Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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ENTRE ASPAS >

Terra Magazine

29/04/2008 na edição 483

CASO ISABELLA NARDONI
Carlos Drummond

Caso Isabella: êxito comercial explica espetáculo, 28/4

‘Aqueles que criticam a transformação, pela mídia, da cobertura da morte da menina Isabella Nardoni em um espetáculo, geralmente se lembram dos erros graves dos meios de comunicação nos casos da Escola Base e do Bar Bodega, entre outros, e concluem que a mídia não aprende. A verdade é outra: a mídia não quer aprender. Isso exigiria tornar cuidadosa, justa e não sensacionalista a cobertura, o que subverteria a lógica dos seus interesses comerciais.

Alega-se que não há como a mídia resistir à força do mercado, que seria neutro e abstrato, já que constituído por uma massa de consumidores capazes de ditar à mídia o que esta deve produzir. Não é bem isso. Em um universo de informação dominado, no Brasil e no mundo, por monopólios e oligopólios de mídia, a concorrência é muito restrita. O resultado é que as alternativas de informação disponíveis para o público são cada vez mais limitadas.

Na prática, o mercado é muito menos o resultado do poder do consumidor de informações do que do poder das empresas de mídia. Estas, assim como as dos demais setores econômicos, têm como objetivo central a busca do lucro. O aumento da penetração da mídia com a cobertura da tragédia, divulgado nas últimas semanas, trouxe ampliação de faturamento. Essa é a principal explicação para o rumo que a cobertura tomou.

Essa cobertura visa manter, pelo maior tempo possível, o máximo de carga emocional nos veículos de comunicação, porque isso significa manter o público cativo e prolongar a safra de maior faturamento. Essa estratégia é a explicação para o atropelamento da presunção da inocência das pessoas supostamente envolvidas na morte da menina e das normas básicas de checamento de informações, entre outras.

Diante da pressão avassaladora da mídia e de um público mantido incapaz de lhe fazer a crítica – já que depende desses próprios meios para criticá-los -, outras instituições se rendem. O desrespeito do segredo de justiça, o comprometimento de provas, a inércia do Estado em situações de flagrante ameaça a integridade de suspeitos e de não suspeitos compõem um quadro de violação de regras da sociedade democrática.

Tudo leva a crer que, enquanto o faturamento continuar elevado, a mídia prosseguirá produzindo julgamento prévio e sensacionalismo em vez de informar com base em critérios jornalísticos e com respeito à Justiça e à democracia. O espetáculo é a base de um êxito comercial que não se quer interromper.

Essa é a regra geral, confirmada pela exceção honrosa dos veículos críticos e dos profissionais sérios que não compactuam com as mazelas da cobertura que humilha o interesse público e serve de modo exclusivo e desmesurado ao interesse privado.’

 

Diego Salmen

London: pai brinca que vai jogar o filho da janela, 28/4

‘Pedro Henrique brinca com os amiguinhos, dando voltas pelas laterais do prédio, pelo hall do elevador e correndo por debaixo do arco de balões vermelhos e azuis instalado à entrada do salão de festas. Ansioso, espera pelos presentes – uma camiseta, um carrinho, um pacote cujo interior parece conter um quebra-cabeças.

No dia 28 de março, o Edifício London se transformou no palco de um mistério: nessa data, a menina Isabella, de apenas 5 anos de idade, seria encontrada morta no local, depois de ter sido atirada do sexto andar. A polícia suspeita, com base em informações da perícia, que o pai e a madrasta da garota, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, tenham sido os autores do crime. O casal nega.

No fim de semana, o London tenta retomar a normalidade.

Tarde de sábado. O silêncio é interrompido pelo barulho das crianças gargalhando e aprontando dentro do prédio. Donas de casa conversam à beira da portaria, em frente ao verde bem cultivado do jardim de entrada. Um repórter pede para conversar com uma delas. Ela, aos risos, recusa gentilmente o convite:

– Só falo com o William Bonner.

