Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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ENTRE ASPAS >

Reinaldo Azevedo

31/08/2004 na edição 292

E a Fenaj, hein? A Federação Nacional dos Jornalistas, que, em tese, defende os… jornalistas, até a noite desta sexta-feira, dia 27, não havia pronunciado uma só palavra a respeito da ação truculenta promovida pela Polícia Federal, com o devido registro ‘jornalístico’ da blitz fascistóide do PT. Falei com Teodomiro Braga no fim da noite. Nem mesmo um telefonema de solidariedade. Nada! Só o silêncio miserável, arrogante e cúmplice. Entrei no site da federação. Havia na homepage três textos sobre o Conselho Federal de Jornalismo, um outro ainda atacando o jornalista americano Larry Rohter, dois que faziam a defesa da obrigatoriedade do diploma e links da integra do projeto de lei do CFJ, de um abaixo-assinado em defesa do conselho e das eleições na entidade. Já o Sindicato dos Jornalistas de Minas, em seu site, teve o bom senso de repudiar a ação da polícia. Nem tudo está perdido.

Já escrevi muitas vezes que a Fenaj se comporta como mero aparelho do petismo. Nem mesmo reconheço a sua legitimidade, eleita que é por uma minoria dos jornalistas, para falar em nome da categoria. Mas confesso que essa demora em reagir, se é que vai, me surpreende: apostava que uma reserva de dignidade ainda fosse possível. Não terão sido Teodomiro Braga e Almerindo Camilo, ambos jornalistas, vítimas de uma violência inaceitável? Receberam voz de prisão porque se atreveram a pedir para ler a ordem judicial. Mais ainda: a ação da polícia foi muito além do que autorizava aquele documento.

Eis aí um flagrante da deterioração do padrão democrático. O partido que filmou e fotografou a ação da Polícia Federal é o mesmo que aparelha a federação. Braga e Camilo devem ser considerados adversários ideológicos dos silenciosos da hora. Que não esperem contar nem com a proteção nem com a solidariedade de seus ‘coleguinhas’. Ainda que o tal jornal apócrifo, com efeito, estivesse num dos prédios visitados, nem mesmo isso autorizaria o espetáculo de truculência a que se assistiu.

Não sei se a Fenaj vai ainda se pronunciar. O que sei é que seus diretores sempre se mostraram muito serelepes quando se tratou de fazer pressão em favor de seu projetinho autoritário. Agora que dois profissionais são intimidados até mesmo na presença de armas, como se vê nas fotos, parece que o comissariado da entidade estava ocupado com outras tarefas. Afinal, convenha-se: tratou-se apenas de uma ação da Polícia Federal em edifícios de dois jornais, resultando na voz de prisão para dois jornalistas, tendo sido um deles algemado. Isso é nada para uma federação que se mostra disposta e apta a ‘orientar, fiscalizar e disciplinar’ tanto os jornalistas como o jornalismo. O texto também fala em ‘punir’.

Tenho uma sugestão: se aprovado o CFJ, a Fenaj deveria contratar para as diligências o delegado Magno José Teixeira. Ele demonstrou ter jeito para lidar com jornalistas que precisam de orientação, fiscalização, disciplina e punição.’



Folha de S. Paulo

‘Busca truculenta’, Editorial, copyright Folha de S. Paulo, 28/8/04

‘Delegados e agentes federais promoveram um deplorável espetáculo de violência e intimidação ao invadir na quinta-feira a sede da Sempre Editora, responsável pelo jornal ‘O Tempo’, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. As ações foram determinadas pela Justiça Eleitoral a pedido da coligação do PT que apóia a candidatura à Prefeitura de Betim da deputada federal Maria do Carmo Lara.

O objetivo era apreender uma publicação apócrifa intitulada ‘Betim em Dia’, que conteria ofensas à candidata e seria impressa na empresa jornalística, cujo presidente é o deputado federal Vitório Medioli, do PSDB. Nada, porém, foi encontrado.

Os relatos acerca da operação dão conta de que policiais, alguns deles armados de metralhadoras, dirigiram voz de prisão ao diretor-executivo e ao editor-chefe de ‘O Tempo’, chegando a algemar este último por cerca de 20 minutos. Os jornalistas teriam exigido, sem sucesso, a apresentação de um mandado. Ao que tudo indica, a incursão policial extrapolou seus objetivos, não se sabe se por mero despreparo -o que não chega a ser uma novidade no Brasil- ou por outras motivações.

