Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > TV GLOBO

Silvio Ferraz

28/09/2004 na edição 296

‘Frases impactantes são curtas. ‘Toda unanimidade é burra’ é uma delas, mas Nelson Rodrigues só pôde escrevê-la sem medo de errar porque não conhecia Octávio Florisbal. Com 22 anos de Globo, Octávio, como o chamam seus colaboradores, é a exceção da unanimidade burra. Todos, todos mesmo, o têm como simpático, inteligente, maneiroso, controlado e brilhante. Sorriem ao falar dele e com ele. Os Marinho, então, nem se fale. Pudera, tirado do limbo da interinidade de um ano e meio, onde substituía a toda-poderosa Marluce Dias, e nomeado diretor-geral da Rede há trinta dias, Octávio Florisbal é capaz de exibir já na grande reta de chegada resultados emocionantes para os acionistas, anunciantes e publicitários que torcem na tribuna nobre: a Rede Globo de Televisão cresceu 20% o seu faturamento, em relação ao ano passado, abocanhou sem cerimônia 75% do total da verba de publicidade dirigida à mídia televisão, e detém a preferência em 28 programas dos 30 principais exibidos pela televisão brasileira. Dito pelos espectadores.

Como se não bastasse, o melhor índice de audiência da última década foi atingido: 24 pontos – média de sete da manhã à meia-noite. O faturamento e o lucro, cifras que Octávio não manda ao ar, também atingem os píncaros. E mais: em meados de outubro as demais empresas da família Marinho que passam por dificuldades financeiras assinarão com seus credores a prorrogação do prazo de pagamento de suas gordas dívidas. Embora não esteja metida em nenhum imbróglio financeiro, a Rede Globo de Televisão respirará mais aliviada nas arquibancadas, já que é avalista destas operações.

Os que por lá andam garantem que nas salas e corredores da Globo respira-se de alguns tempos para cá oxigênio 100% puro, aquele reservado apenas às cabines de comando dos jatos. A gostosa fofoca, esporte nacional, seguramente continua existindo, mas teria perdido a peçonha, afirmam os mesmos pedestres. Para eles, isso se deve ao estilo Octávio de comandar. ‘Antes das reuniões onde, com certeza, raios e trovões cruzarão os ares, Octávio chama à sua sala, no Rio ou em São Paulo, em particular, os possíveis contendores. Ouve lamentos, anota queixas em uma inseparável agenda, conversa, observa, pondera e desarma as bombas potenciais. Só depois disso é que manda abrir o salão de reuniões. Este é o estilo de Octávio’, depõe Jorge Adib, amigo de décadas e companheiro de outros tempos da Globo. ‘ Ou por simpatia ao Octávio ou por rejeição ao estilo Marluce de liderar, o fato é que os mares estão tranqüilos’, diz ele. E os ventos continuam soprando a favor.

Em sua sala na sede da Globo no Rio, com a metade da área que um diretor de estatal de segundo nível aceitaria ocupar, o próprio Octávio não se esquiva a falar dele próprio. Trajando uma calça clara, camisa de manga curta de discreto xadrez, fartos cabelos prateados emoldurando uma fisionomia jovem para seus 63 anos, mãos grandes e dedos longos que gesticulam com suavidade, com olhos que volta e meia varrem o televisor sempre ligado entre os livros da estante, o comandante global atribui seu jeito de ser aos pais. ‘Sempre estiveram ao meu lado. Avicultor na periferia de São Paulo, meu pai sempre me ensinou como as coisas acontecem no seu devido tempo, minha mãe, espiritualista, suave, sempre se interessou em manter comigo interessantes diálogos em voz baixa’.

A etapa seguinte de sua formação foi na Escola Naval. ‘Eu precisava de um curso que meus pais não tinham condição de pagar. Então escolhi a Marinha, para estudar de graça. Cresci no pós-guerra, vendo filmes e superproduções nos quais o tema predominante eram os combates do bem contra o mal, e os mais interessantes se passavam em mares revoltos. Isso acabou me levando ao desejo de ser oficial de marinha’, conta.

Este período de marcha soldado foi curto. Passando no campo de futebol no mesmo momento em que veteranos aplicavam trotes com brutalidade nos calouros, Octávio foi arrolado também entre os pitboys sem nada ter a ver com isso. Todos expulsos. Octávio voltou a criar galinhas. ‘Entre os desligados havia um filho de almirante. Era a esperança de que fossem todos anistiados’, recorda. Dito e feito: a carta da Marinha chegou com a anistia. Octávio, no entanto, tinha mudado. Jogou para o lado a comunicação e nunca mais soube dela, de continências, cornetas ou tudo que lembrasse uma disciplina coercitiva.

Pelas mãos de Renato Castelo Branco, presidente da Thompson, seu tio, publicitário famoso, deu os primeiros passos na carreira em que se tornaria mestre. Quando Castelo Branco deixou a empresa, Octávio foi para a Lintas, onde iniciou verdadeiros exercícios de paciência e tranqüilidade. Pilotando a naturalmente nervosa superintendência de marketing administrava duas das maiores contas do país: Gessy-Lever e Johnson&Johnson. ‘A Lintas era britânica de natureza. O mundo podia estar pegando fogo que o chá das quatro horas era sagrado’, lembra Octávio. Era uma boa hora sagrada. Outro exercício de calma.

