Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ENTRE ASPAS >

Roberta Oliveira

25/01/2005 na edição 313

‘Desde 1968 sem ser encenado no Rio, o musical ‘Roda viva’, de Chico Buarque, está de volta. A montagem que tem lotado o espaço Glauce Rocha, dentro da Uni-Rio, desde 14 de janeiro, é da Cia. Pitangas Bravas, da diretora Patrícia Zampiroli. A idéia do grupo era, depois de levar à cena textos de Nelson Rodrigues e Garcia Lorca, encenar um musical, o que não acontecia há uma década. Depois de uma longa pesquisa, o que fez Patrícia e a companhia optarem por ‘Roda viva’ foi a atualidade que, segundo eles, o texto escrito em 1967 tem.

— ‘Roda viva’ fala da criação da celebridade instantânea, o que ocorre até hoje — analisa Patrícia, referindo-se à trama, que acompanha a ascensão e queda de um astro construído e desconstruído pela mídia.

Diretora e grupo também estavam dispostos a mostrar que, se em 1968 as montagens dirigidas por José Celso Martinez Corrêa no Rio e em São Paulo tornaram-se símbolos da resistência contra a ditadura, agora o texto pode servir para falar de outro tipo de ditadura.

— Tem a ditadura da violência, as pessoas têm medo de sair — analisa Patrícia, que manteve a ordem de canções como ‘Roda viva’ e ‘Sem fantasia’. — Como o texto tem rubricas abertas, fizemos adaptações, para fazer a ponte entre 68 e 2005, e incluímos textos sobre violência.’



João Maximo

‘O carioca que anda depressa’, copyright O Globo, 23/1/05

‘Chico Buarque não se considera um carioca da gema, mas um carioca que aprendeu a amar sua cidade meio de longe, como um estrangeiro, sempre deslumbrado. Embora tenha passado toda a adolescência em São Paulo, o sotaque que trouxe de lá, segundo diz, está nos pés: gosta de andar depressa, como um paulista, pelas ruas de um Rio de cuja música — o samba, o rádio, o carnaval, os sons da rua — é construída a sua arte.

Essas são algumas das revelações com que ele abre o primeiro dos dez especiais de TV que o diretor Roberto de Oliveira dedica à sua vida e à sua obra. Uma empreitada impressionante, cuja meta principal, segundo Oliveira, é começar (ainda que com atraso) a pagar a dívida que temos todos com nossa memória musical.

— Este é o mais amplo e profundo levantamento audiovisual de um artista brasileiro — garante. — Tenho outros homenageados em mente, mas o ponto de partida tinha de ser mesmo o Chico.

O primeiro capítulo, ‘Meu caro amigo’ — que o canal 605 da Directv exibe em dez sessões seguidas, a partir de meio-dia de quarta-feira, e reprisa no dia seguinte, nos mesmos horários — é o bastante para que se dê razão ao diretor: nenhum outro artista da MPB tem sido personagem e testemunha de momentos tão importantes, emparceirando-se com os mais notáveis nomes de nossa elite musical ou criando sozinho obra tão rica e tão permanente. Tom, Vinicius, Edu, Francis, Toquinho, estes são os principais parceiros de Chico, todos eles presentes em cenas de arquivo que, não raro, emocionam. E quando não é um parceiro, é uma admiração, quando o objeto desta, como diz Chico, é único: Dorival Caymmi. Os dois cantam juntos, à beira do mar, canções de um e do outro, olhos brilhando de admiração recíproca.

Compositor diz que criar sozinho é mais fácil

O próprio Chico é o mestre-de-cerimônias. Só ele fala, quando se trata de entrevistas de hoje. Outro detalhe revelador foi o de sua experiência como letrista para música de outros. Criar sozinho, como aconteceu em seu começo de carreira, era menos difícil: ‘Música e letra você vai compondo, vai fazendo a música, a letra vai surgindo junto, você acomoda alguma coisa, acerta aqui, dá um jeitinho e vai amoldando uma coisa à outra. A letra que você faz para a música, não. Já tem uma forma fixa, você não pode alterar nada. As pessoas comparam muito com poesia, mas não tem nada a ver. É outra coisa. É muito mais difícil’.

Chico admite a falta de segurança em suas primeiras parcerias com Tom e confessa que foi ao lado de Francis Hime que ele aprendeu, realmente, a letrar música alheia.

Das primeiras parcerias Tom & Chico, é a belíssima ‘Pois é’ um dos exemplos do que Chico chama de insegurança. No entanto, é justamente com ela que se tem um dos momentos mais tocantes do programa: Elis Regina sozinha e depois com Chico brilha intensamente sob emocionada reação do público. O ano, 1974.

Chico não diz no primeiro programa, mas está confirmado, em cada quadro musical, o que ele observou em recente entrevista a jornal de São Paulo: assim como a ópera do século XIX definhou nos últimos cem anos, a canção, tal qual a entendemos (e tal qual Chico, parceiros e outros talentos das penúltimas gerações escreveram), já não será feita e ouvida da mesma forma daqui por diante. Quando se verá e se ouvirá novamente cenas e canções como as que desfilam na excelente trilha sonora?

