Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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Terra Magazine

15/04/2008 na edição 481

CHINA
Paulo Scott

As marcas do Protesto S/A, 14/4

‘Na página do Week in Review do New York Times tem um slide show bastante sugestivo e que vem ao encontro de uma sensação que me acompanha desde o início de março, quando vi uma imagem publicada aqui no Terra mesmo.

O título do slide show é ‘Anéis da discordância (ou do protesto)’ e mostra, por meio de oito fotos obtidas em partes diferentes do mundo, como o símbolo olímpico dos cinco anéis interligados se tornou em pouquíssimos dias a referência gráfica de protesto mais popular da atualidade. Aparecem sangrando, ou são substituídos por caveiras, ou forcas, ou algemas, ou buracos de bala, ou engrenagens das esteiras de um tanque de guerra, por aí vai.

O principal destinatário disso tudo – há outros – é o governo chinês, que está pela primeira vez neste século (e talvez desde o anterior) verdadeiramente diante de uma oportunidade única de revelar as idiossincrasias de uma sociedade que para o ocidente permanece uma incógnita.

O mundo institucionalizado (especialmente os agentes econômicos) precisa respeitar a China, não é uma questão de conveniência, é uma questão de temor e necessidade. Mas isso não se aplica exatamente à opinião pública, nem ao modismo da indignação que às vezes produz algum resultado positivo – veja-se o pouco efeito que os protestos contra a permanência dos Estados Unidos no Iraque têm surtido.

Há um muro alto entre nós e a China. Neste começo de ano, fiquei 30 dias na Austrália e uma das coisas mais interessantes que descobri foi uma certa arrogância chinesa com o resto do mundo – para nós não é tão fácil perceber, mas na Austrália há uma proximidade que oportuniza, inclusive pela acessibilidade da língua inglesa, tal percepção. Quero deixar bem claro que arrogância e preconceito todos os países têm, nós brasileiros temos os nossos vários, só que é diferente quando você acompanha um pouco mais de perto.

Penso que é uma façanha da China catalisar tão ampla e intensamente uma indignação como essa pró-Tibete. É uma unanimidade mundial: o governo chinês está errado.

Já que os governos e empresários nada farão de importante, resta saber se depois disso tudo – como se pôde testar outras vezes ao longo da história – os cinco anéis passarão incólumes e permanecerão como símbolo de confraternização ou símbolo de protesto. A resposta, não duvido, estará estampada nas camisetas.

Paulo Scott é autor de Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros (Sulina, 2001), sob o pseudônimo Elrodris. Também publicou o livro de contos Ainda orangotangos (Livros do Mal, 2003; Bertrand Brasil, 2007), Voláteis (Objetiva, 2005), A timidez do monstro (Objetiva, 2006) e Senhor escuridão (Bertrand Brasil, 2006).’

 

ITÁLIA
Carlos Drummond

Berlusconi consolida força da mídia sobre Estado, 14/4

‘A perspectiva de uma nova vitória do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi na Itália significa a consolidação de um fenômeno novo na economia e na política, o da tomada do poder de um estado nacional por uma organização de mídia. Com precedentes na América e na Ásia, esta fórmula de poder é o resultado da concentração sem precedentes dos monopólios da mídia e do seu poder econômico e político.

Quando Berlusconi assumiu o poder pela primeira vez, em 1994, os jornalistas da televisão pública foram convocados a aderir estritamente a uma nova fórmula de apresentação de notícias, denominada sanduíche. Toda matéria política deveria começar obrigatoriamente pela apresentação do ponto de vista do governo. Em seguida, apresentava-se uma ou duas declarações da oposição. Uma tréplica governamental encerrava a matéria. A dosagem dos pontos de vista favorecia sempre o governo. Berlusconi, em pessoa, ocupava 50% do tempo do noticiário e a oposição, 20%.