‘Elegante, dono de um tratar encantador sem artificialismo qualquer, Octávio seria um diplomata perfeito’, depõe Carlos Alberto Carmo, conhecido como Carlão, ex-presidente da Lintas e seu primeiro patrão. ‘Hoje, vê-se nas telas, nos balanços, nos índices de audiência, na qualidade da programação da Globo, o belo serviço que a Marinha prestou ao país desligando Octávio’, diz Carlão com ironia. Entre almirante e diretor-geral da Globo, Octávio prefere o segundo cargo. ‘Com o maior respeito, acho que o trabalho na mídia é mais criativo e desafiante. Além do mais, continuo não acreditando que o filho de um criador de galinhas chegasse à almirante’, sorri sentado em um pequeno sofá de frente para o Corcovado, no bairro do Jardim Botânico.

Carlão, hoje morador das cercanias de Petrópolis, recorda traços da personalidade de Octávio: ‘No fim de um dia, chamei-o e disse que necessitava cortar quatro funcionários de seu setor porque, como ele sabia, estávamos passando por um momento difícil. Octávio colocou a mão no meu ombro e respondeu: ‘Carlão, eu vou embora. Meu salário cobre o buraco e eu sei que amanhã estou empregado novamente. Deixa os rapazes aí mesmo. Vão ter que ralar muito para conseguir outro emprego e, além do mais, são muito bons’. Abracei-o e tudo continuou como era antes.’ ‘Este é o jeito Octávio de ser: examina o conjunto e sempre tira a melhor solução’, frisa Carlão.

Octávio não planejou a carreira, as coisas foram acontecendo. ‘Ele não é um ser de impacto, é de conquistas’, concordam os que assistiram sua ascensão. Na Norton, outra grande agência à época, conheceu a publicitária Helena de Almeida. Amor à primeira vista. Casaram. Paulistas, ambos só interrompiam a frenética atividade da publicidade para viajar. ‘Esse era nosso grande hobby, viajar e viajar’.

Graças aos périplos mundo afora, o casal foi um dos poucos brasileiros capaz de estampar em seus currículos um naufrágio no Mediterrâneo. Depois de jantarem lautamente, degustarem belos rótulos da carta de vinhos, recolheram-se ao camarote quando o navio se encontrava nas costas de Santorini. Mal adormeceram quando as sirenes soaram com estridência. Octávio despertou e foi ver do que se tratava. Voltou do tombadilho, lutou para acordar Helena em sono profundo. ‘Helena, o comandante quer que nós todos abandonemos o navio’, disse sem pânico. Helena não acreditou. ‘Vem dormir, Octávio, isso é exercício’. ‘Não é não, Helena, o navio já está adernado’. Adernado foi a injeção de adrenalina. De um só pulo Helena subiu ao tombadilho e lutava furiosamente por seu lugar no escaler. Atrás, Octávio a acalmava: ‘Calma, Helena, dá pra todo mundo’. ‘Depois do Titanic é melhor não dar sopa’, respondeu Helena já acomodada. E, afastados do navio, assistiram a proa afundar. A narrativa é de seu grande amigo e padrinho de casamento do casal, José Roberto Filippelli, que os esperava no aeroporto em Roma junto com a mulher Eunice e as filhas empunhando faixas dando viva aos sobreviventes.

Helena faleceu há poucos meses e Octávio está reaprendendo a viver depois de trinta anos de intenso casamento. Hoje divide o tempo entre o Rio e São Paulo. Às segundas e sextas opera em seu gabinete paulista, mais próximo do mercado, dos anunciantes e dos 1.500 funcionários paulistas. No Rio, às terças, quartas e quintas, Octávio reúne-se com o comitê executivo. Vinte e cinco profissionais, dos quais cinco diretores, das áreas mais diversas responsáveis por levar plim-plim a todo o Brasil. A TV Globo detém a terceira maior audiência do mundo – só perdendo para a China e Índia. Além das reuniões ‘globais’, Octávio reúne-se em separado com as equipes de marketing à produção, de criação à planejamento. É muito, mas ele diz que consegue dar conta do recado de nove às oito.

‘Quando as coisas mudam com tranqüilidade e segurança, pode ter certeza que o jeito Florisbal de ser andou por ali’, depõe Filippelli. Quando Florisbal foi convidado para a Globo, em 1982, ouviu dos amigos estímulos e alertas. ‘É Butantã puro’, diziam uns. ‘Ofidário’, sussurravam outros. ‘Mas, você vai vencer, faziam coro.’ ‘Quem era o todo-poderoso à época era o Boni, de quem me tornei amigo e recebi grandes aulas’, lembra Octávio. E tratou de incluir seu próprio estilo nas atividades comerciais da emissora. Uma das primeiras preocupações: injetar ética em doses maciças e aspergir correção no meio publicitário. ‘Naquela época, as agências compravam 30 segundos de espaço e entregavam filmes com 32 e mesmo 33 segundos. Octávio acabou com a chicana. Trinta segundos com Octávio eram 29,5 e ponto final’, rememora Filippelli, à época ativo ponta-de-lança da Globo na Europa.

