benazir escapou. Não teve a mesma sorte ontem.


O assassinato da líder do Partido Popular do Paquistão -legenda laica favorita nas eleições parlamentares do próximo dia 8- lança a política de um país-chave para a luta contra o terrorismo na incerteza profunda. Com o desgaste do ditador Pervez Musharraf, Bhutto havia se convertido na maior esperança para garantir um mínimo de estabilidade ao Paquistão e apertar o cerco ao extremismo islâmico, que tem no país um de seus bastiões.


Lances decisivos na configuração do novo terrorismo passam pelo Paquistão. Ali extremistas perseguidos no Egito e na Arábia Saudita encontraram refúgio e uma causa, a batalha contra os soviéticos no vizinho Afeganistão (1979-1989), capaz de na época atrair simpatia e recursos de Washington e dos bilionários dirigentes sauditas. O Taleban (grupo integrado por jovens afegãos que fugiam da guerra) foi uma criação do serviço secreto paquistanês, financiado com dinheiro saudita e municiado com ensinamentos dos mentores da ideologia do terror islâmico.


Os cabecilhas do que depois viria a ser chamado de Al Qaeda passaram pelo Paquistão, Osama bin Laden e Ayman al Zawahiri entre eles. Provavelmente tiveram guarida no país -nos territórios indevassáveis pelas forças de segurança paquistanesas- quando os militares americanos invadiram o Afeganistão e destronaram os talebans, em 2001.


A forma pela qual Benazir Bhutto foi morta, um atentado suicida, é indício da participação dos talebans. O grupo fazia ameaças públicas contra a ex-premiê, que por seu turno prometia combater fortalezas do extremismo religioso, como as madrassas -escolas de difusão da ideologia radical fundadas com dinheiro saudita. Não se pode descartar, porém, a possibilidade de Bhutto ter sido morta por pessoas ligadas ao regime de Musharraf ou às Forças Armadas.


Se a hipótese catastrofista, a tomada do governo e do controle do arsenal atômico pelos extremistas, parece distante, tudo o mais está em jogo no Paquistão. A morte da liderança mais popular deixa um vácuo de poder numa nação em que se chocam, de modo caótico e sangrento, um ditador fraco, militares golpistas e terroristas dispostos a tudo.’


 


LÍNGUA
Nelson Motta


Pela pureza botocuda


‘RIO DE JANEIRO – Quando estive pela primeira vez em Lisboa, em pleno salazarismo, todos pareciam velhos, andavam de preto e morriam de medo. Mas o mais patético era a proibição de palavras estrangeiras, que produzia ridículos hilariantes, como um pub ser chamado de ‘pabe’.


Na Itália, até hoje, a herança mussolinista exige que os filmes sejam dublados em italiano. Os de Woody Allen ficam tão absurdos quanto os de Spike Lee ou ‘Cidade de Deus’ falado em italiano: ‘Dadinho é il cazzo, il mio nome é Zé Piccolo!’. A versão original legendada só passa em raros cinemas de arte. Mas agora é tarde, e o povo já se acostumou. Mas os italianos alfabetizados estão perdendo boa parte do valor desses filmes.


As ditaduras, de esquerda e de direita, e o autoritarismo em geral adoram proteger a pureza da língua pátria, para melhor nos defenderem das influências maléficas e das ameaças que o estrangeiro sempre representa. Pela soberania e a união nacional, como diziam Franco e Stálin.


A ignorância também odeia as línguas que não entende, inveja os que as falam, finge desprezá-los ao valorizar coisas como a sabedoria da vida real, a linguagem sem palavras, o idioma universal dos sentimentos e outras baboseiras.


Agora o Congresso vai votar uma lei do deputado comunista monoglota Aldo Rabelo que proíbe o uso público de palavras estrangeiras e pode nos levar, em plena era da globalização e da comunicação instantânea, a perdas irreparáveis na rica língua falada no Brasil, que tem a sua dinâmica própria e se transforma a cada dia. Tem sido assim desde sempre, senão não teríamos o português que se fala (e alguns até escrevem muito bem) no Brasil moderno. Se dependesse dos defensores da língua pura, estaríamos falando tupi até hoje.’


 


DITADURA
Marcelo Ninio


Procurador italiano critica omissão de países da Condor


‘O procurador italiano Giancarlo Capaldo quer a colaboração do Brasil para que os brasileiros que tiveram o pedido de extradição decretado por crimes da ditadura possam ser julgados na Itália.


Capaldo, que investiga desde 1999 a tortura e o desaparecimento de cidadãos italianos na Operação Condor -plano de repressão conjunta de ditaduras sul-americanas contra opositores nos anos 70 e 80-, foi o autor dos pedidos de prisão expedidos na segunda, em Roma, pela juíza Luisanna Figliola.


Em entrevista à Folha, Capaldo confirmou que entre os 140 acusados citados no pedido de extradição há 11 brasileiros. Mas disse que não poderia revelar os nomes. Embora a Constituição não preveja a extradição de cidadãos brasileiros, como deixou claro o ministro da Justiça, Tarso Genro, Capaldo reiterou que o objetivo do pedido de prisão é interrogar e julgar na Itália os responsáveis pela Operação Condor. Ou, no mínimo, fazer com que sejam processados no Brasil. ‘Esperamos contar com a colaboração das autoridades brasileiras para que os acusados sejam julgados na Itália.’


Pouco antes, em entrevista à agência de notícias espanhola Efe, ele se queixou da pouca ajuda recebida dos governos na investigação iniciada há 18 anos sobre o desaparecimento de 25 cidadãos italianos no Brasil, Chile, Argentina, Uruguai e Bolívia. ‘A falta de colaboração das autoridades desses países complicou muito as coisas’, disse. ‘É dificílimo investigar em outro país sem a ajuda de suas autoridades.’


O Itamaraty afirmou não ter encontrado, em ‘consulta rápida na área jurídica’, nenhum registro desde 1998 de pedido relativo à Operação Condor, nem com o nome do procurador Capaldo. O Ministério da Justiça disse não haver ‘registros sobre qualquer solicitação feita pelo governo italiano sobre o caso Condor nesta gestão e em nenhuma outra’.


A Embaixada do Brasil em Roma não recebeu até ontem nenhuma notificação das autoridades italianas. Diplomatas dos dois países esperam que o pedido de prisão seja feito pelo Ministério da Justiça italiano a seu equivalente no Brasil.


Este é o procedimento que costuma ser seguido por países que mantêm acordos de cooperação em matéria penal, como Brasil e Itália. Diplomatas prevêem que a notificação ao Ministério da Justiça brasileiro, contudo, poderá demorar semanas, já que a documentação precisa ser traduzida para os idiomas dos países dos acusados, espanhol e português.


O advogado Giancarlo Maniga, que defende na Itália parentes argentinos e chilenos de vítimas da Operação Condor, comemorou os pedidos de prisão. Para ele, a decisão tem grande importância simbólica, pois indica que os crimes são graves demais para ficar impunes, mesmo depois de tanto tempo.


Ele reconheceu, no entanto, que a execução dos pedidos não será tarefa fácil, diante da ‘extrema complexidade’ dos processos. ‘O nível de cooperação judicial varia de país para país e as legislações domésticas também são diferentes em cada lugar’, disse Maniga à Folha, de Roma. ‘É preciso examinar, por exemplo, como as leis de anistia se aplicam a cada caso.’


Pelo que se sabe da investigação, os 11 brasileiros citados são acusados pelos desaparecimentos de Horacio Domingo Campiglia e Lorenzo Ismael Viñas. Ambos cidadãos ítalo-argentinos, foram vistos pela última vez em 1980, o primeiro no Rio e o segundo em Uruguaiana (RS). Seus casos não se enquadrariam na Lei da Anistia brasileira, que perdoou crimes políticos cometidos até agosto de 1979.


O pedido de extradição, feito na véspera do Natal, pegou de surpresa até os que acompanham o dia-a-dia do caso, como o advogado Maniga. Para ele, a decisão parece ter sido especialmente acelerada para surpreender Jorge Néstor Troccoli Fernandez , ex-agente da Marinha uruguaia acusado de seqüestros para fins de homicídio na época da ditadura, o único da lista que estava na Itália.


O uruguaio foi preso na segunda em Salerno, no sul do país, e ontem teve sua primeira audiência em Roma. À juíza Luisanna Figliola, Troccoli negou as acusações. Disse que era só um subtenente encarregado de recolher informações.’


 


Kennedy Alencar


Lula pretende abrir arquivos da ditadura


‘O presidente Lula pretende editar um decreto no primeiro trimestre de 2008, provavelmente em fevereiro, para determinar a abertura de todos os arquivos oficiais do período da ditadura militar (1964-1985). Essa decisão deveria ter sido tomada em outubro, mas foi adiada devido a um veto do Itamaraty a tornar públicos documentos do século 19.


Lula deseja adotar um modelo sobre abertura de arquivos que contemple todos os períodos históricos do Brasil. A maioria dos auxiliares presidenciais defende o fim do ‘sigilo eterno’ -possibilidade de manter em segredo documentos considerados ultra-secretos.


No entanto, há forte resistência do Ministério das Relações Exteriores ao final do ‘sigilo eterno’. O Itamaraty quer manter em segredo documentos que se referem à demarcação de fronteiras do Brasil com países vizinhos ao final da Guerra do Paraguai (1864-1870). A Folha revelou em 2004 que autoridades brasileiras subornaram árbitros que demarcaram fronteiras, subtraindo território do Paraguai. A Argentina, aliada do Brasil naquela guerra, teria usado o mesmo expediente e se beneficiado dele, apontam documentos ultra-secretos.


O veto à divulgação de documentos específicos da Guerra do Paraguai pode constar do decreto que o presidente pretende editar em fevereiro, pouco depois do Carnaval, afirmam auxiliares.’


 


DISCURSO DE LULA
Kennedy Alencar


Na TV, Lula diz que fim da CPMF afeta a área da saúde


‘Em pronunciamento em rádio e TV ontem para desejar que ‘2008 seja ainda melhor do que 2007’, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que a área da saúde poderia ter mais avanços no ano que vem se a CPMF tivesse sido aprovada. E correlacionou isso a uma ‘decisão tomada pelo Congresso’.


