Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Terra Magazine

15/07/2008 na edição 494


OPERAÇÃO SATIAGRAHA
Francisco Viana


Por que as crises se repetem?, 12/7


‘As imagens da Operação Satiagraha, da Polícia Federal, com personalidades
como o especulador Naji Nahas, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e o
banqueiro Daniel Dantas a caminho da cadeia, sugere a seguinte questão: por que
casos como estes vêm se repetindo com tanta freqüência? A resposta parece ser
muito simples, muito prática. O Brasil mudou, poucos estão percebendo. E
continuam a agir num universo paralelo ao universo legal.


Sim, o Brasil mudou. Existe algo ilícito sob o sol que não seja descoberto,
que não ganhe a mídia, que não deságüe no leito da opinião pública? Houve um
tempo que se repetiam em alto e bom tom que aqui as leis são feitas para não
serem cumpridas. Ou que a lei existiam apenas para os pobres, os excluídos. Isto
se encontra no inconsciente das elites – burguesas, políticas e, inclusive
sindicais – , se encontra no inconsciente daqueles que se acostumaram ao jogo
pesado da corrupção, do tráfico de influência, daqueles que se alimentam de um
odioso darwinismo em que os fins estão sempre a justificar os meios.


A mudança não é radical, mas avança passo a passo. Quando já se viu no Brasil
um banqueiro ser preso? A mídia tradicional dedicou vastos espaços à
espetaculosidade das prisões. É um debate que promete sair de cena com rapidez,
se o noticiário se esgotar. Mas é sempre assim: pobre pode ser algemado,
torturado e mesmo morto; ricos, se são algemados, imediatamente as reações se
multiplicam em cadeia. O centro da questão, portanto, é outro: é a igualdade de
direitos. Perante a lei, todos são iguais. Quando há guerra entre policiais e
traficantes nos morros, batidas, choques frontais, as reações são tímidas.
Quando ricos que acusados de fraudes, crimes financeiros, corrupção e suborno
são presos, é a democracia que se encontra ameaçada.


Dois pesos, duas medidas.


Na realidade, a PF tem agido dentro da lei. Se as operações têm uma roupagem
mediática é uma questão a discutir. Se ocorrem erros, devem ser discutidos. A
polícia não está acima da lei. Na Holanda do século XVI, as pessoas eram presas
à noite, sob o véu de total discrição para não serem submetidas a
constrangimentos. Um avanço excepcional para uma época em que as pessoas na
Europa eram presas e processadas sem saber a razão. Nem tinham, sequer, acesso
aos autos dos inquéritos. Era assim que os monarcas exibiam simbolicamente o
poder.


Hoje, no Brasil são freqüentes as batidas policiais nas ruas e as pessoas são
obrigadas a se identificar num rito absolutamente primitivo. Policiais
despreparados usam armas de fogo e atiram antes para perguntar depois. Foi o
caso do garoto metralhado na semana passada por policiais militares no Rio de
Janeiro. Tudo isso é tratado pela mídia, geralmente, com espetaculosidade. Nas
televisões, sobretudo, as noticias são editadas como se fossem seriados, como se
tudo não passasse de pura ficção.


Então fica uma segunda pergunta: onde começa e onde termina o jogo da
espetaculosidade? Na essência, para discutir o tema, é imperativo que os
espíritos se desarmem. Que os diferentes atores sociais – mídia, policia,
governos, etc… – se pergunte onde estamos errando? Onde, de fato, existe o
deserto da ética a espera de semeadura?


As crises se sucedem no Brasil porque a lei, embora ainda seja um escudo
protetor do mais forte, começa a ser democratizada. O edifício da impunidade
está ruindo. E tem custado caro. Na edição de 6ª. feira, dia 11, o Estadão
informa que foram realizados saques de R$ 1 bilhão de investimentos no Banco
Opportunity em apenas três dias. Dantas é sócio fundador do Opportunity. Todo
banqueiro sabe: crises são inimigas de lucros. Dinheiro odeia crises. Nos EUA
dos anos 20, uma das receitas para ficar rico com sinal verde em meio aos
empresários era: mantenha-se distante de confusões.


Entre nós, essa lei não escrita é confundida com uma receita mais ou menos
assim: mantenha-se nas sombras. Dá certo se não houver práticas ilícitas. Se
houver, não vai dar certo. Se a Polícia Federal age de forma espetaculosa, cabe
ao poder judiciário e o próprio Ministério da Justiça encontrar o caminho certo.
Cabe à sociedade discutir e não cair em armadilhas anti-democráticas. Daí a
dizer que o Estado de Direito corre riscos é uma atitude meramente defensiva de
quem se acomodou à impunidade. Existe, e funciona, o habeas-corpus no país. É
uma realidade translúcida.


Deixando de lado a questão do gosto pelo espetacular, o fato é que a simples
acusação de atividade criminosa por parte da Polícia abala imediatamente a
credibilidade de quem lida com negócios, principalmente negócios financeiros. A
fumaça em torno desse tipo de situação não se dissipa facilmente. E a opinião
pública cobra a conta, os parceiros e associados cobram a conta junto aos
envolvidos. A realidade cobra. Não é uma situação fácil que possa ser reduzida à
espetaculosidade ou não das prisões.


