Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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ENTRE ASPAS >

Sérgio Augusto

15/02/2005 na edição 316

‘Mandato-tampão a gente já conhecia. Duquesa Tampão, só daqui a dois meses teremos uma. Tampão ou Tampax, tanto faz. Como tanto faz, aos ouvidos mais maldosos do Brasil, Tampax ou Cornualha. Eis um título que se encaixaria à perfeição em várias frontes da realeza inglesa, sem exceção do príncipe Charles, e mesmo nas de ilustres plebeus do Reino Unido, a começar pelo ex-marido de Camilla, Andrew Parker Bowles, chifrado às escâncaras durante pelo menos duas décadas.

Rainha, não a deixarão ser. A atual soberana, o arcebispo de Canterbury e 70% dos britânicos não querem no trono uma católica, além do mais, divorciada. Já lhe concederam o máximo: a possibilidade de ser uma princesa consorte, denominação honorífica comparável à do marido da rainha, Philip, o príncipe consorte, também conhecido como Duque de Edimburgo. Pus o verbo no plural, mas quem de fato decide sobre essas questões é quem manda no Palácio de Buckingham. Só Elizabeth II poderia dar o nihil obstat ao casamento, prerrogativa de uma lei que data do século 18.º.

Veio tarde o beneplácito real. Um caso de 34 anos não é um affair qualquer. Nenhuma outra história de amor contemporânea revelou-se tão torridamente reprimida como a de Charles e Camilla. O ‘amour fou’ dos surrealistas encontrou neles um emblema tardio. Só a loucura pode explicar o desejo de Charles, não de virar sapo e ser retransformado em príncipe pelos lábios de Camilla, mas de reencarnar como um absorvente higiênico feminino. E só a loucura naturalmente explica porque ele, péssimo em metáforas, considera (ou considerava) uma sorte (sic) ‘ser jogado na privada e ficar girando, girando sempre, sem nunca afundar’. Afinal de contas, em 1992, quando tão grotesca declaração de amor foi feita, grampeada e vazada, Camilla ainda dividia o mesmo banheiro com o marido.

Nem é preciso ser fã de Lady Di para achar a preferência de Charles por Camilla, no mínimo, esquisita. A eqüina catadura da futura duquesa da Cornualha é, para a maioria dos homens, um breve contra a luxúria. Mas quem vê cara não vê coração, e Charles, além de atraído por cavalos (o pólo é seu esporte favorito), descobriu em outras partes de Camilla atributos vedados a todos nós – e não expostos por aquelas fotos indiscretamente tiradas numa praia das Ilhas Mauritius, cinco anos atrás. ‘Ela tem um magnetismo animal’, revelou um amigo. E sabe dar uma cantada. Quando conheceu Charles, durante um jogo de pólo, em 1970, foi logo lhe dizendo: ‘Minha bisavó e seu trisavô foram amantes. O que você acha disso?’

O anúncio de que a cerimônia nupcial, marcada para 8 de abril, será íntima e discretíssima, decepcionou a mídia, mas não os paparazzi, que venderão a peso de ouro o que conseguirem fotografar no Castelo de Windsor. Charles e Camilla já haviam se conformado com a falta de pompa e circunstância. Sabem que já estão no lucro; que tiveram uma sorte que faltou à princesa Margaret, tia de Charles, impedida de se casar com o plebeu divorciado Peter Townsend, nos anos 50; e que nem as mágicas de Merlin lhes dariam um casamento igual ao que os pais do noivo tiveram – tão pomposo, que até serviu de pano de fundo para um musical da Metro, estrelado por Fred Astaire e Jane Powell. Tampouco ficarão surpresos se, daqui a alguns anos, o dia 8 de abril for menos lembrado como ‘o dia em que Charles e Camilla se casaram’ do que como o dia em que Buda veio ao mundo, a França e o Reino Unido assinaram a Entente Cordiale e Picasso morreu.

Na bolsa de apostas, o austero Times acertou na mosca. Vaticinou em 2000 que o casamento afinal se realizaria dali a cinco anos, estimativa que os assanhados tablóides londrinos, atentos a todas as fofocas da realeza, consideraram arriscada. Mas bonito, mesmo, fez o Guardian, que há quatro anos e dois meses ousou promover um plebiscito sobre a necessidade ou não da monarquia na Inglaterra. Os votos dos antimonarquistas, somados aos dos que se lixam para o destino dos Windsors, bateram em 56%. Ou seja, apenas 44% dos súditos de Elizabeth II consideram útil manter e sustentar uma família que custa à patuléia quase 8 milhões de libras anuais e só há 12 anos passou a descontar Imposto de Renda sobre os seus ganhos, digamos, privados.

