Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > INTERNACIONAL

Repórter do Estadão relata dias de prisão na Lìbia

15/03/2011 na edição 633

O Estado de S. Paulo, 13/3

Andrei Netto

Oito dias sob o poder arbitrário de Kadafi

No início da tarde de quarta-feira, um oficial das Forças Armadas da Líbia, chamado à cela por um carcereiro, postou-se atrás de uma parede, protegendo sua identidade, e emitiu uma sentença sobre o destino dos jornalistas do Estado e do jornal britânico The Guardian, presos havia sete dias naquela unidade militar em Trípoli: ‘Você quer saber quando vai sair?’, questionou, referindo-se a mim. ‘Esqueça. Vocês vão ficar aqui enquanto esses problemas com a Al-Qaeda (sic) continuarem. E só então vamos ver.’

A intenção da declaração era a de aprofundar a pressão psicológica, o terror contra aqueles considerados ‘inimigos da revolução’ do ditador Muamar Kadafi – no caso, a imprensa. Mas, sem saber, o coronel também ilustrou com perfeição a marca dos 41 anos do regime: a Líbia de Kadafi é uma verdadeira terra sem lei, sem Constituição, onde agregados do Estado, em diferentes níveis da burocracia, ditam a Justiça como senhores de prisões, libertações, torturas físicas e psicológicas e execuções sumária – fato não raro, segundo os testemunhos ouvidos pela reportagem em diferentes cidades rebeldes do país.

Nos oito dias em que estive preso, entre a custódia em uma sala de uma unidade da polícia e do serviço secreto na cidade histórica de Sabratah, pró-Kadafi, e a seguir em um quartel das Forças Armadas na periferia leste de Trípoli, a constatação mais evidente era a de que a ausência de um arcabouço jurídico, de um código que oriente a ação do regime, torna tudo possível – o que explica todos os excessos dos agentes oficiais.

A cronologia da viagem do Estado e The Guardian pela região oeste do território líbio começou por volta de 20 horas do dia 26, após a passagem pelo posto de fronteira de Dehiba, no sul da Tunísia. A partir de então, Ghaith Abdul-Ahad, repórter iraquiano do jornal britânico, e eu passamos a apurar em paralelo a ação dos opositores do regime em ação no interior do país, oficialmente sob o ‘integral controle’ de Kadafi.

O objetivo era rumar a Trípoli, diagnosticando no caminho a amplitude do movimento insurgente, denunciando os excessos do conflito armado, a exemplo dos que tinham ocorrido em cidades como Benghazi, no leste do país – onde estimativas apontam que mais de mil opositores do regime possam ter sido assassinados durante os protestos.

Essa intenção foi interrompida pouco antes das 23 horas do dia 2. Depois de rodarmos centenas de quilômetros por cidades como Nalud, Jadu, Zintan, Yafran, Sabratah, o objetivo final era cruzar Zawiya e rumar para a capital.

Para tanto, diferentes planos de ação haviam sido traçados – como de praxe desde a entrada no país. O primeiro deles já estava em curso desde a tarde anterior, via embaixada do Brasil: estabelecer canais de contato formais com o Ministério das Relações Exteriores líbio e informar a nossa disposição de nos apresentar às autoridades em troca de uma autorização oficial para permanecer em Trípoli.

Quando as negociações já haviam começado, segundo confirmaria mais tarde o embaixador do Brasil na Líbia, George Ney Fernandes, os celulares dos repórteres passaram a ser rastreados. Recebíamos telefonemas frequentes de um número não identificado. Foram mais de 50 chamadas no intervalo de duas horas, não atendidas. No final da noite, fomos subitamente expulsos da casa em que estávamos abrigados pelo proprietário.

A hipótese de traição imediatamente veio à tona. Cerca de 20 minutos depois, a prisão ocorreu. Quatro milicianos com armas de fogo, facas ou bastões de metal e madeira nos abordaram. Sem esboçar qualquer reação, nos entregamos.

Seguiram-se minutos tensos, quando fomos levados para uma caminhonete tingida de preto e branco, cores usuais de táxis no interior da Líbia. À porta do veículo, iniciei o gesto para retirar uma mochila das costas. Então, fui agredido por uma coronhada na testa, sem explicações. A agressão física se revelaria a única de todo o período da prisão – depois disso, só torturas psicológicas -, mas abria um precedente perigoso: as milícias em atuação na Líbia são responsáveis por alguns dos atos mais bárbaros relatados pelos opositores do regime, entre os quais desaparecimentos. O pior podia ser imaginado.

Serviço secreto. Uma vez no veículo, os milicianos iniciaram um percurso que não nos fora informado. Gritavam, em árabe, o que identifiquei como palavras de ordem em favor de Kadafi. Sentados lado a lado, Ghaith e eu mantínhamos as expressões sérias e o silêncio, sem esboçar nenhuma reação. Instantes depois, entretanto, o veículo parou. Três dos milicianos deixaram a caminhonete e uma única pessoa os substituiu: era um agente do serviço secreto líbio.

‘Não se preocupem: vocês estão em total segurança’, afirmou imediatamente. A seguir, dirigindo-se a mim, em árabe, com a tradução de Ghaith, completou: ‘Você está mais seguro comigo do que no Brasil’.

