Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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ENTRE ASPAS > OSCAR 2005

Sharon Waxman

08/02/2005 na edição 315

‘Indicado a sete Oscar, ‘Menina de Ouro’ é acusado de incitar a eutanásia.

Quando o filme de Clint Eastwood ‘Menina de Ouro’ estreou no último mês nos EUA, críticos o elogiaram por seu poder sutil, pelas performances tocantes e pela segurança silenciosa do diretor. Mas, sem querer entregar o fim da história, poucos mencionaram que um assunto controverso estava enterrado na trama.

Depois de ter sido indicado a sete Oscar, ativistas sociais e conservadores passaram a criticar o filme, alegando que há uma forte mensagem sobre eutanásia.

‘Menina de Ouro’, que estréia no Brasil no dia 11, conta a história de uma jovem mulher (Hilary Swank) que luta para ser uma campeã de boxe, treinada por um técnico durão, interpretado por Eastwood. Quando a pugilista sofre um sério ferimento e tem uma paralisia, o treinador decide ajudá-la a se matar.

Tanto Swank quanto Eastwood foram indicados ao Oscar, junto a Morgan Freeman, por melhor ator coadjuvante. Eastwood também foi indicado pela direção, e o filme faz parte dos indicados a melhor filme do ano.

Além dos conservadores, defensores dos direitos de deficientes também criticam o filme alegando que a decisão sobre morrer passa a mensagem errada para os que lutam contra problemas na coluna vertebral. ‘Qualquer filme que diz que ter um problema na espinha é pior do que a morte é um filme que nos preocupa’, disse Marcie Roth, diretora-executiva da Associação Nacional de Ferimentos na Espinha Dorsal.

Em entrevista por telefone no sábado, Eastwood disse que não estava surpreso com o protesto, mas que o filme não é sobre o direito de morrer. ‘O filme tem como objetivo fazer as pessoas pensarem sobre a precariedade da vida e como nós lidamos com isso’, afirmou o diretor.’



Marcelo Pen

‘Marc Forster faz incursão pela fábula’, copyright Folha de S. Paulo, 4/2/05

‘Não, o criador de Peter Pan não era pedófilo. Pelo menos, essa foi a conclusão a que chegou o cineasta Marc Forster, 36, após pesquisar a vida do escritor escocês James Matthew Barrie (1860-1937), para seu filme ‘Em Busca da Terra do Nunca’.

Em entrevista à Folha, de Chicago, Forster diz ter se baseado ‘em estudos sobre o escritor e no depoimento de familiares dos cinco garotos Llewelyn Davies’ com quem Barrie conviveu e em quem se inspirou para inventar suas histórias sobre a Terra do Nunca.‘Não sou eu quem diz isso, são todos os envolvidos no caso. Os rumores sobre a suposta pedofilia de Barrie só surgiram bem depois de sua morte, por causa de umas fotografias que o escritor tirou dos meninos nus’, argumenta o cineasta.

Mas, espere aí, não há no filme uma cena em que o próprio Barrie se depara com boatos insinuando que ele gostava muito mais de passar o tempo com os garotos do que com a mãe deles, Sylvia?

‘Sim’, admite Forster, ‘a cena foi incluída porque senti que deveria dar uma resposta às pessoas que me acusariam de ter fugido à questão, caso não a tivesse abordado’.

A cena, portanto, dialoga muito mais com nossos tempos do que com a Inglaterra vitoriana de Barrie. Algo a ver com o escândalo de Michael Jackson? ‘Bem, o fato de o rancho de Michael chamar-se Neverland [Terra do Nunca] naturalmente ajudou’, brinca Forster, aos risos.

Essa não foi a única liberdade que o cineasta tomou com a vida de Barrie. No filme, por exemplo, só há quatro meninos, enquanto de fato havia cinco. O escritor manteve íntima convivência com a família Davies, que o inspirou a escrever as aventuras de Peter Pan, mas, nessa época, o marido de Sylvia ainda estava vivo. Ele viria a morrer pouco depois, de câncer.

‘Conversei com o roteirista e concordamos que, se incluíssemos o personagem do pai, teríamos de nos desviar da linha temática do filme; além disso, haveria duas mortes, o que julgamos ser um pouco excessivo.’

