Quinta-feira, 23 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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ENTRE ASPAS >

Sandra R. H. Mariano

09/03/2004 na edição 267

‘A indignação de Richard Stallman, um programador do Laboratório de Inteligência Artificial do MIT, diante da impossibilidade legal de compartilhar com seus colegas um código-fonte (conjunto de instruções que determinam como o programa deve funcionar) desenvolvido por ele, acionou a ignição do movimento pelo free software, que culminou com a criação da Free Software Foudation <www.fsf.org>, em 1985. Esta iniciativa é reconhecida hoje como uma das mais importantes ações civis organizadas em defesa da liberdade em tempos de sociedade da informação.


A expressão livre, do inglês free, refere-se à liberdade, ou freedom, dos cidadãos compartilharem, sem restrições, programas de computador. Para isto, foi criada a licença de uso copyleft (um trocadilho com a palavra left, no sentido de ‘deixar usar’), uma cópia de programa que não exige permissão prévia para o seu uso. A liberdade instaurada pelas licenças copyleft impõe, em contrapartida, que aqueles que usam os programas de código aberto, ao modificá-los e aprimorá-los, devolvam para a comunidade as melhorias introduzidas, sustentando uma espiral de crescimento do conhecimento em rede.


O conjunto de instruções que especifica como um programa deve funcionar tem um valor reconhecido e é protegido pela lei de copyright americana por 95 anos. A lei brasileira também protege o código-fonte e o classifica como uma propriedade privada – portanto, a apropriação pública é ilegal. As licenças copyleft cumprem a legislação e atendem aos objetivos do movimento pelo software livre.


No Brasil há uma certa confusão com o termo ‘software livre’, muitas vezes confundido com ‘software gratuito’. A tradução da palavra free, no sentido de gratuito, não corresponde aos preceitos do movimento que pregava a liberdade de conhecer os programas por dentro, com liberdade para alterá-los. Portanto, um programa de código-fonte aberto (open source) não necessariamente é gratuito. Alguns programas podem ser gratuitos, e não ter o seu código-fonte aberto. Um exemplo disto é o antivírus AVG. Só é possível fazer download do programa executável, pois a empresa não oferece o código-fonte, que é de sua propriedade e acesso exclusivos. É possível também ter um código-fonte aberto, cujo desenvolvimento foi pago. Por exemplo, o programa ‘Terra Crime’, que controla e monitora os atos criminosos por meio do registro e cruzamento de dados relativos ao espaço e ao tempo em que se deram, foi desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e pela UFMG, ao custo de cerca de R$ 100 mil, e possui licença do tipo CC-GPL da Free Software Foundation e da Creative Commons.


Em meados dos anos 90, o movimento foi impulsionado pelo avanço das tecnologias da informação e comunicação (TICs), graças, especialmente, à acelerada disseminação do uso da internet, tornando esta tecnologia a mais nova infra-estrutura de serviços à disposição da sociedade. O sistema operacional Linux e o servidor de internet Apache turbinaram a explosão dos serviços de internet em todo o mundo, ambos baseados em tecnologias abertas.


A importância da inclusão dos cidadãos em uma sociedade cada vez mais dependente das TICs tem preocupado a maioria dos países. No Brasil, o governo federal tem declarado que o uso de software livre na administração pública está entre as suas prioridades.


Há distinções importantes entre os modelos de negócio de software proprietário e livre. No primeiro caso, somente o proprietário do código-fonte pode vender a versão executável do software. Ou seja, somente ao ‘dono’ do programa é permitido: (a) vender ou licenciar o software (executável); (b) vender suporte ao produto; (c) explorar o conhecimento interno do software; (d) dar acesso preferencial a outras empresas para que apenas as escolhidas possam desenvolver seus produtos conhecendo o funcionamento interno deste; (e) controlar o ‘ecosistema’ em torno do produto.


No modelo de software de código-aberto, as receitas auferidas pelas empresas provêm das seguintes atividades: (a) suporte; (b) consultoria e treinamento; (c) melhorias implementadas no pacote, isto é, instalação mais fácil, melhor documentação; (d) customização. Neste modelo, os competidores não podem controlar o mercado, e seu ecosistema é composto por múltiplos vendedores. As empresas que utilizam o software, por sua vez, não se tornam prisioneiras de um único fornecedor (lock-in), diminuindo a dependência em caso de falência ou substituição da empresa por outro fornecedor, além de não incorrer em custos da licença. Os programas baseados em software livre são reputados como mais confiáveis, pois os diversos vendedores participam da comunidade de desenvolvimento solucionando de forma rápida às falhas apresentadas.