A tensão em televisão existe e sempre existiu. Impossível não haver. ‘A televisão é um mundo de decisões imediatas, o sucesso de ontem é passado remoto’, pondera Octávio. Para não ver sucumbir sua alegria de viver, ele sempre ouve jazz e música popular brasileira. Esporte praticou quase todos. Do ciclismo ao basquete. Hoje anda diariamente, no Clube Pinheiros, seu vizinho, no coração chique de São Paulo, e já começa a dar as primeiras caminhadas em Ipanema, onde mora no Rio. A leitura sempre foi profissional. ‘Na nossa biblioteca o meu canto era todo técnico. Fui obrigado a optar devido à falta de tempo. Agora vou mergulhar aos poucos em literatura, pelo prazer da leitura.’

Seu estilo low profile tem um testemunho nos funcionários da Globo em Londres. Sempre se hospedava em um hotel bom sem suntuosidade. Ia para o escritório discretamente no ônibus 274 e, não raro, não saía para almoçar, pedia uma quentinha de comida japonesa. Como bom paulista, hoje não dispensa a pizza aos domingos, uma de suas paixões.

Octávio dribla o anúncio de grandes metas. ‘A Globo completa 40 anos no próximo ano. Nosso objetivo é a consolidação da construção e mirar na abertura para novos tempos. Na primeira fase, na década de 70, a meta era criar a rede, onde quem estava aqui assistiu uma gestão muito centralizadora. Na segunda, entre 80 e 90, com os deveres de casa feitos, partiu-se para a montagem de uma rede com 120 emissoras repetidoras, abrir o mercado internacional e, internamente, montar uma estrutura de gestão através de um comitê presidido por Roberto Irineu e co-presidido por Boni. Na terceira, viveu-se a descentralização, autonomia, responsabilidade e cobrança com a chegada de Marluce’, rememora.

Nem tudo foram flores, recordam outros protagonistas do ato mais recente. Se Marluce agitou, criou comitês, no ninho de Octávio passou ao largo. Não havia porque nem como mergulhar o dedo. Tudo dava certo. Provam os números que Octávio Florisbal pode exibir hoje. Não foram construídos durante seus 22 meses de interinidade. Sem exagero, pode-se afirmar que Octávio deu o primeiro passo em direção ao êxito ao colocar o pé na soleira da Globo. ‘Devagar ele sempre chegou onde queria’, garante Carlão.

‘Nossa meta é adaptar nosso negócio às novas mídias, à Internet, à TV interativa, por exemplo. Temos que nos acostumar com o novo momento econômico e nos abrirmos para os projetos sociais. No mais, é tocar com tenacidade para frente o que está dando certo.’ Para ele, uma das melhores coisas ocorridas no cenário nacional foi a sensibilidade de Lula em seguir a política econômica do governo anterior, afastando temores de rompimentos com o Fundo Monetário Internacional, drible na banca internacional e outros calotes. ‘O boom da televisão aconteceu no ano 2000, época das privatizações, injeção de capitais externos. Agora, estamos superando as marcas conseguidas naquele campeonato. O crescimento econômico já está irrigando a publicidade e já se reflete na melhoria da publicidade.

A crise vivida pela imprensa de forma geral já encontra uma perspectiva favorável de negócios. ‘No grupo Globo conseguiu-se alongar prazos para a amortização das dívidas. A este processo assistimos com satisfação. A Rede Globo de Televisão não padece de endividamentos, ao contrário, é avalista em várias operações de outras empresas do grupo. Nessa condição, com alívio, ouviremos o anúncio de um acerto geral com nossos credores dentro de 30 dias’, anuncia.

Para esses dias de paz, Octávio Florisbal já tem seu projeto: fundar uma associação beneficente com o nome de sua mulher, Helena, para amparar crianças deficientes e idosos, e continuar participando ativamente na Associação de Assistência à Crianças Deficientes e ao Lar André Luiz com mil crianças deficientes sendo amparadas. Esse é Octávio Florisbal, uma unanimidade.’



Daniel Castro

‘Globo seleciona nova safra de programas’, copyright Folha de S. Paulo, 23/09/04

‘Diretor artístico da Globo, Mario Lucio Vaz apresentou anteontem ao ‘comitê operacional’ (que reúne os principais executivos da emissora e toma as decisões finais da programação) os quatro projetos aprovados por ele e que devem ser testados como especiais de fim de ano, com chances de se tornarem ‘fixos’ em 2005.

Os projetos são: uma comédia romântica proposta por Claudio Paiva (‘Sai de Baixo’); uma comédia de situações escrita por Carlos Lombardi, com Adriana Esteves e Marcos Pasquim revivendo casal de ‘Kubanacan’; um seriado sobre relacionamentos de mulheres modernas idealizado por Euclydes Marinho; e uma série, de Guel Arraes, na linha bastidores, ‘sobre a arte teatral’.

Os quatro projetos foram inicialmente propostos por seus autores em encontro de criação realizado em Angra dos Reis no início do mês. Serão agora submetidos ao comitê, que irá analisar aspectos de produção (custos) e de viabilidade comercial, entre outros. A decisão final sairá até o início de novembro.

Os programas-testes serão exibidos em dezembro. Os melhores avaliados e bem-sucedidos no Ibope podem voltar em 2005, no formato de temporadas. A Globo deve abrir novas vagas aos domingos (na faixa que exibe ‘Sob Nova Direção’, que pode continuar) e às sextas (em rodízio com ‘Carga Pesada’ e ‘Os Aspones’, que estréia em novembro).

OUTRO CANAL

Realismo 1

O SBT realiza entre 4 e 7 de outubro testes para definir o elenco de ‘Esmeralda’, sua próxima novela. Alguns participantes já eliminados de ‘Casa dos Artistas Apresenta Protagonistas de Novela’ serão convidados para provas por papéis secundários.

