Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 17 E 18/02

Revista Negócios da Comunicação

19/02/2007 na edição 421


ENTREVISTA / CARLOS ALBERTO DI FRANCO
Jorge Luiz de Souza


‘É preciso recuperar a reportagem’


‘‘Nós estamos no momento de revisar uma série de conceitos’, diz o professor
Carlos Alberto Di Franco sobre a crise por que passa a imprensa no Brasil e em
especial a mídia impressa, ameaçada pela perda de leitores. ‘A nossa tendência é
buscar sempre um bode expiatório fora de nós. No passado, o bode foi a
televisão. Dizia-se que estava roubando clientes da mídia impressa. Hoje, o bode
expiatório é a internet, os blogs. Mas, por que será que milhões de jovens
consomem o livro ‘O Senhor dos Anéis’, que tem 900 páginas, e ‘Harry Potter’,
que tem 800 páginas, e não consomem jornal?’


Na opinião dele, a falha está na falta de qualidade do conteúdo que se
publica, no burocratismo que tomou as redações e na incapacidade dos jornalistas
e dirigentes das empresas de atualizar os seus produtos. ‘É preciso recuperar a
reportagem, de uma forma que só os veículos impressos conseguem oferecer’, diz.
Ele prega ainda ‘reequilibrar a importância das redações ante o comercial e o
marketing’ e que ‘se faça a principal revolução, que ainda não foi feita na
mídia brasileira, que é a revolução dos conteúdos’.


O professor Carlos Alberto Di Franco é diretor do curso Master em Jornalismo
para Editores do Centro de Extensão Universitária, de São Paulo. Doutor em
Comunicação pela Universidade de Navarra, ex-chefe do Departamento de Jornalismo
da Fundação Cásper Líbero, onde também já foi professor de Ética da Comunicação.
Representa no Brasil a Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra e é
diretor no Brasil do Mediacción-Consultores em Direção Estratégica de Mídia, da
Universidade de Navarra. É também titular da empresa Di Franco Consultoria em
Estratégia de Mídia, e assume publicamente que é membro da Opus Dei, uma
organização católica conhecida por praticar a religião com um fervor incomum
para os dias de hoje. A seguir, os principais trechos de sua entrevista para
esta edição.


Qual é o seu diagnóstico sobre as dificuldades atuais do jornalismo no
Brasil?


A imprensa brasileira é de muito boa qualidade, não estamos distantes dos
melhores jornais da Europa Ocidental e dos Estados Unidos. Por outro lado,
estamos no momento de revisar uma série de conceitos. Durante um período longo,
vivemos sob a supremacia da área editorial dos jornais, e na última década houve
um avanço das decisões de marketing e da área comercial das empresas. Por um
lado, foi positivo, mas, por outro, talvez tenha acentuado demais a visão de
marketing e tenha diminuído a importância do conteúdo. Estivemos muito centrados
nos aspectos promocionais dos veículos, como os anabolizantes e campanhas de
marketing, mas não conseguimos dar a mesma ênfase na melhora dos conteúdos.
Será, acho, uma grande batalha para reequilibrar. Que o marketing ocupe seu
papel, que é importantíssimo, mas se faça a principal revolução, que ainda não
foi feita na mídia brasileira, que é a revolução dos conteúdos.


Qual é a verdadeira dimensão da perda de leitores pela mídia impressa?


A queda do número de leitores no Brasil não é tão dramática assim, muito
menos que nos Estados Unidos. Mas nossa tendência é buscar sempre um bode
expiatório fora de nós. No passado, o bode foi a televisão. Dizia-se que estava
roubando clientes da mídia impressa. Hoje, o bode expiatório é a internet, os
blogs. Uma pergunta que eu faço nas conversas com empresários do setor e com
jornalistas: por que será que milhões de jovens lêem o livro ‘O Senhor dos
Anéis’, de 900 páginas, e ‘Harry Potter’, que tem 800 páginas, e não consomem
jornal? Nós estamos oferecendo ao leitor que está chegando um produto útil para
ele, ou não?