Ao louvar o ‘excelente momento do Brasil’, o presidente, no entanto, usou termos e dados imprecisos, ou mesmo incorretos.


Depois de afirmar que destinaria até 2010 mais R$ 24 bilhões para a saúde e que, ‘entre outras coisas, todas as crianças das escolas públicas passariam a ter consultas médicas regulares’, Lula disse que, ‘infelizmente, esse processo foi truncado com a derrubada da CPMF’. O número citado está inflado -o dado acertado por governo e oposição no Congresso durante a negociação pelo tributo do cheque mostrava que, até 2010, seriam R$ 15 bilhões adicionais para a saúde. Os R$ 24 bilhões, só no próximo governo, com a injeção de R$ 9 bilhões em 2011.


Segundo a Folha apurou, Lula pretende carimbar a oposição como responsável pela fragilização do SUS (Sistema Único de Saúde), mas, por ora, não o fará de forma agressiva. Exemplo: agradeceu tanto ‘aos que apoiaram como aos que criticaram o governo ao longo desses anos’.


Declarou que, ‘como democrata’, respeitava a decisão do Senado. E dividiu responsabilidades para suprir a ausência de um tributo ‘responsável em boa medida pelos investimentos na saúde’. O petista se disse ‘convencido de que o governo, o Congresso e a sociedade, juntos, encontrarão uma solução para o problema’.


Em tom otimista, Lula disse que faria um balanço de 2007, ‘deste excelente momento do Brasil’. Afirmou que já se podia dizer ‘com certeza’ que o PIB (Produto Interno Bruto) havia crescido ‘mais de 5%’.


Lula reconheceu que será ‘necessário avançar ainda mais, sobretudo, em segurança, educação e saúde’. O presidente disse que o índice de desemprego caiu (8,2% em novembro) enquanto a massa salarial aumentara 7% no ano. Afirmou que nos últimos cinco anos, período em que está no Palácio do Planalto, ‘20 milhões de pessoas deixaram as classes D e E, de baixo consumo, e migraram para a classe C’.


Ele usou dado apresentado em pesquisa do Datafolha de que ‘apenas nos últimos 17 meses, 14 milhões de brasileiros ingressaram nessa nova classe média’.


Lula prometeu que, ‘em 2008, o Brasil será um canteiro de obras’ -usando de novo um tom algo triunfalista ao falar do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). ‘Lançamos e consolidamos o PAC’, afirmou, sem mencionar que, até novembro, o PPI (Projeto Piloto de Investimento), que inclui projetos prioritários para o governo na área de infra-estrutura, havia gastado apenas 32% do valor previsto no ano.’


 


PEQUIM 2008
Folha de S. Paulo


China deverá manter novas regras para mídia estrangeira


‘A China poderá manter indefinidamente a flexibilização de suas leis referentes à imprensa internacional, segundo o ministro do Conselho de Informação Cai Wu. A suspensão de algumas restrições foi estipulada visando os Jogos de Pequim-2008.


‘Nenhum documento diz que devemos voltar ao regulamento anterior após o prazo final do atual’, em 17 de outubro de 2008, afirmou.


Desde o início deste ano, a China concedeu a repórteres estrangeiros maior liberdade em viagens e reportagens em boa parte do país. Antes, era necessária permissão do governo para que jornalistas pudessem trabalhar fora da cidade em que se baseiam.


Segundo Cai, a possibilidade de permitir uma maior compreensão do país está de acordo com os esforços de reforma e abertura. A maior liberdade de ação à imprensa não só mundial foi uma das muitas questões levantadas por grupos de defesa dos direitos humanos desde que Pequim foi anunciada como sede da Olimpíada.


O país ainda lidera as estatísticas mundiais em prisões de repórteres e escritores, segundo o Comitê de Proteção aos Jornalistas, que também critica censura e ameaças de autoridades locais, muitas das quais ignoram a flexibilização legal.’


 


TELEVISÃO
Mônica Bergamo


Bilionário mexicano na Record


‘A Record do bispo Edir Macedo está ‘namorando firme’ a TV Azteca, do bilionário mexicano Ricardo Salinas Pliego. As duas empresas devem assinar, em meados de janeiro, um termo de intenção para que seja feita uma avaliação da Record. Num segundo momento, caberia a Salinas dizer quanto quer desembolsar e que participação quer ter na TV de Macedo.


BILIONÁRIO 2


A parceria da TV Azteca, a segunda do México, com a Record faz parte da estratégia de Salinas para desembarcar de forma bombástica no Brasil. Em março, ele inaugura no Nordeste a operação de seu banco, o Azteca, e lojas de sua rede, a Elektra -uma espécie de Casas Bahia do México. O presidente Lula estará presente. Salinas, por sinal, combinou tudo com ele na festa de inauguração da Record News, em setembro.’


 


Mariana Botta


Adriane Galisteu é substituída por modelos com pouca roupa no SBT


‘O ‘trash’ ‘Fantasia’, exibido nas madrugadas do SBT desde o mês de outubro, passou nesta semana a ocupar as tardes da emissora no lugar do ‘Charme’, de Adriane Galisteu.


O programa, que tem 35 modelos com roupas mínimas dançando e incentivando os telespectadores a participarem de brincadeiras bobas, vai ao ar das 15h às 17h. Desde segunda, quando entrou no novo horário, tem alcançado médias de audiência de 4,5 pontos, com pico de 5,5, segundo o SBT. No mesmo horário, Galisteu registrava de dois a três pontos.


‘Fantasia’ também ia bem no Ibope da madrugada e virou ‘cult’ na internet. No Orkut, há mais de 15 comunidades em homenagem ao programa -a oficial possui mais de 15 mil membros-, fora as quase 40 para os apresentadores Caco Rodrigues e Helen Ganzarolli.


No mundo virtual, as dançarinas do programa têm vida de estrela. Os fãs demonstram todo o seu carinho nos vários perfis no Orkut, em blogs e sites. Um dos mais completos, com ‘notícias imperdíveis’ sobre os bastidores da atração, é o ‘Diário do Fantasia’ (programa fantasia.blogspot.com), da modelo Bete. Nesta semana, ela soltou uma ‘bomba’: operou o nariz e por isso não estará por uns dias no programa.


Antidepressivo


Com a missão de salvar a audiência das tardes, o programa corre o risco de perder seu grande atrativo, na opinião do apresentador e diretor, Caco Rodrigues. ‘O ‘Fantasia’ é uma alternativa para quem se sente sozinho na madrugada. Muitas pessoas contam que saíram da depressão desde que estreou. Até me chamam de marido. Nosso público é 60% feminino’, disse ele, poucos dias antes da mudança de horário.


Para participar das brincadeiras, existentes desde a primeira versão do programa, de 1997, o telespectador tem de ligar antes (a ligação tem custo de celular) e se cadastrar.


Os prêmios variam de R$ 100 a R$ 10 mil.


Enquanto isso, Galisteu segue de férias -até o dia 20, informa o SBT-, e quem comanda o ‘Charme’ no novo horário das madrugadas é Patrícia Salvador, 26, assistente de palco do programa do Silvio Santos.’


 


Clima é de alívio nos bastidores do ‘Fantástico’


‘O clima para boa parte da equipe do ‘Fantástico’ é de alívio com a saída de Glória Maria. Oficialmente, ela deixou o programa para tirar um período sabático de dois anos.


A apresentadora é conhecida por um temperamento difícil, não raro atrasava gravações e já se desentendeu com Pedro Bial. A Record nega que já tenha tentado contratá-la.


O ‘Fantástico’, que está com uma audiência abaixo das expectativas da Globo, será apresentado pela jornalista Patrícia Poeta.


A Folha não conseguiu localizar Glória Maria para falar sobre sua saída. Uma funcionária da apresentadora afirmou que ela embarcou ontem para a Bahia e só voltará ao Rio no dia 7 de janeiro.’


 


Kátia Brasil


Produção de LCD na Zona Franca sobe 312%


‘A produção de TVs com tela de LCD (cristal líqüido) na Zona Franca de Manaus aumentou 312% de janeiro a outubro de 2007 em relação ao mesmo período de 2006, aponta balanço anual da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus) divulgado ontem. Foram 596.362 unidades, ante 144.406 no ano passado.


Além de confirmarem a nova opção dos consumidores por TVs com alta definição de imagem, os números apontam que o televisor com cinescópio convencional -conhecido como tubo de imagem ou CRT (sigla em inglês para tubo de raios catódicos)- deve ficar obsoleto em três anos.


Segundo o balanço da Suframa -autarquia federal que concede os incentivos fiscais na ZFM (Zona Franca de Manaus)-, a produção de TVs com tubo de imagem na região caiu 18% de janeiro a outubro deste ano, em comparação com o mesmo intervalo de 2006. Foram 8.841.581 unidades, ante 10.796.718 no ano passado. A queda deve chegar a 20% até o final do ano.


De acordo com o Cieam (Centro das Indústrias do Amazonas), todos os televisores produzidos no país saem da Zona Franca de Manaus.


Para o presidente do órgão, Maurício Loureiro, a queda na produção de TVs com tubo de imagem é resultado da chegada da TV digital. ‘Essa queda vai mudar o perfil da indústria.’


Sistema pioneiro


O tubo de imagem foi o primeiro sistema usado para transformação da luz em sinais elétricos que formam a imagem da TV. A invenção é de 1923.


Gustavo Igrejas, coordenador-geral de acompanhamento de projetos da Suframa, disse que a tendência é que os tubos de imagem se tornem obsoletos no curto prazo, como ocorreu com a TV em preto e branco e com o videocassete.


Apesar da evolução, o segmento de TVs de LCD ainda representa apenas 6,2% do total de televisores produzidos na ZFM de janeiro a outubro de 2007 -o percentual em 2006 era de 1,3%.


Os aparelhos com tubo de imagem ainda predominam, com 92% da produção no período. As TVs de plasma representam 1,6% da produção.