Realismo 2

A propósito, o elenco do ‘reality show’ já sabe que o ‘protagonistas’ do título não é para valer. Em um flash ao vivo, um participante se referiu ao grupo como ‘coadjuvantes de novela’.

Meta

A Record está trabalhando números bem mais modestos de expectativa de audiência de ‘A Escrava Isaura’ do que propalava no início do ano pela malfadada ‘Metamorphoses’ (que, esperava-se, daria 20 pontos). De ‘Isaura’, espera de sete a nove pontos no Ibope.

Margem

A esperança da Record é que ‘Isaura’, que estréia dia 18, às 18h50, dê a mesma audiência do ‘Cidade Alerta’. Para evitar riscos, o jornalístico será mantido como alavanca para a novela durante duas semanas. Seu fim está marcado, agora, para 30 de outubro.

Briguinha

A Rede TV! está festejando uma ‘virada’ sobre a Band nos últimos dias. Na semana passada, venceu a concorrente por dois pontos a 1,8 na média diária (das 7h à 1h). A Band reconhece, mas lembra que leva vantagem na média acumulada desde o início do ano, em que vence por 2,2 pontos a 1,6.’



TV & CINEMA
Jayme Monjardim

‘Televisão x cinema’, copyright O Globo, 24/09/04

‘Mais uma vez, reacende-se o desgastante debate sobre ‘linguagem de televisão’ e ‘linguagem de cinema’. Um debate medíocre (comum) e ignorante, além de peremptório, que revela desconhecimento e um rancor típico de quem se percebe aquém da empreitada de realizar.

É preciso deixar claro aos que alimentam este debate de poucas luzes, como o fez brilhantemente o cineasta Jorge Furtado (‘Zero Hora’, 23/8/2003, ‘Como se faz não é como se vê’), que não existe linguagem de televisão e linguagem de cinema. Por definição da Língua Portuguesa, linguagem é ‘todo sistema de signos que serve de meio de comunicação entre indivíduos’.

Os signos e elementos utilizados nas obras para televisão ou cinema são os mesmos e compõem a linguagem visual. Não há duas linguagens, mas dois meios. Dois veículos distintos especialmente pelo comportamento que impingem ao espectador. No cinema, a pessoa paga e se arma de paciência para assistir (até o fim, quem sabe) a um filme numa grande sala escura. Na televisão, o sujeito recorre ao controle remoto e tem poder sobre a exibição.

Dois meios, dois comportamentos. Uma única linguagem, que comporta, é claro, milhares de estilos e liberdades artísticas, mas esse debate não chega a empolgar alguns críticos, que acham mais produtivo estabelecer o que pode ou não pode ser feito em duas coisas que simplesmente não existem, a linguagem de televisão e a linguagem de cinema.

Para piorar e acentuar a ignorância do debate, estão em voga, além dos argumentos falaciosos, que tentam associar filmes à fictícia linguagem de televisão ou à fictícia linguagem de cinema, os argumentos prepotentes e que escondem um profundo rancor com o público. Não é à toa que, usualmente, filmes que batem recordes de público são rejeitados por alguns críticos. Há, neste desencontro de interesse e percepção, a premissa de que o que é feito ‘para uma audiência massiva’ é necessariamente ruim.

No mesmo país em que pagar ingresso ainda é luxo para milhões de pessoas, alguns críticos utilizam o termo ‘televisivo’ para depreciar uma obra. E ‘cinematográfico’ para enaltecê-la. Como se houvesse, de fato, diferentes linguagens. Para piorar definitivamente a ignorância do debate, percebe-se um perigoso tom ditatorial no discurso. Afirmações enfáticas sobre o que ‘se pode’ ou ‘não se pode’ fazer num filme.

Como se houvesse um tribunal (militar?) a julgar as liberdades, as escolhas e as visões artísticas de cada realizador – seja ele cineasta, diretor, produtor, roteirista, ator, enfim. Como se houvesse um juiz onipotente (a crítica, esse pequeno e seleto e alheio grupo de pessoas que têm o conhecimento?) a permitir ou não que se sinta uma história da maneira que se pretende senti-la.

Aliás, a irrelevância do debate é tamanha que exclui dele o sentir.

Todos os sentidos ficam de fora da análise ignorante, tipicamente política, que divorcia a técnica da percepção sensorial. E é exatamente aí que reside o único interesse de um realizador: o momento do encontro do espectador com a obra. JAYME MONJARDIM é cineasta e diretor de novelas na televisão.’