Domingo. Câmeras preparadas, policiais às pencas, curiosos permanecem atrás de uma área especialmente demarcada. Os peritos chegam para o trabalho. Seria um dia como qualquer outro – não fosse a reconstituição do assassinato da garota Isabella Nardoni.

A festa

Sábado. Começa o pôr-do-sol, e com ele chega a hora da festinha de aniversário de Pedro Henrique, 7 anos recém-completados. O garoto é filho do subsíndico do edifício que, assim como os demais moradores, foge das câmeras de TV e dos repórteres de plantão – como o diabo da cruz.

Alheio ao mundo lá fora, o aniversariante recebe os convidados. É uma comemoração pequena; cerca de 30 pessoas, distribuídas homogeneamente entre adultos e crianças. A festa começa às 19h.

As crianças se divertem e os adultos batem papo, trocando gracejos e cordialidades entre si. Falam da festa e evitam comentar a morte de Isabella. No entanto, não resistem a um comentário quando fitam o local onde a menina foi encontrada – um pedaço de terra que permanece marcado pela queda no meio do jardim.

– Gente, o que é isso…

Nos fundos do salão, os adultos se refestelam com crepes, coxinhas, empadas, algodão doce, batatas chips e muito churrasco. Para beber, além de refrigerante e cerveja, pelo menos duas garrafas de vodka. Também há frutas – kiwi, sirigüela, carambola – usadas tanto no preparo das bebidas quanto na comilança em geral.

Animadas, as crianças continuam ziguezagueando por entre as mesas de plástico branco alugadas especialmente para a ocasião. O futebol parece não ser o forte da molecada; a quadra do prédio fica às moscas na maior parte do tempo. A noite se aprofunda, e com ela diminui o burburinho criado pela imprensa e que irrita os moradores do prédio.

Curiosamente, o silêncio parece agradar a todos: a festa não tem música.

Do lado de fora

Em frente ao prédio, presença ostensiva de policiais e jornalistas – estruturas de mais de 5 metros de altura foram montadas na rua para cobrir a reconstituição. Cinegrafistas da RedeTV! jogam truco, produtores da Globo lêem o caderno Metrópole do Estadão, apresentadoras alisam o cabelo pela enésima vez.

Um menino trepa no portão de casa. Deve ter seus 5 anos de idade. Sorrindo, somente os caninos à mostra, cantarola:

– Eu moro na rua da Isabella, eu moro na rua da Isabella, eu moro na rua da Isabella..

Os moradores dos prédios vizinhos ao Edifício London ‘cederam’ seus apartamentos à imprensa – por até R$ 5 mil. É o preço do melhor ângulo.

Dormir, enfim

São 21h. A hora do ‘Parabéns’ se aproxima. É possível observar um certo desconforto entre os convivas por estarem ali às vésperas da reconstituição de um homicídio. Não há, porém, sinal de arrependimento. Uma das amigas da família anfitriã comenta:

– Acho uma palhaçada criticar quem veio à festa; se não fosse a imprensa, estaria tudo normal. Isso acontece em vários lugares e ninguém fala nada; agora, aqui ninguém mais pode fazer nada porque é desrespeito? A vida continua – opina.

Descontraídos, alguns pais recorrem ao politicamente incorreto para educar seus filhos e levantar o astral dos presentes:

– Menino… Pára de correr senão te jogo da janela, hein?

Numa mesa vizinha, um dos convidados, morador do London, comemora a ausência de helicópteros na região, em referência à medida judicial que impediu as aeronaves de sobrevoarem a região para transmitir a reconstituição.

– Hoje eu finalmente vou poder dormir.

Parabéns

São 21h35. Pedro Henrique se posiciona à frente do Homem-Aranha que compõe a decoração do buffet para formalizar seus 7 anos de idade. Começa o ‘Parabéns’.

– Aeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!

O aniversariante corta o bolo de chocolate e morango, que passa a ser servido aos demais – acompanhado de brigadeiros, beijinhos e outros doces típicos da ocasião. Bexigas são espetadas, e a empolgação inicial das crianças dá lugar à calmaria.

