Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
Menu

ENTRE ASPAS > CRISE POLÍTICA

Tereza Cruvinel

06/07/2005 na edição 336


‘A direção nacional do PT foi politicamente aniquilada pela revelação da revista ‘Veja’ sobre o empréstimo bancário avalizado pelo publicitário Marcos Valério. O PMDB, que Roberto Jefferson deixou fora do mensalão, e com o qual o presidente Lula busca nova coalizão de governo, foi atingido por denúncia da ex-secretária Fernanda Karina contra seu líder José Borba. Em poucas horas, o quadro escuro ficou mais negro e a crise mais ameaçadora.


A primeira conseqüência foi o adiamento do anúncio da reforma ministerial que o presidente não consegue fechar. Desde sábado, sob o impacto da revelação de ‘Veja’, que dizem ter sido fortíssimo, Lula passou a se concentrar na necessidade de garantir o afastamento dos dirigentes partidários. O deslocamento eventual de auxiliares seus para o comando do PT, tais como o assessor Marco Aurélio Garcia e o ministro Luiz Dulci, afeta o desenho da reforma. A denúncia contra Borba acionou o alerta do Planalto em relação aos nomes indicados pelo PMDB, depois da decepcionante escolha de Romero Jucá, alvejado por denúncias desde sua nomeação em fevereiro passado.


O tesoureiro Delúbio Soares, ao contrário do secretário-geral Sílvio Pereira, não antecipou sua saída ontem, insistindo no afastamento coletivo como se isto o isentasse. Apesar dos muitos clamores pelo afastamento de toda a direção, havia um esforço, verbalizado até por um ministro da esquerda partidária como Tarso Genro, no sentido de preservar José Genoino na presidência. Pelo menos provisoriamente, até que o diretório nacional, no sábado, indique nova executiva para conduzir o partido até a eleição de setembro. Insinuou-se muito que seria injusta decapitação de Genoino para garantir o afastamento de Delúbio, que o teria enganado com suas traficâncias. Como se diz o mesmo do presidente em relação à atuação de Dirceu, é de se estranhar tanta alienação de superiores que delegaram tanto poder aos auxiliares. Genoino enredou-se ao explicar o contrato que assinou, para no fim dizer que o assinou sem ler, a pedido de Delúbio. Perdeu, com tal confissão de inépcia, as condições de ficar no cargo.


O próprio Lula, mesmo exigindo a saída de Delúbio, Sílvio e Marcelo Sereno, teria feito a defesa pessoal de Genoino, embora reconhecendo que ele também perdeu as condições políticas para continuar no cargo. Lula esperou por duas semanas que eles tomassem a iniciativa de sair. Ou pelo menos que o partido abrisse uma sindicância interna para investigá-los.


Tal como o PT fez com ele, em 1997, quando o caso Cepem, relacionando sua amizade com Roberto Teixeira aos contratos deste com prefeituras petistas, voltou ao noticiário. O presidente era Dirceu. A partir de sábado, Lula resolveu forçar as mudanças no partido.


Indícios de arrepiar


Em São Paulo, no sábado, na reunião daquele fórum de partidos de esquerda latino-americanos, o presidente Lula voltou a prometer punição aos que teriam se aproveitado do dinheiro público para enriquecer. O problema é que, a cada nova revelação, concluímos que este não é o centro da questão. A se confirmar a existência do mensalão, não estaremos diante de um ou vários casos de corrupção para enriquecimento ilícito mas de um atentado político, de corrupção da estrutura principal do edifício democrático.


Já são fortes os sinais de que foram usados métodos heterodoxos para garantir o inchaço dos partidos que formam a maioria governista. Roberto Jefferson aponta a conexão entre votações e distribuição de boladas a deputados. Um levantamento feito pela agência Reuters, comparando o calendário de votações na Câmara com o de saques nas contas de Marcos Valério, chega a algumas coincidências perigosas. Saques significativos ocorreram pouco antes ou pouco depois de votações importantes, como a da reforma previdenciária e a da reforma tributária, a MP do salário-mínimo de 2004 e a que concedeu o status de ministro ao presidente do Banco Central. Esta, por exemplo, foi votada em 1 de dezembro do ano passado.