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PRIMEIRAS EDIçõES > LANÇAMENTO / DICIONÁRIO HOUAISS

Silvio Ferraz

Por lgarcia em 29/08/2001 na edição 136

LANÇAMENTO / DICIONÁRIO HOUAISS

"O poder da palavra", copyright Veja, 27/08/01

"Será lançada a primeira ameaça séria ao reinado do Aurélio. Portentosa obra de catalogação do português falado e escrito no Brasil, o Aurélio pode deixar de ser sinônimo de dicionário. Desde sua primeira edição, há 26 anos, o livrão do professor Aurélio Buarque de Holanda Ferreira vendeu um total de 45 milhões de cópias em suas três versões. Talvez não deixe de ser sinônimo de dicionário. Mas terá de dividir o título com o Houaiss (pronuncia-se uáis), como certamente ficará conhecido pelos brasileiros o novíssimo Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, cujos primeiros exemplares começam a ser vendidos no Rio de Janeiro e em São Paulo a partir desta semana e em todo o país dentro de dez dias. O preço oscilará em torno de 125 reais. O Houaiss levou uma década para ficar pronto e é resultado do trabalho de 140 especialistas brasileiros, portugueses, angolanos e timorenses. A obra é a materialização do sonho de Antônio Houaiss, considerado o maior filólogo do século XX em língua portuguesa, morto em 1999, pouco antes de ver o livro terminado. Diplomata de carreira, Houaiss foi ministro, presidente da Academia Brasileira de Letras e refinado gastrônomo. Mas nada absorveu mais sua existência do que a obsessão de ver publicado o mais completo dicionário da língua portuguesa.

Conseguiu? Em números absolutos, o novo dicionário é imbatível. O Houaiss, com um total de 228.500 verbetes, tem 68.500 a mais que o Aurélio e 28.500 a mais que o Michaelis, o outro competidor. Em Portugal, o recém-lançado dicionário da Academia de Ciências tem 120.000 verbetes. Só o tempo dirá, porém, se o Houaiss será aceito pelo grande público como a fonte primordial da língua viva falada hoje no Brasil – o olimpo que todo grande dicionário almeja. ?Por todos os critérios técnicos válidos, o Houaiss é o mais completo e moderno dicionário de português?, diz Roberto Feith, dono da editora Objetiva, que publicou a obra e fez dela o seu mais ousado empreendimento. ?Para lançar um Paulo Coelho, invisto cerca de 500 000 reais. Para um outro best-seller, ponho 100 000 reais. Com o dicionário Houaiss gastamos 5 milhões de reais?, compara Feith. Na semana passada, o editor pôs os olhos pela primeira vez no resultado de sua milionária aposta editorial. Ele foi vistoriar os primeiros dois contêineres com milhares de dicionários, volumes de capa ocre, revestidos de tecido de alta resistência, impermeável, com baixos-relevos, serigrafias e nome de batismo em letras douradas. Os livros acabavam de aportar no Rio de Janeiro, vindos da Itália, onde foram impressos. A Objetiva não encontrou no Brasil quem atendesse às exigências técnicas da obra, especialmente a montagem de 3.008 páginas em um único volume de 3,8 quilos.

?Sem ousarmos nos comparar com o Oxford English Dictionary, com seus 615.000 verbetes, acho que conseguimos chegar aonde outros dicionários de português não conseguiram?, diz Mauro Villar, filólogo, sobrinho de Antônio Houaiss, responsável pela conclusão da obra depois da morte do tio. Houaiss levou a equipe a mergulhar nas profundezas do passado e produzir quase uma enciclopédia. Por isso o Houaiss é tão mais volumoso que os concorrentes. Mas atenção. Nem o Houaiss pode se gabar de ter abraçado todas as palavras do idioma. Os dicionaristas orgulham-se de transformar em verbetes palavras que atendem a dois requisitos: estão vivas e são matrizes do idioma. Ou seja, delas derivam outras. Quando se somam aos verbetes as palavras compostas e os termos técnicos, não há obra que dê conta de catalogar todo o universo da língua. Quem chegou mais longe foi o Dicionário Filológico da Academia Brasileira de Letras, que registra 360.000 palavras. ?Qualquer língua moderna conta com milhões de palavras potencialmente dicionarizáveis. Calcula-se que a medicina contribua com cerca de 600.000 acepções, a química e a farmacologia, com 2 milhões, apenas superados pela zoologia. Só a classificação dos insetos exige 2 milhões de termos?, explica Villar.

Como todo dicionário com forte acento enciclopédico e histórico, o Houaiss oferece, ao mais superficial manuseio, um delicioso passeio pela linhagem evolucionária das palavras. Os vocábulos, como as pessoas, podem ser promovidos ou rebaixados. Tome-se o exemplo do que foi legado às gerações posteriores pelo militar aventureiro alemão Friederich Hermann Schönberg, que nos idos de 1615 comandava tropas portuguesas contra os espanhóis e ditava a moda na corte. Ele não viveu o bastante para ver seu pomposo sobrenome acabar rolando nobreza abaixo. Em Lisboa, de Schönberg para ?chumbergas? foi um pulo. No Brasil colônia, outro tombo fenomenal: virou ?chumbrega?, coisa ruim, ordinária, reles. Já a palavra marechal subiu de elevador. De artesão encarregado das ferraduras dos cavalos em 1086, a palavra marechal foi alçada ao mais alto posto na hierarquia do Exército brasileiro mais de 800 anos depois. Outra palavra rebaixada pelo Houaiss é uma daquelas que podem aparecer tanto numa questão do vestibular quanto no Show do Milhão. Qual é a maior palavra da língua portuguesa? Quem respondeu ?anticonstitucionalissimamente? errou. Ela perdeu para outra ainda mais extensa. Quem ostenta o título agora é ?pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico?. São 46 letras. Seu significado? Bem, ela descreve o estado de quem é acometido de uma doença rara provocada pela aspiração de cinzas vulcânicas. Com curiosidades, segredos garimpados em centenas de obras consagradas e uma pesquisa histórica profunda que datou a entrada de quase todas as palavras no idioma, o novo dicionário vai brigar pela posição de a maior autoridade da língua pátria, a sétima do mundo, com 200 milhões de falantes, à frente do japonês, francês e alemão. ?Nosso objetivo é que as pessoas saquem do Houaiss numa discussão para resolver sem contestação uma dúvida de linguagem?, diz Feith.