A divisão se reflete no faturamento com cada tipo de TV. Os aparelhos de LCD renderam US$ 698 milhões às indústrias da Zona Franca de Manaus em 2007, enquanto as vendas de TVs com tubo de imagem alcançaram US$ 1,7 bilhão. O faturamento do segmento de TVs de plasma chegou a US$ 245,8 milhões.


O superintendente interino da Suframa, Oldemar Ianck, disse que a TV de LCD está se consolidando como uma nova tecnologia e a tendência da ZFM repete o que já ocorreu em países da Europa e da Ásia, onde não há mais produção com cinescópios.


A ZFM deve faturar US$ 25 bilhões de dólares neste ano, segundo Oldemar Ianck. O setor eletroeletrônico é responsável por 29% desse faturamento. Em segundo lugar vem o ‘pólo de duas rodas’ (sobretudo motocicletas), com 23,6% do faturamento.’


 


Fábrica migra linhas para a versão ‘slim’


‘O primeiro tubo de imagem produzido na ZFM (Zona Franca de Manaus) foi na fábrica da indústria coreana Samsung SDI, em 1998. A empresa responde atualmente pela produção de 90% dos televisores com tubo de imagem no país. Na fábrica, a expectativa é que os cinescópios continuem a ser fabricados ao menos até 2010, ano de Copa do Mundo.


O gerente de controladoria da Samsung SDI, Edmar de Andrade, disse que a demanda por TVs com tubo de imagem deve alcançar 7,5 milhões de aparelhos no Brasil em 2010.


Mas os aparelhos, afirmou ele, não serão mais os convencionais, com cinescópios longos e tela curva e que exigem uma caixa grande.


A linha de produção da fábrica já apresenta uma migração dos aparelhos com cinescópios convencionais para os chamados ‘cinescópios slim’, com tela plana e modelos de 21 e 29 polegadas. A Samsung também produz o ‘cinescópio flat’, com tela reta e mais fina. A produção do modelo flat representa atualmente 60% dos cinescópios fabricados na ZFM.


Os investimentos da Samsung estão voltados principalmente para a adaptação das linhas de produção de cinescópios convencionais para as do modelo slim, que recebem melhor o sinal da TV digital com os conversores (set-top box).


‘A demanda por TVs com cinescópios convencionais está caindo, e a tendência é diminuir até desaparecer. Se não fizermos nada, vamos ter problema de empregos. Para isso não acontecer, estamos investindo para continuar com o mesmo volume que produzimos atualmente’, afirmou Andrade.’


 


Paulo Peixoto


Costa pede mais isenção para produzir conversor


‘O ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB-MG), defendeu ontem a renegociação, no Congresso, da redução de impostos federais para fabricantes de conversores para TV digital situados fora da Zona Franca de Manaus.


Ele criticou a isenção de impostos federais para as indústrias apenas da Zona Franca de Manaus e, mesmo assim, os conversores custarem menos de R$ 500. O objetivo da renegociação, segundo ele, é que esses outros fabricantes possam vender os conversores a R$ 150 em até seis meses.


Por enquanto, os conversores mais simples estão custando, no mínimo, R$ 350. Há nove dias, o ministro anunciou que a Comsat, uma joint-venture entre uma empresa brasileira e uma indiana, venderá o aparelho, em janeiro, a R$ 250.


Ontem, Costa disse que o preço será R$ 230, e ‘ainda está caro’. ‘Até julho, espero que o conversor esteja sendo vendido a R$ 150.’


‘A carga de impostos inviabiliza [redução maior do preço por produtores fora de Manaus]. Enquanto não renegociarmos isso, fica difícil’, afirmou o ministro, que conta também com a redução dos impostos nos Estados para que o preço atinja os R$ 150 esperados.


Ele acrescentou: ‘Esse conversor de TV digital não pode ser instrumento desonerado só em Manaus, porque senão não temos condições de fazê-lo em Minas, em São Paulo, no Rio Grande do Sul, no Paraná. Acho quase um absurdo concentrar toda a desoneração para uma única região do país’.


Ele mandou um recado para deputados e senadores do Amazonas que resistem à ampliação da isenção: ‘A bancada do Amazonas […] deve estar muito irritada comigo. Eu tenho certeza que estou defendendo a posição certa’.’


 


ARTE EM PAUTA
Folha de S. Paulo


Cenas do Masp exibem suspeitos em outubro


‘O Ministério Público Estadual tem em mãos as imagens das câmeras de segurança que mostram a circulação de quatro suspeitos no Masp em 29 de outubro, quando houve a primeira tentativa de roubo. Um deles aparenta usar capuz, mas as imagens estão ruins e precisarão ser aproximadas e clareadas. O crime foi malsucedido porque o elevador barrava, à noite, o acesso ao 2º andar.


Segundo o promotor Roberto Porto, a continuidade da apuração depende em parte da perícia das imagens, já que os ladrões podem ser os mesmos que levaram as telas de Picasso e Portinari no último dia 20.


Como as câmeras não têm infravermelho, várias imagens estão pretas e apenas duas mostram os suspeitos. Uma terceira, com um minuto, mostra um homem que entra e pega algo num armário. Não é possível saber se é vigia ou ladrão.


Para Porto, o furto foi ‘uma história da tragédia anunciada’. ‘Em 29 de outubro fizeram a primeira tentativa de roubo. Uma semana depois, voltaram com um maçarico e tentaram cortar uma porta lateral. Preocupa porque em dois meses nenhuma medida para aumentar a segurança foi tomada.’


Em nota, o Masp diz que, atento à necessidade do aprimoramento da segurança, apresentou projeto de incentivos fiscais para captar recursos. Afirma que o projeto foi aprovado e agora terá outras fontes para atualizar o sistema.


A Polícia Militar diz que na próxima semana um carro ficará ou em frente ao parque Trianon ou no vão livre. Em 2008, haverá uma base fixa no local.


Um abaixo-assinado que começou a circular anteontem e conta com 60 assinaturas, entre elas a do filósofo José Arthur Giannotti, defende que o Masp se torne uma instituição pública. O texto diz que o museu ‘é de há muito uma instituição enferma, sem recursos e sem direção profissional’.’


 


QUARTERLIFE
Thiago Ney


A crise dos 20 e poucos


‘VOCÊ TEM 20 e poucos anos; acabou de terminar a faculdade; tem um emprego chato e burocrático, mas toda noite alimenta o sonho de trabalhar com algo criativo e que faça a diferença; não sabe para onde seu relacionamento (ou a falta dele) o está levando. Você está perdido. Você está em crise e você não está sozinho.


Marqueteiros e jornalistas adoram desvendar tendências, descobrir nichos comportamentais. Em Nova York, de onde escrevo, marqueteiros e jornalistas estão assanhados com um assunto: ‘Quarterlife’.


‘Quarterlife’ é um seriado criado por Marshall Herskovitz e Edward Zwick, os mesmos de ‘My So-Called Life’ e ‘thirtysomething’, e que é exibido exclusivamente pela internet.


Com episódios curtos (de oito minutos cada um), que são atualizados às quintas-feiras e aos domingos, ‘Quarterlife’ gira em torno da vida de seis amigos, todos eles na faixa dos 20 e poucos anos.


O foco está em Dylan, uma aspirante à cineasta, mas que por enquanto trabalha como assistente em uma empresa jornalística. Dylan tem uma queda por Jed, seu vizinho, que por sua vez está de olho em Debra, que gosta de Danny, parceiro de Jed… Dylan e seus amigos são todos bonitinhos, brancos, de classe média.


No papel, é um seriado que não difere em nada de milhares de outros; esses amigos são como os de ‘Friends’, embora menos frívolos e mais pretensiosos. Mas há um detalhe fundamental: a internet.


Não dá para dissociar a rede dos personagens de ‘Quarterlife’. Dylan narra a vida de seus amigos por meio de um videolog e usa o veículo para produzir poesia; um de seus amigos, Andy, é um animador de vídeos que faz filmes na internet; Lisa é atriz e corre atrás de trabalho pela rede. E não pára por aí.


Os 14 episódios já criados de ‘Quarterlife’ podem ser vistos em www. quarterlife.com. O endereço funciona não apenas como site mas como uma comunidade virtual, uma espécie de Orkut, de MySpace, montada para facilitar a troca de informações entre pessoas ‘criativas’, ‘artísticas’, o que for, com fóruns em que são discutidos assuntos como artes plásticas, filmes, design, literatura etc.


Em www.quarterlife.com, você pode montar o seu próprio perfil, acompanhar os episódios do seriado e trocar informações com outros fãs do programa. Bem-vindo à geração ‘Quarterlife’, em que cada ‘produto’ cria a sua própria comunidade virtual -até a cantora Kylie Minogue fez a sua para promover o lançamento de seu disco.


‘Quarterlife’, tanto o seriado quanto o site (o, humm, ‘conceito’ todo), divide opiniões. Muitos se identificam com os personagens e suas incertezas; outros apontam os problemas exatamente na pretensão que a série tem de se colocar como o espelho de uma geração inteira.


O fato é que Herskovitz e Zwick tentaram vender ‘Quarterlife’ para o canal ABC em 2005, mas a proposta foi recusada. Em 2008, ‘Quarterlife’ deve ser exibido pela NBC, emissora do velho formato televisivo.


Um dos co-roteiristas escreveu em um blog relacionado ao programa: ‘Esta e futuras gerações de gente com 20 e poucos anos não vão pas- sar por crises da meia-idade, pois [os jovens desta geração] já realizam várias explorações como jovens adultos: eles trocam de empregos, de relacionamentos e de outras situações cotidianas. E, quando se acalmam, vão relaxar e não vão precisar de um carro esporte nem de uma mulher mais nova’.’


 


CINEMA
Mario Gioia


Saudades da Nouvelle Vague


‘Depois de quatro filmes no currículo, Christophe Honoré, 37, está mais para o novo ‘darling’ que para o ‘enfant terrible’ do cinema francês atual. Seu mais recente longa, ‘Canções de Amor’, foi um dos filmes-sensação da temporada cinematográfica do país e competiu na mais recente edição do Festival de Cannes, em maio.