Nos dias 29 e 30 ocorreram saques no valor total de R$ 480 mil. Nem todos saques têm proximidade com as votações, embora haja coincidências até mesmo com votações do Senado.


São indícios, não ainda provas, mas indícios horripilantes, que apontam não para enriquecimento mas para um tiro de canhão no coração do sistema político.


Sobre ‘moscas’ e ‘barrigas’


No oportuno seminário Imprensa e Poder promovido pelo GLOBO quinta-feira, dentro da programação que marca os 80 anos do jornal, um participante que estava na platéia citou incorretamente uma afirmação minha no programa ‘Jô Soares’, do dia 27, provocando uma discussão equivocada, a partir do que eu não disse. O registro aparece na reportagem do GLOBO sobre o evento e na coluna de meu colega Merval Pereira, o que justifica um esclarecimento aqui. No programa, respondendo negativamente à pergunta do entrevistador, se já ouvira falar em mensalão antes da denúncia de Roberto Jefferson, acrescentei que se tudo isso se confirmar, devemos refletir. Pois nós, jornalistas políticos, teremos comido uma grande mosca, o que no jargão jornalístico significa não ter identificado um fato que saltava à vista. Ao contrário do que afirmou o participante do seminário, eu não disse que poderíamos estar diante de uma barriga, o que em nosso linguajar significa uma notícia infundada. Ainda que seja muito denunciar fatos desta natureza antes de seu estouro por alguém do esquema, alguns sinais estranhos não mereceram nossa maior atenção, como o inchaço da base governista a partir da engorda do PTB, PP e PL, partidos que juntamente com o PT estão agora boiando no lamaçal.’




Ismael Machado


‘Critica que isso aí é rock’n’roll’, copyright O Globo, 5/7/05


‘BELÉM. As denúncias de corrupção no governo e no PT transformaram o palco do Fest Rock, em Belém, em três noites de protesto político e indignação contra Lula, o PT e os políticos em geral. Bandas como Biquíni Cavadão, Paralamas do Sucesso, Skank, O Rappa, Cidade Negra e Capital Inicial intercalaram discursos de desencanto e decepção contra a administração de Lula com suas músicas de sucesso.


Composto na maioria por adolescentes, o público do Fest Rock (em média 20 mil pessoas por noite) aprovou as críticas dos roqueiros. O festival acabou enfatizando a desilusão de uma geração de bandas historicamente simpatizante do PT. As manifestações começaram com o Skank. Antes de iniciar ‘Indignação’, o vocalista Samuel Rosa desabafou:


– Não há mais partidos políticos. Todos só estão atrás do dinheiro. É decepcionante o que está acontecendo na política brasileira. O negócio é saber quem vai meter primeiro a mão na grana.


A noite mais política do festival foi a última, no domingo. Enrolado na bandeira brasileira, Bruno Gouveia, vocalista do Biquíni Cavadão, lembrou os ‘safados’ que governam o Brasil e que o povo foi mais uma vez esquecido. Logo depois cantou ‘Zé Ninguém’, cujo refrão diz ‘Eu sou do povo, eu sou um Zé ninguém/ Aqui embaixo as leis são diferentes’. Gouveia deixou que o público cantasse sozinho o refrão.


A manifestação mais contundente foi a do vocalista Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial. Antes de tocar ‘Que país é este?’, do Legião Urbana, Dinho disse que era eleitor do PT há 20 anos e que só sentia vergonha, decepção e indignação com o que ocorreu no governo petista.


– A minha geração se f…Talvez a de vocês consiga alguma coisa que mude este país. A minha não conseguiu e toda a nossa esperança foi destruída. Dessa vez a gente acreditou que alguma coisa ia realmente mudar, mas novamente se enganou. Talvez um dia ainda tenhamos governantes que transformem este país.


No sábado, Toni Garrido, vocalista do Cidade Negra, xingou os políticos: – Sei que deve ter uns políticos aqui porque é festa e eles sempre gostam de aproveitar a festa. Então esse recado é para vocês. Criem vergonha na cara e façam algo de verdade pelo povo – atacou ele. – Esperamos que desta vez essa caixa-preta de Brasília seja finalmente aberta. O povo brasileiro não agüenta mais.