Tanto no primeiro governo Berlusconi como no segundo, em 2001, ficou claro para vários analistas que a motivação do voto não era tanto a posição de classe ou a opção religiosa, mas a mensagem televisiva mais constante. As pessoas que assistiam aos canais da Mediaset inclinavam-se muito mais a votar em Berlusconi, o seu proprietário. As que assistiam à rede estatal RAI tendiam a votar em outro partido. Quanto mais horas diárias de exposição à televisão, maior a probabilidade de votar em Berlusconi, concluiu Alexander Stille, da Universidade de Columbia, em estudo sobre o fenômeno Berlusconi.

O poder do monopólio da mídia sobre a política é imensurável e inclui a liberdade de manipulação. Um dos exemplos mais conhecidos é o da mixagem da fala de Berlusconi nas Nações Unidas, diante de um auditório vazio, com a imagem do auditório cheio em uma tarde de discurso do ex-secretário-geral Kofi Annan, para criar a impressão de que o italiano havia sido entusiasticamente aplaudido. Na verdade, Berlusconi falou para as cadeiras. Outro é a apresentação da economia italiana como um reduto de prosperidade quando o país enfrentava anos de recessão e crescimento próximo de zero.

A estratégia de Berlusconi recai principalmente sobre duas áreas: controle da informação e neutralização do poder judiciário, que o acusa de ter cometido diversos crimes. Uma outra característica é combinar o seu controle de centenas de parlamentares e milhares de posições-chave na burocracia do estado ‘usando o seu vasto poder de mídia para manufaturar pseudo-escândalos’, afirma Stille.

Carlos Drummond é jornalista. Coordena o Curso de Jornalismo da Facamp.’

 

ISABELLA NARDONI
Rizzatto Nunes

Desrespeitos à Constituição no caso Isabella, 14/4

‘O trágico crime de menina Isabella que, de fato, chocou a todos, tem sido explorado pela mídia, especialmente a tevê não só como um evento terrível, mas como um espetáculo. Diariamente, em vários horários é possível assistir nos canais comentaristas tratando do assunto. E como não há muito a ser falado, fica-se repetindo a mesma tecla insistentemente.

O vídeo que mostra a família indo a um supermercado horas antes do delito, foi passado centenas de vezes! Nos tempos modernos de mídia televisiva, alguns crimes acabam sendo tratados como verdadeiros produtos de massa e, mais uma vez, o caso atual não escapou do modelo. Será a busca pela audiência de que tanto se fala? Tudo indica que sim, o que é uma pena.

Há sim questões de relevo social e público que exigem dedicação dos meios de comunicação, mas há aqueles dispensáveis quando não abusivos. Fazer, por exemplo, imagens da missa de sétimo dia de uma vítima de um crime hediondo não tem nenhum relevo jornalístico e invade a esfera de intimidade dos familiares, num momento de profunda dor e tormenta. O tempo de exposição na tevê e a falta de preocupação com os horários também é preocupante porque, especialmente em crimes como esse, as crianças expostas ao noticiário podem sofrer todo tipo de abalo psíquico e emocional.

De todo modo, comento a questão do ponto de vista jurídico para que se possam fazer algumas reflexões.

A Constituição Federal (CF) assegura o direito de informação, que pode ser contemplado em três espécies: a) o direito de informar; b) o direito de se informar; c) o direito de ser informado.

O direito de informar

É uma prerrogativa constitucional (uma permissão) concedida. A lei maior é clara em dizer que, dentro dos limites de seu próprio texto, a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição. (art. 220). A CF garante também a liberdade de expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença (Art. 5º, IX).

Esses dispositivos, todavia, não são absolutos, uma vez que o direito de informar encontra limites no próprio texto constitucional, tal como o que assegura a inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem das pessoas (art.5º, X).

Anoto também que, como decorrência do direito de informar, a norma fundamental deixou garantido o direito da informação jornalística, e já nesse aspecto até mesmo declarou certos limites ao dispor que ‘nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV’ . (art. 220, § 1º)

Portanto, há limites ao direito de informação em geral e à informação jornalística em particular. Todavia, é preciso compreender como e em que hipóteses esses limites funcionam. (Recorrerei aqui a minha tese a respeito da informação jornalística e do interesse público que a norma envolve, mas o farei dentro do pequeno espaço que disponho. Quem tiver interesse na exposição completa pode consultar meus comentários aos princípios constitucionais desenvolvidos no meu livro Comentários ao Código de Defesa do Consumidor, SP:Saraiva).

