Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > LAW & ORDER

Tania Menai

19/04/2005 na edição 325

‘Era tarde da segunda-feira quando Chris, produtor de locação do seriado ‘Law & Order’, bateu na minha porta, aqui em Nova York. ‘Estaremos filmando um episódio do programa nesta quarta-feira na casa da sua vizinha. Precisamos do seu apartamento para colocar o equipamento, o monitor e cerca de oito pessoas. Oferecemos 500 dólares.’ Convidei-o para entrar e mostrei meu estúdio, tipicamente nova-iorquino: um espaço de mais de cem anos, teto alto, janelas grandes e cerca de 35 metros quadrados. ‘Oito pessoas? Olha o tamanho disso aqui!’ – disse-lhe, incrédula. ‘Já estivemos em lugares bem menores’, ele me respondeu. Fiquei, então, de pensar na proposta.

Foi aqui, em Nova York, que Harry beijou Sally, que King Kong se pendurou num arranha-céu, que Superman voou com sua amada nos braços. Também foi aqui que rolou tudo, tudinho, naquelas nove semanas e meia de amor, que os caça-fantasmas foram aplaudidos por uma multidão, e que, claro, se esqueceram de Macaulay Culkin. Nova York só perde para Los Angeles como a cidade mais filmada dos Estados Unidos, talvez do mundo. Mas a comparação nem vale, pois a cidade californiana nasceu para isso – e, no final das contas, tem estúdios que replicam os cantinhos desta cidade de Frank Sinatra. Nova York atrai todas as lentes simplesmente por ser o que é. É verdade que, nos últimos anos, os custos para filmar aqui – longa-metragens ou seriados para TV – alcançaram níveis estratosféricos, afugentando diretores que chegaram ao cúmulo de filmar a ‘silhueta de Manhattan’ em Toronto e a vida do ex-prefeito Rudolph Giuliani em Montreal.

Para trazer toda essa indústria de volta, em agosto do ano passado, o governador do estado de Nova York, George Pataki, deu sinal verde a uma série de leis de incentivos fiscais para a indústria de filme e TV. Apesar de ter cortado os custos do estado em 1,8 bilhão de dólares na época, ele deixou intactos os recursos para os setores de filme e TV. A nova lei libera 100 milhões de dólares nos próximos quatro anos – ou 25 milhões anuais – para reduzir os custos de filmes e projetos de televisão produzidos em Nova York. Mais 12,5 milhões de dólares serão despejados em benefícios fiscais para produções na cidade. Afinal, se os preços de locação e produção continuassem agregando zeros à direita, até King Kong teria que balançar num prédio em Kuala Lumpur.

Certamente, a mamata tem a contrapartida de exigências aos produtores. Só se beneficiará da lei quem filmar pelo menos 75% de sua produção no estado nova-iorquino. Ou seja, não adianta filmar a porta de um restaurante, escritório ou edifício residencial, e depois alugar um estúdio em Los Angeles para gravar o que acontece nos interiores. ‘A cidade de Nova York sempre ofereceu à indústria cinematográfica as locações mais incríveis do mundo – e esta nova legislação torna ainda mais atraente filmar nos interiores da cidade’, diz Katherine Oliver, responsável pelo setor da prefeitura que lida com filmes, teatros e programas de televisão em Nova York. Segundo ela, a produção de cinema e televisão em Nova York emprega 100 mil profissionais e contribui anualmente com 5 bilhões de dólares para a cidade.

A lei não vale para comerciais. Aplica-se apenas às produções de longa-metragens, filmes para televisão, pilotos e episódios de seriados. Ou seja, é ideal para os woody allens e spike lees que amam esta cidade. Os incentivos foram bem recebidos pelos sindicatos, incluindo o dos atores, associações e estúdios que fornecem equipamentos para filmagens. ‘Temos o compromisso de manter nossa posição competitiva neste setor’, acrescenta Katherine.

Quando se pensa em seriados para a televisão em Nova York, ‘Seinfeld’, ‘Friend’ e ‘Sex and the City’ vêm logo à cabeça. Mas a dura verdade é que ‘Seinfeld’ e ‘Friends’ foram gravados descaradamente na ensolarada Califórnia. O ‘Central Perk’, lanchonete de ‘Friends’, nunca existiu. Já Seinfeld fazia exatamente o que o governo nova-iorquino quer aniquilar: filmava a fachada do Tom’s Restaurant, na esquina da rua 112 com Broadway, e gravava as cenas interiores em um cenário fictício que chegou a ser exposto no Museum of Moving Image, no Queens. Por essas e outras é que a lei foi criada. E parece estar dando resultados. Estima-se que, até 2008, a cidade receberá 2 bilhões de dólares extras deste setor. A revista ‘Moviemaker’ acaba de declarar que Nova York é a melhor cidade para diretores independentes viverem e trabalharem.

