Domingo, 18 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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Terra Magazine

25/08/2009 na edição 552

DIGITAL

Diogo Moyses

A TV que não pega

‘Disponível para quase 100 milhões de brasileiros em mais de vinte das maiores cidades do país, a TV digital aberta definitivamente não decolou. Se nada mudar, tende a não sair do lugar. Um fabricante com quem conversei recentemente estima que apenas 300 mil conversores para acesso ao sinal digital tenham sido vendidos desde dezembro de 2006.

O cálculo exclui os aparelhos televisores com conversores embarcados, comprados geralmente por quem possui TV por assinatura, onde os equipamentos são comercializados pelas próprias operadoras. Os celulares capazes de receber o sinal tornam o número total um pouco maior, mas nem por isso animador.

O fracasso é evidente, ao menos por enquanto.

No varejo paulistano já é comum não encontrar os conversores. Os lojistas, que receberam as primeiras unidades do produto ainda em 2006, contam que a procura nunca foi alta. Nem as campanhas veiculadas pelas emissoras levantaram as vendas. Com o tempo, foram sumindo das prateleiras.

Nos shoppings frequentados pelos mais ricos também não é fácil achar o produto. Quem faz compras por ali geralmente possui TV paga, então não há porque tê-los em estoque.

O melhor termômetro de como anda a coisa, contudo, está nos anúncios das lojas de varejo publicados aos montes nos jornais de domingo. Achar uma oferta do equipamento é missão complexa, praticamente impossível.

Muitos ainda creditam o desinteresse do consumidor à escolha do padrão japonês. Não é o caso. Mas têm razão os que afirmam ser a tecnologia japonesa a mais cara do mercado mundial. Os conversores mais baratos chegaram às lojas custando 800 reais. Não à toa, o governo passou 2007 tentando baixar o preço por meio da redução de impostos e alíquotas de importação de equipamentos.

Os preços realmente caíram. Hoje os conversores custam em torno de 400 reais. Com algum esforço, você pode encontrar os mais simples – sem capacidade de processar imagens em alta definição – por até 200 reais.

Mas, se finalmente ficou acessível entrar para o maravilhoso mundo da TV digital, por que o consumidor ainda julga ter coisa melhor para fazer com seu dinheiro?

A resposta está no modelo de exploração do serviço e no desprezo ao maior potencial que a digitalização possui: a multiplicação do número de programações. Bem conduzida, a transição poderia dar à TV aberta variedade semelhante da TV por assinatura, com qualidade e diversidade ainda maiores (sim, isso é possível!). Por tabela, seduziria os consumidores a aderir à nova tecnologia. Maior quantidade e qualidade na programação, diversidade e pluralidade.

Mas a honestidade intelectual nos induz a uma única conclusão: a televisão digital brasileira, da forma como saiu do forno em 2006, nada mais é do que o espelho da televisão analógica. Um espelho que ainda sai caro! No mar da programação que cruza os céus todos os dias, imperam cultos religiosos, programas de televendas e entretenimento barato. Analógico ou digital, a substância é exatamente a mesma. Inovação e qualidades foram e continuam sendo artigos raros.

Se o conteúdo é o mesmo, ficou a cargo da melhoria de imagem – a chamada ‘alta definição’ – a missão de ser o fetiche capaz de mobilizar o consumidor. Mas, lembremos, não basta comprar um conversor capaz de processar a alta definição: é preciso também um televisor novo em folha, dos caros, coisa em torno de quatro mil reais.

Mais importante que isso é o fato de muita gente ter percebido que uma imagem um pouco melhor pode até ser ‘bacana’, mas não é algo que muda a forma como vemos TV. Nem é capaz de fazer das Lucianas Gimenez, Ratinhos ou Cidades Alertas bons programas.

Fica fácil entender porque o consumidor pouco está ligando para a TV digital. A inércia tornou-se o caminho natural. E olha que brasileiro gosta muito de televisão. Fosse um produto ao menos razoável, as filas das Casas Bahia já estariam dando a volta no quarteirão.

Diogo Moyses é jornalista e radialista especializado em regulação e políticas de comunicação, pesquisador do Idec – Instituto Brasileira de Defesa do Consumidor e autor de A convergência tecnológica das telecomunicações e o direito do consumidor.’

 

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