O direito de (oferecer) informação jornalística é, com efeito, simultaneamente um direito de receber informação jornalística. É o interesse público que está em jogo. Como o do direito de informar aparece como uma prerrogativa (permissão), tem-se uma espécie de paradoxo: permissão dos dois lados. O direito de informar tem relação com o direito de ser informado. Dois direitos, nenhum dever. O ciclo normativo mandar-obedecer não se completa.

Todavia, é exatamente esse outro direito de ser informado que vai permitir a construção da teoria capaz de fazer com que, também, os limites estabelecidos, por exemplo, no inciso X do art. 5º acima citado, não sejam absolutos. Veja.

Como há direito de se informar, há interesse público e a compreensão dessa relação pode ser feita a partir do conceito de papel social. Dessa forma, digo que, quando o interesse público o determinar (isto é, quando existir o direito de informar), pode a informação jornalística ser dada sempre que a pessoa alvo da informação esteja atuando num papel social público.

Esse papel social público, no qual os indivíduos estão investidos não gozam da garantia constitucional da inviolabilidade em termos de imagem (pública), e, muito pelo contrário, em vez de ter qualquer garantia legal, a pessoa pública tem deveres bastante amplos. Seu campo privado e íntimo é bastante reduzido (enquanto ela está no papel social público).

O mesmo ocorrerá com todas as pessoas (físicas ou jurídicas) que, mesmo não estando investidas numa função pública, agem de alguma maneira no espaço social público. Por exemplo, um anúncio publicitário feito por uma empresa comercial. Como o anúncio tem caráter eminentemente público, atingindo difusamente toda a coletividade, a empresa comercial que o faz não goza das garantias do inciso X do art. 5º, no que respeita à sua imagem. O mesmo se dá quando ocorre um crime bárbaro ou quando um criminoso como, por exemplo um homicida ou estuprador, está solto e sua imagem é divulgada. O interesse público, no caso, se sobrepõe ao direito de imagem e, portanto, a foto do criminoso pode e deve ser divulgada.

Não nos esqueçamos, todavia, que mesmo as pessoas públicas têm vida privada e intimidade. Nesses casos a garantia constitucional é evidente. O horizonte do direito de informar termina assim que a ação do papel social público termina e inicia a do privado.

O direito de se informar

O direito de se informar é uma prerrogativa concedida às pessoas. Decorre do fato da existência da informação. Mas esse direito está limitado pelo sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional. (art. 5º, XIV) e pelas demais garantias constitucionais.

Assim, pode-se dizer que é possível exigir a informação de quem a detém, desde que sejam respeitadas a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pes¬soas.

E quanto ao sigilo profissional, dois aspectos devem ser abordados:

a) de um lado, a efetiva garantia do sigilo nos casos em que profissionalmente ela seja necessária ou signifique a garantia de outros direitos. Por exemplo, no caso do sigilo de fonte do jornalista, ela é necessária; na hipótese do psicanalista e seu cliente, ela é necessária e representa também a garantia do direito à intimidade;

b) de outro lado, o sigilo da fonte não pode significar o acobertamento de violações a garantias constitucionais, especialmente aquelas entendidas como princípios fundamentais ou supranormas, tais como a garantia do direito à vida e à dignidade da pessoa humana.

Dizendo em outros termos, ainda que o sigilo profissional esteja previsto como garantia, é necessário compreender sua correlação com as demais garantias constitucionais.

Além disso tudo, é preciso deixar claro que o sigilo profissional, além de sofrer limites do próprio texto constitucional, só é válido quando estritamente necessário ao exercício da profissão. Não é qualquer informação, mas aquela sem a qual a profissão não poderia ser exercida.

O direito de ser informado

No âmbito constitucional o direito de ser informado é menos amplo do que no sistema infraconstitucional de defesa do consumidor (Tema já por mim abordado nesta coluna mais de uma vez). O direito de ser informado nasce, sempre, do dever que alguém tem de informar.