Foram momentos de distensão, que seguiriam no mesmo clima nas primeiras horas da madrugada. Em um prédio da polícia e do serviço secreto em Sabratah, fomos revistados e prestamos as primeiras informações formais. Éramos questionados sobre nossos documentos – passaportes e cartas de imprensa – e, principalmente, sobre o conteúdo de gravadores, os números registrados em telefones celulares, as imagens gravadas em câmeras fotográficas e computadores. Sem domínio da tecnologia, entretanto, os investigadores ficavam quase sempre restritos às declarações, sem condições de verificar a veracidade do que dizíamos.

A partir de então, um diálogo pôde ser estabelecido. Explicamos que a prisão havia acontecido no momento em que negociávamos uma autorização para ingressar em Trípoli, e garantimos que a embaixada do Brasil na capital estava informada do procedimento. ‘Se essa é a situação, vocês serão liberados na manhã de amanhã, depois que confirmarmos com o embaixador. Não temos nada contra a imprensa, mesmo que vocês sejam contra nós’, afirmou o agente, repetindo palavras usadas por Kadafi horas antes, quando discursara a cerca de 70 embaixadores em Trípoli.

O quadro de respeito e informalidade, entretanto, se reverteria no final da madrugada, quando a polícia, após telefonemas, foi informada de que seus detentos teriam de ser entregues às mãos das Forças Armadas. No final da madrugada a transferência aconteceu.

Mais uma vez com os olhos vendados, fomos entregues a soldados, que tiraram casacos e calçados – em um frio de cerca de 5º C. Ghaith e eu fomos separados. Foi o momento de maior tensão de todo o período de prisão. Em determinado instante, não havia militares à minha frente. De pés no chão, com frio, algemado e vendado, ouvia conversas em árabe às minhas costas. Além de pífias declarações prévias de que estávamos em segurança, pensei, nada impede uma execução sumária agora.

Terror psicológico. Ela não viria. Mas viriam oito dias de prisão sem acusação formal, sem advogados, sem telefonemas, sem direito a informar a família ou autoridades, sem direito a luz do sol, sem banho. Documentos para serem assinados – incluindo um depoimento – eram escritos em árabe e sem tradução. Após um único depoimento na primeira noite, e de uma indicação de que a liberdade viria no dia seguinte – promessa não concretizada -, nenhuma nova referência sobre prazo de detenção seria feita.

Na cela de cerca de 16 metros quadrados, situada dentro de uma sala – uma garantia de isolamento total -, um exaustor barulhento garantia a mínima refrigeração e a noção de tempo: dia ou noite, conforme se alternavam a luz do sol ou a escuridão. No moral de um detento, a desinformação absoluta e o isolamento completo do mundo exterior, sobretudo a impossibilidade de dar notícias, trabalham como métodos de tortura psicológica às vezes tênues, às vezes duras, mas sempre presentes.

Essa situação segue sendo vivida hoje por Ghaith, segundo informações obtidas por pelo jornal The Guardian ontem.

Mesmo se as violações de direitos civis vividas pelos dois repórteres no interior da Líbia foram graves, elas são apenas uma metáfora de situações bem mais graves que a reportagem do Estado verificou no país. Nas cidades controladas por rebeldes, os depoimentos de maus-tratos e execuções de opositores são frequentes.

Salah Khalifa, de 43 anos, porta-voz dos rebeldes em Nalud, foi torturado nos anos 90 por ser ‘herege’. Naji Sassi, filho de Sassi, um líder tribal da mesma cidade nos anos 80, tem uma história mais sintomática da tirania de Kadafi. ‘Eu tinha 10 anos quando nos atacaram. Eles invadiram minha casa, prenderam meu pai e o executaram. Meu irmão foi preso durante quatro anos e minha mãe se suicidou. Tomaram tudo de nossa família: carro, casa, dinheiro. Nos arruinaram’, conta, relembrando o comportamento opositor de seu pai em relação ao regime, o que lhe teria valido a retaliação. ‘Até hoje eu tenho o medo dentro de mim.’

Hoje ativista armado em sua região, Naji – que em árabe quer dizer ‘o sobrevivente’ – vê a oportunidade de mudar o curso da história. ‘Nesse momento eu começo a acreditar que a hora da vingança chegou.’

DIAS DE TENSÃO

22/2

Repórter Andrei Netto chega à Tunísia para cobrir crise na Líbia, país vizinho

26/2

Na cidade de Zintan, Netto envia os primeiros relatos sobre a Líbia

27/2

Repórter chega à cidade de Zawiya

2/3

Netto segue rumo a Trípoli, mas é detido e passa oito dias preso

 



 

Folha de S. Paulo, 13/3

Ataque mata cinegrafista da TV Al Jazeera

A rede de TV árabe Al Jazeera disse ontem que um de seus cinegrafistas foi morto em uma ‘emboscada por forças pró-Gaddafi’ próximo à cidade de Benghazi, no leste da Líbia.

Trata-se do primeiro jornalista morto em um mês de conflito no país.

Ali Hassan al Jaber, de nacionalidade não informada, voltava para Benghazi quando homens armados dispararam contra o carro em que ele e outros colegas viajavam. Outras duas pessoas morreram, e um repórter ficou ferido.

Wadah Khanfar, diretor-geral da Al Jazeera disse que a morte ocorre após uma ‘campanha sem precedentes’ do regime líbio contra a emissora.

Com o aumento da tensão, os dois jornalistas da Folha decidiram ontem deixar Benghazi em direção à fronteira do Egito.

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