Oliveira já tem dois outros capítulos concluídos, e a Directv vai exibi-los em fevereiro e março: ‘À flor da pele’, sobre as canções femininas, filmado em Paris; e ‘Vai passar’, sobre o Chico político, em Roma:

— Minha idéia é rodar cada capítulo numa cidade. O próximo, sobre o escritor, será em Lisboa. Depois, mostraremos outros aspectos do Chico, o do teatro, o do cinema, o das mulheres. Temos material para isso. Por enquanto, planos para DVDs só o de uma caixa com os três primeiros. Com as entrevistas completas.’



Arnaldo Bloch

‘Afinal, quem é Renata Maria?’, copyright O Globo, 23/1/05

‘Começou a temporada para descobrir quem é a musa da nova canção de Chico Buarque, a primeira em parceria com Ivan Lins, ‘Renata Maria’. A música é candidata a estrela do próximo disco de Leila Pinheiro, ‘Hoje’, em fase final de gravação.

Não há fã de Chico Buarque que não vá, mesmo em silêncio, especular quando ouvir ‘Renata Maria’. Será que existe mesmo uma moça com esse nome? E que groopie buarquiana não vai querer saber o que os olhos de ardósia viram nessa mulher que ‘saía do mar’?

— É quase impossível arrancar qualquer coisa do Chico. Todo mundo sabe como ele é — exclama o novo parceiro Ivan Lins.

Mas, com Ivan, Chico foi até boquirroto. Disse que Renata Maria já estava na gravação de melodia e acompanhamento que o cantor lhe mandou, e que serviu de base para escrever.

— Ouvi de novo e não percebi nada — pondera Ivan.

Mas, checando com cuidado, não é difícil identificar, no que seriam as passagens de Renata Maria, Ivan cantarolar coisas como airá, aíra, iara e iata nata nata.

Mas, semana retrasada, num dos estúdios da Biscoito Fino (onde gravou a canção com Leila), Chico disse, de repente:

— Renata Maria é um diminutivo de Renata. É como ‘Renatinha’.

O mistério não se esgota aí. O produtor Alê Siqueira nota que melodia e harmonia do trecho em que Renata Maria aparece são quase iguais ao do verso final de ‘Garota de Ipanema’ (‘por causa do amor’).

— As notas estão ali. E os versos terminam, numa música, com ‘amor’ e, na outra, com ‘do mar’.

Citação? Coincidência? Forças do id ? Tem mais: Chico entregou a música em 30 de dezembro, quatro dias após a tsunami. Na hora de gravar, houve uma controvérsia quanto a uma nota que ele cantava de um jeito e Leila de outro. O jeito de Leila era ‘solar’. O de Chico, ‘sombrio’. A coisa acabou ficando num meio-termo. Mas, na contemplação de Renata Maria saindo do mar, há um espanto’: ‘o assombro gelou/na minha boca as palavras que eu ia dizer’. Em outras passagens, Chico perde os pés, e seus olhos vazam ‘de não a ver’. Será que a angústia da visão do maremoto não se misturou à da contemplação da beleza de Renata?

Lambendo a cria — afinal, foi ela quem promoveu o casamento musical entre Chico e Ivan— Leila Pinheiro ouve várias vezes a cancão, entre outras do seu disco (que, além de ‘Renata Maria’, terá Renato Russo, Caetano, Francis e parcerias exóticas como a que une Marcos Valle com Jorge Vercilo).

Ela se recusa, contudo, a arriscar qualquer palpite sobre a musa.

— Da hora em que ouvi a gravação do Ivan ao momento em que recebi a letra de Chico, só consegui pensar em como era bela a canção.’



O Globo

‘Depois de ‘Budapeste’’, copyright O Globo, 23/1/05

‘Ano novo, música nova: ‘Renata Maria’, em parceria com Ivan Lins, a segunda após a ressaca criativa que se seguiu ao lançamento de ‘Budapeste’. A outra canção que quebrou o jejum foi para a versão cinematográfica de ‘A máquina’, de João Falcão. Há também ‘Fora de hora’, composta com Dori Caymmi para a trilha do filme ‘Lara’, que permaneceu inédita e vai estar no próximo CD de Joyce. É uma daquelas em que Chico escancara sua alma feminina. O ano também traz novas imagens e revelações: vai ao ar, na quarta-feira, na DirecTV, o primeiro dos dez especiais que o diretor Roberto de Oliveira dedica à vida e à obra de Chico. E uma releitura do musical ‘Roda viva’ pela diretora Patrícia Zampiroli vem lotando o espaço Glauce Rocha, na Uni-Rio. Tem mais. A atriz Eliane Giardini planeja montar ‘Gota d’água este ano. Agora só falta o disco. E depois o livro.’

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