Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Terra Magazine

28/10/2008 na edição 509

CRISE GLOBAL
Paulo Nassar

Imagem contra, 25/10

‘Nestes dias de turbulências econômicas produzidas por negociatas financeiras, lembro que empresas e empresários corruptos serão sempre um bom tema para a mídia e para a indústria cinematográfica. Diretores como Michael Moore têm construído suas carreiras atirando documentários contra entes corporativos cheios de controvérsias.

Roger e Eu (1989, EUA) conta a história da desativação da primeira fábrica de automóveis da General Motors. Moore, de câmera e microfone em punho, perseguiu implacavelmente durante um ano o presidente da empresa, de então, Roger, para, finalmente, entrevistá-lo e constrangê-lo em uma coletiva de imprensa, às vésperas do Natal. Não queira, nunca, ter Michael Moore em seu encalço. Ele é um Narciso fascinado pela sua imagem, o objeto de seus documentários.

Esse envolvimento também se revelou em The Big One (1997), que critica a demissão em massa e tem como alvo uma fábrica da Nike, na Indonésia. Em Tiros em Columbine (2002), vai na goela da indústria armamentista norte-americana, bate forte na cultura das armas de fogo e na violência daquele país. Já em Fahrenheit 9/11, de 2004 – uma citação do livro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, narrativa de um estado totalitário, no qual livros são queimados, e que também em 1966, foi filme de François Truffaut -, ele expõe as relações corporativas entre as famílias Bush e de Osama bin Laden.

O temário apimentado de Moore ganhou o recente Sicko 2007, cujo alvo é o sistema norte-americano de saúde e as grandes empresas farmacêuticas. Muitas proibiram seus empregados de conceder entrevistas para o cineasta.

A acidez de Moore é sentida em produções como The Corporation, filme canadense de 2004, que procura mostrar a empresa como um ser psicologicamente criminoso. Com um discurso mais suave, o documentário ganhador do Oscar, Uma Verdade Inconveniente, de 2006, de Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos da América, deixa a culpa do aquecimento global na fumaça anti-corporativa das empresas.

Percebe como não está nada fácil fazer comunicação para melhorar a imagem e a reputação empresarial?

A reiterada tentativa de criminalizar as empresas tem sucesso junto ao público por conta das histórias pessoais de seus fundadores ou da enraizada mitologia de origem das empresas. No início parece sempre existir uma maçã roubada e uma serpente manipuladora. Lembre-se de que as relações públicas, como atividade profissional, surgiram no início do século XX, para melhorar a imagem de gente grande: John Rockfeller e J.P.Morgan, enquadrados na época na sugestiva categoria ‘barões-ladrões’.

Os tempos passaram, mas a cada novo escândalo corporativo as histórias e lendas ligadas ao começo de grandes empresas e segmentos econômicos são lembradas pela imprensa, pelos opositores ideológicos e pelos prejudicados.

Por exemplo, a atual crise financeira de Wall Street. Vale lembrar a frase de Bertold Brecht, teatrólogo alemão: ‘não há maior crime que a fundação de um banco’, tradução erudita do senso comum, ‘atrás de toda grande fortuna, há um grande crime’.

Na atual crise financeira, que ainda vai virar filme de cinema, o líder democrata no Senado norte-americano, Harry Reid, já deu a sua contribuição para demonizar bancos e empresários. Longe de ser um Joseph McCarthy, afirmou que ‘os americanos têm toda razão de estarem preocupados e até mesmo furiosos diante da ganância dos banqueiros’.

Diante de documentários do estilo Moore e de declarações como esta, não há responsabilidade social e ação de sustentabilidade corporativa que dê jeito na imagem e na reputação empresarial.’

 

 

SEQÜESTRO EM SANTO ANDRÉ
Márcio Alemão

Cobertura da tragédia, 27/10

‘Vale a pena comentar sobre os urubus e hienas do caso Eloá?

Talvez valha citar um momento muito interessante, no qual o roto indignou-se com o rasgado. Datena não poupou críticas à ‘irresponsabilidade’ de Sonia Abrão.

Pouco vi, confesso.

Acompanhei à distância e tentei manter este bom distanciamento, que não foi possível porque durante esses eventos ninguém te deixa em paz, esteja você onde estiver.

Mesmo sem querer, ouvi várias sugestões e não posso dizer que alguma tenha feito sentido. ‘Entra logo lá e mata esse f… ‘ foi a mais ouvida. Pois eu cheguei a imaginar um cenário: todo mundo caindo fora. Cobertura zero, silêncio. Francamente não acho que mudaria o final trágico da história, mas é certo que levaria centenas, milhares de hienas ao desespero.

É provável que um reporter se disfarçasse de carteiro para entrar no prédio com uma micro câmera. É possível que dois se vestissem de zebra, aquela famosa zebra de circo, na esperança que o sequestrador, encantado com a presença do inesperado animal abrisse a janela para jogar um pedaço de pão a ele.

Esforços de todas as partes não seriam poupados para que a determinação de manter o silêncio fosse burlada e o furo jornalístico se realizasse. Não faz muito que fomos brindados com esses excessos, durante o caso Isabella. Escrevi a respeito citando o filme de Billy Wilder, ‘A Montanha dos 7 Abutres’ (leia aqui).

Quem sabe não tenha chegado o momento de discutir com maior seriedade essa questão: como reagem esses psicopatas quando a mídia faz deles uma celebridade, ainda que seja do mal? Já fizeram esse estudo? Não seria bom fazê-lo?

O que eu sei é o que vejo em filmes. Em determinado momento eles percebem que foram muito além da conta. Tão além que não acreditam no perdão ou na ‘suavização’ da eventual pena. Não existe saída, por mais que os negociadores insistam em dizer o contrário.

Isso, esclareço mais uma vez, é o que vejo em filmes.

Fato é: o caso rendeu boa audiência para quem se aproveitou da tragédia. E não tem sido muito diferente o noticiário econômico. São milhões de deseperados no mundo. Os negociadores insistem: ‘não vendam todas suas ações; não saquem o dinheiro dos bancos, as coisas irão melhorar’.

Totalmente alucinados, eles não ouvem e vendem tudo e sacam tudo e a quebradeira é geral e as pessoas começarão a pular de sacadas, estourar miolos e audiência estará garantida.

Não chegaremos a esse ponto, é claro. E vou além em uma aposta: as pessoas estão ficando fartas do jornalismo carniceiro. Alguém se lembra do extinto ‘O Povo na TV’? Alguém se lembra do sucesso do Ratinho? É por aí a minha aposta.’

 

 

 

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