O que nos impede de começar essa revolução dos conteúdos?


Há uma espécie de complexo de inferioridade nas redações de mídia impressa em
relação à televisão e agora no que diz respeito à internet. Em todos os
seminários e reuniões de imprensa, há uma grande preocupação negativa,
defensiva. Eu não vejo uma colocação proativa. Não vejo ninguém dizer: vamos
melhorar! O Brasil tem um mercado impressionante, não é saturado. As cifras de
circulação dos veículos são ridículas em relação à população. O Brasil é um país
pobre, mas tem uma classe média razoável, que não está consumindo produtos
impressos.


Como melhorar a qualidade?


É preciso recuperar a reportagem, de uma forma que só os veículos impressos
conseguem oferecer. Ela praticamente desapareceu dos jornais. Hoje se faz
reportagem pelo telefone. Onde está aquela figura do repórter que saía pelas
ruas, pela cidade, buscando a grande história? Eu me lembro de o jornalista
Ricardo Noblat contar que, no Correio Braziliense, ele fazia era encher uma
Kombi de repórteres e soltava todos no Eixão de Brasília, sem pauta, e os
recolhia no final da tarde. Eles vinham com matérias interessantíssimas.


Falta gente e por isso as redações não deixam o repórter se deslocar?


Não vivemos mais num período de bonança, como vivemos no passado, e as
redações estão enxutas. Mas, não podemos criar um esquadrão de reportagem, se
isso é o que o leitor está pedindo, se isso é o que dá sabor aos jornais? Os
grandes momentos da imprensa sempre foram aqueles em que se contam histórias.
Para a informação ordinária do dia a dia eu não preciso de jornal, porque me
bastam a televisão, o rádio e a internet. Outra coisa a fazer é uma cobertura
local de qualidade. Curiosamente, fala-se tanto de globalização mas há uma
enorme carência de proximidade. Aparece nas pesquisas que as pessoas querem
estar bem informadas sobre seu bairro, sua cidade, seu Estado, seu país e depois
sobre o mundo. Os cadernos locais dão informação de qualidade? Ou só rotineira?
São sem-sal, oficialistas.


A imprensa está um tanto deprimida, está com crise de criatividade?


Eu acho que sim! Mais do que crise de criatividade, a imprensa se
burocratizou. Ela não tem sabido, como dizem os italianos, olhar ‘al di là’
[além]. A mesmice não atrai leitor. E não é um fenômeno só brasileiro, é
mundial. Nos Estados Unidos, numa pesquisa de um ano atrás, apareceu uma frase
dos leitores, assustadora, dizendo que os jornais eram um produto absolutamente
desimportante para as suas vidas, que não acrescentavam nada.


Você se refere às novas gerações ou também aos leitores tradicionais?


Os leitores tradicionais. Eu tenho conversado com pessoas que eram leitores
tradicionais de jornais. Meu irmão, por exemplo, empresário, uma pessoa muito
bem informada, me diz: ‘eu leio muito pouco jornal porque não me acrescenta
nada. Tenho as informações econômicas online, e os jornais, nada de
interessante’.


Isso vem do período em que os jornais cresceram por conta dos
anabolizantes?


É um dos fatores. Com os anabolizantes, os jornais cresceram momentaneamente,
mas eu não afirmaria que agregaram leitores. Tiveram uma aparência de
crescimento que se demonstrou não ser verdadeira porque houve uma relação que
não era direta com o jornal, mas para obter algo, um carro, uma viagem, mas não
um jornal.


E o que você diz dos jornais populares, que nasceram via anabolizantes?


No jornal popular, eu concordo plenamente com o anabolizante. Para esse
público, é um meio de atrair leitores. No Diário Gaúcho, me impressionaram as
cartas dos leitores, algumas escritas em papel de pão, de pessoas muito simples.
No fundo delas estava a convicção de que o jornal é um parceiro, um companheiro
de viagem, que ajuda a resolução de seus problemas, conserta o buraco da sua
rua, tem força junto à autoridade. Os anabolizantes eram panelas, coisas
cobiçadas por aquele público. Nos jornais de classes A e B, o leitor quer
qualidade e não compra para ganhar uma panela. Alguns são atraídos por um
dicionário em fascículos, mas não continuam com o produto.