Ao completar 20 anos, o movimento pelo software livre proporcionará para a sociedade um amplo espectro de oportunidades e desafios num cenário dominado pelas desigualdades de acesso aos bens econômicos e sociais por cidadãos e empresas dos diversos países. As oportunidades comerciais advindas do software livre são potencialmente desconcentradoras e inclusivas, pois permitem que o mercado seja explorado por um grande número de empreendedores. Há uma grande oportunidade para os profissionais de informática constituírem empresas para prestar serviços de implantação, manutenção e treinamento em software, inseridos em um ambiente de aprendizagem contínua. Resta saber como as grandes empresas de software irão reagir ao movimento crescente pela adoção de software livre tanto em empresas privadas quanto públicas – e como o governo, nos diversos níveis da administração, fará para tornar efetiva a sua opção pelo software livre. SANDRA R. H. MARIANO é co-autora de ‘Administração empreendedora’ (Ed. Campus) e professora do Ibmec Business School e da UFF.’






FAMÍLIA SOPRANO

Virginia Heffernan


‘O poderoso chefão’, copyright Folha de S. Paulo / New York Times, 7/03/04


‘Hoje, depois de um hiato de 15 meses, ‘A Família Soprano’ retorna à HBO norte-americana para sua quinta temporada -como sempre, sob a égide de David Chase, o criador e produtor-executivo do programa.


Em entrevista, Chase fala do legado do programa, dos riscos inerentes à terapia e do horror que é a televisão aberta.


Pergunta – Em que ‘A Família Soprano’ difere do resto da televisão norte-americana?


David Chase – A função de um drama de uma hora de duração é tranqüilizar a população americana, dizer a ela que está tudo bem em sair para fazer compras. é bajular a platéia, fazê-la sentir como se todas as figuras de autoridade quisessem defender o que é melhor para o público. Mas ‘A Família Soprano’ não faz isso.


Pergunta – Quais são as distinções formais entre ‘A Família Soprano’ e os programas das grandes redes?


Chase – A televisão feita pelas grandes redes é basicamente falação. Acho que um programa deve conter elementos visuais, deve ter algum senso de mistério, algumas conexões que não dão certo. Acho que deve haver sonhos, música, coisas que não vão para lugar nenhum. Deus me perdoe, deve haver também um pouco de poesia.


Pergunta – Por que, você acha, a televisão aberta não consegue fazer tudo isso?


Chase – A televisão é prisioneira do diálogo e do ‘steady-cam’. é o estilo moderno.


Pergunta – E o que você prefere?


Chase – Prefiro ficar sentado no consultório da terapeuta para uma cena de 12 minutos. Existe uma regra em ‘A Família Soprano’: a câmera no consultório da terapeuta não se move. Achei que não deveríamos dizer ‘ei, esta é a parte importante’. Eu quero que tudo tenha o mesmo destaque. Quero que o público tenha de concluir o que é importante.


Pergunta – Alguém no programa fala a verdade?


Chase – Acho que Tony e Carmela [sua mulher] falam honestamente um com o outro. Tony fala de seus sentimentos com bastante honestidade, exceto pelo fato de ser infiel. E ela, por questão de ‘treinamento’, nunca menciona o que Tony faz. Assim, duas mentiras enormes são a base da relação deles dois.


Pergunta – Uma das mentiras mais comuns no programa é a maneira como Tony se refere a Christopher como sendo seu sobrinho. Será que ele não quer admitir que seu herdeiro indicado é apenas um parente muito distante?


Chase – Não há mais jovens iniciados na Máfia que tenham qualquer parentesco com Tony, mesmo que distante. Tony tem esse sentimento de que estamos sozinhos no universo e que as únicas pessoas que realmente se importam conosco são as da família.


Pergunta – Se Tony dá tanta importância a poder confiar na família, por que seu filho não está sendo preparado para assumir o negócio da família?


Chase – Tony já disse no programa: ‘Meu filho não sobreviveria’. Mas, se o filho se encaminhasse para a vida criminosa, Tony não tentaria impedi-lo. Mas acho que ele não se importa com quem vai chefiar a família Soprano quando ele se for. Tony fala do futuro da família e sobre seu lugar na história, mas o que ele quer é ter sucesso e tirar o máximo possível da família. Ele não se preocupa muito com a continuidade. Ele jamais diria isso, jamais admitiria que isso é verdade. O que vai acontecer com a família depois que ele se for não o interessa. é tudo da boca para fora.