Lacan, num dos seus escritos, anotou que quando o simbólico é desprezado,
volta no real. O governo Lula parece que inverteu a tese: quando o simbólico é
assinalado, tende a se distanciar do real. Explicando melhor: espetaculosa ou
não, as prisões de personalidades da elite envolvidos em ações criminosas contém
o simbolismo de que a impunidade de antes não é mais a mesma. Pensar diferente é
agarrar-se a um desejo passadista irracional que está perdendo a força
simbólica. É candidatar-se a protagonizar a próxima crise.


Francisco Viana é jornalista, consultor de empresas e autor do livro Hermes,
a divina arte da comunicação. É diretor da Consultoria Hermes Comunicação
estratégica (e-mail: hermescomunicacao@mac.com)’



MACHADO E ROSA
Alberto Luiz Fonseca


O Sertão em Londres, 12/7


‘Há pouco mais de um ano, na semana em torno do dia 21 de junho de 2007 –
quando Joaquim Maria Machado de Assis teria completado 168 anos de idade – o
‘Bruxo do Cosme Velho’, foi homenageado com belo evento cultural, literário e
acadêmico organizado nas dependências da Embaixada do Brasil em Londres.


Machado de Assis nasceu em 1839 e faleceu em 1908, ano em que veio ao mundo
outro grande gênio da literatura brasileira, o diplomata João Guimarães Rosa:
mineiro e sertanejo.


Assim, 2008 é ano de homenagens para dois dos maiores nomes do Brasil e de
sua literatura. Centenário da morte de Machado, centenário de nascimento de
Rosa.


No exterior, Machado de Assis tem entre seus admiradores nomes como José
Saramago, detentor do Prêmio Nobel, Carlos Fuentes, Susan Sontag e Harold Bloom,
que o coloca na mesma medida e escala de Dante, Shakespeare e Cervantes.


O evento realizado em 2007 chamou-se ‘Semana Machado de Assis’. A iniciativa
originou-se na idéia de trazer a conhecimento do público londrino os ensaios de
dois dos vencedores do ‘I Concurso Internacional de Monografias sobre Machado de
Assis’ do Itamaraty.


O projeto foi então ganhando força e adeptos, recebeu o incentivo e a
contribuição de instituições como a Academia Brasileira de Letras (ABL), a ‘The
Bristish Library’ e de muitos intelectuais e acadêmicos britânicos e
brasileiros. Passou também a se estender às áreas de cinema, artes plásticas e
teatro.


Na noite do dia 18 de junho de 2007, o discurso de abertura foi feito pelo
então presidente da ABL, Ministro Marcos Vilaça, que afirmou que a ‘Semana
Machado de Assis’ de Londres abria oficialmente as comemorações do Centenário de
Machado de Assis em 2008.


Sérgio Rouanet, por sua vez, disse que o evento daria a oportunidade aos
ingleses de apreciar o fato de que Machado de Assis insere-se no cenário da
literatura mundial ao lado de grandes nomes, contemporâneos seus, como
Maupassant e Chekov.


O evento de 2007 teve significativo sucesso de público e até mesmo de
imprensa no Reino Unido. E não teria sido o mesmo se não tivéssemos contado com
a enorme boa vontade e o esforço de todos que nele trabalharam, bem como das
instituições parceiras.


Na esteira desse sucesso, a Embaixada planeja realizar – e já conta com
importantes adesões para isso – a ‘Semana João Guimarães Rosa’ em novembro de
2008.


Comemorando o centenário de nascimento do mineiro de Cordisburgo, autor de
‘Grande Sertão: Veredas’, a nova Semana contará com palestras e workshops sobre
a obra de Rosa, mas também sobre temas como a literatura de cordel vinda do
sertão.


Contará também com a apresentação, para o público inglês (e brasileiro!), de
um cantador do sertão, com uma exposição de xilogravuras que retratam a vida do
povo sertanejo e com sessões de cinema que mostrarão filmes ligados à obra de
Rosa e ao sertão.


Entre os palestrantes já confirmados, destaca-se o professor David Treece,
detentor da ‘Cadeira Camões’ do Kings College, Universidade de Londres, que é a
posição universitária relativa aos estudos de língua portuguesa mais importante
do Reino Unido.


Treece, estudioso da obra de Guimarães Rosa, traduziu contos do autor
brasileiro, os quais foram reunidos numa coletânea chamada ‘The Jaguar’ (‘A
Onça’), lançada há alguns anos.


O objetivo da ‘Semana Guimarães Rosa’, como também foi o da ‘Semana Machado
de Assis’ do ano passado, é buscar promover o melhor conhecimento desses grandes
escritores brasileiros, não só na Inglaterra como nos países de língua inglesa
em geral.


É também estender aos britânicos que estarão presentes – atraídos pelo debate
acadêmico ou pelo interesse nos demais eventos – a discussão sobre a importância
inegável da obra de João Guimarães Rosa e seu lugar na literatura universal.


Se você estiver passando por Londres em novembro, venha juntar-se a nós. Como
disse o próprio Guimarães Rosa, na pele de seu personagem mais famoso, Riobaldo
Tatarana: ‘O sertão está em toda parte’.


Em novembro, estará em Londres!


Alberto Luiz Fonseca, mineiro e diplomata, serve atualmente na Embaixada do
Brasil em Londres, onde ocupa o cargo de Adido Cultural. Filho de pais músicos,
foi fundador do ‘Café com Letras’, conhecido café e livraria de Belo Horizonte.’



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