Os órgãos públicos têm não só a obrigação de prestar informações como também a de praticar seus atos de forma transparente, atendendo ao princípio da publicidade (art. 5º, XXXIII e art. 37, ¿caput¿).

A exceção fica por conta das hipóteses em que o sigilo seja necessário para o resguardo da segurança da sociedade e do Estado, como acontece nos casos em que a informação possa causar pânico.

Dessa maneira, no sistema constitucional, o dever de informar – donde decorre o direito de ser informado – está dirigido aos órgãos públicos. Além disso, como a informação está ligada ao princípio da moralidade, é de extrair daí o conteúdo ético necessário que deve pautar a informação fornecida. E ele é o valor ético fundamental da verdade.

Jornalismo e interesse público

Eis, pois, minha contribuição para o debate a respeito do direito de informação jornalística que envolve o interesse público e a possibilidade de se entender os limites em que esse direito pode e deve ser exercido. A construção de uma sociedade sadia, educada e bem informada passa pela ação daqueles que tem responsabilidade de colaborar na formação do público, seus interesses, seus medos, suas esperanças, suas alegrias e suas tragédias.

Rizzatto Nunes é mestre e doutor em Filosofia do Direito e livre-docente em Direito do Consumidor pela PUC/SP. É desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo. Autor de diversos livros, lançou recentemente o ‘Bê-a-bá do Consumidor’ (Editora Método). Coordena um site voltado ao Direito do Consumidor e à Defesa da Cidadania, no qual tem seu blog: www.beabadoconsumidor.com.br’

 

Claudio Leal

Albergaria: ‘Caso Isabella virou novela doentia’, 11/4

‘A morte de Isabella Nardoni, 5 anos, deu início a uma novela midiática à procura de desfecho. Em 29 de março, a menina morreu após uma queda da janela do apartamento do pai, Alexandre, na Zona Norte de São Paulo. A polícia investiga a autoria do crime e tem como principais suspeitos o pai e a madrasta de Isabella, Anna Carolina.

Há indícios de que ela tenha sido assassinada. Esse é o enredo central. O resto, segundo o antropólogo Roberto Albergaria, é a construção de uma novela ‘trágica’ e ‘doentia’.

Doutor em Antropologia pela Universidade de Paris VII e professor da Universidade Federal da Bahia, Albergaria critica os exageros da cobertura midiática e aponta uma abordagem ‘classista’ e ‘racialista’ do crime. ‘Porque é uma menina de classe média, bonitinha, e aí vem a estética’, afirma.

– Há um lado doentio, e quem alimenta essa doença, que se tornou uma epidemia como a dengue, é a própria mídia. Porque há um viés ‘comunicacionista’ ao se alimentar de forma mórbida uma história trágica. E transformar essa história trágica numa novela, no mesmo estilo das novelas das grandes televisões: mexicana.

Reviravoltas, vídeos da menina, sangue nas camisas, testemunhas surpreendentes (o garçom do bar em que a tia de Isabella estava no dia da morte), os parentes, os vizinhos (personagens fatais na obra de Nelson Rodrigues), compõem o painel da novela. Para Albergaria, o crime virou ‘metade da pauta da mídia durante semanas e semanas’.

– O caso da menina veio a calhar para a mídia porque junta todas essas determinações: o classismo, o racialismo, o infantilismo… E, sobretudo, o ‘comunicacionismo’, uma das coisas mais doentias que existe hoje. É você explorar algumas misérias, seletivamente, como forma de emocionar as multidões.

O antropólogo enxerga outra distorção: ajudada pelo mistério, a novela em que se transformou o caso Isabella vale mais do que os fatos, e tira do debate público temas mais relevantes.

– A mídia é o grande filtro. O espaço ocupado por essa menina é o espaço retirado de coisas muito mais importantes para a vida coletiva. Mas isso é um fato emocionante. A emoção vale mais do que a razão. A novela, o enredo, vale mais do que o fato – analisa Albergaria.

A seguir, a íntegra da entrevista.

Terra Magazine – Como o senhor analisa a cobertura do caso Isabella na mídia? Os vizinhos, a tia, a roupa, o sangue, os vídeos… Há um lado doentio nesse interesse minimalista?