Os convidados começam a ir embora e, um a um, despedem-se da família. Alguns policiais do GOE (Grupo de Operações Especiais) fazem o caminho inverso, entrando na festa em busca de um aperitivo que os ajude a varar a madrugada.

Um deles, com uma metralhadora chilena FAMAE em mãos, espreita pelo hall de entrada do prédio. Crianças passam ao lado, curiosas. Os policiais voltam para a rua com copos cheios de Coca-Cola.

– Peguei um pratão de picanha, viu…

Já passa da meia-noite. O pessoal do buffet começa a retirar suas barraquinhas de dentro do salão de festas. A rua está bloqueada, e só moradores cadastrados podem acessá-la. No London, a maioria saiu durante o fim de semana para evitar o rebuliço da imprensa.

No domingo, começa mais um dia de espetáculo na Rua Santa Leocádia.’

 

Márcio Alemão

A montanha dos abutres, 28/4

‘Imagino as comemorações na mídia no dia em que a terra paulistana tremeu.

– Isabella e, na seqüência, um terremotozinho.

– Nunca tivemos um primeiro semestre tão bom.

– Em tempo: ainda tem gente morrendo por conta da dengue lá no Rio?

– Acredito que sim, mas não tem assunto mais aborrecido no momento.

– Não cuspa no prato que comeu, meu caro. A qualquer momento o mosquitinho pode voltar a nos ajudar.

Recomendo vivamente, para esses nossos dias, o filme escrito e dirigido pelo mestre Billy Wilder, de 1951, por aqui traduzido como A Montanha dos Sete Abutres. No filme, Kirk Douglas é um reporter encrenqueiro que sai de vários jornais e acaba encontrando emprego em um pequeno jornal em uma pequena cidade. Resumão: a caminho de uma matéria besta, inútil, desnecessária, como aquelas que falam sobre a vida amarosa de Adriane Galisteu, a sorte grande vem ao seu encontro. Uma mina desaba e um sobrevivente luta para se manter vivo enquanto homens trabalham para retirá-lo de lá.

Kirk consegue entrar na mina e conversar com o homem. Kirk, ao longo dos dias, vai explorando, sugando aquele fato, aquela tragédia. Em outras palavras, vê na desgraça do mineiro a grande chance para sair­ ele, o repórter, não o mineiro,­ daquela pequena cidade e voltar a assumir um bom cargo em um bom jornal, em uma boa cidade. Nas boas locadoras, esse filme é facilmente encontrado.

De volta ao terremoto, Nascimento, no SBT, cortava um doze para conseguir, ao vivo, depoimentos de ‘vítimas’. Na falta delas, contentava-se com telefonemas sensacionais nos quais ouvíamos algumas pessoas afirmarem que ‘sim, eu senti que alguma coisa tremeu mas passou logo’. Ele insistia. Queria muito que alguém tivesse, ao menos, esfolado o joelho na quina de uma mesa. Nenhuma ocorrência desse tipo apareceu até o momento que acompanhei a cobertura.

Obviamente tivemos o parecer de especialistas, sismologistas. Também esses não queriam colaborar. Nenhum deles saiu gritando: ‘corram, protejam-se! São Paulo acaba de se transformar num importante pólo gerador de tremores. Talvez o mais importante da América Latina’.

No rádio ouvi um repórter concluir -­ coisa que não deveria fazer­ – que existe a possibilidade de vir a ocorrer outros tremores no estado. Ele perguntou ao especialista sobre a possibilidade e o especialista disse que não via grande chance. Mas ele foi insistindo. Em certo momento, ainda que a chance fosse de 1 para um milhão, deu-se por satisfeito e nos alertou.

E de passagem por um aparelho de TV, outro repórter pergunta a um bombeiro: ‘No caso de mais um tremor, o que a a pessoa deve fazer para se proteger?’. O bombeiro, com toda sua vasta experiência em tremores, enrolou aqui, ali e eu decidi que não daria mais 2 segundos de audiência para aquele programa.’