Meu contrato com a Universal Television

‘Sex and the City’, foi, sem dúvida, o seriado de televisão que mais usou e abusou das ruas, restaurantes, lojas e parques da cidade. Tanto, que chegou a ganhar um guia em português com os endereços do programa, preparado pela jornalista Teté Ribeiro e pela fotógrafa Mabel Feres. O seriado já terminou, provavelmente sem fisgar as vantagens da nova lei. Mas duas outras produções já divulgaram que estão usufruindo da novidade: os seriados ‘Jonny Zero’, do canal Fox, e ‘Law & Order’ da NBC. Este último, exibido semanalmente há 15 anos, trata de crime, polícia e tribunal. Exibido no Brasil com o título ‘Lei e Ordem’ (no canal Universal), é filmado inteiramente nas ruas e interiores da cidade. Por interiores, entendam-se também os apartamentos de pessoas comuns.

Moradores são convidados – por um bom dinheiro – a se retirar de seus apartamentos durante alguns dias para que sejam invadidos pela equipe de filmagem. Os móveis são retirados e guardados em um depósito. Se o apartamento sofrer qualquer arranhão, a produção do programa compromete-se a pintá-lo. Os apartamentos vizinhos também não ficam de fora. São usados como estúdio para abrigar os diretores, atores, a produção e a parafernália tecnológica. Obviamente tudo é feito dentro da lei, com documentos previamente assinados. Com autorização do administrador do edifício, qualquer apartamento pode, um dia, sofrer uma invasão dessas. Inclusive o meu.

Depois de receber a proposta do produtor de locação do seriado ‘Law & Order’, consultei alguns amigos – que nunca viram maneira mais fácil de ganhar dinheiro – e topei. Afinal, este apartamento, também apelidado de ‘ninho’, além de uma pacífica vida conjugal, já comportou uma festa para nove estudantes. Bater este recorde poderia ser a chance de uma menção no ‘Guinness’.

No dia seguinte à proposta de Chris, seu assistente Jacob entrou e saiu da minha casa umas cinco ou seis vezes. Em uma delas, trouxe um contrato da Universal Network Television, no qual constava o meu nome, endereço, valor do pagamento e nome do episódio ‘In God We Trust’ (alusão à frase escrita na nota de dólar), que irá ao ar no dia 11 de maio, nos EUA. O contrato falava que a equipe teria cuidado ‘razoável’ com a minha propriedade, e mais algumas cláusulas que os protegem – é claro. Assinei.

Já na terça-feira, a portaria do prédio e o elevador foram revestidos com papelão. Duas placas amarelas de papel emitidas pela polícia foram coladas em um poste da esquina anunciando aos motoristas que, entre as cinco da manhã e as dez da noite da quarta-feira, a quadra inteira estaria indisponível para estacionamento. Veículos que desrespeitassem a ordem seriam removidos. As placas indicavam ainda o nome do programa e o episódio.

Por que fechar uma quadra inteira com tanto rigor? Porque, às cinco da manhã da quarta-feira feira, cerca de doze caminhões aportaram aqui. Dois eram camarins, um era uma lanchonete, o quarto carregava móveis, outro trazia fiações… e por aí vai. Na porta do prédio, duas cadeiras de tecido, estilo Hollywood, revelavam o nome dos atores: Denis Farina e Michael Imperioli.

Jacob chegou ao meu prédio às cinco da manhã, mas fez o gentil favor de só me chamar às 10, para avisar que a equipe chegaria a uma da tarde. Desliguei o som do telefone, a pedido da produção. Também tirei todos os badulaques quebráveis do caminho, incluindo uma cadeira que seria atropelada pela equipe. Enquanto isso, na porta ao lado, o apartamento da vizinha, já totalmente vazio, estava sendo decorado pela equipe do ‘Law & Order’.

Um multidão em meu ninho

O andar estava tomado: fios para cá, fios para lá, câmeras, refletores, pessoas servindo sanduíches, atores coadjuvantes, uma mulher grávida sentada fazendo tricô – um total de 40 profissionais, quase todos no corredor. ‘O Projac é aqui’, pensei. Deixei a porta aberta, e começou o entra-e-sai. Caixas imensas, incluindo a claquete, pousavam ao lado da cama. Depois, vieram o monitor e caixotes de madeira acolchoados, que serviam como cadeiras para o diretor, David Platt, e seus assistentes. O resto da equipe sentou-se ao lado da pilha de casacos que se acumulou na cama. O número de pessoas ia crescendo até que resolvi contar – em dado momento, o conclave reunia 12 pessoas em meu ninho.

