Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 30 E 31/1

Terra Magazine

02/02/2010 na edição 575

TECNOLOGIA
Marcelo Carneiro da Cunha

A morte anunciada das livrarias e bibliotecas

‘Estimados leitores, essa não está sendo uma semana fácil, em um ano que não começa nada fácil. Na quarta-feira, Steve Jobs apresentou o seu Ipad, um forte candidato a ser o que faltava para os jornais, as revistas, e os livros finalmente deixarem para trás seus corpos de papel e se mandarem para o novo mundo onde tudo será bits e servido via download.

Na quinta-feira morreu J.D. Salinger, um dos escritores que melhor justificaram o título de escritor, criador de um texto de uma agilidade e fluidez até hoje sem igual, acho.

Eu acho que ler Salinger é tão bom, que vamos ler e adorar, independentemente do suporte, papel, tela de lcd, o que for. Os livros, vão seguir vivendo, de um outro jeito.

Mas e as livrarias? E as bibliotecas?

Eu, que me orgulho de ser uma metamorfose semi-ambulante, acho que precisamos ser todos seres muito adaptáveis, para vivermos felizes nesses tempos de mutações contínuas e por todos os lados. Eu vi a televisão preto-e-branco sumir, sem soluçar de saudades. Vi as salas de cinema de rua sumirem, trocadas pelas salas dos shoppings, onde se pode comer pipoca à vontade, infelizmente. Vi o disco de vinil e o toca-discos com agulha virar CD, e assim, num átimo, virar mp3 e mais nada. As lojas de discos, onde a gente escutava LPs dos Beatles em cabinezinhas pra ouvir antes de comprar, desapareceram, e nem choramos muito por elas.

O vídeo, VHS, pffffui, notaram? As locadoras se foram, ou estão indo, porque o YouTube já começa a distribuir filmes pela internet. Com todas essas perdas eu lidei, ou vou lidar, com alguma naturalidade, mesmo que com uma lágrima de tristeza, ocasionalmente.

Agora, meus bons leitores: as livrarias? As bibliotecas? Ficar sem elas? Viver sem elas? Como? (Pronto, começou a choradeira aqui em casa, alguém aí tem um lenço?)

Livros já foram mais escassos, raros e caros do que metais preciosos. Já foram feitos em argila, papiro, pergaminho – couro de bichinhos, um bichinho por página, pensem nos rebanhos que seriam dizimados pra se ter uma enciclopédia; até a Europa descobrir o que os chineses já conheciam há séculos e inventarem o papel. Livros foram tão raros e caros que nobres colocavam seus castelos em garantia, para poderem pegar um livro emprestado. Os livros quase sumiram por completo da Europa Ocidental, vítimas do fim da civilização romana e do começo da barbárie católica. Religiões fundamentalistas nunca gostaram de livros, não dos que as pessoas gostam, pelo menos. Os clássicos gregos, vistos como heréticos pela igreja, quase sumiram, e foram salvos pelos árabes, quando o islamismo era um tanto iluminado e tolerante.

De um jeito ou de outro, os livros e o que eles traziam de mais rico e perigoso – idéias e conhecimento – sobreviveram. E então a Europa de novo inventou o que os chineses já conheciam há séculos e surgiu a imprensa, e os livros finalmente se tornaram baratos e as idéias contidas neles puderam se propagar rapidamente, e o resultado foi o Iluminismo, e a Revolução Francesa, e o Paulo Coelho- devemos lembrar que todo o avanço também traz lá os seus defeitos. E então alguém teve a bela idéia de inventar as escolas públicas, e todo mundo pode, finalmente, aprender a ler, e ter o que ler. Inventamos a liberdade de expressão e de impressão, mesmo que com soluços de tempos em tempos, e então, glória das glórias, inventamos as livrarias e as bibliotecas públicas, e crianças como esse que vos fala puderam se esbaldar lendo e relendo montes e montes de livros, que construíram e deram sentido para a infância, a minha em particular. Na cidade onde eu morava não havia livraria, como tanto acontece no Brasil, mas havia bibliotecas e nela havia Monteiro Lobato, por exemplo. E havia uma árvore no quintal da minha casa e eu fiz um local de leitura, longe dos adultos e suas idéias sobre o mundo. O meu pai tinha a sua biblioteca, e, estranhamente, sempre pudemos ler o que quiséssemos dela, sem restrições. Vários daqueles livros estão aqui ao meu redor hoje.

Vai ser a mesma coisa subir para a árvore com um Ipad? E de onde virá a graça de caminhar pelas filas de prateleiras da Livraria da Vila, da Livraria Cultura, da Barnes and Nobles; dos sebos e seus ácaros? Onde ficarão as enormes, imponentes, belíssimas bibliotecas das grandes cidades, para mim, muito mais templos e muito mais belos do que qualquer catedral que vocês conheçam, a São Pedro incluída, apesar da Pietá na entrada?

Eu sinceramente acho que não chorei a perda das muitas coisas e instituições do século 20 com as quais eu cresci, vocês cresceram.

Mas dessa vez, está sendo duro demais.

Não sei se isso acontece porque a minha editora acaba de me enviar os exemplares do meu mais recente livro. Acaba de chegar, novinho em folha, lindo, aos olhos do pai, claro, e já vai para as prateleiras das livrarias e ficar nelas enquanto elas existirem.

Depois disso, sei lá, sabemos lá todos. Um Ipad vai ser algo novo, revolucionário, frio feito uma geleira na Islândia. As novas gerações pós-Ipad talvez nunca saibam o que foi uma estante cheia de livros, ao alcance da nossa mão. Já eu, não sei vocês, nunca vou querer viver sem isso. Eu gosto do futuro, vivo para ele. Mas, a viver sem as minhas estantes, prefiro viver sem um fígado. E o problema, em se falando de fígados, é que temos somente um, e mais nada. E então eu, sem livros e estantes, prefiro o nada.’

 

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