 

Ricardo Kauffman

Ao invés de Isabella, Casagrande me comove, 25/4

‘Confesso que paralisei. Inundado, estou imune a qualquer sensibilidade a respeito do caso da menina Isabella. Passado o horror inicial com o fato, perdi o interesse sobre o assunto – lamento.

Acredito que seja uma reação espontânea à vertigem na qual mergulhamos. Feito ressaca de chocolate pós-Páscoa, qualquer notícia sobre a tragédia me dá enjôo -me refiro ao noticiário, guardo respeito à família.

A sinistra entrevista exclusiva dos vilões; a urgente cobertura dos depoimentos; a megacomoção pública; as manifestações fabricadas em busca de uma faísca de visibilidade, capturadas com igual oportunismo pela imprensa. Análises sociológicas (mesmo as boas). Sequer o ângulo que desconstrói o fenômeno me atrai.

Vivemos dias de ditadura, mesmo com eleições diretas e imprensa livre. A ditadura da audiência. Ninguém pode ir contra ela na televisão, rádio, jornal ou Internet.

Não tratar de Isabella é deixar de existir, nestes dias de delírio na mídia. O público do jornalismo aumentou coisa de 40% com Isabella, dizem pesquisas.

Um exército de câmeras e holofotes está a postos para captar qualquer pingo de conteúdo (ou algo que o valha) que escorra do caso, a cada segundo, frame, centímetro.

O noticiário está embriagado. Sabemos todos que a situação é completamente nonsense. Que há um imenso exagero de cobertura.

Não faz nenhum sentido humano o espaço dado ao caso. Todos, no íntimo, antevemos a virada desta página logo mais, na próxima esquina, quando a raiva passar. Foi assim com Champinha e a garota von Richthofen, recentemente.

Aí a cobertura vai diminuir. Mesmo que haja notícia genuína. Mesmo que a investigação, daqui a meses, chegue a respostas conclusivas. E que a Justiça exerça o seu poder com retidão. Nada vai valer, se a audiência tiver baixado.

Na contra-mão deste sentimento desanimado, me comovo com a aparição de Walter Casagrande, na revista Época e na TV Gazeta.

Segundo Época, a reportagem encontrou o jogador quase por acaso, na clínica Greenwood, em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo.

Durante apuração para matéria sobre tratamento de dependentes de drogas, Época descobriu o paradeiro de Casagrande, que já há sete meses permanecia internado lá, sob sigilo e discrição das pessoas que cercam o ex-jogador.

A reportagem de capa traz um depoimento assinado por Casagrande. Ele relata seu estado atual e como chegou ao local, 20 quilos mais magro depois da quarta overdose seguida de cocaína, em setembro passado.

Avisa que está se cuidando e que admitiu ser dependente químico. Está começando uma longa caminhada de recuperação.

No domingo, deu entrevista ao Programa Mesa Redonda, da TV Gazeta de São Paulo, ao apresentador Flávio Prado. O fez com grande dignidade. Disse que a droga ocupou o espaço vazio deixado em sua vida pela adrenalina do futebol.

Curioso notar que depoimento tão notório não tenha sido dado ao Fantástico, da Rede Globo. Haja visto que Casagrande é funcionário da emissora com contrato até 2010 e que o furo – a localização do jogador e a proximidade a ele no momento em que resolveu falar – foi dado por uma publicação da editora Globo.

Até porque semana passada o Jornal Nacional e da Globo demonstraram imenso interesse na cobertura do envolvimento de celebridades midiáticas com drogas.

A prisão do jornalista Roberto Cabrini – hoje na trincheira inimiga – foi alvo de espaço nos noticiosos globais nitidamente desproporcional à relevância do fato.

O que não ocorreu, por exemplo, com o ator Fábio Assumpção, estrela da casa que atualmente também vive dificuldades. Salvo engano, a TV Globo é deveras seletiva nestas questões.

Seja como for, ao contrário da cobertura de Isabella, a aparição de Casagrande faz todo sentido. Ele expôs suas fragilidades com hombridade. Usou sua condição de celebridade com inteligência e coração, depois de sete meses de resguardo.