Não é pouca ambição. Obra plácida, neutra em sua aparência de celeiro do idioma, com a matéria-prima disposta em ordem alfabética, os dicionários, no fundo, escondem rivalidades terríveis. Os mais mansos chegam ao mundo com o objetivo apenas de descrever como o idioma está sendo usado pelas pessoas em determinados períodos da História. Outros, como o Aurélio e o Houaiss, querem ser autoridade. São dicionários brigões, normativos, querem dar receita do bom uso da língua. Seus autores esperam que as pessoas recorram a eles em caso de dúvidas cruéis de linguagem. Dar a palavra final, ser a obra de maior credibilidade, é o grande prêmio. Poucos chegam lá. Já é um grande passo para um dicionário quando o nome do autor se confunde com a própria obra. O primeiro dicionário da história ocidental a obter tal honraria foi uma lista de poucos milhares de palavras latinas compiladas pelo intelectual italiano Ambrogio Calepino em 1502. Seu Dictionarum interpretamenta fez enorme sucesso numa Europa sedenta de conhecimento que mal se erguia das sombras da Idade Média. Historiadores encontram freqüentes referências à obra. Uma delas é a prova de que o dicionário fazia parte do cotidiano da elite letrada – menos de 1% da população européia de então. Um nobre inglês morto em Lancashire em 1568 registrou em seu testamento que deixava como herança, entre outros objetos de valor, seu ?calepino?. Mais tarde, outros dicionários atingiram essa singularidade. O Covarrubias, na Espanha, e o Caldas Aulete, em Portugal. O Johnson e o Webster nos países de língua inglesa. O Aurélio no Brasil.

Quando se examina a complexidade desse tipo de empreitada fica claro que, para a equipe envolvida, prêmio mesmo é pôr um ponto final à obra. Ao cabo dos trabalhos, o dicionarista-chefe do projeto Houaiss, Mauro Villar, estava à beira de um ataque de nervos. Típico da atividade. É famoso entre as pessoas do ramo o registro que ficou da triste vida do inglês Thomas Cooper, que se meteu em 1565 a fazer um Thesaurus Linguae Romanae et Britannicae (?Tesauro da língua romana e britânica?). ?Ele estava com metade do trabalho pronto quando a paciência de sua mulher se esgotou. Ela jogou todos os papéis na fogueira. Mas era tão grande o zelo de Cooper que ele começou tudo de novo, do zero?, escreveu um século mais tarde o historiador John Aubrey. Em 1789, a Academia de Ciências de Lisboa arregimentou forças para criar um dicionário completo da língua portuguesa. Com todo o empenho, não conseguiu passar da letra A. Apesar do fracasso, o volume remanescente é considerado pelos filólogos uma peça preciosa. Dois séculos se passaram e só no ano passado a academia finalmente editou seu dicionário. Na Alemanha, os irmãos Grimm começaram a compilar um léxico no século XIX. Ele só foi dado por concluído 126 anos depois, em 1960. Por essa razão, os Grimm tornaram-se famosos planetariamente como autores de contos infantis e não como filólogos. Editar o dicionário Houaiss em uma década foi um feito.

O primeiro passo para lançar um dicionário é a motivação. Por que fazer um quando já existem tantos? A segunda coisa é delimitar o número de verbetes. A terceira é estabelecer um prazo para terminar?, conta Mauro Villar. A motivação foi dada por Antônio Houaiss em pessoa. Ele queria associar seu nome ao mais completo dicionário. Houaiss lembrava sempre que o próprio Aurélio se define como uma obra inframédia, ou seja, que não chega a contemplar nem a metade das palavras do idioma. Houaiss julgava a obra de Aurélio meritória, mas entendia que sua formação de professor de português, excelente por sinal, era fraca em instrumentos teóricos para levá-lo às profundezas do idioma. Outras obras, Houaiss as via defasadas e incapazes de satisfazer quem quisesse ultrapassar os desafios do uso correto do português atual. Não fossem essas razões, havia a mais alta: a ambição de escrever um dicionário que representasse sua própria visão da língua portuguesa. A erudição, somada ao conhecimento e à tenacidade de alguém que levou apenas nove meses para traduzir a obra inaugural da modernidade, o Ulysses, do irlandês James Joyce – enquanto sua mãe morria de câncer -, fez de Houaiss o homem talhado para a tarefa monumental.

Houaiss queria uma obra que reunisse com igual ímpeto os vocábulos utilizados pelos grandes escritores e aqueles gerados pelo linguajar mais comum das pessoas no dia-a-dia. Ele almejava profundidade histórica e modernidade. ?Algo que ombreie com o desenvolvimento alcançado em outras línguas românicas, a exemplo do francês, do espanhol, do italiano, do catalão?, como escreveu no prefácio do novo dicionário. A definição do tamanho do dicionário só se deu depois que os envolvidos na produção dicidiram que a obra deveria ficar pronta até o ano 2000. Dados o tempo disponível e a complexidade da tarefa, os especialistas reunidos pelo Instituto Antônio Houaiss, organização criada pelo filólogo para o estudo do idioma, estabeleceram que o dicionário teria 228.500 verbetes. Sem disciplina férrea, não passariam da letra A. ?Com todo o esforço de organização, a sensação que tínhamos era a de um piloto tentando levantar vôo com um avião ainda em construção?, define Mauro Villar.