No entanto, antes veio ‘Em Paris’, que estréia hoje em SP. Honoré exibiu-o na Quinzena dos Realizadores de Cannes-2006, arrancando elogios da parcela mais prestigiada da crítica francesa, liderada pela revista ‘Cahiers du Cinéma’, que destacou sua ‘alegria de filmar’, ligando-o à nouvelle vague -principal movimento do cinema francês, que revelou Truffaut e Godard nos anos 60.


O filme gira em torno da relação familiar protagonizada por dois irmãos. Um deles, Paul (Romain Duris), passa por uma crise depressiva. O outro, Jonathan (Louis Garrel), é um colecionador quase compulsivo de casos amorosos rápidos. A seguir, Honoré fala à Folha sobre suas influências.


FOLHA – Como se deu a escolha dos dois protagonistas de ‘Em Paris’?


CHRISTOPHE HONORÉ – Meu primeiro desejo foi filmar novamente com esses dois atores que já tinham atuado em meus filmes anteriores. E oferecer a eles papéis que permitissem uma abordagem nova. Duris freqüentemente é usado nos filmes como um corpo enérgico, uma silhueta arranhada, e eu tive vontade de me aproximar dele e me concentrar sobre seu olhar, sua interioridade.


Veio disso a idéia da trama em que ele fica fechado num quarto. Para Garrel, pelo contrário, eu quis deixá-lo viver no plano; eu sabia que ele era o motor da história. Seu personagem é quase burlesco; ele está sempre prestes a sair do campo.’


 


‘Voltei para casa com a nouvelle vague’


FOLHA – Como você imaginou as relações familiares de ‘Em Paris’? Os pais são separados; há um filho, Paul, em momento depressivo; há a irmã ausente, Claire. Aliás, ela tem um papel central na história, não?


HONORÉ – Ao longo dos filmes, vou percebendo que, para mim, a família é o verdadeiro lugar de minhas histórias. E o que me interessa é observar como os sentimentos circulam dentro da família. Em ‘Em Paris’, especialmente, o sentimento de tristeza é como o bastão de revezamento que os personagens vão entregando um ao outro, ao longo de sua corrida. É verdade que a ausência, o ‘buraco’ resultante da morte de um dos membros de uma família, é algo que está sempre no cerne de minhas ficções. Claire é o centro de atração em torno do qual se organizam afetos e comportamentos dos personagens.


FOLHA – Em vários momentos do longa, há referências aos filmes da nouvelle vague e de cineastas mais antigos, como Renoir. Quais foram suas influências cinematográficas?


HONORÉ – Depois de ‘Ma Mère’ [2004], tive vontade de ‘dar prazer a mim mesmo’ com um filme. É o desejo de retornar ao que alimentou minha cinefilia e que, ainda adolescente, me fez sentir vontade de fazer cinema. É o cinema francês, e principalmente o cinema francês da nouvelle vague, que me trouxe para onde estou agora. ‘Em Paris’ não é um filme-homenagem, mas, como o personagem de Duris, sinto que eu ‘voltei para casa’. Minha casa cinematográfica. E essa casa é o cinema francês, de Renoir a Truffaut, passando por Godard e Eustache.


FOLHA – Em crítica de ‘Em Paris’, o diretor de Redação da revista ‘Cahiers du Cinéma’, Jean-Michel Frodon, elogia a demonstração clara de uma alegria de filmar, um estado de disjunção geral dos personagens e as atuações. Também acha que isso se destaca em seu filme?


HONORÉ – Entendo o que ele quis dizer. A felicidade de filmar, ou de filmar à francesa: tema pequeno, predomínio do tom de comédia para tratar de coisas sérias… E hoje, num cinema francês globalmente bastante queixoso e receoso quanto a seu futuro, isso é quase um manifesto. No que diz respeito à disjunção, formalmente, isso sempre foi minha obsessão.


Amo a variedade nos filmes, o inacabado, as mudanças de tom. Acho que já não podemos nos permitir fazer filmes que sigam uma nota só ou uma única linha. Para mim, a modernidade e a relação com o real passam pela reconstrução de elementos heterogêneos. Em relação aos atores, é verdade que, para mim, isso foi uma descoberta. Minha madrinha foi Béatrice Dalle em ‘17 Fois Cécile Cassard’. Depois dela, cada um de meus filmes partiu do desejo de levar determinados atores a filmar.


FOLHA – Em ‘Canções de Amor’, críticos viram na imperfeição de seu musical reflexos de ‘Os Guarda-Chuvas do Amor’, de Jacques Demy. Foi uma influência? E quais os desafios de se fazer um musical romântico em meio ao dia-a-dia de Paris?


HONORÉ – Minha relação com Demy é sobretudo de caráter regional. Sou da Bretanha, e Demy é um dos raros cineastas bretões. Quando eu era adolescente e ficava deprimido, fechado em meu quarto, o exemplo dele me reconfortava. Eu me diverti incluindo várias piscadelas em direção a Demy.


‘Canções…’ é um filme musical porque trata de personagens que são incapazes de exprimir sentimentos. Ao cantar, conseguem se expressar e, desse modo, chegar ao lirismo. Eu não queria que esse musical ficasse desligado da realidade, queria evitar a bolha kitsch ou o real metamorfoseado. Por isso quis filmar na rua. Escolhi apartamentos no primeiro andar, para que pudéssemos sempre enxergar a cidade que vive aos pés dos personagens.


Tradução de CLARA ALLAIN’


 


Pedro Butcher


Cineasta escreveu livros juvenis


‘A França produz mais de 400 filmes por ano, mas um terço deles é assinado por diretores que nunca farão um segundo longa. Já em seu quarto filme, Christophe Honoré conseguiu romper esse ciclo e se afirmar como um dos mais interessantes nomes da nova geração de cineastas franceses.


Christophe Honoré nasceu em 1970, no interior da França. Aos 25 anos, mudou-se para Paris, onde escreveu uma série de romances voltados para jovens, como ‘Tout Contre Léo’ (1996).


O primeiro longa veio em 2002: ‘17 Fois Cécile Cassard’, com Béatrice Dalle e Romain Duris, retrato de uma mulher dividido em 17 quadros independentes.


Nesse filme, selecionado para a mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes, Honoré praticamente recusou a palavra -como se precisasse provar sua capacidade de recorrer apenas a luz, atores e música para ser um cineasta. Mais tarde, ele mesmo reconheceria que essa decisão foi pueril.


Seu segundo longa, de 2004, foi uma adaptação do livro de Georges Bataille, ‘Ma Mère’. Honoré não fez uma transposição convencional do romance póstumo e inacabado do controvertido escritor. Para contar a história de um jovem (Louis Garrel) que, depois da morte do pai, é levado a uma vida hedonista pela mãe, Honoré optou por uma composição caótica e imprevisível, uma ‘gramática primitiva’, como definiu.


Dois anos depois, Honoré lançou ‘Em Paris’, uma evocação da nouvelle vague sem tons nostálgicos, exibida na Quinzena dos Realizadores de Cannes. Em 2007, veio ‘As Canções de Amor’, musical lírico e melancólico inspirado em um episódio marcante de sua própria vida, que esteve na competição oficial de Cannes e foi o início de uma merecida projeção internacional.’


 


Tereza Novaes


Best-sellers ganham as telas em 2008


‘Você já viu este filme antes: um título faz sucesso nas livrarias e acaba transposto para o cinema. Às vezes, dá certo e o texto ganha incrível vivacidade nas telas; em outros casos, o livro não tem a mesma sorte. E só há uma maneira de julgar: ler o livro e ver o filme.


Em 2008, pelo menos oito longas baseados em livros serão lançados nos cinemas. O primeiro da safra, no Brasil, é a animação ‘Persépolis’.


‘Persépolis’ é um relato da história recente do Irã, a partir da Revolução Islâmica, sob a visão da autora, Marjane Satrapi. Ela era uma criança em 1979, quando o aiatolá Khomeini chegou ao poder, e acompanhou as transformações da sociedade, do uso do véu à repressão às manifestações políticas.


Satrapi vive hoje na França e se tornou cartunista de sucesso, com direito a coluna no ‘New York Times’. Co-dirigiu o filme, que é a aposta francesa para o Oscar de filme estrangeiro de 2008.


Outro que tem boas chances nos prêmios do semestre que vem é ‘Desejo e Reparação’, baseado no livro do escritor inglês Ian McEwan. Foi indicado às principais categorias do Globo de Ouro: concorre a melhor drama, diretor, roteiro e ator -James McAvoy.


Ele interpreta Robbie, o jovem caluniado por Briony, a irmã mais nova de seu grande amor, Cecilia (Keira Knightley). O título do romance, ‘Reparação’, refere-se justamente à tentativa de Briony de reverter o mal que cometeu ao casal.


O autor aprovou a adaptação. ‘Visualmente esplêndido’, ‘bom elenco e boas performances’ e ‘em nenhum sentido afronta ao livro’, elogiou em entrevista ao ‘The Wall Street Journal’, no mês passado. McEwan fez apenas uma ressalva: ‘Há muitas coisas que se passam dentro dos personagens, e isso nenhum filme consegue mostrar’.


‘Na Natureza Selvagem’, inspirado no livro de Jon Krakauer, também se inclui na categoria de ‘premiáveis’. O filme de Sean Penn tem o maior número de indicações ao Screen Actors Guild, a Associação de Críticos de Los Angeles.


Blockbuster


Se a versão cinematográfica de ‘O Caçador de Pipas’, também indicado ao Globo de Ouro, repetir o sucesso do original, será o blockbuster do ano. Só no Brasil, o livro vendeu mais de 1,6 milhão de exemplares.


O filme tem direção de Marc Forster (de ‘Mais Estranho que a Ficção’) e roteiro de David Benioff (‘Tróia’ e ‘A Última Noite’, de Spike Lee).


Ainda em 2008, estréiam ‘Harry Potter e o Enigma do Príncipe’, sexta aventura do bruxinho, dirigido por David Yates, de ‘Harry Potter e a Ordem da Fênix’.’