Foi para a berlinda de forma positiva e sem demagogia. Num movimento que aparenta fazer parte da reconstrução de sua auto-estima. Até porque ele vai voltar para frente das câmeras.

Época e TV Gazeta obtiveram audiência – não tanto quanto as manchetes do caso Isabella – com uma tragédia, a dependência de drogas. Mas neste caso, com respeito aos personagens e de forma construtiva.

A revista semanal tomou postura corajosa, já que decidiu não trazer mais uma vez na capa menção ao desgastado caso da menina, como o fez retumbantemente a concorrência.

Os jornalistas que estão cobrindo o caso Isabella relatam forte desgaste com a pressão que sofrem dos veículos por mais e mais exploração do espetáculo.

Que este esteja no final. Assim como a ‘bebedeira’ coletiva. Que venha a desintoxicação e finalmente a lucidez.

E que o centro-avante da Democracia Corintiana reencontre o caminho de volta ao seu lugar de destaque no futebol e na crônica.

Força Casagrande!’

 

INTRIGA
Christian Rémoli e Ezequiel Fernández Moores

Jornalista ameaça a Associação Uruguaia de Futebol, 28/4

‘A jornalista uruguaia Yosselem Rocamora foi indicada como peça chave na suposta tentativa de suborno da Associação Uruguaia de Futebol (AUF) ao árbitro argentino Sergio Pezzotta, durante partida pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2010, no dia 18 de novembro de 2007. A partir de denúncias do diário La Republica de Montevidéu divulgadas no último dia 10 de abril, segundo as quais a AUF teria mandado ‘uma prostituta muito bem paga’ para que Pezzotta favorece o Uruguai contra o Chile, Rocamora viu-se na linha de tiro.

Rocamora é produtora da Radio Sport AM 890 de Montevidéu e supostamente foi contratada pela AUF para que acompanhasse a Pezzotta durante sua estadia na capital uruguaia e o subornasse. Mais do que isso, segundo o diário uruguaio, ‘lhe foi fornecido um uniforme para despistar os demais clientes e funcionários e pensava-se que se tratava de uma diplomata encarregada do protocolo’. De qualquer forma, o matutino uruguaio admitiu que a manobra não gerou os resultados esperados (a partida terminou em 2 a 2), mas continuou sustentando que o suborno de fato ocorreu.

Em entrevista exclusiva com Terra Magazine, Rocamora alertou: ‘Zombaram de mim, aproveitaram-se da minha relação com Pezzotta, mas se enganaram. Se eu disser tudo o que sei e se a FIFA aplicar a regulamentação que deve, o Uruguai pode ficar fora da Copa de 2010’. Além disso, disse estar sendo ameaçada pela AUF e saber o ‘nome e sobrenome’ das mulheres com as quais os dirigentes uruguaios recebem os árbitros estrangeiros antes de competições internacionais.

Leia a entrevista com Yosselem Rocamora:

Terra Magazine – O que mudou na sua vida depois do que aconteceu?

Yosselem Rocamora – A verdade é que mudou tudo. Primeiro, estou bastante magoada, coisa que estou superando aos poucos com o apoio dos amigos, colegas de todos os lados e família. Mas não é fácil. Ontem, por exemplo, fiquei sabendo que saiu a noticia num site do Japão. Me telefonaram da Holanda, uma loucura… A coisa tornou-se grande demais. Estive muito mal estes dias, tive que ir ao médico, estou com problemas de depressão por tudo o que houve. Agora estou medicada para me recuperar um pouco.

Com quem está magoada?

Com várias pessoas. Primeiro com a AUF, que foi quem zombou de mim. Estou magoada também com o presidente do clube Progresso, Gabriel Franco, que me contratou para fazer o trabalho; eu acreditei que ele era um amigo… Foi tudo premeditado: me contrataram para fazer relações públicas com os árbitros apenas para essa partida, nunca na vida haviam contratado mulheres para cumprir o protocolo e fazer o trabalho de relações públicas com juízes do exterior. Disseram que estava bem que eu o fizesse, que se experimentasse. Mas, obviamente, sabiam eu era amiga de Sergio (Pezzotta). Agora não reconhecem isso ou não querem reconhecer, mas tenho todas as provas de que trabalhei.