Pergunta – Você acha que a televisão faz mal para as pessoas?


Chase – Na televisão está a base de muitos de nossos problemas. Ela trivializa tudo. Não existe mais mistério -já vimos tudo 50 mil vezes. E, para fazer o monótono ficar interessante, tudo é exagerado. Acho que o terrorismo, por exemplo, é uma questão de televisão: o que essas imagens na TV mostram? Como elas são passadas e repassadas até ficarem totalmente destituídas de sentido. E a próxima tem de ser algo ainda mais radical. Hoje em dia, parece que a TV divide muito as pessoas. Na verdade, acho que é um fator de isolamento.


Pergunta – Quer dizer então que você tem pruridos morais em relação a trabalhar na televisão?


Chase – Tenho. Nunca quis trabalhar na TV. Fiz pelo dinheiro. Sempre quis trabalhar no cinema, mas não consegui dar esse salto. Estou farto do formato da TV.’






TRUMP SHOW

Darcio Oliveira


‘O show de Trump’, copyright IstoÉ Dinheiro, 8/03/04


‘Magnata virou astro da TV americana com seu reality show corporativo e quer exportar o programa. O Brasil está na mira


O magnata Donald Trump surge imponente na tela da televisão. Sentado em uma cadeira de couro, com jeitão de poucos amigos, ele encara a câmera, aponta o dedo indicador quase na cara do telespectador e grita: ‘You´re fired! ‘ (você está demitido!). Delírio em 18 milhões de americanos, sintonizados na emissora NBC. é noite de quinta-feira e como vem acontecendo há oito semanas é neste dia que o empresário manda embora algum participante do reality show de maior sucesso na tevê americana: The Apprentice. Trump é o âncora do programa, o produtor e uma espécie de César, capaz de decidir a sorte dos ‘gladiadores’ que buscam o prêmio maior: uma vaga nas organizações Trump, com direito a salário anual de US$ 250 mil. Os 16 candidatos dividem um apartamento em Manhatan e, além da dura luta do convívio diário, são obrigados a realizar tarefas corporativas. Divididos em duas equipes de oito pessoas, os times têm de mostrar sua performance em várias questões relacionadas ao mundo dos negócios: marketing, promoção, finanças, administração e, como não poderia deixar de ser, vendas no mercado imobiliário (Trump é o rei dos imóveis em Nova York. Há mais prédios com o seu nome do que com o de Rockfeller). Aos vencedores da semana, recompensas como uma volta no helicóptero do magnata ou uma visita a sua mansão em Palm Beach. Aos perdedores, uma passadinha no escritório do homem para que ele aponte o dedo a um representante da equipe e o mande sumariamente para a rua. Um sucesso. E o programa poderá, em breve, ser exportado. Existem estudos para lançar até uma versão brasileira do show de Trump.


A TV americana faz milagres. O folclórico Donald Trump, com seu cabelo alaranjado, sua arrogância, suas esquisitices (ele tem pavor de cumprimentar as pessoas apertando-lhes a mão) e suas inclinações para exageros (tudo o que leva o seu nome é o maior, o melhor e o mais bonito), virou herói nacional de uma hora para outra. Em entrevista a revista americana Newsweek, Trump diz que costuma ouvir dezenas de ‘you´re fired’ quando passeia pela ruas de Manhattan. Até Jack Welch surpreendeu-se com o sucesso do colega. ‘Estava assistindo ao programa com minha mulher quando os dois filhos dela entraram no quarto gritando: You´re fired! You´re fired!’.


Conversas com o SBT. Quem está feliz da vida com toda essa repercussão é a NBC, rede que exibe The Apprentice. ‘Pudera. é o show número 1 da TV americana’, diz Trump. ‘é o maior sucesso da NBC desde Friends’. Lá vem ele com seus exageros . The Apprentice não é o primeiro no ranking da TV dos EUA. é o oitavo mais visto. Também não é o maior fenômeno da NBC depois de Friends. O seriado ‘ER’ (Plantão Médico) tem milhões de telespectadores fiéis há mais de nove anos. De qualquer forma, Trump estourou. E já está preparando a segunda versão do programa, que deve ir ao ar nos próximos meses.