No longa, é a mãe dos garotos quem adoece e morre, quando sabemos que ela viveu muitos anos após a estréia da peça sobre Peter Pan.

Forster revela ter temido a reação dos críticos. ‘Pensei que odiariam o filme, quando vissem que não se tratava de um retrato fiel da vida de Barrie’, admite. ‘Não quis rodar um documentário nem um filme biográfico. Minha intenção era fazer um filme sobre o processo criativo, sobre o poder que a imaginação tem de transformar a vida e a morte.’

Segundo o cineasta, sempre que a vida está num dos pratos da balança e a arte no outro, ele pende para esta última. A opção estética pareceu-lhe mais condizente com o espírito do filme e com as idéias que Barrie vinha então desenvolvendo.

No final do século 19, o escritor ganhou notoriedade como jornalista em Nottingham e em Londres, ao publicar crônicas sobre sua terra natal, a Escócia. Para o teatro, criou farsas, tramas políticas e enredos sentimentais antes de levar ao palco a história do menino que não queria crescer.

Peter Pan aparece inicialmente numa história infantil de 1902 (a peça, de imenso sucesso, é de 1904). Segundo os biógrafos, o personagem nasceu de uma tragédia familiar. O irmão de Barrie morrera quando ele ainda era garoto. A mãe nunca se recuperou por completo do trauma. Para ela, o filho continuava vivo, sempre jovem. A morte o tornara paradoxalmente imortal.

A posterior convivência com os garotos Davies foi o agente combustor que faltava para que a máquina da criação se pusesse em movimento. A Terra do Nunca marca a vitória da imaginação sobre a realidade, do artifício sobre a vida. Mas, como o filme mostra numa das melhores cenas, o lar do Capitão Gancho e dos Garotos Perdidos também é o território da morte.

Essa incursão pelo terreno da fábula pode parecer estranha para quem conhece o cineasta por seu filme mais famoso, o realisticamente violento ‘A Última Ceia’, que deu a Halle Berry o Oscar de melhor atriz por seu papel de mulher de um condenado à pena de morte. Mas este cineasta de origem alemã, criado na Suíça e radicado nos Estados Unidos, parece conviver bem com essas duas facetas -a realista e a fantástica.

O primeiro filme que viu no cinema foi ‘Apocalipse Now’, de Francis Ford Coppola: ‘O que mais me impressionou foi a qualidade onírica da fita’, diz ele sobre essa recriação moderna de ‘O Coração das Trevas’ em meio à Guerra do Vietnã.

‘Acho que não há muito disso em ‘A Última Ceia’, mas é de algo que está sempre comigo, como no filme em que estou trabalhando agora.’

Ele refere-se a uma comédia com Will Ferrell e Emma Thompson, sobre um auditor de imposto de renda que ouve a voz de um narrador lhe dizendo que ele vai morrer. O título? ‘Stranger than Fiction’; em português, literalmente, ‘Mais Estranho do que a Ficção’. Nada mais apropriado.’



Ubiratan Brasil

‘A preferência pelos fracassados’, copyright O Estado de S. Paulo, 4/2/05

‘Primeiro, Laura Dern como uma grávida envolvida em uma violenta batalha pelo direito ao aborto em Ruth em Questão. Depois, um atônito professor vivido por Matthew Broderick em Eleição. Em seguida, um executivo de seguros repentinamente viúvo interpretado por Jack Nicholson em As Confissões de Schmidt. Agora, o diretor Alexander Payne reforça sua preferência por personagens fracassados ao tratar de dois amigos que transformam uma viagem de degustação de vinhos em seu último momento de farra em Sideways – Entre Umas e Outras, filme que estréia nacionalmente hoje, concorrendo a cinco Oscar.

‘Gosto de histórias que apontam as falhas do caráter das pessoas, histórias que não têm um desfecho previsível’, conta Payne em entrevista por telefone ao Estado, desde Los Angeles. ‘E os personagens de Sideways, Miles e Jack, vivem de seu passado, temendo o que vem pela frente.’ A trama foi inspirada no livro de Rex Pickett que, como Payne, tem fascínio especial por vinhos da Califórnia, transformando os diferentes estilos de vida de Miles e Jack no interminável debate entre um Pinot e um Cabernet.