A AUF formou uma Comissão Investigadora para tratar do assunto na próxima terça-feira. Você irá depor?

Essa comissão é uma piada, um circo. Porque as pessoas que investigam são as mesmas da AUF, de maneira que de investigação não tem nada. É como se eu investigasse a mim mesma. Vou ver se vou. Se for, tenho que pensar se vou falar; se for falar, vou ver se conto todas as verdades que já disse até agora ou se conto mais coisas ainda.

Está guardando muitas coisas?

Sim, dei bastante cobertura a todos até agora. Por exemplo, tenho muito mais coisa do árbitro para contar. Eu vou defender o meu nome, vou defender a minha imagem, doa a quem doer. Eu tenho todas as provas de que trabalhei antes dessa partida (Uruguai x Chile, 18 de novembro de 2007) e tenho todas as provas de que conheço Pezzotta a muito tempo, coisa que ele negou.

Faz quanto tempo que o conhece?

Desde maio do ano passado quando jogaram Nacional e Cúcuta aqui em Montevidéu. Depois, continuamos nos falando e nos vendo na Argentina a cada quinze dias.

Sente que pode ganhar essa batalha?

Não sei. O que te asseguro é que justiça será feita. Te digo o seguinte, se eu falar e as coisas forem feitas da maneira devida, isso pode custar ao Uruguai não ir à Copa de 2010. Se forem seguidas as regulamentações da FIFA, o país pode ficar fora das Eliminatórias, porque os estatutos dizem claramente que não pode haver nenhuma pessoa na delegação no país anfitrião que não seja funcionário da AUF ou que não tenha um contrato assinado. E éramos duas. A outra pessoa é amiga do presidente da AUF.

Quem é?

Alvaro Silva. É ele que sempre aguarda a chegada dos árbitros ao Uruguai e os leva para ‘saracotear’ por todos os lados, em boliches onde os árbitros não deveriam estar, para que se encontrem com mulheres. Posso dar nome e sobrenome dessas mulheres. Isto acontece na véspera dos jogos das Eliminatórias, Copa Libertadores e Copa América.

Ou seja, é uma prática bem corriqueira.

Sim, é a primeira vez que digo, mas é assim. Eu sei, e com nome e sobrenome. Por isso te digo: me calei sobre muitas coisas, mas enquanto continuarem nessa batalha contra mim, eu continuo dentro dela. Creio que minha baioneta é maior que a deles. O tema está sob a Comissão de Ética da FIFA; se o investigar, insisto, o Uruguai pode ficar de fora das Eliminatórias. E digo isso não por ter havido suborno a Pezzotta, senão por ter sido essa a intenção da AUF. Ele não ter caído na armadilha, aí é outra coisa.

Mas então você também se enganou?

Não, eu não me enganei em nada. A AUF me contratou para estar com os árbitros. Estive o tempo todo com eles, fiz o protocolo que devia fazer. Fui com eles para todos os lados, exceto a dois jantares que não me deixaram ir. Se eu estava trabalhando de acordo com o protocolo, subentendia-se que eu deveria estar com eles o tempo todo. Mas bem, são esses jantares das quais te falei antes.

Você assinou mesmo um contrato com a AUF ou foi apenas um acordo verbal?

Eu pedi várias vezes a eles que assinassem o contrato, as nunca quiseram. Sempre me diziam ‘amanhã ou nunca’, até que chegou o dia do jogo e nada… Inclusive, depois do jogo pedi a eles que me pagassem e também não me pagaram. Agora estou exigindo meu pagamento na justiça. E tem mais uma coisa: eu dormi no mesmo hotel que os árbitros, o Regency Palace de Carrasco, e para não deixar rastro, a conta foi feita no nome de minha filha. Quem pagou essa conta foi o presidente da AUF, José Luis Corbo, que agora diz que não me conhece. Essa foi uma das tantas manobras que fizeram para apagar os vestígios de que eu tinha estado ali. Além disso, se alguém telefonasse perguntando por mim, os garotos da recepção tinham que dizer que eu não tinha estado ali. Foi tudo muito sujo. Agora negam tudo, mas eu organizei até os lugares onde queriam comer. Pezzotta sabe disso porque eu liguei pra ele em Buenos Aires para reservar os lugares e averiguar o que queriam comer, por causa da dieta que seguem os árbitros. Outra coisa: os mesmos dirigentes uruguaios me convidaram para ver Brasil x Uruguai. Se faz deduções, o juiz dessa partida era Héctor Baldassi, árbitro que eu também conheço.