‘Diante do sucesso, eu acredito que em breve poderemos retomar as negociações com emissoras brasileiras’, afirma Ricardo Bellino, sócio de Trump no Brasil. Escolhido para cuidar dos interesses do americano no País, entre os quais a construção do Villa Trump, um misto de resort e campo de golfe no interior de São Paulo, Bellino conta que no ano passado chegou a conversar com o SBT. ‘Foi um contato informal. Eles preferiram aguardar os resultados do programa nos EUA para levar a conversa adiante’. O resultado esta aí. A proposta mais realista para uma versão nacional é licenciar o formato junto a Trump Productions LLC. Obviamente que o magnata não poderia deixar seus negócios nos EUA para gravar no Brasil, o que levaria os possíveis interessados a escolherem um empresário local para o papel. Diante da possibilidade de uma versão nacional, DINHEIRO recorreu a opinião dos leitores (leia box). Deu Antônio Ermírio de Moraes na cabeça. Será?’






FOTOJORNALISMO

Juca Rodrigues


‘Os pioneiros’, copyright IstoÉ Dinheiro, 10/03/04


‘História da fotorreportagem no Brasil: a fotografia na imprensa do Rio de Janeiro de 1839 a 1900 Autor: Joaquim Marçal Ferreira de Andrade


Um outro livro mostra a explosão da fotografia no País, só que no século 19: História da fotorreportagem no Brasil, da Editora Campus. De autoria do pesquisador e professor Joaquim Marçal Ferreira de Andrade, da Biblioteca Nacional e da PUC/RJ, a obra traça a evolução do fotojornalismo na imprensa do Rio de Janeiro, de 1839 até 1900. Longe de ser algo muito árido e específico, conhecemos de forma agradável os primórdios da fotografia no Brasil e seus primeiros praticantes, como o francês radicado no Brasil Hercules Florence, que descobriu um processo fotográfico em 1833, seis anos antes, portanto, da descoberta do daguerreótipo, equipamento oficialmente reconhecido como o primeiro tipo de câmera fotográfica. A paixão que a fotografia imediatamente despertou no então jovem D. Pedro II, futuro imperador, foi uma das


molas propulsoras de sua divulgação no País.


O governante foi o primeiro cidadão brasileiro a fotografar, em 1840, e chegou a criar a distinção ‘Fotógrafo da Casa Imperial’, ao qual vários pioneiros no uso da fotografia fizeram jus. Os do ateliê Buvelot & Prat, sediados na cidade do Rio de Janeiro, foram os primeiros a recebê-la, dois anos antes de a rainha Vitória, da Inglaterra, conceder pela primeira vez honraria semelhante a um fotógrafo, Antoine Claudet, agraciado como ‘Photographer in-the-ordinary to the Queen’.


Várias viagens do imperador pelo Brasil foram fotografadas, como a realizada ao Recife em 1859 e documentada pelo alemão Augusto Stahl, que chegou a fazer uma seqüência batizada como ‘Desembarque de Suas Magestades em Recife’. Os registros aconteceram cinco minutos antes, no momento e cinco minutos depois. Ela é considerada pelos historiadores como a primeira reportagem fotográfica de nossa história. A vocação documental e jornalística da fotografia brasileira logo se revelaria. A guerra do Paraguai, ocorrida entre 1865 e 1870, foi o primeiro conflito armado captado pelos fotógrafos nacionais, entre eles Luiz Terragno e e Frederico Trebi, pouco depois de o americano Mathew Brady ficar famoso pelas suas fotos da Guerra da Secessão, nos Estados Unidos. Nessa época também desponta a obra do grande Marc Ferrez, filho de artistas franceses, nascido no Rio, reconhecido como o grande fotógrafo brasileiro do século 19. Único a receber o título de ‘Fotógrafo da Marinha Imperial’, outorgado pelo imperador D. Pedro II, suas paisagens e retratos são de extremo valor para a história do Brasil.


Os jornais, que então começavam a utilizar ilustrações e gravuras em suas reportagens, logo perceberam o valor dessa nova técnica. Em 1901, um profético Olavo Bilac dizia: ‘Nós, os rabiscadores de artigos e notícias, já sentimos que nos falta o solo debaixo dos pés… Um exército rival vem solapando os alicerces em que até agora assentava a nossa supremacia: é o exército dos desenhistas, dos caricaturistas e dos ilustradores. (…) Já ninguém mais lê os artigos. Todos os jornais abrem espaço a ilustrações copiosas, que [entram] pelos olhos da gente com uma insistência assombrosa.’ Uma foto começava a valer mais do que mil palavras.’

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