 


Rachel Donado


Editoras fecham acordo com produtores


‘DO ‘NEW YORK TIMES’ – Já está em pleno vapor a temporada dos filmes com chances de Oscar, e os cinemas norte-americanos estão repletos de adaptações literárias, incluindo a versão sangrenta criada pelos irmãos Coen de ‘Onde os Velhos Não Têm Vez’, de Cormac McCarthy, e a adaptação dirigida por Mike Newell de ‘O Amor nos Tempos do Cólera’, de Gabriel García Márquez. Ainda nesta temporada estréiam versões para a tela grande de ‘Reparação’, de Ian McEwan, ‘A Bússola de Ouro’, de Philip Pullman, e ‘Persépolis’, de Marjane Satrapi.


Os autores literários têm partido para o oeste em busca de fama e fortuna pelo menos desde os tempos de Hemingway e Fitzgerald. Hoje, porém, algumas editoras estão investindo diretamente no cinema. Em outubro a Harper Collins, divisão da News Corporation, anunciou uma parceria com a Sharp Independent para desenvolver filmes baseados em seus livros. Enquanto isso, a Random House se aliou à Focus Features para co-produzir dois ou três filmes por ano baseados em obras de ficção e de não-ficção de sua dúzia de selos. O primeiro fruto dessa colaboração foi ‘Reservation Road’, dirigido por Terry George e baseado no romance de 1998 ‘A Estrada da Reserva’, de John Burnham Schwartz.


Essas parcerias proporcionam às editoras uma parcela maior nos lucros do que obteriam com os acordos tradicionais de direitos para o cinema, que geralmente lhes garantem pouco mais que publicidade para edições dos livros lançadas concomitantemente com os filmes. Agora a Random House e a Harper Collins terão direito também a uma porcentagem da bilheteria dos filmes e da receita deles em DVD, TV a cabo e outras mídias. E os autores envolvidos terão mais influência na escolha de roteiristas, atores e diretores.


Alguns envolvidos nessa área temem que a relação cada vez mais cúmplice entre Hollywood e algumas editoras esteja modificando as expectativas de sucesso literário e até mesmo a maneira como os escritores abordam seu trabalho. Hoje em dia ‘a maioria dos escritores não sente que seu livro tem valor a não ser que seja transposto para o cinema’, disse Annie Proulx em julho num festival literário na Itália, quando comentava a experiência de ter seu conto ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ adaptado para o cinema. ‘Acho que as pessoas escrevem seus livros já pensando na transposição para o cinema’, disse ela, qualificando isso como algo ‘desanimador’.


Tradução de CLARA ALLAIN’


Cristina Fibe


Fãs atrapalham as filmagens e especulam sobre roteiro de ‘Sex’


‘Um fenômeno antes mesmo de ser lançado, o filme da série ‘Sex and the City’, dirigido por Michael Patrick King, tenta manter a trama em sigilo enquanto os fãs, rodeando as locações em Nova York e Los Angeles, espalham possíveis detalhes do roteiro pela internet.


No YouTube, é possível assistir a cerca de cem vídeos amadores, feitos por espectadores que não só gravam de qualquer ângulo como não se envergonham de atrapalhar as filmagens, que começaram em setembro, gritando histericamente os nomes das atrizes.


Nos vídeos, mal se ouvem os diálogos, mas, com imagens de Carrie (Sarah Jessica Parker) vestida de noiva e Charlotte (Kristin Davis) grávida, uma trama vai se desenhando.


O tal casório de Carrie, por exemplo, que para muitos fãs não deveria acontecer, parece acabar mal. Uma busca por ‘wedding’ (casamento) e ‘sex and the city’ no YouTube mostra Mr. Big (Chris Noth) saindo do carro e sendo atacado por Carrie e seu buquê, enquanto ela, aos prantos, grita ‘eu sabia!’ e ‘me sinto humilhada’.


Entre os blogs, um dos mais completos é o sexandthecity movieblog.com, que arquiva as locações, com data e mapa, e tem ampla galeria de fotos.


No início deste mês, o primeiro trailer oficial de ‘Sex and the City – O Filme’, que estréia em 30 de maio nos EUA e em 4 de julho no Brasil, caiu na rede. Com 40 segundos, não revela nada além dos belos figurinos das quatro amigas.’


 


Leon Cakoff


Decretos não podem obrigar o público a ver filmes nacionais


‘Obrigar cinemas a exibir filme brasileiro é uma violência do poder público sobre uma atividade privada. É coisa dos anos 70 culpar os exibidores pelos males do cinema brasileiro. Naquele tempo havia até razão para malhar os exibidores que não modernizavam as suas salas. Mas, hoje, depois do cinema, vêm muitas outras mídias de difusão para um filme. Porque não se taxa o faturamento comercial das televisões abertas e por assinatura para um fundo nacional de produção audiovisual?


Nada contra a diversidade e a persistência cultural para se resgatar na população o hábito sadio de ir ao cinema, aprender e se divertir vendo filmes. Mas o governo ajuda os exibidores com muito pouco (adicional de renda apenas para salas de rua, fora de shoppings) e esvazia o seu próprio discurso pela necessidade de se ter mais salas de cinema pelo país. A importação de equipamentos de ponta para projeção, sem similares no país, faz incidir sobre eles 68% de impostos em cascata, federais e estaduais.


Cineastas e produtores pidões querem mais dias de obrigatoriedade de exibição de filmes brasileiros nas salas de cinema. Decretos autoritários podem obrigar a exibi-los. Não podem obrigar o público a seguir essas ordens. E é o que acontece. Não vale comemorar um aumento de 11% de público para filmes brasileiros em 2007 pelo impulso de um ou dois filmes. Cinemas às moscas para a maioria dos outros 52 dias de obrigatoriedade não pagam as contas fixas e mensais das salas. Um filme nacional sem público é prejuízo exclusivo para as salas. Produtores, distribuidores e governo não repartem o prejuízo com os exibidores. Mesmo com salas vazias, as contas iguais de funcionários, aluguéis, impostos, luz, água, seguem sendo apenas dos exibidores. A defesa do cinema brasileiro e independente sem patrocínio das salas torna a atividade ainda mais impraticável.


E, já que produção e distribuição de filmes brasileiros são garantidas com leis de incentivo, porque não expandi-las para toda a cadeia de exibidores? Sugiro a criação de um gatilho de compensações aos cinemas, gerido pela mesma Ancine que determina quantos dias por ano cada sala deve reservar para passar filmes brasileiros. A Ancine sabe qual é a média semanal de espectadores em cada sala do país. Sabe, portanto, dos prejuízos que as salas sofrem com a baixa freqüência de espectadores. Os produtores e diretores querem que seus filmes fiquem mais tempo em cartaz, mesmo com cinemas abaixo de suas médias de freqüência. Mais tempo em cartaz pode aumentar as chances de se ter um boca-a-boca a favor dos filmes. Mantendo-se os filmes brasileiros em cartaz pela segunda e terceira semanas, os exibidores deveriam ser compensados pela Ancine automaticamente com a cobertura dos prejuízos entre a média semanal da sala e a diferença a menos de público. Justo, não?


Carteiras falsificadas


Que tal acabar também com os descontos para estudantes, mais a cascata de carteiras falsificadas que são de envergonhar qualquer cidadão civilizado? Os ingressos imediatamente baixariam aos valores que se pagam hoje pelo meio ingresso. É fácil legislar enfiando a mão no bolso alheio. Porque de novo essa ingerência no universo dos espetáculos, e não nas livrarias, supermercados, farmácias e impostos?


Estudantes, com carteiras fajutas ou não, deveriam ter então desconto em toda a cadeia de consumo. A gravidade dos nossos males parece estar em uma profunda crise cultural. É a mesma crise cultural que faz com que pessoas esclarecidas se sintam à vontade para falsificar carteiras de estudante, para consumir DVDs piratas ou carpintejar barracos em terrenos invadidos. É a mesma crise de valores morais que as afasta do consumo de bens culturais. O país se esbalda na bolha da euforia de consumo. Não parece faltar dinheiro nas calçadas de bares, país adentro, para o consumo da sagrada cervejinha.


A crise cultural vem sim de uma barbárie que se expande há décadas pelo abandono de políticas públicas de educação. Somos sim um país mal educado. E a barbárie, silenciosamente, também faz expandir uma nova realidade cultural.


Cada vez menos pessoas fazem distinção entre um filme brasileiro e estrangeiro. Triunfa no país a cultura dos filmes dublados, para os iletrados que não conseguem seguir legendas. O que será para eles um filme brasileiro? Estão pensando agora em obrigar os cinemas a exibir trailers de filmes brasileiros. Espero não estar inspirando ninguém a pedir a proibição de filmes dublados.


LEON CAKOFF é diretor da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, sócio da distribuidora Mais Filmes e dos cinemas Frei Caneca Unibanco Arteplex e Ig Cine.’


 


RETROSPECTO
Carlos Heitor Cony


As previsões de um vidente cego


‘DURANTE ALGUM tempo, como editor de uma revista ilustrada, tinha como obrigação do ofício fazer o último número do ano com o que chamavam de ‘retrospecto’ dos meses que haviam passado. Era uma tarefa ao mesmo tempo fácil e chata.


Pegava na pesquisa os sumários das publicações, procurando basicamente os mortos havidos nos últimos 365 dias, os casais famosos que haviam se separado, os momentos mais quentes do futebol, da política, do cinema, da televisão e dos espetáculos.


A pauta era a mesma de todos os anos e, por ser a mesma, havia sempre uma conquista científica que abriria novos caminhos para a humanidade. Em algum laboratório do primeiro mundo, a cura do câncer estava iminente.


Um número de fim de ano é tão monótono quanto o primeiro do ano seguinte, quando a matéria principal não podia ser o retrospecto do que houve, mas a previsão do que poderia haver.


Em geral, dava-se destaque aos palpites dos videntes profissionais, uns caras geralmente vestidos de branco, num cenário esotérico, alguns com um globo de luz fazendo a função da bola de cristal, outros jogando búzios, todos chutando com a seriedade de donos do futuro e das gentes.