Há alguns dias Héctor Lescano, ministro do Turismo e Esporte do Uruguay, disse que se você falasse, teriam que fechar as portas da AUF. Concorda?

Sim, concordo.

E sua relação com Pezzotta, como ficou?

Mal. Sinto pena por sua carreira como árbitro… Ia aos Jogos Olímpicos mas o excluíram. Estranho muito que ele tenha ficado calado, que não tenha falado. Mas quando me atacam por algo que não fiz, me defendo com unhas e dentes. E faço isso publicamente. Acontece que ele, quando falou, fez isso sozinho. Disse: ‘Me apresentaram a uma senhora de Relações Públicas’, quando todo mundo saiba que eu o conhecia há muito tempo. E depois não falou mais, e já sabemos que quem cala, consente. Bom, mas tudo isso já é problema dele. O que te digo é que estou processando o senhor Guillermo Marconi, porque num programa de rádio da Argentina ele me tratou diretamente de prostituta e mal sabe quem sou eu. Este senhor apitou duas partidas internacionais, nem tem o direito de falar de arbitragem. E pelo que sei, tampouco tem muito conhecimento e está por aí simplesmente porque sim. (Marconi, árbitro argentino, é o presidente do Sindicato dos Árbitros Esportivos da República Argentina, SADRA). Vou processar também seu sindicato, Também disseram que ‘tinham que ter mandado uma mais bonita’, e não sabem que há homens que se inclinam menos pelas mais vistosas e mais pelas que têm mais cérebro. Talvez Pezzotta seja um homem desses.

A tranqüilidade do dia-a-dia na vida de Rocamora não só se viu interrompida pelas acusações que recebeu. A jornalista reconhece que vem acontecendo uma série de acontecimentos atípicos desde dezembro até hoje.

Depois do empate em 2 a 2 com o Chile, hackearam meu computador, se meteram em minha conta e hackearam também a minha página na web. Roubaram-me o celular com todas as fotos, e Pezzotta sabe disso porque eu o avisei. Tive que pagar uma grande quantidade de dólares para que me devolvessem. Ficam me telefonando para me ameaçar. Ontem cortaram todos os cabos de luz da minha casa, por exemplo.

E você vincula esses fatos com a AUF?

Sim. Eles têm muita ‘malandragem’. Mas eu continuo agüentando e vou ganhar. Se não for aqui, irei para Zurich, mas vou ganhar.’

 

TV NA BAHIA
Claudio Leal

Dono da OAS impede assembléia da Rede Bahia, 25/4

‘Os tumultos no processo renovação da TV Santa Cruz, em Itabuna, na Bahia, foram superados pelos familiares do ex-senador Antonio Carlos Magalhães. Em briga com os outros herdeiros, o dono da construtora OAS, César Mata Pires – casado com a filha de ACM, Tereza Helena -, aceitou assinar a papelada necessária à renovação do sinal da emissora. O empresário disputa o controle do grupo de mídia dos Magalhães.

César e Tereza controlam 33,3% da Rede Bahia, que enfeixa seis emissoras de TV aberta, uma de canal fechado, o jornal Correio da Bahia e duas emissoras FM. Em 11 de março, como desdobramento da briga empresarial, oficiais de justiça entraram no apartamento da viúva do ex-senador baiano, Arlette Magalhães, em ação de arrolamento de bens movida por Tereza. Foram fotografadas as obras de arte deixadas por ACM.