Roberto Albergaria – Há, sim. Há um lado doentio, e quem alimenta essa doença, que se tornou uma epidemia como a dengue, é a própria mídia. Porque há um viés ‘comunicacionista’ ao se alimentar de forma mórbida uma história trágica. E transformar essa história trágica numa novela, no mesmo estilo das novelas das grandes televisões: mexicana. É você transformar um fato, evidentemente grave, em metade da pauta da mídia durante semanas e semanas. Até que apareça outro. Não é uma questão puramente brasileira. É como aconteceu na Europa com o caso Madeleine. Por que essa menina foi escolhida como a bola da vez, a coitadinha da vez? Primeiro, porque já havia o modelo europeu. O caso Madeleine é alimentado por jornais sensacionalistas ingleses. Houve até recompensas. Segundo, ela é, digamos assim, ‘a vítima ideal’. Porque há um viés classista.

Por que classista?

Porque é uma menina de classe média, bonitinha, e aí vem a estética. Se ela fosse muito feia, se ela fosse um pequeno ‘canhão’, não daria. As revistas semanais escolheram as fotos mais fotogênicas pra ressaltar isso.

E não é um caso, aparentemente, para um Sherlock Holmes…

É isso. Não existe mais muita diferença entre o jornalismo e a ficção, entre a novela e o jornal das 20h. O tratamento dado a um fato verdadeiro é o mesmo dado a um fato novelesco. Vão fazer render esta novela com todos os ingredientes possíveis. Aí entra o que eu chamei de viés classista. Ela é uma menina de classe média, branquinha. Na maioria dos Estados brasileiros, sobretudo aqui na Bahia, onde você tem uma maioria negro-mestiça, uma menina branca vale mais do que uma menina negra. Do ponto de vista dos Estados nordestinos, há esse lado racialista. A mídia dá um centímetro para as meninas negras que morrem.

Há muitas mortes de crianças na epidemia de dengue no Rio.

São geralmente crianças pobres. A mídia pega um caso de pobre e dois de ricos. Mas, no Rio de Janeiro, não há o elemento do mistério. Há a política. O que as pessoas querem é o filtro do mistério, da novela, da descoberta… Pra você entender esse caso, há um concurso de causas e circunstâncias. É um infanticídio. Na sociedade ocidental, o infanticídio é um pecado, uma falta muito forte. A possibilidade de ela ter sido morta por um dos pais é também um elemento de grande emoção para o público telespectador caseiro. Hoje se dá muito valor às crianças. Antigamente elas não eram importantes.

Quando é que nasce a valorização da infância?

Nasce no século XVIII, com o mundo burguês. A criança se tornou o menino-rei, o núcleo simbólico da família nuclear burguesa. Antes, nas famílias aristocráticas, nas famílias pobres, você tinha unidades familiares com vários filhos. A perda de um filho era a perda de um único filho, não fazia tanta falta quanto iria fazer no mundo burguês, que tem no filho o futuro daquela unidade familiar. Além disso, eram poucos os filhos. Agora, há o filho único. Então, há esse viés infantilista, ou juvenicista, que tem a ver com a própria cultura contemporânea. O caso da menina veio a calhar para a mídia porque junta todas essas determinações: o classismo, o racialismo, o infantilismo – e o medo, o assombro, a tragédia do infanticídio. E, sobretudo, o ‘comunicacionismo’, uma das coisas mais doentias que existe hoje. É você explorar algumas misérias, seletivamente, como forma de emocionar as multidões.

Qual é o grau de envolvimento dos jornalistas com essas tragédias?

O jornalismo passa a se envolver, no Brasil ainda pouco. Os jornais sensacionalistas ingleses chegaram a oferecer recompensas milionárias no caso Madeleine. É como se o jornalismo fosse parte dessa novela, parte integrante das investigações, das denúncias. Sobretudo na definição do que é importante para o telespectador, o ouvinte ou o leitor, ter como elemento de reflexão. A mídia é o grande filtro. O espaço ocupado por essa menina é o espaço retirado de coisas muito mais importantes para a vida coletiva. Mas isso é um fato emocionante. A emoção vale mais do que a razão. A novela, o enredo, vale mais do que o fato.’