É um anacronismo, martelam os republicanos. Em setembro de 2003, os liberais democratas desistiram, à última hora, de apoiar um plebiscito cujo objetivo final era depor a rainha. Seus integrantes mais acomodados preferiram ‘continuar trabalhando para uma reforma não traumática no sistema’, sonhando com uma monarquia meia-bomba, ao estilo da belga e da holandesa.

‘A monarquia deveria ser abolida até para o bem da minha profissão’, defende o jornalista britânico Christopher Hitchens. ‘Sem ela, ficaríamos livres daquelas matérias idiotas sobre duques, príncipes, princesas e seus escândalos’, adiantou o ferrabrás autor de The Monarchy: A Critique of Britain s Favourite Fetish, radicalmente favorável a um referendo igual ao que destronou o rei Constantino, da Grécia, em 1974. Hitchens já aconselhou o príncipe William, futuro enteado de Camilla, a largar tudo e mandar-se para a Califórnia. William, contudo, preferiu continuar no bem-bom real, praticando seu pólo aquático, freqüentando casas noturnas e manchetes da imprensa sensacionalista, na esperança de que daqui a uns 30 anos o trono será seu. Isso, partindo do princípio de que seu pai – que alguns desejam ver como rei daqui a um ano, quando a rainha chegar aos 80 – não morrerá antes dos 85 anos. Como sua bisavó, a Rainha Mãe, chegou aos 102, tudo é possível.

Para a maioria dos britânicos, príncipe Charles (que também é Philip Arthur George) deveria esperar até os 70 para herdar a coroa da mãe. Assumiria como George VII e não Charles III, retomando uma tradição que remonta a seu tio-avô Edward Albert Christian George Andrew Patrick David, que preferiu reinar como Edward VIII, e seu avô, que antes de virar George VI era chamado de Albert. Arthur II seria uma opção simpática, por homenagear o lendário monarca de Camelot. De mais a mais, o nome Charles não tem um bom histórico. Charles I foi deposto e executado, e Charles II morreu de apoplexia, depois de um jantar com a amante.

GRANDE REBANHO

Mas, ao que parece, o príncipe herdeiro não é supersticioso; do contrário, não teria batizado seu primogênito de William, que é um dos campeões em urucubaca na onomástica real britânica. Os três primeiros reis William morreram ao cair de um cavalo.

Felizmente, para os Windsors, o príncipe Harry, o filho mais problemático de Charles e Lady Di, é o terceiro na linha sucessória. Foi ele quem se fantasiou de nazista, no início do ano, brigou com um paparazzo, em outubro passado, e colou feio nos últimos exames em Eton. Beberrão e arruaceiro, tornou-se uma das ovelhas negras da família real. É grande o rebanho.

Provocar escândalos é uma especialidade dos Windsors. Edward VIII flertou com o nazismo. Wallis Simpson, por sua vez, chifrou-o com um vendedor de carros americano. Príncipe Edward, irmão de Charles, foi acusado de embolsar vultosas propinas orientais para sua produtora cinematográfica. O outro irmão, príncipe Andrew, não precisou fazer nada, a não ser casar com Sarah Ferguson, cuja bulimia só não foi mais desastrosa para a paz conjugal do que sua vocação para a galinhagem explícita.

O noivo de Camilla não pode atirar pedra em nenhum dos citados. Além de adultério e gafes diplomáticas (deu bolo num banquete para o presidente chinês, em 2000) e ecológicas (defende a caça à raposa), cometeu, dizem, o que os mais britânicos entre nós chamam de deslize fiscal. E o que dizer de sua vocação para tampão?’



Steven Morris

‘Relação sobreviveu à intriga e ao escândalo’, copyright O Estado de S. Paulo, 13/02/2005

‘Se o casamento de Charles e Diana foi baseado num ideal fantástico, a relação entre o príncipe e Camilla tem fundação muito mais terrena. Charles e Diana eram o casal de conto de fadas ideal para tablóides – o herdeiro do trono e a jovem bela e tímida. Mas mal se conheciam quando se casaram e nunca se entenderam depois.

A relação entre Camilla e Charles estende-se por mais de três décadas e sobreviveu à intriga e ao escândalo, à perspectiva de crise constitucional, ao escárnio das massas apaixonadas por Diana e a uma pletora de fotografias desfavoráveis destinadas a apontar as diferenças de beleza física entre a falecida princesa e a futura esposa.