A cada cinco minutos, entrava uma cara nova. Alguns observavam a casa, os livros, os guias de viagem, e principalmente, a coleção de fotos preto-e-branco. Outros se distraíam com a televisão, ligada no canal local, sem som. Comentavam o exagero da cobertura sobre a morte do Papa. A assistente do diretor reparou que o meu negócio era balé e engatou uma conversa, contando que foi bailarina até os 30 anos, mas, depois que começou nesta carreira, nunca mais teve tempo para fazer uma aula. Outros me perguntavam sobre o Brasil. ‘Nunca conheci um brasileiro antipático’, disse um deles.

Certas perguntas eram menos saborosas: ‘Onde há uma tomada para a gente usar?’ ou, pior, ‘Posso usar o seu banheiro?’ Enquanto um figurante, sentado na cadeira da escrivaninha, me contava em espanhol que é de Porto Rico, um produtor americano – vestindo uma camiseta em que se lia ‘Renzo Gracie, Jiu-Jitsu, Rio de Janeiro’ – entrou pedindo silêncio para o ensaio.

Em seguida, chegaram dois homens de sobretudo. Quando fiz a clássica pergunta de anfitriã – ‘Posso tirar o seu casaco?’ -, a resposta veio inesperada: ‘Obrigado, mas vamos usá-los no set’. Tratava-se de Denis Farina, o ator principal do seriado, e Michael Imperioli, estrela de ‘Sopranos’, outra série americana. Os dois entraram, sentaram, e ficaram batendo papo com o diretor. Uma vez no set, ou seja, no apartamento ao lado, as cenas eram acompanhadas pelo diretor e mais umas nove pessoas no monitor instalado aqui no meu apê.

A cena mostra Farina e Imperioli entrando no apartamento em busca de um criminoso que havia provocado um incêndio proposital. O criminoso não está em casa, mas a dupla cheira o casaco do suspeito e detecta o odor de gasolina. Depois, os dois reviram a casa e acham duas peças relevantes para a trama: uma camisinha, alojada no bolso do tal casaco, e um DVD de ‘Pretty Woman’. A mesma cena, mostra um coadjuvante que interpreta o zelador. Gordinho e engraçadíssimo, suas expressões faciais arrancaram boas risadas de toda a equipe. Logo, logo, todos tiveram que se conter pois ninguém pode soltar um pio durante a gravação.

A cena foi gravada diversas vezes, de diferentes ângulos. Depois, Imperioli voltou para cá e ficou batendo papo com a equipe – e comigo.

O que ninguém sabia é que tudo estava sendo acompanhado, via Internet, graças a uma webcam do MSN Messenger, por amigos meus que vivem em Montreal e Florianópolis. Ambos conhecem o apartamento e ficaram surpresos com a movimentação. ‘Que galera!’, escreveu um deles. Minha mãe também enviou uma mensagem perguntando se existe algum ‘milagre da multiplicação de espaço’. E ainda deu uma cutucada na filha: ‘Se eles procuram lei, eu entendo. Agora, ordem? Na sua casa?’

No final da cena, a equipe se transferiu para outro andar, deixando os casacos, malas e caixas aqui. Ainda filmaram a cena do incêndio no terraço do prédio, que tem oito andares. Quando saí de casa, no fim da tarde, a produção continuava na ativa. Nas escadarias, coadjuvantes uniformizados de polícia nova-iorquina esperavam sua vez enquanto um produtor ficava na portaria mandando todo mundo se calar durante as gravações. A rua continuava tomada por caminhões e produtores. Voltei para casa às onze da noite, encontrando a calçada vazia, um silêncio transcendental e nenhum resquício de um dia de trabalho.

É assim que os americanos gostam: tudo dentro da mais perfeita lei e ordem.’



HOSPITAL NA TV
Etienne Jacintho

‘Dramas hospitalares estão em alta ‘, copyright O Estado de S. Paulo, 18/04/05

‘Passada a febre dos seriados sobre advocacia como Ally McBeal, O Desafio e Lei & Ordem, vieram as séries sobre investigações como a trilogia C.S.I., Without a Trace, Cold Case… O Brasil também viu na TV uma revolução presidencial em 24 Horas, The West Wing, Spin City e Jack & Bobby. Mas fazia tempo que não havia tantos seriados médicos. E.R. (Warner, quinta, às 22 h) está no ar há 11 anos, reinou durante muito tempo – competindo com o fraco General Hospital – e agora ganhou mais dois concorrentes.

