Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 17 E 18/1

Terra Magazine

20/01/2009 na edição 521

TELEVISÃO
Marcio Alemão

A raposa virou Fox

‘E eu começo 2009 fazendo as pazes com a FOX, outrora por mim alcunhada de RAPOSA, posto que decidira dublar todos os seus filmes e séries. Finalmente é possível escolher: dublado ou o som original com legenda. Por sorte, assisti a um episódio brilhante de Boston Legal, quando Alan Shore enfrenta a Corte Suprema dos EUA. Seu discurso é uma pequena obra prima que deverá estar em algum museu da TV em algum momento. Assim eu espero. Mas por não estar certo de que a TV venha a ter um museu, assim que estiver disponível o DVD dessa temporada, irei adquirí-lo. E parabéns sem fim à FOX.

BBB 9? Decidi ignorá-lo solenemente. Um idéia muito velha, muito gasta e que não terá a minha audiência. Sem poder comparar, citei 4 linhas acima o maravilhoso episódio de Boston Legal onde vi James Spader proferir um discurso de altissimo nível sobre a ética, sobre a justiça, sobre a hipocrisia. E nesse momento, mesmo com todas as queixas diárias e corriqueiras que temos das Tvs a cabo, eu, pelo menos, dou graças à existência delas. Posso escolher. Não preciso ficar confinado. Todos podemos. Ainda assim ouço: ‘você viu que absurdo, que besteira, que nojeira?’ Um clássico. Lembro bem de minha avó e de minhas tias que não perdiam a oportunidade, quando o assunto vinha à tona, de imprecar fortemente contra autores e atores das novelas. Poderiam desligar a TV. Qual o que!

E assim caminha a humanidade. A tal nojeira está e continuará com altos índices de audiência. Veremos toda uma comunidade maldizer todos os participantes diariamente. Nos corredores das firmas esse será comparado com aquele e aquela bem que poderia ser ela.

Acredito que muitos assistam a certos programas só para poder falar mal: ‘Viu aquele imbecil do fulano, ontem? Como ele diz asneiras!’ Estranho prazer, esse. Comum, todavia.

Igualmente estranho, na semana que passou, não me lembro que dia, mas me lembro de já estar na cama, notar que fiquei durante 20 minutos a ver um programa que me mostrava muito pouco e me falava um monte sobre a fabricação de ração para cães e gatos. Mesmo considerando que em tempos de critérios mais rígidos um programa como esse que vi jamais iria ao ar, por não passar de um paupérrimo, sob todos os aspectos, video escolar, ainda acredito que tenha sido mais instrutivo do que 20 minutos de BBB. Mas estando eu no café da firma, vendo a turma em acalorada discussão sobre alguma pegação que rolou na noite anterior no programa do Boninho, estejam certos que não pedirei a palavra para dizer: ‘E por acaso vocês sabiam que os gatos preferem uma ração mais ácida que os cães?’

Mas caso o silêncio e o sorriso em meu rosto não me bastem e eu venha a ser tomado por uma necessidade de me sentir incluído, bastará que eu diga: ‘E podem escrever aí que ela não vai ficar com ele.’’

 

COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL
Paulo Nassar

A comunicação sem eira nem beira

‘Uma sociedade democrática demanda, cada vez mais, das empresas e instituições uma comunicação também democrática e pensada como um continuum, íntegra, abrangente, culta e cujas mensagens sejam legitimadas pela sociedade ou por quem se interesse por elas.

Uma demanda com essa índole, infelizmente, ainda não é reconhecida pela maioria dos comunicadores, que aprendeu na vida e na escola, a perceber a realidade a partir de oposições: claro e escuro, alto e baixo, amigo e inimigo, contra e a favor, homem e mulher, interno e externo, e outras possibilidades. Diante dessa realidade cultural é mais fácil pensar o mundo a partir de critérios que encaixotam as pessoas em públicos. É a visão que coloca a organização de um lado e o mundo estacionado do outro. Entre eles os muros da empresa, como se ainda existem muros e outras cercas.

A vida cotidiana – pública e privada – por causa da sua velocidade transforma essa dualidade em simples esquemas mentais, que desmoronam diante das misturas culturais, étnicas, etárias e comportamentais, sem contar a força de cada indivíduo, uma nova potência, que se afirma diante das empresas e da sociedade, ao usar as formas de integração e convivência social, disponibilizadas pelas tecnologias digitais de comunicação. Os blogs são bons exemplos.

O continuum comunicacional é demandado e deve ser orientado pela mestiçagem, criada a partir das limitações do fazer comunicacional, baseado em técnicas. O comunicador organizacional antenado é mestiço e faz comunicação empresarial junto com os sociólogos, filósofos, psicólogos, arquitetos, engenheiros, para citar apenas alguns, nesse tempo em que prevalece a lógica do ‘e’ inclusivo e não do ‘ou’, que exclui.

A respeito da mestiçagem, Nietzsche anteviu, a brandir seu martelo contra Wagner, que o interessante estava na força do elemento misturado, naquilo que era (é) extra-europeu: o índio, a turma dos BRIC, o mulato, o cafuzo e o pessoal do Candial. São atrasados e reacionários os que pretendem e insistem em dividir a comunicação em territórios de jornalistas, RPs e publicitários. A comunicação organizacional é transversal e espeta a garganta de todo mundo.

Dionísio, o deus da bagunça, explica o desenquadramento social, que faz das narrativas organizacionais tradicionais – aquelas que atendem exclusivamente os interesses da administração, principalmente, das finanças – desfocadas, embaçadas e inconfiáveis. E sem a confiança, um tipo de fé, que brota das palavras, dos gestos e do comportamento das pessoas e dos produtos, os discursos oriundos da publicidade, propaganda, jornalismo empresarial ou das relações públicas, alimenta-se um processo no qual a comunicação empresarial se transforma em uma grande produtora de mais distâncias.

Nas narrativas empresariais produzidas na lógica maniqueísta e binária é claro o desejo de controlar os principais elementos do processo: o ambiente da comunicação, emissores, meios e os receptores. Esse desejo produziu internacionalmente uma indústria voltada para a administração da relação das empresas com os seus empregados, com a imprensa, com a comunidade, com os acionistas etc. É uma comunicação pasteurizada, insossa, que não encanta, nem o acionista.

A complexidade do mundo demonstra que as empresas têm deixado o dinheiro escoar pelo ralo, quando a sua comunicação é produzida a partir de uma cultura autoritária, que parte do pressuposto que empresa e empresários são fontes únicas de narrativas.

Passou da hora de atirar no lixo as retóricas norteadas pela manipulação. Comunicadores: o caminho da nova comunicação organizacional é o mesmo que leva ao novo ser sem eira nem beira.’

 

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