Mas amigos testemunham que a relação sobreviveu – e o casamento vai prosperar – por causa de suas raízes profundas. Charles e Camilla se conheceram no verão de 1971, apresentados por uma ex-namorada do príncipe, Lucia Santa Cruz, durante uma partida de pólo perto do Castelo de Windsor, a oeste de Londres. Camilla Shand e Charles se interessaram um pelo outro imediatamente. Eles compartilhavam o mesmo senso de humor infame – embaraçosamente evidente 20 anos depois, quando surgiram as conversas do ‘Camillagate’ -, gostavam de vozes e sotaques simplórios e adoravam o programa humorístico de rádio The Goons. O amor de Camilla pelo campo, pela caça e pelas tradições rurais – em contraste com Diana, cujo ambiente natural era o rico Kensington em Londres, e não Highgrove, a residência de campo de Charles no oeste da Inglaterra – impressionou Charles.

Diz a lenda que foi Camilla quem tomou a iniciativa. No outono de 1972, o romance floresceu quando o casal conviveu em Broadlands, a residência da família Mountbatten em Hampshire.

Jonathan Dimbleby escreve em sua biografia de Charles, com a qual o príncipe cooperou: ‘Ele ficava à vontade com sua companhia e sentia que ela poderia ser uma amiga e companheira para amar e tratar com carinho. Para seu deleite, parecia-lhe que estes sentimentos eram recíprocos.’ Penny Junor, outra autora real próxima do círculo do príncipe, afirma que Camilla ‘estava apaixonada e teria se casado com ele sem hesitar’. Mas Charles não a pediu em casamento e o casal foi separado quando o príncipe, oficial da Marinha Real, foi para o Caribe na fragata HMS Minerva.

O impulso se foi e, em julho de 1973, Camilla se casou com o oficial do Exército Andrew Parker Bowles, com quem tivera uma relação antes de conhecer Charles. ‘Suponho que a sensação de vazio acabará passando’, escreveu Charles. Talvez ele tenha se sentido um pouco menos vazio no fim dos anos 70, quando Camilla voltou a desempenhar um papel importante em sua vida. Andrew e Camilla Parker Bowles tornaram-se visitantes freqüentes das residências reais de Balmoral, Sandringham e Windsor e Charles passou a considerar Camilla sua melhor amiga e mais íntima confidente. Alguns acreditam que eles também se tornaram amantes nessa época. Então veio ‘Lady Di’, como o adorador público britânico passou a conhecê-la. Perniciosos cronistas da saga sugeriram que Camilla e outra velha amiga do príncipe lideravam um comitê informal para selecionar jovens adequadas a Charles, observando que ele teria pedido Diana em casamento na horta da família Parker Bowles. Diana, elas supostamente decidiram, causaria menos problemas a Camilla.

Diana certamente se incomodava com Charles e Camilla antes mesmo do casamento. Pouco antes do grande dia, encontrou um bracelete comprado por Charles para Camilla com as letras GF gravadas – possivelmente significando ‘Girl Friday’, o apelido que o príncipe dera a ela, ou talvez ‘Fred’ e ‘Gladys’, os pseudônimos que eles usavam.

Dimbleby escreve que Charles deu o bracelete a Camilla em pessoa e disse adeus ‘pelo que ambos pretendiam que fosse a última vez’. Ele afirma que o príncipe ‘praticamente não fez contato’ com Camilla por mais de cinco anos. Foi só depois que o casamento, nas palavras de Charles, ‘fracassou irremediavelmente’ que ele voltou a Camilla. Outros não têm tanta certeza. O repórter real James Whitaker disse numa ocasião no Daily Mirror de Londres que o príncipe passou a véspera de seu casamento com Camilla no Palácio de Buckingham, alegação negada veementemente. Em outra reportagem, o Sunday Mirror afirmou que, oito meses antes do casamento, uma mulher misteriosa passou uma noite com Charles no trem real, num desvio. A suposição na época era que se tratava de Diana. Hoje acredita-se que pode muito bem ter sido Camilla.

Em 1992, Diana, por meio do jornalista Andrew Morton, revelou que Camilla era amante de Charles. Poucos meses depois, as fitas do Camillagate – aparentemente, gravações de conversas telefônicas entre Charles e Camilla em 1989 – surgiram em sua dolorosa glória. ‘Oh, Deus’, diz Charles, ‘simplesmente vou viver dentro de suas calças ou coisa assim. Seria muito mais fácil.’ ‘Em que você vai se transformar?’, pergunta Camilla. ‘Numa calcinha ou algo assim?’ ‘Oh, Deus me livre, num Tampax’, sugere o herdeiro do trono. Foi enormemente embaraçoso para a família real. Uma charge do Sun mostrou o príncipe – que fora motivo de zombaria por conversar com suas plantas – entrando numa estufa, recebido por suas plantas, que pediam: ‘Fale sujo com a gente!’ Em novembro de 1995, quando os Parker Bowles já estavam divorciados, Diana disse ao Panorama, da BBC, que havia ‘três de nós’ no casamento. Um ano depois, Charles e Diana estavam divorciados; 12 meses mais tarde, Diana estava morta.