Num ano qualquer, cismei de acabar com aquela tropa de magos e inventei um tal de Allan Richard Way, indiano radicado na Inglaterra, morando num subúrbio de Londres, numa casa de estilo Tudor. Tinha a peculiaridade de sofrer de glaucoma e catarata. Na altura da quinta ou sexta entrevista, tornou-se o único vidente cego da história.


Difícil o acesso a Allan Richard Way. Somente um jornalista ocidental era recebido por ele todos os anos: tratava-se de um amigo, meu e dele, Richard Macpherson, também inventado por mim. (O nome foi tirado de um ponta esquerda da seleção inglesa daquele tempo).


Macpherson havia conhecido o vidente na Índia e garantia que ele previra os atentados que mataram diversos mandatários locais.


Daí que Allan Richard Way julgou mais prudente asilar-se na Inglaterra, país em que sua atribuição principal era prever os escândalos da Casa Real, os vestidos amarelo-canário da Rainha Mãe, as derrotas do ‘English Team’ e, eventualmente, uma mortandade de peixes antes da despoluição bem-sucedida do rio Tâmisa.


Com este suculento currículo internacional, Macpherson fazia Allan Richard Way prever terremotos no Japão, assassinatos na Albânia, suspeitas de desfalques nos bancos suíços, doenças insidiosas no estômago do papa reinante, separações escandalosas nas monarquias européias e no cinema norte-americano.


Capítulo especial era dedicado aos que iam morrer naquele ano. O vidente possuía um ‘siderômetro’, equipamento complicado que, de posse da data natalícia de um astro internacional, previa cientificamente a sua morte.


Por escrúpulo profissional do seu entrevistador, o vidente não era explícito. Nunca dizia pão-pão, queijo-queijo. Ficava mesmo em alusões periféricas.


‘Um certo cantor de prestígio mundial, que recentemente assinou contrato com uma gravadora internacional, sofrerá um acidente de carro e não sobreviverá.’ ‘Um escritor que quase ganhou o Prêmio Nobel sofrerá uma parada cardíaca provocada pelo excesso de gim. Deixará um livro inédito.’


As seis páginas dedicadas às previsões do vidente indiano exigiam que na abertura houvesse uma linha de chamada para a matéria, uma linha que deveria ter 72 batidas de máquina -as redações ainda não tinham computador.


Naquele ano, na afobação do fechamento, a frase alertava Elizabeth 2ª. para um fim próximo. Mas o nome da rainha estourava da medida. Substituí o Elizabeth pelo nome de Sartre, que realmente morreria meses depois.


Pressionado por mim e pelos leitores que gostavam de saber o que podiam esperar do futuro, Macpherson pedia revelações sobre o Brasil. Houve um ano em que Allan Richard Way previu um desastre na ponte Rio-Niterói; algumas pilastras desabariam e haveria mortos e feridos.


O ministro responsável não gostou da previsão. Mesmo assim, ordenou uma vistoria geral em toda a ponte e emitiu nota tranqüilizadora aos usuários.


Foi o fim do vidente que já estava totalmente cego e do único repórter ocidental que o entrevistava. Não tardou e a própria revista chegou ao fim.’


 


 


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O Estado de S. Paulo


Sexta-feira, 28 de dezembro de 2007


ATENTADO
O Estado de S. Paulo


Ataque mata ex-premiê do Paquistão


‘A ex-primeira-ministra paquistanesa Benazir Bhutto foi assassinada ontem em um atentado suicida quando deixava um parque em Rawalpindi, perto de Islamabad, após um comício de seu Partido Popular do Paquistão (PPP). A morte da carismática líder opositora provocou uma onda de protestos em todo o Paquistão e aprofundou a crise política no país, iniciada com a decretação do estado de emergência pelo presidente Pervez Musharraf, em 3 de novembro. A medida foi suspensa no último dia 15, mas a morte de Benazir pôs em dúvida a realização das eleições parlamentares do dia 8.


Nenhum grupo assumiu a autoria do atentado, que também deixou outros 20 mortos e 56 feridos. A suspeita, porém, recaiu sobre os militantes islâmicos. Musharraf condenou duramente o atentado e pediu a união da população.


‘Essa crueldade é um trabalho daqueles terroristas contra os quais estamos lutando’, disse Musharraf em breve discurso na TV. ‘Busco unidade e o apoio da nação’, acrescentou o presidente, que declarou três dias de luto e convocou uma reunião de gabinete de emergência, onde, segundo ministros, deve decidir se adiará as eleições. Também se especulou que ele poderia declarar novamente estado de emergência.


As forças de segurança foram postas em ‘alerta vermelho’ e soldados extras foram enviados para conter os violentos protestos em várias cidades pela morte da líder política.


Benazir, que tinha 54 anos, era a figura política mais conhecida do país. Ela foi a primeira mulher a ser eleita premiê no mundo islâmico, em 1988. Foi deposta em 1990 e reeleita em 1993 para ser novamente deposta em 1996 sob acusação de corrupção. Ela era respeitada no Ocidente por sua política liberal e determinação em combater o extremismo islâmico. O presidente americano, George W. Bush, buscava reconciliar a popular Benazir e Musharraf e obter a estabilidade no Paquistão, um aliado-chave em sua luta contra o terrorismo.


O ataque ocorreu minutos após Benazir discursar . ‘Ela estava dentro de um automóvel, quando alguns jovens começaram a gritar slogans em seu favor’, disse Qamar Hayyat, do partido da ex-premiê. ‘Sorridente, Benazir saiu pelo teto solar do veículo. Então, vi um homem jovem e magro disparando contra seu carro, depois ouvi uma forte explosão.’


Benazir, atingida no pescoço e no peito pelos disparos, foi levada a um hospital, mas morreu na mesa de cirurgia. Os médicos não disseram se sua morte foi causada pelos tiros ou pelos ferimentos provocados pela explosão. Ela deve ser enterrada hoje em sua cidade natal de Larkana.


REUTERS, AP, AFP E WASHINGTON POST’


 


ARTE EM PAUTA
Jotabê Medeiros


Abaixo-assinado pede intervenção no Masp


‘O movimento contrário à atual gestão do Masp ganhou ontem reforço maciço. Um abaixo-assinado organizado pelo professor Luiz Marques, ex-conservador-chefe do museu, intitulado SOS Masp: Apelo aos Poderes Públicos, já contava com mais de 50 adesões de peso, entre críticos e historiadores de arte, museólogos, galeristas e personalidades. Entre os que já subscreveram o documento estão Fábio Magalhães, ex-diretor do Memorial da América Latina, os críticos Agnaldo Farias, Alcir Pécora e Nelson Aguilar, a curadora Cacilda Teixeira da Costa, o filósofo José Arthur Giannotti e Manuela Carneiro da Cunha.


O documento chama o Masp de ‘instituição enferma’ e pede a pronta intervenção dos poderes públicos. ‘O problema a ser atacado de frente é de ordem institucional, pois, deste ponto de vista, o Masp é uma aberração: não sendo uma fundação, não dispõe de dotação original; não sendo, por outro lado, um museu do Estado, não é amparado por lei orçamentária. O mais importante museu de arte do Hemisfério Sul é uma sociedade civil de direito privado, constituída por algumas dezenas de associados que nada pagaram para sê-lo e que não contribuem com um centavo para a manutenção de sua associação.’


Os organizadores do abaixo-assinado prevêem que a data de 12 de novembro de 2008, quando cessa o contrato de comodato do prédio do museu, cedido pela Prefeitura, é perfeita para se retirar das ‘instâncias privadas’ sua gestão. Dessa forma, a tese da intervenção do Estado também ganha corpo. Também ontem, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo soltaram nota conjunta, informando que têm interesse em ajudar o Masp, mas que isso vai depender da ‘participação das duas esferas governamentais na gestão da instituição’.


A promotora Mariza Schiavo Tucunduva, do Ministério Público Estadual, intimou o presidente do museu, Julio Neves, para uma reunião hoje, às 14h30, na sede do MP, em São Paulo. Também foi chamado Ronaldo Bianchi, secretário-adjunto da Cultura do Estado de São Paulo. Segundo Mariza, a idéia é ‘apurar a situação financeira difícil por que passa o museu’ e também discutir uma forma de o governo do Estado passar a auxiliar a instituição, ‘visando a preservação do patrimônio cultural do País’.


O Conselho Deliberativo do Masp se reuniu extraordinariamente anteontem. Novo postulante à presidência, o publicitário Nizan Guanaes não compareceu. Em nota assinada por Julio Neves, e pelo presidente do conselho deliberativo, Adib Jatene, há um ataque aos críticos da administração. ‘A direção lamenta as declarações de oportunistas que, visando promoção pessoal, se aproveitam desta ação criminosa para confundir a opinião pública e denegrir o trabalho dos dirigentes do museu.’’


 


INTERNET
O Estado de S. Paulo


Polícia acha pilotos de racha no YouTube


‘A polícia de Amambaí (MS) identificou três rapazes, de um grupo de oito que postou no site YouTube um vídeo que mostra uma disputa automobilística pelas ruas da cidade, com imagens dos velocímetros em 200 Km/h. Segundo a polícia, eles podem ser condenados por direção perigosa, promover corrida não autorizada e apologia ao crime.’


 


CINEMA
Luiz Zanin Oricchio


Coutinho e Zhang-ke levam as palmas


‘ Um ano que tem Em Busca da Vida, de Jia Zhang-ke, entre os filmes estrangeiros, e Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, entre os nacionais, não pode ser considerado perdido.


Em Busca da Vida deu ao chinês Jia Zhang-ke o Leão de Ouro de Veneza no ano passado. Por um lado há o tema, a China, que surge como a grande potência emergente e cria inquietações nos países dominantes. Mas essa China, pelo olhar de Zhang-ke, aparece cheia de contradições – a principal delas a que opõe o crescimento acelerado a uma vida de tradição milenar. É o que constata o cineasta, não sem melancolia, mas também sem qualquer saudosismo. Com um tipo de cinema que às vezes lembra Antonioni pela rarefação e longos planos desertos, Zhang-ke mostra os seres humanos sendo levados para lá e para cá, como folhas ao vento carregadas pelo boom econômico.