Payne aproveitou a entrevista para também exercitar seu conhecimento da língua portuguesa – com seis visitas já realizadas ao Brasil, ele, que estudou línguas latinas, é amigo de Fernando Meirelles e do roteirista Bráulio Mantovani, ambos de Cidade de Deus, filme em que Payne figura nos agradecimentos especiais. ‘Dei uns pequenos palpites.’

Como você descobriu o livro?

Eu já trabalhava com o produtor Michael London que tinha os direitos da obra – ele é amigo do autor, Rex Pickett, que ainda não havia publicado o texto, era inédito. Isso foi em 1999. Li a história e imediatamente decidi levá-la para o cinema, pois gosto de textos com dificuldades os representantes dos grandes estúdios, dissemos: aqui estão o roteiro, o elenco, o diretor, o produtor e orçamento previsto, ou seja, é pegar ou largar. Negociamos com vários até acertarmos com a Fox Searchlight. Eu poderia ter um elenco mais famoso e uma produção mais generosa, mas não me interessei por nada disso.

E o que você acha de bons diretores como Alfonso Cuarón e Sam Raimi que cada vez mais são chamados para dirigir blockbusters?

Acho ótimo, porque filmes como Homem-Aranha e Harry Potter exibem uma consistência cinematográfica incomum em relação a outros do mesmo gênero – como Mulher Gato, que afundou merecidamente nas bilheterias -, o que poderá lhes garantir um lugar no futuro. O entretenimento de massa não precisa estar desprovido de qualidade artística.’



Luiz Zanin Oricchio

‘O vinho, a vida e a amizade’, copyright O Estado de S. Paulo, 4/2/05

‘Em Sideways fala-se muito em vinho. Bebe-se muito, aliás. Talvez por isso, no Brasil, o filme de Alexander Payne (o mesmo de As Confissões de Schimdt) tenha recebido o subtítulo de Entre Umas e Outras. Não fica mal, mesmo porque entre uma e outra degustação etílica na região vinícola da Califórnia, os amigos Miles (Paul Giamati) e Jack (Thomas Haden Church) falam e fazem muita coisa.

Os dois estão passando uma semana juntos porque Jack vai se casar no sábado. Resolvem farrear, numa espécie de prolongada despedida de solteiro. Miles é um escritor inédito, tentando publicar um volumoso romance que ninguém quer ler. Jack é um ator secundário em filmecos de televisão e comerciais. Jack é o maior galinha. Miles é tímido com as mulheres. Aí está: um dos mais antigos truques de roteiro, duas personalidades contrastantes interagindo em uma situação de estrada, quer dizer, com cenário mutante. Road movie, filme de estrada, é uma das melhores fórmulas para sucesso garantido.

Só que aqui ela é subvertida. Os nossos dois heróis são mais frágeis do que parecem à primeira vista. Miles é metido a connaisseur de vinhos. Jack é um principiante, bebe qualquer coisa e acha bom. A trip enológica toma outra direção quando os dois se envolvem com duas mulheres, Maya (Virginia Madsen) e Stephanie (Sandra Oh). E, no relacionamento com as mulheres, a verdade de cada um, se o termo cabe, termina aparecendo.

Payne se mostra diferenciado no quesito escolha temática. Aposta mais na complexidade dos personagens, como já havia mostrado em As Confissões de Schmidt, interpretado por um Jack Nicholson certamente em papel inesperado em sua carreira. Em Sideways, Payne escala dois atores pouco conhecidos. Seus personagens enfrentam aquela curva perigosa da vida que anuncia a meia idade, quando a ilusória vontade de potência da juventude já se encontra em crise.

Em alguns momentos, Sideways lembra o clima de uma grande obra-prima do cinema italiano, Il Sorpasso, que aqui ganhou o título de Aquele Que Sabe Viver. No filme de Dino Risi, um introspectivo (e então jovem) Jean-Louis Trintignant contracena com a figura exuberante de Vittorio Gassman. Risi consegue, em filigrana, introduzir naquilo que seria uma comédia um certo mal-estar, que, no final, vai descambar para o drama aberto. Sob a figura envolvente de Bruno Cortana, interpretada por Gassman, reside uma personalidade frágil. E essa fraqueza arrastará o jovem Trintignant.