O A&E Mundo estreou em março o Strong Medicine (segunda a quinta, 23 h), com produção de Whoopi Goldberg e que está em sua 7.ª temporada nos EUA. Já o Universal Channel lançou na semana passada House (sexta, 23 h). O primeiro fala sobre a trajetória de duas médicas com estilos diferentes e um objetivo em comum: a saúde feminina. O segundo, acompanha a equipe do dr. House, médico temperamental, mas ótimo em diagnósticos. Os dois seriados trazem a adrenalina dos atendimentos de casos de emergência – corta aqui, costura ali, dá choque lá… E intercalam dramas hospitalares e pessoais. Nos EUA estreou Grey’s Anatomy, parecido com E.R. na fórmula, pois também mostra uma turma de residentes. Scrubs, do Sony, (sex., às 20 h) tem essa temática, mas é comédia.

Resta saber se essa é uma tendência. Médicos bonitões e sangue. Até Rob Lowe ganhou seu kit de salvamento em Dr. Vegas… Esse não vale a pena, mas House e Strong Medicine contam boas histórias. Para quem gosta de desvendar doenças e acompanhar diagnósticos e tratamentos, House é um prato cheio. Técnico demais, mas o dr. House vale a série.’



RÁDIO
O Estado de S. Paulo

‘No rádio, a força está na simplicidade ‘, copyright O Estado de S. Paulo, 18/04/05

‘O publicitário Lula Vieira, controlador da agência VS, é uma espécie de biblioteca ambulante da memória do rádio brasileiro. Lembra de cor e salteado jingles e slogans que fizeram história nas ondas das emissoras.

Quando foi trabalhar na Lintas, a agência da então Lever, nos anos 70, ele vasculhou, com a ajuda de um estagiário, o hoje ministro da Cultura, Gilberto Gil, os arquivos da própria Lever. Neles, encontrou preciosidades como antigas radionovelas patrocinadas pelos sabonetes Lever. ‘Trago na memória aquela voz dizendo: num oferecimento de Lever – o sabonete de nove entre dez estrelas.’ E emenda: ‘É impressionante, mas o Lux veio depois e não mudou em nada esse slogan, que é muito bom. É forte e radiofônico’.

E a força do rádio, diz Vieira, está justamente na simplicidade. ‘É um meio de comunicação que não permite a veiculação de mensagens complexas ou raciocínios que exigem muita atenção. Além disso, a mensagem tem de ser repetida inúmeras vezes para chegar ao público, ser assimilada e, a partir daí, repetida’.

Principal meio de comunicação de massas até o surgimento da televisão nos anos 50, o rádio formou toda uma geração de profissionais que criavam slogans e jingles para conquistar o público. ‘Só que o rádio tem os seus caprichos. Não se pode criar nada chato, explicativo. É preciso estar em sintonia com o público daquela rádio. Caso contrário, a publicidade não funciona.’ Traduzindo: não terá eficácia um anúncio ritmado pelo rock numa rádio voltada ao público de música clássica.

Os congestionamentos nos grandes centros urbanos do mundo estão dando uma força extra ao rádio. O Festival Internacional de Publicidade de Cannes captou essa mudança e este ano, em junho, pela primeira vez em 51 anos estará distribuindo leões, o Radio Lions, aos melhores trabalhos veiculados nesse meio de comunicação. Mais: os pontos conquistados em rádio serão decisivos para a escolha de agência de publicidade do ano. Essa premiação que todos perseguem é resultado da soma de pontos – indicação e leões – das categorias impressa (Press & Outdoor) e audiovisual (Films).

Lula Vieira, que será o representante brasileiro do primeiro júri do Radio Lions, já está ouvindo, com atenção redobrada, os famosos reclames veiculados nas emissoras AM e FM, mas faz um alerta. ‘O rádio requer muita simplicidade. É um meio complementar da propaganda, usado para fixar um slogan ou um jingle, sem ter como função oferecer a imagem de um produto ou serviço. Também não pode ser o instrumento de uma descrição detalhada. Tem de ter charme, tem de atingir diretamente e frontalmente o ouvinte, senão não funciona.’

O publicitário Nizan Guanaes, da agência Africa, acha que, nesse primeiro ano, o Brasil tem poucas chances de conquistar os leões radiofônicos. Mas está convencido de que o rádio ganhará fôlego e que, no próximo ano, as campanhas feitas no País para esse veículo ganharão em qualidade.

Antigos músicos, que criaram composições memoráveis, como Archimedes Messina, criador dos jingles da Varig e do Café Seleto, podem respirar aliviados. Esse mercado, acreditam Guanaes e Vieira, voltará a complementar o tom das campanhas publicitárias, com muito som.’