Na seqüência, os Paralamas do Sucesso também tocaram ‘Que país é este?’. O vocalista Herbert Vianna, que fez campanha para Lula, disse que a música ‘infelizmente ainda representa o pior do Brasil’ e que houve a ‘mutilação da esperança’. Já na primeira música da apresentação, ‘Selvagem’, Herbert arrancou aplausos demorados do público ao cantar ‘O governo apresenta suas armas/ Discurso reticente, novidade inconsistente’.


Os integrantes do Rappa disseram que é necessário prestar atenção na hora do voto para que a lama não continue a se propagar e para que possa haver mudanças de verdade.’


Folha de S. Paulo


‘Presidente do PT chora ao se defender na TV’, copyright Folha de S. Paulo, 5/7/05


‘O presidente do PT, José Genoino, negou ter havido crime sobre o fato de o publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza ter sido avalista de empréstimo de R$ 2,4 milhões do banco BMG ao PT. Genoino disse ainda, em entrevista ontem à noite ao programa ‘Roda Viva’, da TV Cultura, não conhecer o publicitário quando assinou o documento avalizando o empréstimo.


No fim da entrevista, Genoino se emocionou ao ser indagado sobre a tortura que sofreu durante o regime militar. Genoino chorou ao negar as acusações de que teria delatado os seus companheiros na guerrilha do Araguaia. As acusações foram feitas pelo militar da reserva Lício Augusto Ribeiro em sessão solene da Câmara realizada pelo deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) no último dia 24.


O presidente do PT disse que lembrar do que sofreu é um ‘processo dilacerante’ e que até hoje tem pesadelos com a tortura. Ele qualificou de ‘baixaria anti-humana’ (sic) a tentativa de legitimar a prática da tortura.


Ao dizer que ‘é duro viver’ o que ele viveu (sem poder ‘nem gritar porque seus gritos são abafados pela parede, que é de isopor’), Genoino chorou.


Sobre o empréstimo, afirmou ser co-responsável no episódio, procurando preservar o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, que também assinou o documento de empréstimo. No último domingo, o petista havia responsabilizado apenas o tesoureiro no episódio.


‘Quando assinei [o documento de empréstimo] era em confiança ao Delúbio. Estava há dois meses na presidência do partido. E já falei aqui que sou co-responsável’.


‘Não houve crime, não houve ilegalidade, não houve influência no governo. E ele [Valério] foi avalista porque nossos bens individuais não eram suficientes [para o empréstimo]’, explicou.


Apesar disso, ele afirmou que o partido tinha dinheiro suficiente para quitar suas dívidas. ‘O partido tinha orçamento, tem orçamento, tem condições de pagar essa dívida. Nós pagamos os juros dessa dívida em 2003 e 2004.’


O petista disse que esse tipo de procedimento, como ele ter assinado o documento sem ter lido e sem perguntar quem seria Marcos Valério, ‘é normal no PT’.


Sobre a atual crise política, o petista afirmou que o país vive uma ‘crise política’ e acusou o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) de ‘fantasiar’ algumas denúncias.


Questionado sobre o fato de a CPI dos Correios ser considerada ‘chapa branca’ por ser controlada por parlamentares da base aliada, elogiou a condução do PT e negou manipulação dos aliados contra as investigações.


Apesar de dizer que a oposição está cumprindo o papel dela na CPI dos Correios, Genoino lembrou que o PT, quando era oposição ao governo, ‘não fez oposição radical, raivosa e extremada’.’


***


‘Bolsonaro ironiza choro de Genoino’, copyright Folha de S. Paulo, 6/7/05


‘O deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) ironizou ontem o choro de José Genoino, na segunda, no programa ‘Roda Viva’, ao falar sobre a tortura que teria sofrido durante o regime militar.


Bolsonaro disse que Genoino forçou o choro, para ‘transmitir que é um coitadinho’. Ele disse que o presidente do PT será peça-chave na CPI dos Correios, pois ‘vai abrir o bico como abriu no Araguaia’. Na opinião do deputado, que é capitão do Exército, Genoino, ‘sem levar uma bolacha, entregou o Delúbio, sem ser perguntado duas vezes.’