Do lado brasileiro, o destaque vai para Eduardo Coutinho e seu Jogo de Cena. O diretor reúne um grupo de mulheres através de um anúncio colocado num jornal. Pede que elas lhe contem histórias de vida. Depois, convoca algumas atrizes conhecidas (e outras nem tanto) para que interpretem esses relatos. Importa é que todas – personagens e atrizes – trazem para o palco a ‘sua’ verdade, essa que recebe o carimbo de autenticidade da emoção, naquele que talvez seja o filme mais comovente, mas também o mais rigoroso, do ano.


Se pensarmos em Jogo de Cena como documentário, teremos de constatar que 2007 foi um ano excepcional para o gênero. Não apenas pelo filme de Coutinho, mas porque inclui também Santiago, outro título notável, este de João Moreira Salles. É todo um memorialismo pessoal, e também brasileiro de modo mais amplo, que o cineasta reconstrói através do depoimento do mordomo de sua família, os Moreira Salles. Depoimento humano, cheio de mistério e encanto, no qual muitos vêem, também, a expressão inconsciente da questão de classes à brasileira. A interpretação não é errada e seria difícil que não estivesse presente no filme, o que em nada o diminui.


A ano brasileiro no cinema não pode ser contabilizado sem lembrar o grande sucesso de público e de escândalo de Tropa de Elite, de José Padilha. Colocando em cena os métodos heterodoxos de combate ao crime utilizados pelo Bope, e numa linguagem ostensivamente unilateral, o filme provocou polêmica. Foi visto como denúncia por muita gente progressista, ao mesmo tempo em que era apropriado pela direita política mais tacanha (‘faz sucesso porque trata bandido como bandido’). Deixa legado interessante, o de ter relançado o debate sobre a segurança na sociedade brasileira e ter tirado muita gente da toca ideológica no momento em que a troca de opiniões se acirrou. Lançou também o debate sobre a pirataria, uma vez que foi amplamente copiado antes do seu lançamento comercial.


Outro filme de ficção forte foi Baixio das Bestas, de Claudio Assis, que põe em fricção a beleza plástica e seu horror temático – a violência contra as mulheres na Zona da Mata de Pernambuco. O enérgico Proibido Proibir, de Jorge Durán, teve a coragem de recolocar a questão política entre personagens jovens e contemporâneos, em linguagem também rejuvenescida. Já outros filmes brasileiros, que estão entre os melhores deste ano, preferiram dar tratamento intimista aos seus temas como Cão sem Dono, de Beto Brant, Via Láctea, de Lina Chamie, Casa de Alice, de Chico Teixeira, Mutum, de Sandra Kogut, Carreiras, de Domingos Oliveira. Cada um deles é excepcional à sua maneira, compondo um momento muito bom, do ponto de vista estético, do cinema nacional.


Entre os documentários também devem ser lembrados Hércules 56, de Silvio Da-Rin, e Caparaó, de Flávio Frederico, ambos sobre a resistência armada ao governo militar. 500 Almas, de Joel Pizzini, é uma obra inventiva sobre a questão indígena. E o ano fecha com o sensível O Engenho de Zé Lins, de Vladimir Carvalho, sobre o escritor paraibano José Lins do Rego. O gênero está em alta, como se nota não apenas pela qualidade, mas pela presença numérica. Entre os 80 títulos brasileiros lançados em 2007, 30 são documentários.


Entre os estrangeiros, além do chinês Em Busca da Vida, o destaque fica para a boa presença do cinema francês neste ano. Medos Privados em Lugares Públicos, do mestre Alain Resnais, é um dos melhores filmes do ano, ao lado de Lady Chatterley, de Pascale Ferran, que adaptou com grande sensibilidade o romance polêmico de D.W. Lawrence. Um Lugar na Platéia, de Danièle Thompson, é um filme agradável e rebuscado, e A Comédia do Poder traz a marca de outro mestre, Claude Chabrol, filmando sempre com rigor e leveza, esta uma qualidade tão em falta no mundo contemporâneo. Também no fechamento do ano, chegam os bonitos Conversas com Meu Jardineiro, de Jean Becker, e Em Paris, de Christophe Honoré, diretor que é o novo darling da Cahiers du Cinéma. Espera-se que esse diálogo retomado entre Brasil e o cinema francês seja mantido, inclusive com o lançamento aqui do fundamental A Questão Humana, de Nicolas Klotz, prometido para o ano que vem.


Outro dos melhores filmes de 2007 veio não da França, mas da vizinha Alemanha – A Vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck, sobre a polícia política da antiga Alemanha Oriental, a Stasi, e o controle que exercia sobre as pessoas.


Já as surpresas, aqueles filmes difíceis de enquadrar em qualquer categoria, chegaram de várias partes do mundo. São os casos de O Hospedeiro, de Bong Joon-ho, da Coréia do Sul, A Leste de Bucareste, do romeno Corneliu Porumboiu, O Grande Chefe, do dinamarquês Lars von Trier. Como classificá-los? Filmes mistos, que jogam em vários gêneros e usam diversas linguagens? Ou basta apenas fruí-los e aproveitar o que existe de surpresa nessa arte tornada rotineira? Qualquer que seja a resposta, estes foram filmes que estimularam a nossa imaginação no ano que passou, e isso não é pouca coisa.


O mesmo se poderia dizer de duas produções norte-americanas, Maria, de Abel Ferrara, e Império dos Sonhos, de David Lynch, ambos inclassificáveis, e no bom sentido do termo. O de Lynch ganhou certa notoriedade na mídia sob a etiqueta de ‘filme incompreensível’ mas do qual não se pode falar mal porque não pega bem. À parte esse detalhe, digamos, mundano, é obra notável pelo que tem de surpreendente, diga-se o que se quiser.


O cinema norte-americano de qualidade trouxe ainda o díptico sobre a 2ª Guerra de Clint Eastwood – A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima -, exemplo de cinema clássico, capaz de ouvir o outro e compreendê-lo como condição de compreender a si mesmo. Veio ainda dos EUA o belo faroeste crepuscular O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, entre outras coisas uma reflexão avant la lettre sobre a sociedade do espetáculo e suas conseqüências. O conceito de sociedade do espetáculo foi cunhado em 1968 por Guy Debord, mas o cineasta Andrew Dominik o utiliza para entender por que alguém é levado a destruir seu objeto de adoração. E o que lucra, e perde, com isso.


Também norte-americano, apesar de dirigido pelo mexicano Alejandro González Iñárritu, é Babel, filme que faz jus ao título e trata do mundo globalizado, sendo ele próprio uma produção entre vários países e falado em diversos idiomas.


Da Itália, de significativo, veio Novo Mundo, de Emanuelle Crialese, uma reflexão sobre a imigração no mundo moderno tomando como modelo as grandes levas migratórias do início do século 20. Não é nunca banal, e, apesar de dialogar no início com o neo-realismo, toma logo partido de uma linguagem própria e contemporânea. Não vai ao passado para nele se comprazer com a nostalgia, mas para melhor compreender (e criticar) o presente. É pouco ainda, pois da Itália também se espera sempre mais. Assim como da Grã-Bretanha, presente por aqui com dois bons títulos – A Rainha, de Stephen Frears, e Ventos da Liberdade, de Ken Loach.


Da América Latina, em ano fraco, tivemos, de notável, o mexicano O Violino, de Francisco Vargas, e O Guardião, do argentino Rodrigo Moreno. No plano cultural, o tal intercâmbio com os países ‘hermanos’ ainda é letra morta.’


 


Luiz Carlos Merten


Santiago, Ratatouille e Proust


‘É um dos momentos de maior empatia com o público, em Jogo de Cena. A entrevistada diz que chora assistindo a Procurando Nemo e puxa uma conversa sobre animação com o diretor Eduardo Coutinho. Ele não gosta. Ela diz – e Marília Pêra, que interpreta o papel, é ainda mais irônica na repetição da fala – que Coutinho não gosta porque é comunista, é contra Hollywood, etc. Talvez seja um bom início de conversa para se falar dos melhores do cinema em 2007. Há, como diz o próprio título, um poderoso jogo de cena que embaralha ficção e documentário no novo (grande) filme de Eduardo Coutinho, um jogo de cena que testa o próprio conceito do documentário. Coutinho, de alguma forma, está querendo dizer que o entrevistado de um documentário pode ser o ficcionista de si mesmo, que o importante é sempre a verdade – a emoção – do seu depoimento.


Coutinho arma o jogo de cena, mas de alguma forma se preserva e dirige o foco do seu interesse para o outro – mais exatamente, para as outras. Há outro jogo de cena em Santiago, de João Moreira Salles, mas lá, na conversa com o mordomo, o diretor expõe seu método e se sujeita a críticas pelo autoritarismo em relação ao personagem que não deixa de ser o serviçal da casa de seu pai. Jogo de Cena e Santiago foram os dois maiores filmes brasileiros do ano e talvez o segundo, com sua reconstrução proustiana do tempo perdido, seja ainda mais denso e profundo – o documentário que Luchino Visconti poderia ter feito, para refletir sobre a derrocada da sua classe social, do seu mundo aristocrático. O mais curioso – e, como brincadeira, se poderia dizer que a afirmação talvez horrorize Coutinho, dentro daquele espírito do que dizia sua entrevistada – é que o maior filme estrangeiro foi também um ensaio proustiano sobre o tempo perdido e reencontrado, mas não com atores nem com gente de carne e osso, mas uma animação. A cena de Ratatouille em que o crítico, provando o prato que o ratinho que sonha ser chef lhe preparou, é a madeleine da animação, um prodígio de técnica e emoção que, se fosse necessário escolher uma só cena para resumir o ano todo nas telas, bem poderia ser esta.


