Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 9 E 10/2

Terra Magazine

12/02/2008 na edição 472

TELEVISÃO
José Pedro Goulart

Bial e o Big Brother, 5/2

‘´Em férias, recupero um texto que escrevi no jornal Zero Hora numa outra edição do Big Brother Brasil, mas que me parece oportuno, agora que ele está no ar novamente. À época, o sorridente apresentador do BBB, Pedro Bial, havia exposto (também em Zero Hora) suas razões quanto ao sucesso do reality show.

E a razão mais importante, segundo ele, é que ´o formato do programa não prevê qualquer tipo de controle externo´; e citou, como exemplo que confirmava a própria tese, um dito de uma das participantes: ´Que autor é este que os personagens controlam a novela?´

O apresentador também comemorou o que chamou de ´clamor ético´, quando observou que o público costuma excluir da casa os participantes intolerantes e autoritários. Ainda no texto em ZH, Bial mencionou a audiência, que se amplia cada vez mais para outros públicos – infantis e infanto-juvenis – e finalizou procurando diminuir o impacto do Big Brother Brasil: ´É apenas um programa de televisão´.

Tudo certo, porém a ´falta de controle` sobre o programa é apenas aparente. Os participantes são escolhidos entre milhares de candidatos, mas essa é uma escolha direcionada, pressupondo certos encadeamentos, já que eles foram eleitos segundo características físicas e emocionais preestabelecidas. Lá estão a boazinha, a gostosinha, o bonitão, a carente, os vilões e, em minoria, os representantes das minorias. Além disso, o programa, aquele que vai ao ar na TV aberta, é feito na sala de edição. E a montagem torna tudo folhetinesco, nela reside as razões do interesse do público; e ainda com um condimento especial de os personagens serem ´reais´. Mas nem isso é completamente verdadeiro: ao se saberem filmados todos mudam a conduta. O sucesso do programa, portanto, deve-se ao fato de ele ser, mesmo que travestido de reality show, uma novela. Mais uma!

Num país cujo horário nobre é quase inteiramente ocupado por novelas isso não é novidade. A novela brasileira é reconhecidamente bem feita. Quando em excesso, porém, acaba tomando para si algo de orientação, de educação de uma parcela enorme da população. E aí é que mora o perigo. Sendo a novela uma peça superficial de dramaturgia, em que personagens previsíveis vivem conflitos maniqueístas, tudo acaba numa sopa rala que engana, mas não mata a fome.

É ainda de se estranhar que Bial sustente a audiência como fator relevante a favor do programa. Se número de consumidores fosse argumento válido, as companhias de cigarro não estariam diante de tantas restrições. Noutra parte do texto ele diz enxergar uma certa procura ética dos espectadores, quando esses expulsam da casa os concorrentes que se mostram maldosos. Pode ser. Mas me preocupa muito mais, como um exemplo a ser seguido, o fato de que, após semanas de convivência, os participantes que acabaram nutrindo amizade e afeto entre si tenham que se excluir mutuamente no afã de ganhar um prêmio em dinheiro. É um jogo, sabemos, mas é justamente aí que a realidade dá um corte no folhetim.

Por fim, a afirmação de que o BBB é apenas um programa de TV é assaz ingênua. E nem fica bem para um sujeito inteligente como Pedro Bial. É mais ou menos como dizer que a televisão é somente um eletrodoméstico.

José Pedro Goulart é jornalista, cineasta e diretor de filmes publicitários.´’

 

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

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