Bolsonaro se refere à declaração de Genoino de que não conheceria o empresário Marcos Valério de Souza, avalista de empréstimo do BMG ao PT, quando assinou o contrato. Ele negou ter assinado o documento sem ler, mas disse que o fez em confiança a Delúbio Soares, tesoureiro do partido.


O deputado já havia criado polêmica com Genoino ao promover sessão na Câmara em que o coronel Lício Ribeiro, que combateu Genoino no Araguaia, disse que ele delatou companheiros sem sofrer tortura.


Anteontem, Genoino chorou ao afirmar que é ‘duro’ viver o que viveu. ‘Eu acho que isso é uma baixaria anti-humana (sic), porque é querer legitimar a tortura. Eu cumpri pena de cinco anos, nenhuma informação forneci.’’


Eduardo Kattah


‘Agência é acusada de sonegar R$ 7 milhões’, copyright O Estado de S. Paulo, 5/7/05


‘BELO HORIZONTE – A SMPB Comunicação, que tem o publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza como sócio, foi acusada pela Procuradoria-Geral da República em Minas Gerais de sonegar R$ 7 milhões em contribuições previdenciárias. O Ministério Público Federal já pediu à Polícia Federal, em 28 de abril, abertura de inquérito.


Conforme o MP, de 1996 a 2004 a agência de publicidade de Valério deixou de recolher dois tipos de tributos – contribuições devidas a fundos e entidades e a chamada contribuição patronal, que corresponde a 11% do total da remuneração paga ao segurado.


Em relação às contribuições a fundos e entidades, o Ministério Público Federal detectou que não houve recolhimento do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) nem dos valores devidos ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), ao Sesc e ao Sebrae.


O delegado Ricardo Amaro, responsável pela comunicação da Superintendência da PF em Minas, nada adiantou sobre o pedido de inquérito. O Departamento da PF em Brasília informou que o delegado Luiz Flávio Zampronha desconhece a solicitação do MPF e que o pedido não foi anexado ao inquérito que ele preside.


Os advogados da SMPB informaram que não haviam sido informados sobre o pedido de abertura de inquérito.


Em julho de 2003, a Justiça Federal em Belo Horizonte condenou Valério a dois anos e 11 meses de reclusão por sonegação de contribuições previdenciárias pela DNA Propaganda – a outra agência de publicidade mineira da qual o empresário é sócio -, entre janeiro de 1996 e setembro de 1999, no valor de cerca de R$ 5,5 milhões.


Na denúncia, de 2001, MPF pediu a condenação do publicitário, já que ele exercia a função de diretor financeiro da empresa. Os réus – Valério e os diretores da empresa – entraram com recurso no Tribunal Regional Federal da 1.ª Região, em Brasília, e aguardam julgamento.


NOTAS


Ontem, o MPF informou que a DNA é citada como beneficiária numa ação penal contra a empresa Expresso Norte Ltda. – cujos representantes foram acusados de venda de notas fiscais e denunciados em novembro de 2003 por sonegação e falsidade ideológica.


De acordo com a acusação do Ministério Público, encaminhada à 4.ª Vara da Justiça Federal, em Belo Horizonte, o administrador da Expresso Norte, Jorge Augusto de Andrade, ‘falsificou notas fiscais de prestação de serviços’, entre maio de 1997 e outubro de 1999, para a DNA e outra empresa mineira. O valor envolvido, não corrigido, seria de de R$ 7,3 mil.’


Angelica Santa Cruz


‘Publicitários e conterrâneos rejeitam empresário’, copyright O Estado de S. Paulo, 5/7/05


‘CURVELO – Desde que surgiu nas denúncias do mensalão, o nome do mineiro Marcos Valério Fernandes de Souza passou a ser acompanhado pelo aposto ‘publicitário de Curvelo’. Nas agências de Belo Horizonte, as pessoas ligadas à criação se apressam a informar que ele nunca foi propriamente publicitário, mas um empresário do ramo. Em Curvelo, na região central de Minas, os moradores adotaram uma tática parecida.