Ratatouille, Santiago – e Proust. Que ano! Dois documentários brasileiros e nenhum estrangeiro. Estabelecida a convenção de dez destaques – os dez melhores filmes do ano -, o cinema brasileiro comparece com mais um título, mas agora é uma ficção, A Casa de Alice, de Chico Teixeira, com a melhor interpretação feminina do ano, a de Carla Ribas. Os demais seis destaques estrangeiros – o sétimo é Ratatouille – são todos ficções. O alemão A Vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck, reabriu a vertente do clássico 1984, de George Orwell, para discutir, filosoficamente, a verdade como o sistema de mentiras no qual se esteia a sociedade, mas engana-se quem pensa que o diretor está falando somente da antiga Alemanha Oriental e de sua polícia secreta, a Stasi. A abrangência de A Vida dos Outros é muito mais ampla e o filme ainda trouxe o maior intérprete masculino do ano, Ulrich Mühe, que morreu em julho.


Foi, por sinal, um ano de grandes perdas – morreram (no mesmo dia!) Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, dois grandes cineastas, um sueco e outro italiano, que estabeleceram, desde os anos 50, a reputação de ‘autores’. Outro grande que veio da mesma década – Alain Resnais – chegou absolutamente lúcido aos 85 anos e mostrou, com Medos Privados em Lugares Públicos, que a idade só lhe aumenta a maturidade. Resnais, velhinho pelos padrões de uma sociedade que cultua o novo, consegue ser jovem, intelectualmente, como o chinês Jia Zhang-ke, homenageado da Mostra Internacional de Cinema São Paulo deste ano. Jia veio à cidade para falar sobre seu cinema e as transformações que atingem a China, agora capitalista – e Em Busca da Vida (Still Life) é o extraordinário testemunho deste mundo em transe.


Da China também veio A Maldição da Flor Dourada, de Zhang Yimou, aventura de artes marciais que encerra a trilogia do diretor, iniciada com Herói e que teve prosseguimento com O Clã das Adagas Voadoras. Zhang Yimou fez não apenas seu filme mais suntuoso, plasticamente, mas também elevou as artes marciais ao patamar da tragédia shakespeariana, já que o personagem do imperador, interpretado por Chow Yun-fat, é o Rei Lear da China. Para prosseguir com o diálogo Oriente/Ocidente, já que ambos compõem um díptico, pode-se considerar A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima um só filme de Clint Eastwood, com sua dupla visão do horror da guerra no Pacífico, do ângulo dos norte-americanos e dos japoneses.


Resta, ainda, um filme estrangeiro e é Pecados Íntimos, de Todd Field, com a outra grande atriz de 2007, Kate Winslet. (Aliás, se estão sendo destacadas duas atrizes, uma nacional e outra estrangeira, também se pode destacar mais um ator brasileiro e, embora Rafael Raposo, de Noel – Poeta da Vila, e Selton Mello, de O Cheiro do Ralo, sejam irrepreensíveis, ele bem poderia ser o excepcional Wagner Moura de Tropa de Elite, de José Padilha, o mais polêmico filme brasileiro do ano.) Pecados Íntimos fala de família, de culpa, de compaixão. A cena em que o pedófilo corta o próprio sexo e é socorrido pelo policial que queria matá-lo é outro momento maior do ano. Pode não ser tão ‘estética’ quanto a do crítico em Ratatouille, mas, Deus!, que aquilo é pungente, e doloroso. Não houve perdão mais belo em 2007.’


 


O Estado de S. Paulo


Começa a votação do Oscar 2008


‘A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood enviou anteontem 5.829 cédulas numeradas em que os eleitores expressarão suas preferências em 19 das 24 categorias do prêmio Oscar. Todos os membros terão direito a escolher entre candidatos das principais categorias, como melhor filme, ator, atriz, diretor, ator e atriz coadjuvante, entre outras. As cédulas têm de estar nas mãos da companhia PriceWaterhouseCoopers até as 17 h (hora de Los Angeles) do dia 12 de janeiro para serem contabilizadas. A lista de ganhadores permanecerá selada até 24 de fevereiro, quando ocorre a entrega dos prêmios no teatro Kodak.’


 


TELEVISÃO
Keila Jimenez


Fantástico em crise


‘A Globo resolveu adotar a tática do silêncio quando o assunto é a crise no Fantástico. O mais recente capítulo da história, a misteriosa saída da apresentadora Glória Maria da atração, tem poucas explicações e muita gente evitando falar no assunto.


Glória, que anunciou ontem via Globo que estava deixando o programa após dez anos, alegou, para o espanto de muitos, que o estava fazendo porque resolveu tocar sua carreira de cantora. A bom entendedor a alegação da jornalista basta para saber que há algo bem mais sério que justifique a saída de uma de suas marcas registradas. Cantora? Desde quando Glória Maria canta? E ela não pode tocar as duas carreiras simultaneamente, uma vez que ainda não é uma intérprete famosa?


A Globo não quer falar sobre o assunto. Diz que todos os seus diretores estão sobrecarregados no momento e não podem dar entrevista. Glória sumiu. Sua assessoria garante que ela viajou e não pode ser localizada.


Há quem acredite que além de Glória, Zeca Camargo também pode deixar o Fantástico que, com seu silêncio, mostra que a crise ainda vai longe.’


 


LIVROS
Motoko Rich


Editora prepara o sucessor de Potter


‘Com o encerramento da série Harry Potter, a editora americana dos sucessos estrondosos de J.K. Rowling está a caminho do que espera ser a sua próxima série arrasadora. Chamada The 39 Clues (em tradução livre, ‘As 39 pistas’), essa série terá 10 livros – o primeiro deles a sair em setembro próximo – e videogames, cartões para colecionar e prêmios em dinheiro associados. O projeto mostra o reconhecimento da Scholastic de que, por mais que a editora tenha alardeado a renovação do interesse pela leitura representado pelos livros de Harry Potter, muitas crianças estão hoje tão fissuradas por internet e videogames quanto pela leitura.


‘Queremos chegar aonde os garotos estão e fazer realmente parte de seu mundo completo em vez de chegar a apenas um aspecto dele’, disse David Levithan, um diretor editorial executivo da Scholastic. E acrescentou: ‘Para nós, isso é uma espécie de subversão educacional.’


A série, anunciada no começo do mês pela Scholastic, será para leitores de 8 a 12 anos e oferecerá romances de mistério narrando a história de uma família centenária, os Cahills, que supostamente seriam o clã mais poderoso do mundo. Segundo os livros, figuras históricas famosas, de Benjamin Franklin a Mozart, pertenceram à família. As tramas girarão em torno da corrida de dois jovens Cahills, Amy, de 14 anos, e Dan, de 11, contra outros ramos da família para serem os primeiros a desvendar as 39 pistas que levarão ao poder supremo.


Rick Riordan, o bem-sucedido autor da série Percy Jackson que inclui The Lightning Thief (O ladrão de raios) e The Sea of Monsters (O mar de monstros), livros com temática mitológica para pré-adolescentes, escreveu o primeiro título dessa nova série, The Maze of Bones (O labirinto de ossos). Ele também traçou o esboço do plano ficcional para os próximos nove episódios.


Os livros sairão com intervalos de dois ou três meses, e a editora já contratou Gordon Korman, o autor de livros como A Prova e As Profundezas, para jovens no ensino médio, para o segundo volume. Peter Lerangis, autor de livros das séries Spy-X e Watcher, além de escritor fantasma para as séries O Clube das Babás e Three Investigators, escreverá o terceiro título, e Jude Watson, que criou várias pré-seqüências para Guerra nas Estrelas, ficará com o quarto.


A série é também uma tentativa da Scholastic de criar uma franquia de marca da qual teria todos os direitos. Rowling conservou os direitos da série Harry Potter e, por isso, pôde fazer acordos separados para filmes e outros produtos licenciados, tirando a Scholastic da jogada.


Um jogo online permitirá que os próprios leitores procurem as 39 pistas, enquanto resolvem quebra-cabeças e jogam minijogos que serão renovados diariamente. Levithan disse que o site incluirá blogs escritos do ponto de vista de personagens, mapas, caças ao tesouro e vídeos, muitos com conteúdo histórico e geográfico. Cada livro virá com seus cartões para colecionar que poderão ser usados para encontrar novas pistas no jogo online. Os jogadores também poderão ganhar prêmios em dinheiro e outros.


A editora espera que os leitores reticentes sejam atraídos para os livros pelo jogo. ‘Ler os livros deixará você melhor nos jogos, e isso será um incentivo’, disse Suzanne Murphy, editora da Divisão Comercial da Scholastic.


Jesse Soleil, diretor do Lab for Informal Learning, um grupo de pesquisa dentro da Scholastic que desenvolve novos projetos, disse que muitos jogadores já são leitores ávidos. Mas, para os que não o são, ele acha que a série é ‘sobre viver onde esses garotos estão, e mesmo que eles estejam lendo os livros para ter informação para o jogo, receberão algum entretenimento e isso os levará à leitura’.


O escritor Rick Riordan esboçou a série em parte por seu componente jogo. ‘Eu era fanático por jogos’, disse ele, lembrando sua paixão por Dungeons e Dragons quando adolescente. Agora ele pratica jogos online com seus dois filhos. Mas ele disse que não tentou escrever o primeiro livro tendo em mente resultados específicos para jogos. ‘Minha principal preocupação foi elaborar uma romance de aventuras que se sustentasse sozinho, mesmo que os garotos nunca acessassem a internet’, disse.


Durante a fase de criação mental e depois que escreveu o texto, Riordan trabalhou com editores da Scholastic que sugeriram detalhes que ele poderia colocar no romance e que eles usariam também no jogo. ‘Há muita coisa em comum entre o que faz um bom jogo e um bom livro’, lembrou Riordan. ‘Que você seja um jogador ou um leitor, você quer se sentir imerso na história e investir na ação e nos personagens, e quer saber o desfecho e participar na solução do mistério.’


Quanto à associação dos livros a um jogo de internet ajudar a recrutar novos leitores, ele explica. ‘Alguns garotos sempre vão preferir os jogos aos livros. Mas, se você puder atingir alguns deles e lhes dar uma experiência com um romance que os fizesse pensar, ‘epa, ler pode ser outra maneira de ter uma aventura’, isso seria maravilhoso. Aí eu fiz o meu trabalho.’


TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK’


 


 


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