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PRIMEIRAS EDIçõES > FRAUDE NO NYT

Tania Menai

Por lgarcia em 27/05/2003 na edição 226

FRAUDE NO NYT

“Mentira com longas pernas”, copyright no mínimo (http://nominimo.ibest.com.br), 25/05/03

“O circuito Elizabeth Arden do jornalismo anda escorregando do salto-alto. Enquanto o episódio do jornalista-fake Jayson Blair veio à tona no New York Times, o periódico parisiense Le Monde, referência da imprensa na língua francesa desde 1944, também não tem deixado as manchetes. No dia 16 de maio, o diretor do jornal francês, Jean-Marie Colombani entrou na justiça por difamação contra os repórteres Pierre Péan e Philippe Cohen, que lavam a roupa suja do jornal em 630 páginas no recém lançado livro ?La face cachée du Monde? (A face oculta do Monde). O New York Times ainda não chegou a este ponto. Até agora, o caso Blair parece não ter afetado nada muito além do ego e da vergonha dos editores envolvidos, e enaltecido a árdua profissão dos ?fact-checkers? ou checadores de fatos. As ações do jornal na bolsa de valores não despencaram. Tampouco o número de assinaturas. Mas isso poderá mudar, ou não, dependendo do que Jayson Blair revelar no livro e no filme que ele está disposto a escrever.

Em matéria publicada do jornal semanal The New York Observer, o repórter e crítico de livros Joe Hagan, 32 anos, conversou com o agente literário David Vigliano, que dias após o escândalo do Times, que rendeu uma matéria de quatro páginas no próprio Times no dia 11 de maio, já escrevia uma proposta de cinco páginas para circular nas mãos de executivos de Hollywood. Depois disso, vai engatar a negociação para a publicação de um livro. Otimista, ele espera fechar um contrato em menos de duas semanas. O que tudo indica, a intenção de Blair, que é negro, é escrever sobre complexidades raciais tanto na redação do Times, quanto no mundo do trabalho em geral. Blair diz que ?pretende ter a chance articular as razões que levaram a sua queda, sem se fazer de vítimas, mas escrevendo um conto que alerte outras pessoas?. Caso Blair esteja disposto a revelar o lado obscuro do Times, assim como fizeram os repórteres franceses, será que há alguma maneira de o jornal nova-iorquino impedí-lo? Segundo o advogado Marcello Hallake, da Coudert Brothers de Nova York, a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos garante ao cidadão a absoluta liberdade de expressão. E isso é um ponto a favor de Blair. Não há como impedí-lo. Depois de o livro ser publicado, talvez seja o caso de entrar na justiça. Mas isso não pode acontecer antes.

O histórico de casos como este nos EUA já fizeram jornalistas-fake infinitamente mais ricos do que aqueles que permanecem honestos até o fim da carreira. Em 1981, Janet Cook do Washington Post chegou a ganhar um Prêmio Pulitzer por uma matéria inventada sobre um jovem viciado em drogas. O jornal devolveu prêmio, mas Janet embolsou 380 mil dólares vendendo os direitos de sua história para a Columbia TriStar Pictures. Michael Finkel, da revista Time, que também usou a ?criatividade? para escrever sobre o perfil de um negro americano e acabou vendendo os direitos de sua memória para uma editora por 300 mil dólares. Stephen Glass, outro nome lembrado em épocas de crise como esta, mentiu descaradamente nas revistas The New Republic, Rolling Stone e Harper?s. Descobertas as fraudes em 1998, ele passou anos fazendo terapia antes de lançar seu livro ?The Fabulist?, uma ficção baseada em sua própria tragetória. Todos estes profissionais parecem ter esquecido a primeia lição de jornalismo, que, segundo ensina Jeff Greenfield, analista da CNN é a seguinte: ?se a sua mãe diz que te ama, vá correndo checar esta informação?. E agora? O que resta para Jayson Blair, com suas 73 matérias do Times e seus 27 anos de álcool,drogas e mentiras? Joe Hagan, que escreve para o Observer há um ano, conversou com No Mínimo para tentar responder.

Como fazer os leitores acreditarem nas memórias de um jovem jornalista cuja reputação como escritor de não-ficção é das piores?

Em primeiro lugar, poucos livros passam sequer por uma checagem de fatos. Quando um livro é publicado, a veracidade do material depende do autor. Antes de comprar os direitos do livro, os editores literários, geralmente, fazem checagem minuciosas sobre autor ou autora e optam ou não em confiar nele ou nela, baseado em reputação. Não é claro se alguém jamais acreditará no que Blair escrever num livro, apesar de o agente dele insistir que por ele não estar reportando uma matéria jornalística, a credibilidade não entra em questão. A maioria dos editores com quem conversei disse que o histórico de Blair com a verdade é o suficiente para que eles recusem a compra dos direitos do livro. Mas isso não significa que ninguém irá comprá-lo – certamente, alguém o fará.

