Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 1 E 2/12

Terra Magazine

04/12/2007 na edição 462


MERCHAN
Márcio Alemão


Em que ano estamos?, 26/11


‘Sobre os espetaculares ‘merchans’ da TV já falei. Quem não se lembra da
sensacional ‘Jaca do Sertão’, boa para acabar com a frieira e com o mau
colesterol, pode reler ‘Acredito em duendes e merchandising’ (leia aqui).


Volto ao assunto para falar de outro assunto. Quem já viu o Gilberto Barros
fazendo merchan? Vale a pena. É uma experiência, diria, quase cultural. Você
volta no tempo. A sensação é de estar ouvindo um programa de rádio na década de
50 ou 60. Gilberto, com sua encantadora voz, lê o texto com preciso
profissionalismo. Todavia, não estamos no rádio e estamos em 2007.


O merchan difere do texto locutado porque tenta sugerir que o apresentador,
de fato, de verdade, viveu ou vive aquela experiência e, de tão boa, a divide
com os caros telespectadores. Recentemente, em seu programa ‘A Grande Chance’,
vejo – ou seria melhor dizer ‘ouço’? – o merchandising do Sal de Frutas ENO.
Diverti-me em uma passagem.


Na passagem em que o locutor – ou deveria dizer apresentador? – informa que
agora o sal de frutas ENO pode ser encontrado no sabor limão. E aí, leitores e
leitoras, ele reforça a mensagem dizendo que agora o sal de frutas tem a
‘modernidade do sabor limão’.


Vendo e aprendendo. Eu também ganho a vida a escrever sobre sabores e nunca,
jamais, soube que o sabor do limão é moderno. Será que alguém pensou na
irritante mania do ‘gelo e limão’?


É provável. Sabores modernos. Essa é muito boa. E o melhor: um sal de frutas,
um produto para combater a acidez estomacal preocupando-se em ser ‘moderno’. Que
coisa espetacular esse nosso mundo contemporâneo. O estômago do camarada
queimando e ele recusando um ordinário antiácido com sabor ‘antigo’.


Ainda mais maluco é falar sobre modernidade em um programa que tem a cara de
um programa de domingo, vespertino, da década de 70. E que fique claro: um
milhão de vezes o anacronismo do ‘A Grande Chance’ às imbecilidades dos canais
vizinhos.


Mas o fato é curioso. Temos alguns programas que parecem estar em horários
errados e décadas erradas. O todo nosso Ronie Von tem um bom programa para
mulheres, vespertino, ainda que tente colocar assuntos masculinos. O Zorra Total
pertence à decada de 80, assim como o rançoso Toma Lá da Cá. E quanto ao líder
de audiência da Record, o Pica-Pau, em que horário deveria estar passsando?


Márcio Alemão é publicitário, roteirista, colunista de gastronomia da revista
Carta Capital, síndico de seu prédio, pai, filho e esposo exemplar.’



IMAGEM
Ricardo Kauffman


Sobel e a mídia que perdoa, 30/11


‘Grandes agências de comunicação corporativa oferecem serviço cujo objetivo é
amenizar o desgaste do cliente na mídia, em momentos de crise. O produto recebe
o nome de ‘gerenciamento de crises’.


Entre outras coisas, trata-se de abafar o noticiário negativo ao cliente, e,
quando a poeira baixar, conquistar espaço positivo na mídia. No Brasil este
serviço atrai pessoas físicas e jurídicas de variados meios.


Companhia aérea que protagonizou grande acidente; cervejeiras acuadas pela
ameaça de restrição à propaganda; e governos constrangidos por tragédias em
obras públicas fazem parte do público-alvo.


As agências deslocam ‘equipe especializada’ para tratar do assunto com os
veículos de comunicação. Um repórter de São Paulo conta que deu de cara com os
mesmos assessores cuidando de abafar acidentes de diferentes responsáveis.


‘Eles são simpáticos, mas sempre tem uma conversa mole para negar
informação’, diz. ‘Organizam coletivas bem-servidas de comida e bebida, em que a
fonte aparece, responde pela metade uma ou duas perguntas, dá uns tapinhas nas
costas e vai embora’, completa.


A cobertura destinada ao rabino Henry Sobel nos últimos meses poderia servir
de ‘case de sucesso’ deste tipo de serviço, caso este tenha sido o caso, ou
não.