Apesar de ter assinado os documentos da TV Santa Cruz, Mata Pires entrou em novo confronto na empresa. Na semana passada, o senador ACM Jr. e Luis Eduardo Magalhães Filho – administradores da Rede Bahia – convocaram os acionistas para uma Assembléia. Os dois controlam mais de 66% da holding e firmaram uma aliança para minimizar a influência do dono da OAS.

Diante dos questionamentos judiciais de Mata Pires, os Magalhães decidiram convocar, pela primeira vez, uma assembléia de aprovação de contas e outras medidas administrativas. Mas uma ação judicial do empresário jogou areia na iniciativa: a reunião foi suspensa pela Justiça, sob a justificativa de ‘falta de documentos’.

O dono da OAS foi procurado pela reportagem de Terra Magazine, em São Paulo, mas não retornou à ligação. Segundo a assessoria, ele se encontrava em uma ‘reunião externa’.

Pedido de suspeição

Depois da ocupação judicial do apartamento de Arlette Magalhães, os herdeiros de ACM entraram com um pedido de suspeição da juíza auxiliar da 14ª Vara da Família, Fabiana Andrea, que autorizou o cumprimento da ação de arrolamento de bens. Fabiana é mulher do deputado federal Nelson Pellegrino (PT-BA), pré-candidato à Prefeitura de Salvador, que nega vinculações políticas. O deputado federal ACM Neto também concorre na eleição municipal de 2008.

A juíza Fabiana não se deu por suspeita. Não reconheceu nenhum vínculo com as partes. O pedido está agora nas mãos da desembargadora Maria da Graça Osório Pimentel, do Tribunal de Justiça da Bahia.’

 

PERSONALIDADE
Arnild Van de Velde

Revista: Chávez entre 100 mais influentes do mundo, 28/4

‘A mais recente edição da revista alemã Park Avenue aponta o presidente venezuelano Hugo Chávez entre as cem personalidades mais influentes da atualidade. Chávez é o único latino-americano da lista, composta de políticos, jogadores de futebol, megaempresários do luxo, banqueiros, artistas. Publicada mensalmente, Park Avenue (slogan: ‘a revista das personalidades’) é destinada aos leitores que os alemães chamam de ‘os dez mil do andar de cima’ – aquela gente rica e poderosa que também ilustra suas páginas.

Classificado no 53º lugar, Hugo Chávez imediatamente antecede a cantora Madonna, como também a rainha Rania da Jordânia (59º lugar), a autora de ‘Harry Potter’, Joanne K. Rowling (64º lugar), o presidente da UEFA, o ex-jogador de futebol Michel Platini (65º lugar), o princípe William da Grã-Bretanha (66º lugar), o músico e ativista político Bono (74º lugar) ou ainda o secretário-geral da ONU Ban Ki Moon, o 84º lugar.

O perfil dele está também entre os destacados por comentários de alemães influentes. ‘Hugo Chávez permite que o petróleo da Venezuela faça bem a seu povo. Isto é uma ruptura com a prática da ditadura corrupta e um exemplo de desenvolvimento independente do antigo quintal americano na América Latina. É impressionante como ele aceitou sem hesitação o resultado do plebiscito contra sua proposta de mudança constitucional’, escreveu o presidente do partido ‘Die Linke’ (As esquerdas), Oskar Lafontaine, ex-ministro das Finanças (1998) do primeiro governo de Gerhard Schröder, de quem Lafontaine mais tarde se tornaria um arqüiinimigo político.

A lista, encabeçada pelo presidente da China, Hu Jintao, inclui ainda o russo Wladimir Putin (3º lugar), a chanceler alemã Angela Merkel (4º lugar), o papa Bento XVI (6º lugar) e o Dalai Lama (15º lugar). Entre os vinte primeiros estão ainda Steve Jobs (Apple, 5º lugar), Osama Bin Laden (7º lugar), o candidato à Casa Branca, Barack Obama (10º lugar), ‘Os Clintons’ (11º lugar) e os ‘Gates’ – Melinda e Bill – em 14º posição.’

 

 

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