‘Curvelano ele não é. Pode até ter nascido por aqui, mas não carrega a cidade no coração. Nunca o vi por aqui’, avisa logo o prefeito da cidade, Maurílio Soares Guimarães (PFL).


Curvelo tem 68 mil habitantes e está recebendo nesses dias uma multidão que pode chegar a 50 mil. Por causa das comemorações dos 25 anos do Forró de Curvelo, o lugar está lotado. Apesar da efeméride, o assunto que domina é mesmo Valério. No jornal local, ao lado das fotos das barraquinhas, está impresso um sinal vermelho, de reprovação ao publicitário.


‘Isso chateia os curvelanos, que vêem o nome de Curvelo toda hora nos jornais, de forma vergonhosa. Curvelano de verdade não é isso. Vermelho de vergonha para ele!’, conclama o texto. E uma charge mostra o filho da terra com uma faixa onde se lê: ‘Pô, cara! Sujando o nome da terrinha, hein?’


A família de Valério é de Jacobina, zona rural de Morro da Garça, município emancipado de Curvelo nos anos 60. Um grupo dos Fernandes chegou a ter um armazém diante do Mercado Municipal, a Casa Fernandes. Mas a primeira geração se mudou para Belo Horizonte.


‘Ele é falastrão e adora dizer que tem contato com políticos importantes. Falava em voz alta de dinheiro que corria nas campanhas. Uma hora, isso ia dar confusão’, diz um morador, que conviveu com Valério, mas prefere não se identificar.


Transformado em filho renegado, Valério irrita a população da cidade, que se orgulha por ser citada por Guimarães Rosa – ‘Curvelo é a capital da minha literatura’, disse o escritor – e por ter exportado nomes como o do escritor Lúcio Cardoso, da estilista Zuzu Angel e do galã Ângelo Antônio.


‘Assim que o nome dele começou a aparecer, corri para ver quem era. Mas ele não é muito conhecido aqui. Eu nunca vi mais careca’, afirma Antonio Salvo, curvelano e presidente da Associação Mineira dos Criadores de Zebu.’


Leila Suwwan


‘Ex-agente diz ter ‘interesse jornalístico’’, copyright Folha de S. Paulo, 6/7/05


‘Em depoimento à CPI dos Correios ontem, o ex-funcionário da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), Jairo Martins de Souza, 37, confirmou ter fornecido a maleta com filmadora usada para gravar o flagrante de corrupção na estatal e declarou ter divulgado a fita por ‘interesse jornalístico’ e ‘para melhorar o país’, mas sem envolvimento político.


Martins entrou em contradição com o empresário Arthur Wa- sheck, mandante da gravação, que diz que a fita foi encomendada para defender seus interesses comerciais. Publicada pela revista ‘Veja’, a gravação deflagrou o caso Correios. Nela, o funcionário Maurício Marinho foi filmado recebendo propina de R$ 3.000.


O depoimento de Martins durou quatro horas e meia e foi pontuado pelas críticas de ‘perda de tempo’ e pelos comentários irônicos dos parlamentares sobre a suposta ‘filantropia investigativa’ de Martins, que se formou em jornalismo em 2004. Por suas amizades, chegou a ser chamado de ‘araponga do submundo’. Ele é policial militar licenciado e deixou a Abin há quatro anos.


Martins disse ter sido contatado por Washeck, depois de conhecê-lo em um restaurante de Brasília, para ‘divulgar um problema nos Correios’ e que sua função era fornecer o equipamento de filmagem e levar a fita para o jornalista Policarpo Júnior, de ‘Veja’.


Washeck tinha dito que Martins foi indicado por um amigo e que já havia feito rastreamento de grampos em sua empresa. Além disso, afirmou que deu instruções claras para não ‘vazar’ a fita.


Martins disse que ajudou a fazer a gravação como forma de fazer uma ‘notícia-crime’, já que confiava que a Polícia Federal entraria no caso. ‘Minha vantagem? O que me motivou foi meu país.’’


TODA MÍDIA


Nelson de Sá


‘Dominó’, copyright Folha de S. Paulo, 5/7/05


‘- Boa tarde. O secretário-geral Silvio Pereira acaba de entregar uma carta pedindo seu afastamento do PT até o fim das investigações da CPI dos Correios.