Após ser flagrado furtando gravatas nos Estados Unidos, o rabino praticamente
sumiu da mídia tradicional. Intensas movimentações na coletividade judaica
culminaram com a destituição de Sobel do cargo que ocupava na Congregação
Israelita Paulista (CIP), instituição que o trouxe dos EUA para o Brasil em
1975.


Portanto havia notícia, mas não boa cobertura, com exceções principalmente na
internet. À época do flagra, conseguiu-se propagar na imprensa a versão oficial
do fato: o rabino estava sob efeito de fortes medicamentos. Quando chegou ao
Brasil, Sobel foi direto para o Hospital Albert Einstein, divulgaram os jornais.


Eis que oito meses de quase silêncio depois, o rabino ressurge em grande
estilo na grande mídia. Ele é alvo da reportagem principal da mais recente
edição da revista Época, muito bem produzida e fotografada.


A capa da publicação expõe saborosa foto em que Sobel posa com forte olhar
azul, ajeitando sua gravata. ‘Errei, mas não sou ladrão’, diz a manchete.


No editorial, o diretor de redação Helio Gurovitz afirma ao leitor que a
reportagem ‘não absolve nem condena o rabino. Como todo bom texto jornalístico,
seu objetivo é informar’. Um atraente convite à leitura.


Para escrever o texto de nove páginas (extensão rara para o veículo) a
revista convidou Paulo Moreira Leite, ex-diretor de redação de Época.


Na reportagem, o autor diz que acompanhou a rotina social de Sobel durante
três semanas. Astuto e bem escrito, o texto afirma questionar o líder religioso
sobre o episódio das gravatas.


E publica explicações de amigos dele: ‘O que aconteceu em Miami foi a
explosão de uma crise que se manifestava havia tempos’, declara um advogado
próximo.


Segundo a matéria, atualmente Sobel anda pelas ruas de São Paulo recebendo
mensagens de apoio. No Mosteiro de São Bento, ‘muitos fiéis o abraçaram’,
testemunha o repórter.


‘Aqui todos gostam dele¿, disse uma senhora católica que acompanhou a cena’,
completa a reportagem, que lança mão largamente de menções apócrifas.


Época dá amplo espaço à defesa de Sobel, mesmo a afirmações que não param em
pé: ‘Tive um problema de saúde, mas roubar gravatas não faz parte de minha
biografia’. ‘Errei e tenho de assumir o que fiz. Não sou um santo.’


Se Sobel foi vítima do efeito de medicamentos, qual foi seu erro? A pergunta
não foi feita, ou a resposta não foi publicada.


O competente texto de Moreira Leite não deixa de citar pontos desfavoráveis
ao rabino, mas não sem simpatia ao personagem: ‘Está muito calor, rabino. Por
que não tira a gravata?’, provoca um interlocutor, segundo a matéria.


‘Sem mover um músculo da face, Sobel respondeu que se sentia bem assim …
Manteve-se impassível e foi para casa, colarinho fechado, gravata no peito.’ Com
esmero, Moreira Leite elogia Sobel – nem sempre de maneira direta.


Ao final da reportagem, não é possível saber: Por que ele não pagou as
gravatas? A que tipo de efeito químico o rabino atribui o seu comportamento?


Que remédio estava tomando? Qual é a sua doença? O que o teria levado a uma
situação limite? Por que teve de se internar na chegada ao Brasil?


O que diz o laudo do hospital? Por que ele foi parar misteriosamente em
Miami? O que o rabino tem a dizer sobre o seu comportamento à comunidade? O que
a CIP tem a dizer sobre o seu desligamento? Ele foi punido? Por quê?


No lugar destas informações, o texto contém impressões retóricas do autor: ‘É
certo que os amigos podem ter razão sobre os efeitos malignos de uma dose
excessiva de remédios sobre a consciência de uma pessoa’, afirma.


‘E o rabino parece sincero quando diz que estava em situação emocional frágil
e que, na origem de tudo, está um problema de saúde’, completa.


Não tenho para mim que veículos devam pressionar um personagem como Sobel a
se explicar. Seria aceitável que ele permanecesse calado, arcando com ônus e
bônus da posição. Trata-se de decisão e responsabilidade exclusivas dele.


Mas bom jornalismo, como diz o editorial de Época, não absolve e nem condena;
informa. Bem aventurados são aqueles cuja mídia derrama sua clemência.’



******************


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