Obviamente que a Polícia Federal não pode deixar de cumprir determinações da Justiça Eleitoral e que esta tem obrigação de zelar pela boa condução e pela lisura das campanhas e dos pleitos. E uma publicação apócrifa não apenas fere as regras eleitorais mas contraria a própria Constituição, que as proíbe. Bem diferente, no entanto, é usar da truculência para investir contra jornalistas.’

***

‘PF faz busca em jornal de MG a pedido do PT’, copyright Folha de S. Paulo, 27/8/04

‘Delegados e agentes da Polícia Federal fizeram ontem duas operações simultâneas de busca e apreensão em unidades do jornal ‘O Tempo’, na região metropolitana de Belo Horizonte, por determinação da Justiça Eleitoral. A ordem era para apreender um jornal apócrifo chamado ‘Betim em Dia’, que não foi localizado na sede da empresa.

No mesmo instante em que quatro delegados e oito agentes vasculhavam a gráfica e mais dois setores de ‘O Tempo’, em Contagem, outra equipe da PF fazia a busca na sede de ‘O Tempo Betim’. Os dois jornais são do grupo Sempre Editora, cujo dono e presidente é o deputado federal Vitório Medioli (PSDB-MG).

Durante a busca, o editor-geral de ‘O Tempo’, jornalista Almerindo Camilo, foi algemado por cerca de 20 minutos por suposto ‘desacato’. Os agentes da PF não entraram na redação, mas os jornalistas, por conta própria, foram ao pátio da empresa, enquanto a busca era realizada.

O pedido de busca e apreensão foi feito por representação da coligação do PT que sustenta a candidatura à Prefeitura de Betim da deputada federal e presidente regional do partido em Minas, Maria do Carmo Lara. O juiz Wauner Batista Ferreira Machado, da 316ª Zona Eleitoral, em Betim, foi quem deu a ordem.

PT e PSDB vivem às turras em Betim desde a eleição passada. Maria do Carmo enfrenta novamente o tucano Carlaile Pedrosa, que venceu a deputada em 2000.

Na representação, o PT alegava que a publicação continha informações injuriosas aos membros do partido, à deputada Maria do Carmo e a outros candidatos da coligação ‘Betim para Todos’. Por determinação do juiz, a operação foi feita sob sigilo.

A publicação ‘Betim em Dia’ é distribuída ao menos três vezes por semana na cidade, mas as informações que constam do expediente do jornal, como endereço e responsável, não são verdadeiras. Por isso seria apócrifo. No endereço do expediente funciona a Prefeitura de Bom Sucesso (MG) e um posto de saúde.

Segundo o TRE, um ex-sócio do jornal, que não teve o nome divulgado, disse que o ‘Betim em Dia’ era impresso na gráfica de ‘O Tempo’ -por isso, foi feita a busca na Sempre Editora.

Logo que chegou à sede do jornal, em Contagem, o editor-geral foi ao pátio e pediu o mandado aos agentes. Segundo Camilo, um delegado disse que daria depois, ele insistiu e acabou algemado. Teodomiro Braga, diretor de Redação, recebeu voz de prisão por desacato, mas não foi detido.

O coordenador-geral da campanha do PT em Betim, Carlos Roberto de Souza, disse que nada foi encontrado porque a informação de que haveria uma ação de busca e apreensão ‘vazou’. Segundo ele, os indícios de ligação entre os dois jornais são evidentes. ‘O ‘Betim em Dia’ publicava matérias idênticas às de ‘O Tempo’, às vezes até com os mesmos erros de português’, disse. A assessoria do prefeito Carlaile Pedrosa disse que seria divulgada uma nota negando a ligação dele com o fato.

O diretor-geral da PF, Paulo Lacerda, justificou a operação ao ser questionado se houve excessos na ação. ‘Estamos cumprindo uma ordem judicial. Se houve excesso ou não, é a Justiça que vai decidir futuramente.’ O diretor de Combate ao Crime Organizado, Getúlio Bezerra, também negou atuação política da PF. ‘Estamos cumprindo ordem judicial.’’

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