As primeiras fases do projeto, antes da entrada da editora Objetiva, foram bancadas pelo Instituto Antônio Houaiss com receitas obtidas de fontes privadas e estatais. Conseguiu-se o suficiente para pagar a dezenas de pesquisadores. Os melhores chegavam a ganhar 5.000 reais por mês. Colaboradores técnicos recebiam 2 reais por verbete. Quando o dinheiro acabou, a seis meses do término da obra, todos trabalharam de graça. Toda essa gente produzia o que exatamente? Pequenos textos com os significados das palavras, sinônimos e antônimos, mas igualmente a história ou a etimologia dos vocábulos. A mecânica do trabalho tinha um componente braçal. Foi nessa fase que o computador ajudou muito. Os pesquisadores faziam cópias digitais, com a ajuda de um escâner, de artigos de revistas, jornais, livros e outras fontes. Tudo isso ia para um arquivo digital comum, de forma que as modificações podiam ser instantaneamente compartilhadas. ?Sem isso não teríamos conseguido acelerar os trabalhos?, lembra Feith. Todos seguiram as orientações de Houaiss, consolidadas em um manual de redação com 100 páginas, que se tornou ainda mais valioso depois de sua morte. Os verbetes também só recebiam o ponto final depois de confrontados com os de outros dicionários. ?Começamos pela letra B, mais simples, para ‘esquentar’ os motores e testar a eficiência de nossa rotina. Depois passamos ao D e, finalmente, enfrentamos o A, a letra mais extensa e complexa?, explica Mauro Villar.

Se consideramos como primeiro dicionário da história uma pequena lasca de pedra com uma dúzia de vocábulos de um idioma obscuro encontrada na antiga Mesopotâmia, então essa compulsão humana de listar palavras tem pelo menos 2.700 anos, ou 27 séculos. De lá para cá, a evolução foi tremenda. Até o século XIV, por exemplo, as palavras eram organizadas não em ordem alfabética, mas em grupos de significados parecidos. Esse tipo de dicionário sobreviveu aos nossos dias. São os tesauros, dicionários de sinônimos ou de idéias correlatas. Ninguém, porém, traçou tão bem quanto Noah Webster (1758-1843), famoso lexicógrafo americano, quais devem ser os critérios fundamentais para separar as palavras dicionarizáveis das que não merecem essa glória. Aconselhou o sábio que se leve em conta o seguinte:

a linguagem muda constantemente;

a mudança é normal;

a linguagem falada é a linguagem;

o que define a correção é o uso;

todo uso é relativo.

Como toda regra simples, a de Noah Webster é brilhante, mas não esgota a questão: por ter mais verbetes que o Aurélio, o Houaiss é um dicionário, sem dúvida, mais completo. Mas é o melhor? Muito antes de fazerem seus dicionários, Aurélio Buarque de Holanda e Antônio Houaiss já divergiam sobre o número ideal de palavras que uma obra do gênero deve ter. Aurélio sempre foi favorável a uma lista menor concentrada em palavras efetivamente usadas no dia-a-dia. Houaiss pendia para dicionários mais completos, históricos, enciclopédicos. Essa, aliás, é a mais resistente das brigas entre a maioria dos dicionaristas de qualquer idioma. O estudioso americano David Foster Wallace sugere desafiadoramente que, se tamanho e modernidade são documentos, o dicionário de inglês ideal abrigaria tantos termos que pesaria 2 toneladas e teria de ser atualizado a cada meia hora. ?Claro que um dicionário assim não tem valor. Por isso é preciso alguém com autoridade para escolher as palavras?, diz Wallace. ?Aí é que está a beleza autoral, pois toda escolha será inevitavelmente ideológica.?

A precaução básica de Houaiss, segundo Mauro Villar, foi evitar a transformação da linguagem de forma muito veloz, o que, para ele, seria catastrófico. Também temia que o ritmo fosse lento demais e seu dicionário registrasse uma língua moribunda e não aquela que pulsa nas ruas, lojas, estádios, estações de metrô e bares. Quando se mede o ritmo que efetivamente empreendeu ao dicionário, nota-se que Houaiss foi muito rápido no gatilho. Para começo de conversa, não teve nenhum tipo de preconceito com os vocábulos de origem estrangeira. Estão lá, devidamente dicionarizadas, as palavras popularizadas pela internet, como site, www, web e hipertexto. O americano Wallace conta que antes da internet só Sigmund Freud, o pai da psicanálise, provocara, no começo do século XX, uma reação tão grande por causa da avalanche de palavras estrangeiras, no caso alemãs, que espalhou pelos idiomas de todo o mundo. Com as reações costumeiras. ?Houve uma enorme resistência dos puristas da língua inglesa quando Freud criou ou redefiniu termos como libido, narcisismo ou ansiedade?, lembra Wallace. É a mesma situação que se vive em certos círculos intelectuais do Brasil de hoje, cujo paroxismo é o projeto de lei do deputado comunista Aldo Rebelo que prevê multas para quem usar palavras de origem estrangeira.