Àquela altura, já havia começado o processo para transformar Camilla numa parceira aceitável para o futuro rei. Eles ficaram dois anos sem aparecer juntos em público. Quando enfim foram fotografados juntos, tratou-se de um acontecimento planejado, na chegada do casal ao Hotel Ritz de Londres.

A coreografia rumo ao casamento terá de ser precisa. Alguns nunca perdoarão Charles por preferir Camilla a Diana; outros estão conformados com a idéia. Muitos podem estar simplesmente aliviados porque uma tortuosa história de amor parece ter enfim chegado ao ponto que realmente deveria ter atingido há 30 anos.’



ECOS DA GUERRA
Jacques Steinberg e Katharine Seelye

‘‘Fogo amigo’ derruba executivo da CNN’, copyright Folha de S. Paulo / The New York Times, 13/02/2005

‘Eason Jordan, executivo sênior da rede de televisão a cabo CNN que era o responsável pela cobertura da emissora no Iraque, apresentou sua demissão abruptamente na noite de sexta-feira, na esteira de uma polêmica jornalística em que ele tocou durante um debate realizado no Fórum Econômico de Davos, na Suíça, no mês passado, em que pareceu ter insinuado que soldados dos Estados Unidos alvejaram jornalistas propositadamente, inclusive matando alguns.

Embora a transcrição das declarações de Jordan no dia 27 de janeiro em Davos não tenha sido divulgada, o moderador do debate, David Gergen, editor da revista ‘U.S. News & World Report, disse em uma entrevista anteontem que Jordan inicialmente falou em soldados ‘dos dois lados’ que ele acreditava terem ‘mirado’ nos quase 50 jornalistas mortos no Iraque. Quase imediatamente após fazer a afirmação, Jordan, cujo cargo na CNN era de vice-presidente executivo e executivo chefe de notícias, ‘logo recuou para deixar claro que não havia uma política de parte do governo americano para atingir ou ferir jornalistas’, disse Gergen.

Interpelado por um deputado americano que estava na platéia, Jordan disse que o que quisera dizer era que alguns jornalistas haviam sido mortos por tropas americanas que não sabiam que suas armas estavam mirando jornalistas. Entretanto, as declarações de Jordan logo chegaram a páginas na internet e foi tema de um artigo no dia 3 de fevereiro na página do National Review. AnnCooper, diretora executiva do Comitê de Proteção dos Jornalistas, disse que 54 jornalistas foram mortos em 2003 e 2004. Pelo menos nove deles foram vítimas de fogo americano, ela afirmou.

Em discussões com o Pentágono, Jordan se caracterizou por ser um firme defensor de assuntos ligados à segurança de jornalistas no Iraque. Em um memorando enviado a seus colegas anteontem, Jordan, 44, que trabalhava na emissora há mais de 20 anos, disse que ‘decidiu demitir-se em um esforço para para preservar a CNN de ser injustamente atingida pela controvérsia sobre assuntos conflituosos em minhas recentes declarações a respeito do alarmante número de jornalistas mortos no Iraque’.

Num e-mail enviado à equipe, Jim Walton, presidente da CNN News Group, uma divisão da Times Warner, anunciou a demissão de Jordan, que teve efeito imediato, elogiando seus 23 anos de serviço na rede.

Ao aceitar a demissão de Jordan, a CNN parece querer colocar um ponto final no episódio o mais rápido possível, talvez em um esforço para evitar que se repitam as tensões ocorridas no ano passado entre a CBS e o governo Bush. Depois de veicular uma reportagem no fim de setembro crítica ao serviço do presidente Bush na Guarda Nacional durante a Guerra do Vietnã, a CBS defendeu a notícia por mais de uma semana, apesar de denúncias de páginas da internet, antes de admitir que não podia tinha como comprová-la.

Dan Rather, âncora da CBS, logo depois anunciou que deixaria o cargo no dia 9 de março, e a emissora disse que demitira um produtor e que estava estudando a demissão de outros três depois que um relatório externo que encomendara encontrou graves falhas na investigação por trás da reportagem.

Não é a primeira vez que Jordan se envolve em polêmicas. Em abril de 2003, ele escreveu um artigo para o ‘New York Times’ dizendo que a CNN havia suprimido notícias sobre brutalidades cometidas no Iraque de Saddam Hussein, afirmando que elas poderiam ser um risco para vidas de iraquianos, particularmente de funcionários do escritório da CNN em Bagdá. ‘Me senti muito mal em manter essas histórias ocultas’, escreveu Jordan. ‘Agora que Saddam se foi, pelo menos essas histórias poderão ser contadas.’’

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