A inatividade dos meios tradicionais potenciou o efeito dos meios online?


O que criou esta situação preocupante para a mídia impressa não foi só a
internet, mas a ausência de capacidade de fazer um bom produto, de reagir, de
estar antenado aos interesses dos leitores, por parte dos jornais. O jornal não
soube mudar, melhorar.


Os blogs, ao invés de inimigos, não servem para conquistar leitores?


Sim. Antigamente, se falava que a televisão abre o apetite mas o jornal sacia
a fome. Agora, a internet abre o apetite, mas, se depois vou ao restaurante e só
encontro hambúrguer, eu vou dizer: ‘isto eu não quero, eu esperava uma coisa
melhor’. Este é o ponto.


A compra de um jornal deixa hoje uma sensação de insatisfação?


Claro! Estou fazendo uma consultoria com um jornal paraguaio e antes de
assinarmos o contrato eles disseram que queriam fazer um redesenho do jornal. Eu
disse: ‘não, não, não entramos’. O redesenho é o fim, não é o começo. Só vale se
o jornal estiver disposto a rever profundamente seu conteúdo. Vamos treinar
pessoas e melhorar o conteúdo. Depois é que vamos redesenhar.


No Brasil não tem sido o contrário…?


É verdade. O problema é que uma reforma gráfica sem mexer no conteúdo gera no
leitor uma expectativa que é frustrada depois. A mudança formal é estimulante,
mas quando o leitor encontra o mesmo produto, só que mais bonitinho, é como uma
velha de minissaia. Isso é uma das coisas que as pessoas não estão vendo.


Recuperar a criatividade, vencer o burocratismo, o que vem em seguida?


O didatismo, a clareza na explicação. O jornalista tem que escrever com
talento, com elegância, de uma maneira simples e didática. Alguns jornais fazem
isto com competência. A Folha de S. Paulo investiu muito nisso. Há atualmente um
empenho grande de O Estado de S. Paulo. Explicar de uma maneira gráfica o que
aconteceu é utilíssimo, responde a uma demanda.


Apesar de resistir à inovação, a imprensa vem acrescentando a cor, a
infografia…


São fórmulas que têm de ser juntadas a outras para dar um conjunto. A cor é
importante, o didatismo é importante, o infográfico é importante. Agora, é
fundamental investir na reportagem, na qualidade do texto e na informação local
de qualidade. Outra coisa importante: como se aproveita pouco a própria internet
como ferramenta de trabalho! Hoje, você tem qualquer biblioteca do mundo num
segundo. A internet enriquece a matéria.


A sua especialidade é a formação de jornalistas. Onde a formação está
errando?


Eu vejo que a raiz fundamental das falhas começa nas escolas.
Indiscutivelmente, nós temos uma safra de jornalistas que não saiu das escolas,
gente com texto muito bom, que contribuiu para o lançamento de grandes produtos,
que produziu reportagens importantes, que ficaram marcadas, pessoas que se
diferenciaram. O Ruy Castro é formado em Comunicação? Não! O Luiz Fernando
Veríssimo é formado em Jornalismo? Também não. Hoje, nós vemos uma ausência de
estrelas. Isso é bom? Isso é ruim? Isso faz pensar. Nós entramos em um período
de linha de montagem, em que não há grandes destaques…


Faltam talentos por falha da formação ou porque a exigência de diploma os
leva a fazer outra coisa na vida?


Isso teve o seu peso. Por que eliminar de uma redação alguém formado em
Ciências Sociais ou em História, pelo simples fato de ele não ter feito uma
escola de Comunicação? A reserva de mercado, numa área como a do jornalismo, é
muito prejudicial. Aquele sistema que nós tínhamos de ter um percentual de
pessoas formadas em outras áreas que podiam atuar numa redação era muito mais
interessante. Mas uma das causas fundamentais é a má qualidade das escolas. Essa
abertura indiscriminada de faculdades de Comunicação, achando que o mercado é
que vai selecionar, é uma atitude quase criminosa, lançando no mercado milhares
de pessoas que vão ser milhares de desempregados.