Se o livro for realmente publicado, o quão isso será ruim para o New York Times?

Depende do assunto sobre o qual ele escrever. Percebo que o livro irá focar mais em assuntos raciais no mundo profissional em geral, e não nas fofocas internas do New York Times. Acho que até o livro sair, muito deste burburinho já estará esquecido.

Segundo a sua matéria no Observer, Jayson disse que ? quer oferecer sua experiência como uma lição?, no que se trata de assuntos raciais, ambição e jovens jornalistas. Você acha que seu livro teria mais sucesso se levantar a questão social do problema, como a ação afirmativa, ou a questão jornalística do problema?

Ele disse que vai abordar o lado social do problema, o que, provavelmente, é a única maneira que ele tem de dar a história alguma credibilidade. Caso contrário, trata-se de uma história de fofocas que não encontra muitos interessados fora do mundo do jornalismo.

Será que este livro poderá torná-lo de vilão à vítima?

Isso depende totalmente de quão convincente serão seus argumentos. Acho que será muito difícil para ele convencer qualquer um que ele seja uma vítima de circunstâncias raciais. Mas alguma reabilitação de imagem poderá concertar o problema. Um profissional de uma editora chegou a sugerir que Jayson passasse um tempo trabalhando para alguma ONG.

Será que esta história daria mesmo um bom filme de Hollywood?

Não faço idéia.

Alguém já pensou em fazer uma série para a TV?

O agente me disse que Jayson esta focando num acordo com cinema. Mas acho que ele consideraria qualquer coisa caso o dinheiro for bom.

Você acha que Jayson Blair será lembrado no futuro como um jornalista que pisou na bola, como Janet Cook e Stephen Glass, ou será que ele acabará nas prateleiras como um ótimo escritor de ficção?

Apenas o tempo vai dizer. Que eu saiba, ele não tem nenhuma aspiração a escritor de ficção.

Como a redação do Observer reagiu ao saber do episódio?

Ficamos surpresos como todo mundo. Reagíamos como repórteres: ?como podemos chegar no miolo desta história ?? A reportagem agressiva do meu colega Sridhar Pappu nos rendeu uma entrevista com o Blair. Eu fui direto no agente literário.

Na sua opinião, como os jornais aqui estão cobrindo o assunto?

Exageradamente.

Será que o episódio receberia tanta atenção se não tivesse acontecido no New York Times?

Não.

Você compraria o livro ou viria o filme de Jayson Blair?

Se eu não tiver que pagar por isso, claro que sim.”

 

“Jornalismo ou ficção?”, copyright Valor Econômico, 23/05/03

“Executivos presos por maquiar balanços, políticos corruptos e banqueiros condenados a multas milionárias não conseguiriam imaginar uma vingança melhor. O ?The New York Times?, um dos jornais mais respeitados do mundo, reservou quatro páginas de sua edição de domingo, 11, para contar como um dos seus proeminentes repórteres sistematicamente inventou personagens, situações e declarações ou plagiou outros jornais. Jayson Blair, 27 anos, cometeu ?fraude jornalística?, segundo o próprio Times, em 36 das 73 reportagens que publicou na editoria nacional. O auge foi assinar artigos de cidades do meio-oeste americano, enquanto os escrevia de seu apartamento em Nova York.

A repercussão foi gigantesca e promete deixar uma marca mais duradoura na imprensa americana. ?Um escândalo como esse machuca a todos?, diz o ombudsman do Washington Post, Michael Getler. Na reportagem na qual narra os problemas do repórter, que chegou a ser dependente de cocaína e álcool, o Times admite que o episódio é um ?ponto fraco? nos seus 157 anos de história.

Em parte, Blair conseguiu enganar seus editores por tanto tempo porque muitos dos personagens de suas reportagens, mesmo quando caracterizados em situações que nunca existiram (como familiares de uma combatente na guerra do Iraque) não fizeram reclamações formais ao jornal, demonstrando não confiar de qualquer forma na imprensa.

?Acho que os jornais precisam tirar disso uma lição, têm que construir uma ponte com seus leitores?, afirma Michael Hoyt, editor executivo da ?Columbia Journalism Review?, revista bimestral de análise da imprensa americana editada pela Universidade de Columbia.