Il Sorpasso é uma obra-prima em seu gênero. Sideways é apenas um bom filme. Não se sabe se Payne conhece o trabalho de Risi ou se nele se inspira. Mas, no cinema, as boas coisas ficam no ar. Grandes filmes deixam rastros, dialogam com outros que são feitos depois deles e criam uma zona de influência invisível, porém real. De tal forma que acabam produzindo efeitos mesmo em quem os conhece apenas de segunda ou terceira mão.

A idéia de base, no entanto está lá, em comum. A vida humana é frágil como porcelana, mesmo que as aparências digam o contrário. O contato com o sexo oposto, ainda que casual, nunca é neutro. Sempre mexe com alguma coisa no imaginário dos parceiros e nem sempre as coisas dão certo no dia seguinte. Mais: todas essas contingências da vida podem ser ditas com bom humor. E com o bom gosto em geral associado às pessoas que apreciam o vinho. Vinho é vida, como diz uma das mulheres de Sideways. E elas sabem do que falam.’



FESTIVAL DE BERLIM
O Globo

‘Festival de Berlim terá número recorde de filmes na 55 edição’, copyright O Globo, 3/2/05

‘Dieter Kosslick, diretor do Festival de Berlim, que acontece entre 10 e 20 de fevereiro, anunciou que a 55 edição terá número recorde de filmes: 343 títulos, vindos de 52 países. Este ano, entre os filmes em competição estão ‘Kinsey’, longa estrelado pelo astro Liam Neeson no papel de Albert Kinsey, pesquisador que causou polêmica na década de 40 com o lançamento do livro ‘O comportamento sexual do homem’. Sexo também será o foco do documentário ‘Inside Deep throat’, que conta os bastidores do filme ‘Garganta profunda’, clássico do cinema pornô dos anos 70.

Diretor diz que é hora de examinar filmes sobre sexo

— Existem muitos filmes sobre sexo e pornografia no mercado. Achamos que era hora de examinar a época que vivemos nos últimos 30 anos. Foi um período de repressão sexual e, ainda assim, faturou-se muito com filmes de sexo — disse Kosslick.

Os outros longas da mostra competitiva são ‘Accused’ (Dinamarca), ‘Asylum’ (EUA, Irlanda), ‘De battre mon coeur s’est arrêté’ (França), ‘Ghosts’ (Alemanha), ‘Heights’ (Chris Terrio), ‘Hitch’ (EUA), ‘Hotel Rwanda’ (EUA), ‘In good company’ (EUA), ‘The hidden blade’ (Japão), ‘Peacock’ (China), ‘The late Mitterrand’ (França), ‘Words in blue’ (França), ‘Changing times’ (França), ‘Man to man’ (França), ‘One day in Europe’ (Alemanha), ‘Paradise now’ (Holanda) e ‘Smalltown, Italy’ (Itália).’



BOND, JAMES BOND
O Globo

‘Próximo 007 será ‘Cassino Royale’’, copyright O Globo, 6/2/05

‘Ainda sem ter definido quem será o próximo ator a viver James Bond, os produtores da próxima aventura do agente já têm título para o filme: ‘Cassino Royale’, nome do primeiro livro de Ian Fleming sobre Bond, publicado em 1953.

Em 1954, ‘Cassino Royale’ já havia sido adaptado para a TV e, em 1967, a Columbia Pictures fez uma versão parodística para o cinema estrelada por David Niven, Peter Sellers, Woody Allen, Ursula Andress e Orson Welles, entre outros.

Mas como era a única aventura de 007 não vendida à produtora dona da série, a Eon Prods, de Cubby Broccoli, ela ainda não havia se tornado um filme com as características que tornaram James Bond um personagem conhecido em todo o mundo. Em 1999, a MGM adquiriu os direitos da Sony.

No filme de 1967, Niven faz 007 voltar à ativa

Ainda às voltas com a escolha do ator que irá substituir Pierce Brosnan no papel-título — entre os nomes já cotados estão os de Clive Owen e Hugh Jackman — os produtores do 21 filme da série já têm um diretor, Martin Campbell, que assinou a direção de ‘GoldenEye’, de 1995.

‘Cassino Royale’, de 1967, trazia David Niven no papel de James Bond, já aposentado, mas chamado de volta à lide depois da morte de M. Para confundir os inimigos, outros agentes a serviço da Coroa Britânica também são chamados de 007, como Woody Allen, que faz o pequeno Jimmy Bond.’

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