 

OUVIDOR
Ricardo Kauffman

Na surdina, Folha esfria ombudsman, 11/4

‘A Folha de S.Paulo deu com a porta na cara dos seus leitores. Semana passada bloqueou o acesso à crítica diária do ombudsman, após 8 anos de disponibilidade no sítio do jornal.

Ao que tudo indica, de maneira definitiva. Digo isto sem certeza porque a publicação não se deu ao trabalho até agora de dar uma digna satisfação ao seu público a respeito da mudança.

Quem o fez foi Mário Magalhães, no domingo passado, em seu artigo de despedida na versão impressa, já na condição de ex-ombudsman da casa.

Ele recusou o convite para renovar o mandato por mais um ano exatamente porque o jornal impôs a obstrução da crítica diária aos leitores. Atividade que corresponde a 80% do produto do trabalho do ouvidor, segundo o próprio.

Quem hoje acessa a página do ombudsman da Folha não encontra nenhuma informação sobre estas alterações. Pelo contrário, se depara com texto segundo o qual ‘a atualização (da crítica diária) é feita no meio da tarde’. No entanto, não há novos itens na lista desde o último dia 3 de abril. Descuido inexplicável.

A Folha de S.Paulo é um jornal que se caracteriza pela defesa da transparência. Este é um valor que a publicação expressa com ênfase e de várias maneiras.

Seja na sua apresentação institucional: ‘A Folha procura manter uma atitude de permanente transparência diante dos seus leitores’, diz o Manual de Redação. Seja na sua comunicação publicitária: ‘Folha, um jornal com o rabo preso com o leitor’, diz um famoso slogan.

E seja na forma rigorosa com que exige, na sua cobertura, esta qualidade – a transparência – de órgãos públicos e empresas na relação com cidadãos e consumidores, respectivamente.

A repentina restrição à crítica diária do ombudsman é forte contradição do jornal e representa importante retrocesso em termos de clareza de procedimentos, como bem registra Mário Magalhães em seu derradeiro texto:

‘(…) A restrição imposta configura regressão na transparência. O projeto editorial da Folha diagnostica um jornalismo cada vez mais crítico e mais criticado’, diz.

Ainda mais opaco e contraditório é o fato de a Folha não vir a público justificar a medida. Segundo o ex-ouvidor, o motivo alegado pelo jornal para o bloqueio seria o crescente uso estratégico da crítica diária pela concorrência.

Trata-se de um ponto de vista compreensível, aceitável como argumentação. Desde que seja publicamente assumido pelo jornal. Com ônus e bônus implicantes. Se a Folha admiti-lo, poderá continuar a dizer que tem ‘o rabo preso com o leitor’?

Cortar um produto fornecido ao leitor em detrimento de interesses comerciais e industriais mostra que o público ficou para segundo plano. Será este o motivo da demora da Folha em explicar a novidade? O silêncio dá margem a ruídos.

Nestas circunstâncias é legítimo considerar – a Folha e seus colunistas o fariam – que o corte do acesso à crítica diária ocorreu numa semana especialmente conturbada.

Aconteceu dias depois de o ministro Franklin Martins citar o ombudsman da Folha ao afirmar que o senador Álvaro Dias e o jornal paulista deveriam informar publicamente quem vazou o dossiê sobre os dados do governo FHC.

É possível que muito em breve o jornal se pronuncie sobre o esfriamento do papel do seu ombudsman. Afinal, um novo titular deve assumir a coluna de domingo. Mesmo se a explicação aparecer, virá com atraso.

Não há princípio de comunicação que justifique o silêncio dos últimos dias. A Folha é um dos poucos – foi o pioneiro – veículos brasileiros a manter um ombudsman.

O acesso livre à crítica diária foi um forte instrumento de reflexão e acompanhamento da cobertura jornalística para o público em geral.

Algo de extrema validade para todo brasileiro interessado em fazer uma leitura crítica sobre fatos e factóides, e do trato deles. Ainda mais em meio ao aumento brutal de canais de informação e do conseqüente crescimento de possibilidades de manipulação do noticiário, com que lidamos atualmente.

