Quinta-feira, 18 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Terra Magazine

07/07/2009 na edição 545


MICHAEL JACKSON
Paulo Nassar


Notícia de morte


‘Nos dias apressados, urbanos e interesseiros em que vivemos, comunicar a morte é ainda mais difícil e incômodo. Porque nos lembra a nossa própria mortalidade inescapável e porque sempre causa algum tipo de dor. Nas cidades, especialmente nas grandes, não há espaço e tempo para os mortos. Os moribundos definham e seus gemidos alcançam apenas parentes dedicados, médicos apressados e paramédicos pobres. Talvez, no extremo, os religiosos, policiais e jornalistas sejam lembrados, por conta de suas funções de liberar mitos e encerrar histórias. Mas o que dizer de quem foi?


Agora em junho, entre as muitas mortes de sempre, ainda dentro da ordem natural das coisas, algumas foram noticiadas com grande estardalhaço: os quase anônimos passageiros do vôo 447 do avião da Air France; as vítimas da chamada ‘gripe suína’; o ator David Carradine; a alemã Pina Bausch, uma das maiores coreógrafas contemporâneas e revolucionária da dança; a atriz norte-americana e símbolo sexual de uma época, uma das ‘Panteras’, a bela Farrah Fawcett, e o cantor e dançarino norte-americano Michael Jackson. Estas notícias procuraram esgotar ao máximo o fascínio que celebridades, sobretudo mortas, ainda podem despertar nos incautos e fragilizados cidadãos comuns, e renderam uma prolongada espetacularização do privado no âmbito público. Venderam muito jornal.


Para o jornalista e escritor norte-americano Gay Talese, em entrevista para a Folha de S.Paulo, de 2 de julho, ‘Michael Jackson é bom exemplo do que pior tem acontecido. A imprensa deve desculpas a ele pela forma horrível como o tratou. Ele começou a morrer quando as acusações ganharam as manchetes. Em conluio com os acusadores, estava a mídia americana. Agora que está morto, seja qual for a razão que o legista der, não vai fazer diferença. Todos se lamentam, como se fosse uma tragédia nacional. Mas ele já era uma tragédia nacional todos esses anos e ninguém o ajudou. Viveu em infâmia. Morreu difamado antes de ter morrido’. O tratamento midiático da morte de Jackson é arquetípico, uma repetição de outros artistas como Marilyn Monroe, Jimmy Hendrix, Elvis Presley, Cazuza, Cássia Eller e outros.


Metonímia e Mercado


A revista Veja, na edição de 27 de junho, deu um tratamento metonímico à morte de Jackson. A capa em negro, vista como lápide, trazia seu nome, data de nascimento e morte e sua luva cravejada de brilhantes, na exibição da parte pelo todo. Cássio Loredano, em sua coluna no ‘O Estado de S. Paulo’, de 27 de junho, também utilizou a metonímia. Despediu-se poeticamente do artista ao mostrar um par de sapatos de dança, igual ao usado por Jackson. A capa da revista Época, de 27 de junho, quis mostrar a transcendência, a leveza e a poesia por meio de uma representação do artista a transitar entre humano e o angelical. A corporação Sony publicou nos principais jornais um anúncio em que se despedia de Jackson, sem esquecer-se de estampar capas de CDs e DVDs do artista, comercializados por ela.


O relato metonímico da morte e do morto, quando bem feito, pode resumir instantaneamente uma vida; o risco é transformar a metonímia em um fragmento. Michael Jackson era mais do que um par de sapatos ou uma luva. O mito é metahumano.


O jornal ‘New York Times’ dá espaço às mortes ao publicar pequenas e bem contadas histórias de pessoas comuns, de maneira que nos faz sentir, mesmo sem tê-las conhecido. Uma coleção dessas narrativas está no ‘O Livro das Vidas – Obituários do New York Times’, vários autores, editado no Brasil pela Companhia das Letras.


Diante da dificuldade de tratar a morte com a dignidade devida, cabe-nos lembrar a necessidade de nos educarmos diariamente para ela. Afinal, como bem lembrou o sociólogo Norbert Elias, ‘a morte é um problema dos vivos’.’


 


TELEVISÃO
Aloisio Milani


Comentarista da Band xinga goleiro do Corinthians


‘O ex-árbitro de futebol e comentarista da Rede Bandeirantes Oscar Roberto Godói xingou o goleiro Felipe, do Corinthians, durante a transmissão do jogo da final da Copa do Brasil. Aos 49 minutos do segundo tempo, com jogo empatado em 2 a 2, o goleiro Felipe caiu e aparentemente tentava gastar o tempo. Godói então falou: ‘Vai ficar no chão o filho da p…!’.


