Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 2 E 3/2

Terra Magazine

04/02/2008 na edição 471

TROFÉU
Ricardo Kauffman

Kaká e a vingança dos nerds, 1/2

‘A partir de hoje a sede da Igreja Renascer em Cristo, em São Paulo, expõe ao público o troféu de Melhor Jogador do Mundo de 2007, concedido pela Fifa, entidade máxima do futebol. A taça foi conquistada e emprestada pelo seu fiel mais famoso, o atacante do Milan, Kaká.

Caso a informação se confirme, a esta altura imagens do troféu e da visitação dos aficcionados devem ocupar lugar significativo nos principais portais da internet. O mesmo deve acontecer no decorrer do dia na TV e no rádio e, amanhã, nos jornais, de certo.

Kaká está no topo do mundo. Difícil imaginar celebridade maior do que a alcançada pelo jogador de futebol visto como melhor do mundo na atualidade, de maneira unânime. Ainda mais quando o gajo é bem fotogênico.

Estados Unidos fora, o futebol é a maior espetáculo da Terra. Por este ângulo, na atual era do instantâneo e do efêmero, Kaká está a ocupar o mandato de rei.

Desconcertante notar que este rei do futebol não é o que se esperaria dele, pelo menos considerando-se boa parte dos torcedores tradicionais do esporte no Brasil. Kaká foge completamente do estereótipo do craque da bola.

Estamos acostumados a Garrinchas, Maradonas, Edmundos e Romários. Homens cujas trajetórias descrevem a parábola social de Cinderela, versão masculina.

Menino pobre, viril e destemido que ascende ao topo do mundo sem charme ou etiqueta. Mas com genialidade cinestésica e atitude de campeão de encher os olhos. Junto com altas doses de irreverência.

A vida pessoal deste tipo de personagem é cercada de lances quentes (já um tanto óbvios), com muitas noitadas, ex-mulheres, amigos famosos e outros barra-pesada.

Kaká contraria, e talvez até ofende, quem espera dele este tipo de estirpe. Dos maiores craques da história, provavelmente seja o mais careta de todos.

Quando surgiu, parecia um riquinho que logo sairia chorando da primeira dividida com um zagueiro. É bem nascido e tem cara de CDF. É crente. Diz ter casado virgem. Quer ser pastor.

Dá-se bem com todos os colegas. Não costuma sair na porrada com ninguém. Atrai certo tipo de tietagem infanto-juvenil que mais combina com os fãs de Sandy & Júnior – que, aliás, freqüentam o iPod do rapaz.

Imagino que o público que se identificou com os personagens de ‘A vingança dos nerds’ – comédia pop dos anos 80, cujos heróis são franzinos bons universitários que se rebelam contra a vilania dos colegas bonitos e atléticos – deve idolatrá-lo. Mas este é um contingente menos típico na audiência do futebol.

Muito irritam os fatos no que diz respeito ao contexto das quatro linhas. De franzino, o anti-herói se transformou nos últimos tempos em um tanque. Sua estrutura privilegiada (desenvolvida por treinamento de ponta e disciplina incomum) conferiu-lhe um preparo físico invejável, mesmo dentro do esporte de alta performance e força.

E para o desespero dos admiradores dos heróis marginais, Kaká tem apresentado inabalável autoconfiança. Não mostra vestígio de medo nas decisões. Adora vencer os rivais argentinos, tanto pela Seleção Brasileira quanto pelo Milan. Tem sido o contrário de um amarelão.

É mesmo difícil suportar um nerd com tais características. Kaká é um transgressor às avessas.

E também é duro admitir que sua fé – mesmo que submetida ao casal Hernandes, religiosos suspeitos de lavagem de dinheiro, postos na prisão nos Estados Unidos – provavelmente contribui muito para sua firmeza de campeão.

O sucesso de Kaká e a conseqüente mega exposição de suas crenças tem gerado manifestações de incômodo diversas na mídia brasileira.

A começar pelo meu colega de Terra Magazine José Pedro Goulart. Em seu recente texto intitulado ‘I belong to Jesus’ (leia aqui), o colunista questiona: ‘Que direito tem o jogador de usufruir da minha audiência e me tornar alvo do seu messianismo?’

Já a revista CartaCapital de duas semanas atrás traz matéria de capa intitulada: ‘Fé, família e dinheiro’. Por se tratar de uma reportagem – e não de uma coluna opinativa – o texto é um tanto tendencioso, a meu ver.

A matéria dá conta de que o promotor da 1ª Vara Criminal de São Paulo, Marcelo Mendroni (fonte central do texto), enviou, meses atrás, questionamentos a Kaká, na Itália, sobre sua relação com os líderes da Renascer e doações feitas por ele à igreja.

O texto se serve de tom de denúncia, mesmo ao admitir que Kaká, até aqui, seria, no máximo, uma testemunha. E dá grande destaque ao fato de que a sogra do jogador (católica) estaria insatisfeita com a conversão da filha à religião do marido. Tal escopo, um tanto folhetinesco, não parece justificar reportagem de capa.

Há outros sinais de parcialidade. A reportagem não ouviu o seu protagonista, o jogador. E deixou de registrar certo telhado de vidro do promotor que questiona Kaká. O que demonstraria igualdade de tratamento.

Dias antes da publicação de CartaCapital, matéria do repórter da TV Bandeirantes Rodrigo Hidalgo mostrou que Mendroni é alvo de investigação do Conselho Superior do Ministério Público, aberta no final do ano.

O promotor é acusado de não ter comprovado sua freqüência num curso feito em Bolonha (Itália), que durou seis meses. No período ele recebeu salário de R$ 21 mil mensais. A esta e a outras reportagens a respeito, o promotor, até agora, não deu resposta à acusação.

Esta imparcialidade é capaz de gerar o efeito contrário à antipatia ao jogador. E ajudar a engrossar o coro dos que dizem: ‘Kaká gasta ou desperdiça seu dinheiro ganho com talento como quiser; até rasgá-lo ele pode’.

Hoje, dia em que a Renascer deve capitalizar muito com o prestígio do seu grande fiel, o assunto deve voltar à berlinda. Mais gente vai torcer o nariz.

Mas do jeito que Kaká continua a jogar, dificilmente seu prestígio – e apoio ao suspeito casal de religiosos – será abalado. Como diria o ex-treinador Mário Zagallo, teremos que engoli-lo.

E viva o rei dos nerds!’

 

 

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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