O fato de um veículo do tamanho da Folha escalar um jornalista com independência para fazer este tipo de análise aberta foi um marco do respeito da imprensa com seu público.

De coragem de quem não tem o que esconder. E de compromisso com a busca de equilíbrio e interpretação justa dos fatos, mesmo que com limitações naturais. Boa parte de tudo isso agora a Folha joga por terra. De forma desavisada e, portanto, até aqui desrespeitosa com o leitor.

Tal atitude sinaliza o quanto a guerra política, midiática e de poder está quente no meio em que circula informação no universo virtual dos computadores.

Esta se acelera na mesma velocidade com que a revolução digital avança. Deixando para trás e só para o discurso o zelo pela liberdade e transparência.

Até que a Folha demonstre o contrário, Mário Magalhães caiu por exagerar na sua competência de ombudsman.

Ricardo Kauffman é jornalista e roteirista.’

 

TELEJORNAL
Diego Salmen

Morganti: falta ‘irreverência’ ao novo Aqui Agora, 8/4

‘Silvio Santos já avisou: se a audiência do Aqui Agora não emplacar, o programa pode ser extinto. Desde que entrou no ar, no início de março, a nova versão do jornalístico não passou da média de 5 pontos no Ibope; agora, o dono do SBT quer uma média de 8 pontos ao mês.

Enquanto esteve no ar, entre maio de 1991 e dezembro 1997, a versão original revolucionou o modo de fazer telejornalismo, consagrando-se com a exibição abundante de reportagens policiais e quadros inusitados. Chegou, inclusive, a superar a Rede Globo na audiência em algumas ocasiões.

Gil Gomes, com sua voz grave, fazia as vezes de repórter policial na época dourada do programa. Celso Russomano, ‘estando bom para ambas as partes’, defendia os direitos do consumidor. A jornalista Magdalena Bonfiglioli chorava no meio das reportagens e Maguila, o boxeador, era o comentarista de…economia.

Enquanto isso, o correspondente internacional Luis Lopes Corrêa encerrava seus boletins com o bordão: Here Now. Do estúdio, os apresentadores Cristina Rocha e Ivo Morganti ditavam o ritmo do policialesco.

Terra Magazine conversou com Ivo Morganti, veterano do Aqui Agora, para saber sua opinião sobre a mais nova cria de Silvio Santos. Para ele, a reedição peca pela cópia de outros padrões. ‘Você não pode ter uma matéria no tempo da Globo, de um minuto e meio’, critica. ‘Se não der tempo para o repórter fazer o estilo Aqui Agora, você não consegue fazer o programa’.

Atualmente Ivo Morganti apresenta um jornal diário na Rádio Capital AM, em São Paulo. Logo depois de sair do Aqui Agora, Morganti foi eleito vereador da capital pelo PMDB. Ele foi um dos parlamentares que se ausentaram do plenário na votação do pedido de impeachment do então prefeito Celso Pitta, em 2000.

‘Sabe o que acontece? A pessoa liga no SBT e não vê minha cara na bancada sentado com a Cristina Rocha, não acha que é o Aqui Agora. É uma questão de identificação’, opina.

‘O conceito do Aqui Agora não voltou’

Mas afinal: o que falta para o Aqui Agora ressurgir das cinzas?

‘Tem que ser mais jornalístico, falta informação. Tá fora do que se propõe’, argumenta. ‘O formato tá errado. A escolha dos apresentadores foi errada. O tempo das matérias tá errado’, avalia o ex-apresentador. ‘Falta um pouco de irreverência, mas irreverência no bom sentido; como, por exemplo, o Maguila comentando economia. Essa é a diferença do negócio’.

‘Falta a câmera nervosa’, afirma, em referência ao trabalho de câmera da versão pioneira, popularizado nas reportagens policiais onde os cinegrafistas corriam desesperadamente atrás dos repórteres. Nessas ocasiões, era comum ouvir falas do tipo ‘cuidado com o tiro!’ ou ‘meu Deus, meu Deus, meu Deus!’.