Não que o caso de Blair tenha, por assim dizer, inaugurado a fraude jornalística nos Estados Unidos. O mais rumoroso até agora havia sido o de Janet Cook, repórter do ?Washington Post? que teve de devolver um prêmio Pulitzer em 1981 depois de admitir ter inventado o personagem de sua reportagem, uma criança de 8 anos viciada em heroína. Há alguns anos foi demitido um editor do ?The Wall Street Journal? que vendia informações a um corretor sobre o que seria publicado numa coluna diária sobre mercado acionário. Mas a extensão do escândalo de Blair é maior, já que as mentiras envolviam reportagens sobre assuntos de importância nacional e em alguns casos processos judiciais.

O ?New York Times?, seguido por diversos jornais em todo o país, está discutindo códigos internos de conduta e critérios para aumentar a exatidão das informações publicadas. ?Ninguém mais vai ficar confortável ao ler uma reportagem que tem declarações boas demais? (para serem verdadeiras), diz Hoyt, da Columbia.

Para o ombudsman do Post, os jornais vão passar a checar mais as referências de seus funcionários e tentar conhecer um pouco de sua história antes da contratação – já que a relação de confiança continua sendo imprescindível.

Com feridas abertas, sangrando publicamente, é possível que a imprensa perca algo de seu poder na relação com o governo ou com empresas privadas? ?Sem dúvida, esse escândalo é uma arma nas mãos dos inimigos da imprensa?, diz Hoyt.

Alguns dias depois do escândalo de Blair ter sido capa de uma das grandes revistas semanais americanas (?Newsweek?), numa entrevista a uma rede de televisão, o chefe de um departamento da polícia de Los Angeles respondia a uma denúncia feita por um jornal de que poucos processos contra policiais são levados à Justiça. Sem responder diretamente à questão, o entrevistado apenas acusou o repórter de ter cometido erros numa reportagem anterior.

Para o ombudsman do Post, o jornal que levantou o escândalo de Watergate, a administração Bush já está recebendo um tratamento muito menos crítico do chamado ?Quarto Poder? do que mereceria.

A ofensiva de relações públicas da Casa Branca para convencer a opinião pública da necessidade da guerra contra o Iraque surtiu efeito e o presidente mantém altos índices de aprovação desde o início do conflito. Mesmo após o fim da guerra e com os sinais de debilidade da economia, a popularidade de George Bush não foi afetada. A cobertura da guerra em si foi ostensivamente parcial nas cadeias de TV americanas, que deixaram de mostrar imagens de protestos contra o início do conflito ou de soldados mortos. Alguns repórteres de TV perguntavam se manifestantes não achavam ?antipatriótico? protestar.

Embora a cobertura dos jornais não tenha sido tão parcial, durante a guerra não houve tampouco arroubos de crítica. O fato de muitos dos repórteres terem se deslocado junto com as tropas ajudou na campanha do governo americano. Hoje, o noticiário sobre o novo governo iraquiano, a perspectiva de retomada da produção de petróleo e os contratos de reconstrução já ofuscou o fato de as buscas do Exércio não terem encontrado até agora provas da existência de armas de destruição em massa, motivo alegado para a guerra.

No escândalo Jayson Blair, algumas das informações inventadas pelo repórter foram atribuídas a fontes cujos nomes não foram divulgados – e que na verdade, não existiam. Hoyt, da Columbia Journalism Review, acredita que os editores dos jornais serão mais cuidadosos a partir de agora com a publicação de reportagens com fontes chamadas em ?off?, no jargão jornalístico, e passarão a exigir que pelo menos internamente o nome das pessoas seja revelado.

O problema é que usar essa estratégia é praticamente imprescindível na cobertura independente de um governo, lembra o ombudsman do Post. O nome da fonte principal das reportagens do Post que resultaram na renúncia do presidente americano Richard Nixon até hoje não foi divulgado. Além dos dois repórteres envolvidos, só um diretor do jornal sabia sua identidade.

O fato de Jayson Blair ser negro e ter entrado no Times num programa que incentiva a diversidade na contratação de funcionários provocou alguma polêmica nos Estados Unidos. Na apuração de responsabilidades pelo caso, aventou-se que Blair, apesar de ter cometido muitos erros antes de ser finalmente desmascarado, teria escapado de demissão por ser negro. ?Acho que essa é uma questão menor do episódio, tem sido um pouco exagerada?, diz Hoyt.

Um fator mais importante, na opinião do editor da Columbia Journalism Review, foi a habilidade de Blair na política interna do Times. Na reportagem que publica esta semana sobre o escândalo, a Newsweek credita boa parte da culpa ao sistema de favoritismo instituído por altos editores do Times.

Com a carreira jornalística encerrada, Jayson Blair, entretanto, não ficará sem dinheiro. Já começou a fazer contatos com editores e deve escrever um livro sobre o episódio. Também é possível que sua história inspire um filme. Talvez ele precise realmente de recursos para financiar advogados, já um dos atingidos por suas invenções, o advogado geral dos EUA, Thomas Di Biagio, está processando o ex-repórter por fraude.