O xingamento aconteceu depois da confusão entre os jogadores do Corinthians e do Internacional e que resultou na expulsão de D’Alessandro. O árbito concedeu seis minutos de acréscimo por descontar o tempo de paralisação. E, já no tempo adicional, quando o Corinthians tentava tocar bola para segurar o empate, Godói acabou xingando o goleiro corintiano.


O comentário foi feito ao lado do apresentador Luciano do Valle e do comentarista Neto. Coincidência ou não, Godói pouco falou até o final da transmissão da Band sobre o campeonato do Corinthians e a comemoração dos jogadores. Nem Godói, nem os apresentadores comentaram o assunto depois ao vivo.’


 


DIPLOMA
Eduardo Tessler


Quero ir para o Supremo


‘O Supremo Tribunal Federal é o supra-sumo da lisura. Ali só sobrevive a verdade absoluta. Se o Presidente da República escorregar em seus atos – e o Legislativo não prestar muita atenção – é o STF quem vai avaliar o tamanho do tombo e suas consequências. Ou seja, nada paira acima do STF. Só o bom senso. E quem decide o que é bom senso é o STF. Ou melhor, os 11 ministros do STF.


Diz a regra do jogo que qualquer brasileiro pode ir para o Supremo, basta ter ‘notável saber jurídico e reputação ilibada’. Mas quem escolhe os iluminados que dão as cartas é o Presidente da República. Da composição de hoje sete são opções de Luiz Inácio Lula da Silva, um de José Sarney, um de Fernando Collor e dois de Fernando Henrique Cardoso.


O mais jovem do grupo que recebe oficialmente o teto entre os salários do Brasil (R$ 24.800) é o mato-grossense Gilmar Mendes, 54 anos, presidente do STF. Mendes é aquele mesmo que protagonizou um bate-boca com seu colega Joaquim Barbosa em abril, onde até os jagunços de sua fazenda no Mato Grosso foram citados. Triste momento do mais alto órgão da sociedade brasileira.


Mas agora o ministro Mendes se superou. Para justificar seu voto pela derrubada da obrigatoriedade do diploma para a prática do jornalismo, o presidente do STF comparou a atividade do jornalista a outras profissões, como a de cozinheiro. ‘Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área’, disse. Para o presidente do STF, ‘é diferente de um motorista, que coloca em risco a coletividade. A profissão de jornalista não oferece perigo de dano à sociedade’.


Em uma tacada só, Gilmar Mendes, dono de ‘notável saber jurídico e reputação ilibada’, chamuscou sua toga por todos os lados. Esquece o nobre presidente do STF que só a imprensa livre, comprometida unicamente com a sociedade, serve de garantia a uma coletividade. As burocracias do Judiciário, esse mesmo Judiciário que Mendes representa, impedem que o cidadão comum tenha agilidade e apoio em busca de Justiça. E que esse suporte ele acaba encontrando na imprensa, nos jornalistas que sabem o que significa ética, objetividade e exibem da mesma forma ‘reputação ilibada e notável saber jornalístico’.


A grosseria de Gilmar Mendes tocou dessa vez não apenas um colega ministro do STF, mas uma classe profissional inteira, que em geral recebe mensalmente bem menos que os R$ 24.800 dele. Mendes não estudou a raiz do problema: o lobby para o fim do diploma não pretende prioritariamente acabar com a reserva de mercado que o diploma criou, mas permitir que empresas pouco sérias contratem um motorista, um cozinheiro ou qualquer profissional de outra área, até mesmo um jurista, pague menos que o piso salarial e economize em qualidade.


Quem perde com isso? A sociedade.


Talvez Gilmar Mendes com essa decisão esteja apenas querendo ganhar um emprego de jornalista quando se aposentar do STF. Mas aí o presidente terá que se aperfeiçoar nas noções básicas da profissão. É preciso, antes de mais nada, ser direto e objetivo, não ficar utilizando palavras rebuscadas de difícil compreensão e frases enormes, comparações supérfluas.


Também deve-se ser ágil, rápido, afinal a linguagem dos microformatos tem muito mais leitura que os grandes textos. Mas basta observar as 80 páginas do currículo de Mendes no site do STF para que se entenda que o poder da síntese não está entre as qualidades do presidente. Também é preciso atualizar a foto do ministro, a que está no seu CV é do tempo em que o Mato Grosso não era dividido.


Se agora todo mundo tem direito de ser jornalista, e as exigências do STF são tão singelas, quero uma vaguinha no Supremo também. Afinal a profissão de pedreiro, essa sim apresenta um risco à sociedade. Já pensou uma parede de casa cair durante o sono? Mas ministro do STF não, qualquer brasileiro tem direito de ser um.


Eu também quero!’


 


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