‘Você pode entrevistar até o Lula com essa câmera, entendeu? Ao invés de você entrevistar o Lula sentado, você sobe com ela a rampa do Palácio’, explica. ‘Era o grande charme do Aqui Agora’.

O retorno?

Morganti foi sondado pelo SBT para ser um dos apresentadores, mas as negociações não avançaram. ‘A gente teve uma conversa, mas acabamos não acertando. Foi uma única conversa’, diz. Esse pode ter sido um ótimo desfecho, levando em conta a integridade física do apresentador: recentemente, o repórter Herbert de Souza foi demitido depois de esmurrar um dos produtores do programa.

Ao ser questionado sobre as chances do Aqui Agora ficar no ar, Morganti pondera: ‘se o Silvio se contentar com 5 pontos de audiência, ele vai manter’. Ele vai se contentar? ‘Eu acho que não?’, resigna-se. ‘Se ele se contentar, ele tem duas coisas a fazer: ou ele muda o nome ou, pelo que eu conheço do Silvio, acaba desistindo do projeto’.’

 

MISS BRASIL
Márcio Alemão

O Botox venceu?, 14/4

‘A Patricia Maldonado disse que estava impressionadíssima. Como é que as misses conseguiam enfrentar toda aquela tensão e como conseguiam desfilar sem tropeçar?

Eu, se fosse uma miss, processaria a Patricia.

A miss Rio Grande do Norte, em visita ao Museu do Ipiranga, ficou encantada com os ‘detalhes’. ‘O museu é todo detalhado. Onde você olha, tem um detalhe’.

E também foi ela que se disse impressionada com a ‘agilidade’ das pessoas em São Paulo.

O Olodum acompanhou o desfile de trajes típicos. Senti-me em um baile a fantasia em um dia de chuva em um resort do nordeste. Vale dizer: tão entediante e aborrecido quanto isso. O bloco parecia que jamais terminaria.

Em outros tempos teria sido bem mais breve. Ocorre, todavia, que agora descobriram um jeitinho de fazer uma dinheirinho. O telespectador pôde mandar torpedos e ligar dando seu voto. A ligação custava R$0,31 mais impostos.

E a miss Distrito Federal, que foi obrigada a carregar uma saia catedral de Brasília, venceu essa parte do concurso.

Cenário, direção, edição e apresentação, como sempre, ruins, apesar de estarem melhor que o ano passado. E se houve uma melhora, devemos agradecer à Miss Brasil 07 Natalia Guimarães e à Globo. Natalia tirou o título do esquecimento em que se encontrava. A Globo também apostou na beleza da moça; o que ajudou. O que atrapalhou: na passarela, muitas Natalias. O que atrapalhou no show: iluminação e maquiagem. No big close, nenhuma salvou-se.

E o big close revelou que as moças, apesar de moças, já estão mandando ver no Botox ou semelhantes produtos que deixam todas com bochechas altas. Espantei-me com essa parte do corpo da Miss Rio Grande do Sul, que acabou sendo eleita a nova Miss Brasil. Não seria totalmente justo dizer que foi a vitória do Botox. Vai saber. Vai que o rosto dela tem aquele desenho desde sempre. Minha opinião bem sincera? Alí tem coisa.

A temida entrevista mostrou que todas as moças estão preparadíssimas para responder à, pelo menos, uma pergunta simples na vida. A temida entrevista deveria ser anunciada com menos ênfase. Da mesma forma, excessivas foram as vezes que os apresentadores fizeram questão de dizer que ‘vida de miss não fácil’. E que a emoção estava aumentando, fui informado a cada dois minutos.

Durante a entrevista, a que mais ‘falou’ foi a deficiente auditiva Miss Ceará, que acabou a contenda em segundo lugar. Na minha opinião, não merecido. Senti uma ruim sensação de que se estava premiando a deficiência. Natalia Guimarães passou a coroa para Natalia Anderle.

Natalia é realmente linda. A Guimarães. Vou sentir falta dela nesse cargo.

Márcio Alemão é publicitário, roteirista, colunista de gastronomia da revista Carta Capital, síndico de seu prédio, pai, filho e esposo exemplar.’

 

 

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