Não será o primeiro a explorar a própria derrocada num livro. No início deste mês foi lançado o livro ?The Fabulist? (ou o Contador de Fábulas), do ex-free lancer da revista ?The New Republic?, Stephen Glass. Demitido também por reportagens completamente fantasiosas que escreveu quando tinha 25 anos, Glass divide com Blair a ambição desmedida e a falta de escrúpulos para atingir os objetivos. Hoje, Glass está formado em direito e pretende iniciar a carreira de advogado.

Entretanto, a fraude melhor sucedida literariamente, digamos, é a de um corretor e não de um jornalista. Nick Leeson, autor do livro ?Rogue Trader?, levou o centenário banco Barings à bancarrota em 1995 ao acumular mais de US$ 1 bilhão em prejuízos na unidade de Cingapura. O sucesso de vendas inspirou um filme, lançado em 1999, no qual Leeson é protagonizado pelo ator Ewan Mc Gregor.”

“A mitomania no jornalista e nos outros”, copyright Folha de S. Paulo, 24/05/03

“O mundo do jornalismo (ou o jornalismo do mundo?) se agitou com o caso do jornalista do ?New York Times? que inventou reportagens inteiras, criando fatos e fotos inexistentes, até ser desmascarado. Seja reconhecido, porém, que despertou escândalo pela sua raridade e, óbvio, por ser do sacrossanto ?New York Times?, o jornal cuja respeitabilidade caminha para os 200 anos de existência.

Há e sempre houve jornalistas ?inventores?. Talvez seja parte da empolgação do domínio dos fatos; não sei. A história aponta órgãos da mídia e empresas que estimularam o estardalhaço, ainda que falso no todo ou em parte, para atingir adversários. A prática, porém, é recusada pelo jornalismo sério, com seus manuais de redação e, no caso da Folha, com seu ombudsman.

O mal não é só de jornalismo e jornalistas. A mitomania é doença presente em todos os segmentos da sociedade. Para ela, são frágeis as armas do Direito quando se expressa em palavras, atos e até em gestos. É o que se constata, entre os exemplos mais evidentes, no mundo das artes -em particular no da literatura e de seus críticos-, no confuso universo da política, no esporte, com mitômanos do doping e cartolas.

Nem universos formais e severos escapam. É o caso das densas teses acadêmicas, apresentadas em respeitadas escolas e, às vezes, aprovadas com aplausos, mas, depois, escrachadas como plágios vergonhosos. Conta-se até de um candidato a professor que, lendo trabalho ?seu?, em um certo momento começou a ser acompanhado, num jogral farsesco, pelo verdadeiro autor, que se encontrava na assistência, e passou a ler o original, em voz alta.

Fala-se, no mundo acadêmico -talvez o leitor não saiba-, de escolas superiores que são um ninho de muitas cobras, no qual as luvas de seda disfarçam -mas não excluem- os punhais afiadíssimos da crítica ferina pelas costas. Daí haver também acusações falsas de plagiarismo, pelos derrotados ou por seus amigos. Aqui também as barreiras do Direito não funcionam.

O que leva tanta gente à mitomania, à invenção, ao aproveitamento desonesto do trabalho alheio, até chegar ao crime, capitulado nos diplomas legais?

É a glória, o dinheiro, a respeitabilidade a todo custo, que, às vezes, se torna perene. Nesse campo, o abuso é parecido com o adultério: o adúltero se diverte até ser descoberto, quando passa a ser execrado.

Há graus de gravidade, que a lei reconhece ao descambarem para a criminalidade. No jornalismo, a prática é extremamente danosa quando ofende a honra, a vida, a privacidade, a imagem da vítima. Pior, ainda, quando praticada pela ambição de fama, do dinheiro ou por vingança. O jornalista, porém, está cada vez mais sujeito aos limites de sua liberdade. Livre de censura prévia, é submetido a avaliações posteriores que podem levá-lo a desastres penais e/ou econômicos. Por isso tende a ser cada vez mais cuidadoso, buscando a verdade na transposição de fatos em palavras.

O ?New York Times? assumiu o erro de sua editoria e aceitou as consequências. As universidades guardam histórias de concursos burlados por concorrentes ou cujos resultados foram distorcidos pelos meandros políticos do ?establishment?. Preferem, em geral, a discrição. O risco evidente da exposição às penas sociais, civis e criminais nunca impediu a tentação dos minutos de fama, ainda que efêmeros. Parece que a natureza humana jamais eliminará tentações e tentados. Nas universidades e no jornalismo provocam estupefação por um traço comum: são raros. Ainda bem.”

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