A própria expansão da língua portuguesa é um exemplo a desmentir a tese do deputado. Os estrangeirismos foram uma fonte inestimável de riqueza do idioma pátrio. Na Idade Média, o português era falado com o uso de apenas 15.000 palavras. Em meados do século XVI, com as grandes expedições marítimas, esse número saltou para 30.000. No fim do século XIX, os dicionários registravam cerca de 90.000 vocábulos. Na década de 80, um levantamento da Academia Brasileira de Letras dava conta da existência de 360.000 palavras. Os ?empréstimos? de palavras estrangeiras, longe de empobrecer, tornam a língua hospedeira mais abrangente e culta. ?Não poderia ser de outra maneira. Tudo o que vem de fora para simplificar permanece. Não adianta espernear. Quem dirá ‘controle de embarque de passageiros’ em vez de ‘check-in’??, desafia o professor Leodegário de Azevedo Filho, presidente da Academia Brasileira de Filologia e autoridade mundial em Camões. O avanço do inglês sobre os idiomas é visto como fato natural entre filólogos e dicionaristas, devido à liderança tecnológica dos Estados Unidos. A tecnologia de ponta trouxe manuais, apostilas, cursos e termos que consagram o inglês a ponto de hoje ele ser falado por 1 bilhão de pessoas, na maioria bilíngües. Antes do inglês, o francês teve status de língua franca do mundo – e atraía sobre si a mesma fúria nacionalista dos defensores dos idiomas pátrios.

Como mero depositário dos termos de uso corrente, todo dicionário é uma obra hiperdimensionada. Um estrangeiro que fale bem o português básico terá dominado 1.000 vocábulos do idioma. Fora os termos técnicos, as principais línguas escritas usadas atualmente no mundo esgotam-se em 60.000 palavras. No Brasil, os filólogos estimam que o vocabulário básico reúna cerca de 3.000 termos. As populações em geral conseguem se comunicar com 800 a 1.400 palavras. Pessoas cultas valem-se de 3.000 a 5.000 vocábulos. Sabe-se que a obra do romancista Camilo Castelo Branco foi construída com nada menos que 15.000 vocábulos. Maior escritor brasileiro, Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Braz Cubas, lançou mão de 6.700 diferentes palavras. William Shakespeare, cuja obra foi escrita no século XVII, serviu-se de 25.000 vocábulos, dos quais criou pelo menos um quinto. Diante do estoque de palavras usadas pelos gênios acima, fica difícil imaginar quem precise das centenas de milhares de vocábulos contidas em um dicionário para se fazer entender. ?A comunicação verbal ou mesmo escrita é complexa. Menos pode ser mais. Às vezes, quem sabe muito pode enrolar-se num vocabulário empolado e não conseguir transmitir o que deseja?, diz Reinaldo Polito, professor de expressão verbal, que, entre seus alunos, tem políticos, atores e apresentadores de televisão. Conhecer um número maior de palavras, porém, é sempre uma vantagem. Mesmo que seja apenas uma vantagem potencial. Uma pesquisa da Harvard Business School mostrou que, para galgar um nível hierárquico nas empresas americanas, o funcionário é obrigado a enriquecer seu vocabulário em pelo menos 10%.

A editora Objetiva distribuiu algumas cópias do Houaiss a uma dezena de filólogos e estudiosos do português. Cada um teve de assinar um termo de confidencialidade para não atrapalhar a surpresa que a editora espera criar com o lançamento. O dicionário Houaiss foi bem recebido. ?É uma obra aberta, sem preconceitos, que incorpora arcaísmos, indianismos, africanismos, regionalismos brasileiros e até asiaticismos. Isso a torna tecnicamente impecável?, define o professor Leodegário. Ele não enxerga, porém, vantagens em tentar ser o mais completo dicionário. É um objetivo inalcançável. ?Basta o leitor não encontrar uma palavra no dicionário para amaldiçoá-lo?, lembra Leodegário, citando outro filólogo, Oswaldo Serpa: ?O destino do dicionarista é conviver com a ingratidão humana?.

?Vocês não estão fazendo só um dicionário, estão fazendo poesia?, sentenciou o escritor português José Saramago, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, que acompanhou parte dos trabalhos da equipe do Houaiss. Saramago se encantou com a definição do verbete ?saudade? apresentada a ele por Mauro Villar: ?Sentimento mais ou menos melancólico de incompletude?, como reza a primeira das trinta linhas dedicadas ao vocábulo do qual os usuários da língua portuguesa mais se orgulham por o julgarem intraduzível para outros idiomas. Outro ponto relevante do Houaiss é o fato de muitas vezes abandonar o campo do dicionário de língua e ir além, ingressando no enciclopedismo. ?No verbete ‘filipeta’, por exemplo, Houaiss não se contenta em defini-lo como ‘promissória fraudulenta’. Vai além, conta o crime e indica o criminoso, Felipe, um capitão da reserva do Exército que nos anos 50 aplicou um golpe no mercado financeiro?, lembra o professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras. Uma das razões pelas quais o acadêmico considera a obra uma ?revolução literária? é o fato de ter abandonado o recurso, usado em outros similares, de definir um verbete pela utilização sucessiva de sinônimos. ?Houaiss ensina o significado?, diz o acadêmico. ?Se pecado há no novo dicionário, é o de dar mais do que se pede.? O julgamento final do que foi conseguido, como Antônio Houaiss deixou escrito no prefácio da obra, caberá, como sempre, ao leitor."

    
    
                     

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