As faculdades não falham também no que toca ao conteúdo prático?


Em qualquer programa de formação, um binômio tem de estar presente: boa
experiência profissional e boa formação acadêmica. A não ser, evidentemente,
alguém que dê aula de filosofia, e mesmo assim acho importante que o professor
tenha alguma conexão com o mundo profissional, senão vai ficar na estratosfera.
Essa mistura da experiência com formação acadêmica dá um bom resultado para
formar o jornalista. Mas o que a gente vê, pelo menos o que eu conheço, quem dá
aula são pessoas sem contato com a redação, na sua imensa maioria. Quando dirigi
o departamento de Jornalismo da Fundação Cásper Líbero, o que eu fiz foi levar
profissionais do mercado, gente talentosa, criativa, inquieta, e isto criava um
caldo de cultura no estudante de jornalismo. Era alguém que tinha algo a dizer
para o aluno, uma pessoa que sabe o que é o ambiente de uma redação.


Empresas jornalísticas estão sendo dirigidas por gente de fora do meio…


Se você introduz uma pessoa de fora no nosso mundo – um mundo com uma cultura
muito forte -, ela dá soluções errôneas por desconhecimento. Eu me lembro de uma
grande empresa, cujo nome não vou mencionar, que contratou uma consultoria para
medir a produtividade do trabalho jornalístico, uma consultoria muito séria, mas
que não tinha noção de jornal. Estabeleceu como critério de avaliação da
produtividade o número de laudas produzidas (foi antes de a redação estar
informatizada). Uma coisa alucinante! Uma pessoa pode estar numa redação
produzindo praticamente zero e um mês depois ganhar um Prêmio Esso. Não se pode
ter num jornal critério de produtividade igual ao de uma fábrica de salsichas.
Essa ausência de sintonia tem conseqüências desastrosas.


No curso Master, que você dirige, aparece esse tipo de demanda?


De fato, mudou muito o perfil das empresas. Hoje, o jornalista tem de ter
noções de organização e implementação de orçamento, de gestão de pessoas,
motivação. Acho que isso foi longe demais. Se você fizer uma análise verá que um
diretor de redação passa mais da metade do seu tempo em reuniões que não têm
nada a ver com a redação.


Isso é inevitável…?


É um excesso, acho que é um desvio. Evidentemente, um diretor não pode estar
de costas para essa realidade de negócios, mas isso foi longe demais. O pêndulo
foi demais para a área comercial, de marketing, gestão etc. Nós temos uma
preocupação de dar essa formação – temos planejamento estratégico, finanças,
gestão de pessoas etc. – mas sem perder a discussão editorial, que é muito
intensa no Master. É um programa que pretende ser uma resposta às necessidades
do mercado. Eu converso com o mercado.


Com alunos de todo o país e seu trabalho de consultoria em vários Estados,
como você vê a imprensa nessas regiões?


O jornalismo regional está se mexendo bastante. Talvez, por serem empresas
menores, sejam mais ágeis. Quebrar a burocracia de um grande grupo é complicado,
mas em um grupo menor é mais fácil. Há empresas buscando soluções. Um exemplo
bem pequenininho mas significativo, que eu não vi em nenhum grande jornal: a
decisão elementar do Correio Popular, de Campinas (SP), de publicar a carta do
leitor com a foto do remetente. É uma coisa tão simples! Agora, imagine o que
significa do ponto de vista prático, de sentimento, o leitor pensar ‘eu sou
respeitado, sou valorizado, é o meu jornal, publica a minha foto’. Esse leitor
tem parentes, amigos, um universo que uma providência tão pequena pode alcançar.
Isso é um jornal que toma uma decisão e faz no dia seguinte. Num grande jornal,
uma decisão dessas demora. Mas ela tende a ser copiada.’


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