Era a apresentadora Fátima Bernardes, com a notícia do dia, na Globo.


Da página inicial do ‘Financial Times’ (leia abaixo) aos canais de notícias, rádios e sites brasileiros, a queda do ‘braço direito de José Dirceu’ foi o destaque por todo lado.


Foi após um dia inteiro de pressão dos petistas -e após Lula cobrar, ele próprio, a mudança da cúpula do PT na manchete da Folha.


Entre muitos outros, em graus diversos, pediram a mudança: Guido Mantega, Valter Pomar, Francisco Campos, Raul Pont, Virgílio Guimarães, na Globo e Globo News; Eduardo Suplicy, Chico Alencar, Ivan Valente, na Jovem Pan; Ricardo Berzoini, Romério Pereira, Gilberto Palmares, na CBN.


Sem contar os sites, a começar do Carta Maior, próximo do PT, com deputados e outros cobrando aos montes, sob a manchete ‘Petistas já pedem saída da direção do partido’.


Veio então, afinal, a saída de ‘Silvinho’, mas não de Delúbio. Ou de José Genoino, nos blocos iniciais do ‘Roda Viva’.


Mas não é só de petistas que se faz a cobertura, descobriram os telejornais à noite. Da escalada de manchetes do ‘JN’, sobre um pefelista:


– Senador cruza dados e afirma que Valério sacou dinheiro perto de votações em que governo saiu vitorioso.


De volta ao PT, abrindo o ‘Jornal da Record’:


– Crise política. A oposição quer que Genoino e Delúbio expliquem na CPI suas ligações com Valério.


De tudo o que falou a oposição, o mais curioso foi Arthur Virgílio, que surgiu na Jovem Pan se dizendo -e soando- ‘triste’ por ver José Genoino em tal situação.


Quanto à tristeza e depressão dos petistas, alguns ameaçam trocar por coisa pior. De editorial do Carta Maior, contra o ‘conselho’ de FHC para Lula desistir da reeleição:


– À oposição não interessa um impeachment que arrisca deslocar Lula da condição de acuado para uma privilegiada condição de vítima, tornando-o capaz de mobilizar os setores populares.


E tome, de novo, o espectro da ‘tentativa de golpe de 54’. Aliás, aceitar o ‘cálice envenenado de FHC seria suicídio’.


NA MANCHETE


Em destaque no site do ‘Financial Times’, o escândalo


Sob o enunciado ‘Escândalo de levantamento de fundos no Brasil põe pressão sobre Lula’, lá estava a crise brasileira na manchete do site americano do ‘Financial Times’, ontem no final da tarde.


Raymond Colitt, correspondente estrangeiro que segue com mais atenção o caso, relatou como a crise ‘se intensificou’ com as novas denúncias que ‘ameaçam figuras próximas ao presidente’:


– Cobertura total de mídia, incluindo várias transmissões de inquéritos parlamentares sobre as acusações de corrupção em estatais e um suposto esquema de compra de apoio dos legisladores, deixaram o governo de Mr. Lula da Silva em seu ponto de maior fraqueza desde que ele chegou ao poder, em janeiro de 2003.


E tome Marcos Valério, Delúbio Soares, Silvio Pereira -e opiniões de petistas como Cristóvam Buarque e Ivan Valente e de cientistas políticos diversos.


NADA A VER


E agora tem o PMDB, antes resguardado por Roberto Jefferson. Depois da denúncia de Fernanda Karina ao ‘Fantástico’, o líder José Borba virou cabo de guerra de governistas e oposicionistas -e assunto para analistas brasilienses. Em três telejornais da Globo, três opinaram (Alexandre Garcia, Franklin Martins, Cristiana Lôbo). Mas o melhor estava no Blog do Moreno:


– Aparecem na reportagem do ‘Fantástico’ imagens do referido deputado debaixo de uma fotografia de Ulysses Guimarães. Como amigo e ex-assessor de Ulysses Guimarães, esclareço, sem demérito para ninguém, que o atual PMDB nada tem a ver com Ulysses.’

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem